Comer, rezar, amar

Elizabeth Gilbert


Contracapa:

Na lista dos mais vendidos do New York Times por mais de um ano.
Traduzido em 36 idiomas.

"Se voc tem a coragem de deixar para trs tudo que lhe  familiar e confortvel (pode
ser qualquer coisa, desde a sua casa aos seus antigos ressentimentos) e embarcar numa
jornada em busca da verdade (para dentro ou para fora), e se voc tem mesmo a vontade
de considerar tudo que acontece nessa jornada como uma pista, e se voc aceitar cada um
que encontre no caminho como professor, e se estiver preparada, acima de tudo, para
encarar (e perdoar) algumas realidades bem difceis sobre voc mesma... ento a verdade
no lhe ser negada." - Elizabeth Gilbert

"Estou dando este livro para todas as minhas amigas." - Julia Roberts

"Toda mulher deve l-lo." - Elle Macpherson

"Adorei Comer, Rezar, Amar." - Hillary Clinton

"Nestas memrias de viagem cativantes e fascinantes, a jornalista Liz Gilbert passeia
durante um ano na Itlia, na ndia, e na Indonsia. Nossa sorte  que as lies de vida
dela so genuinamente universais." - Marie Claire EUA

" como se fosse o dirio de sua amiga mais perceptiva e engraada, descrevendo
encontros com curandeiros, ex-viciados e (sim!) homens lindos e gentis." - Glamour

"Gilbert  irreverente, hilria, animada, corajosa, inteligente. Sua odissia espiritual,
sensual e audaciosa traz doses iguais de prazer e iluminao."  Booklist
Abas:

Buscando tempo e espao para descobrir quem era e o que realmente queria, Liz Gilbert
se livrou de tudo, demitiu-se do emprego e partiu para uma viagem de um ano pelo
mundo - sozinha. Comer, Rezar, Amar  a envolvente crnica desse ano.

Seu objetivo era visitar trs lugares onde pudesse examinar um aspecto de sua prpria
natureza. Em Roma, estudou a arte do prazer aprendeu italiano e engordou os 11 quilos
mais felizes de sua vida.

Na ndia se dedicou  arte da devoo e, com a ajuda de uma guru local e de um caubi
texano surpreendente sbio, ela embarcou em quatro meses de contnua explorao
espiritual.

Em Bali, estudou a arte do equilbrio entre o prazer mundano e a transcendncia divina.
Tornou-se discpula de um velho xam, e tambm se apaixonou - por um brasileiro! - da
melhor maneira possvel: inesperadamente.

Comer, rezar, Amar fala sobre o que pode acontecer quando voc assume a
responsabilidade por seu prprio contentamento e pra de tentar viver seguindo os ideais
da sociedade. Certamente ir emocionar qualquer pessoa que se abra para a inesgotvel
necessidade de mudana.

"A jornada de Gilbert  repleta de sonhos msticos, vises e coincidncias fantsticas (...)
Ainda assim, para cada punhado de auto-reflexo que sua clssica jornada new age
demanda, Gilbert apresenta a mesma dose de inteligncia, bom humor e autogozao
(...) Relato irnico e libertador de uma extraordinria viagem, que faz at o mais cnico
dos leitores ousar sonhar um dia encontrar Deus ao meditar no fundo de uma caverna na
ndia, ou talvez ao comer um pedao transcendental de pizza." - Los Angeles Times

Jornalista, contista e romancista. Elizabeth Gilbert escreve para um pblico amplo desde
1993, sempre elogiada pela crtica. Comer, Rezar, Amar foi escolhido pelo New York
Times como um dos cem melhores livros de 2006. A autora vive atualmente em Nova
Jersey.
Para Susan Bowen - que me deu abrigo mesmo a 20 mil quilmetros de distncia.
                            Diga a verdade, diga a verdade, diga a verdade.*
                                                      Sheryl Louise Moller




______________
* Exceto quando estiver tentando solucionar transaes imobilirias balinesas em regime
de urgncia, conforme descrito na Parte 3.
Introduo

ou

Como Funciona Este Livro

ou

A 109 Conta


Quando voc vai  ndia  especialmente aos locais sagrados e aos ashramns, as
comunidades que promovem a evoluo espiritual -, v vrias pessoas usando contas em
volta do pescoo. Tambm v vrias fotografias antigas de iogues nus, esquelticos e
intimidadores (ou, s vezes, at de iogues rechonchudos, gentis e radiantes) usando as
mesmas contas. Esses cordes de contas se chama japa malas. So usados na ndia h
sculos, para ajudar os devotos hindus e budistas a se concentrarem durante a meditao
ritual. O colar  segurado com uma das mos e manipulado em crculo  para cada
repetio do mantra, toca-se uma conta. Quando os cruzados medievais foram para o
Oriente durante as guerras santas, viram fiis rezando com esses japa malas, gostaram da
tcnica e levaram a idia de volta para a Europa na forma do tero.
O japa mala tradicional  formado por 108 contas. Nos crculos mais esotricos de
filsofos orientais, o nmero 108  considerado muito auspicioso, um perfeito mltiplo
de trs, com trs dgitos, cuja soma de algarismos d nove, que, por sua vez,  trs vezes
trs. E o trs,  claro,  o nmero que representa o equilbrio supremo, como qualquer
pessoa que j tiver estudado a Santssima Trindade ou um simples banco de bar pode ver
sem dificuldade. Como esse livro todo fala do meu esforo para encontrar equilbrio,
decidi estrutur-lo como um japa mala, dividindo a histria em 108 relatos, ou contas.
Essa seqncia, por sua vez, est dividida em trs partes: Itlia, ndia e Indonsia  os
trs pases que visitei durante esse ano de busca pessoal. Essa diviso significa que h 36
histrias em cada parte, o que me agrada particularmente, j que estou escrevendo isso
tudo durante o meu 36 ano de vida.
Mas, antes de eu embarcar de vez na numerologia, deixem-me concluir dizendo que
tambm gosto da idia de unir essas histrias segundo a estrutura de um japa mala
porque ela  muito... estruturada. Uma busca espiritual genuna , e sempre foi, uma
empreitada de disciplina e mtodo. A busca da Verdade no  para todo mundo. Tanto na
posio de quem busca quanto na de quem escreve, considero til ater-me o mximo
possvel s contas, de modo a manter minha ateno mais concentrada naquilo que estou
tentando realizar.
De toda forma, todo japa mala tem uma conta especial  a 109 conta -, que fica
pendurada para fora do equilibrado crculo de 108 contas como um pingente. Eu
costumava pensar que a 109 conta era um estepe, como um boto sobressalente de um
suter caro, ou o filho caula da famlia real. Aparentemente, porm, ela tem uma razo
de ser ainda mais nobre. Durante a prece, quando seus dedos tocam esta conta, voc deve
fazer uma pausa em sua concentrao na meditao para agradecer a seus mestres. Ento,
aqui nesta minha 109 conta, fao uma pausa antes mesmo de comear. Agradeo a todos
os meus mestres, que me apareceram de tantas formas curiosas ao longo deste ano.
Mais especialmente, porm, agradeo  minha Guru, que  a compaixo encarnada e que,
com imensa generosidade, permitiu que eu estudasse em seus ashram enquanto estava na
ndia. Este tambm  o momento em que eu gostaria de deixar claro que escrevo sobre
minhas experincias na ndia de um ponto de vista puramente pessoal, e no como
algum que estuda teologia, nem como porta-voz oficial de quem quer que seja. , por
isso que no vou usar o nome da minha Guru neste livro  porque no posso falar em
nome dela. Seus ensinamentos falam por si. Tampouco revelarei o nome ou a localizao
de seu ashram, poupando assim essa excelente instituio de uma publicidade que ela
talvez no tenha nem interesse nem capacidade para administrar.
Uma ltima palavra de gratido: embora alguns nomes que aparecem neste livro tenham
sido modificados por motivos diversos, decidi mudar os nomes de todas as pessoas que
conheci nesse ashram na ndia  tanto as indianas quanto as ocidentais. Fiz isso por
respeito ao fato de que a maioria das pessoas no realiza uma peregrinao espiritual para
depois aparecer como personagem de um livro. (A menos,  claro, que elas sejam eu.) H
apenas uma exceo a essa poltica de anonimato que eu prpria me impus. O verdadeiro
nome de Richard do Texas  mesmo Richard, e ele  mesmo do Texas. Quis usar seu
nome verdadeiro porque ele foi muito importante para mim enquanto eu estava na ndia.
Uma ltima coisa  quando perguntei a Richard se ele concordava que eu mencionasse no
meu livro o fato de ele j ter sido alcolatra e viciado em drogas, ele respondeu que no
tinha problema algum.
- Eu estava mesmo tentando bolar um jeito de espalhar essa notcia  disse ele.
Mas primeiro, a Itlia...
Itlia

ou

Diga Como Se Estivesse Comendo.

ou

Trinta E Seis Histrias Sobre A Busca Do Prazer

1

Eu queria que o Giovanni me beijasse.
Ah, mas so tantos os motivos que fariam disso uma pssima idia... Para comear,
Giovanni  dez anos mais novo do que eu, e  como a maior parte dos rapazes italianos
de vinte e poucos anos  ainda mora com a me. S esses dois fatos j fazem dele um
parceiro romntico improvvel para mim, j que sou uma americana de trinta e poucos
anos que trabalha, acaba de passar por um casamento falido e por um divrcio arrasador e
interminvel, imediatamente seguido por um caso de amor apaixonado que terminou com
uma dolorosa ruptura. Todas essas perdas, uma atrs da outra, deixaram em mim uma
sensao de tristeza e fragilidade, e a impresso de ter mais ou menos 7 mil anos de
idade. Por uma simples questo de princpios, eu no imporia essa minha pessoa
desanimada, derrotada e velha ao adorvel, inocente Giovanni. Sem falar que eu
finalmente havia chegado  idade em que uma mulher comea a questionar se a maneira
mais sensata de superar a perda de um lindo rapaz de olhos castanhos  mesmo levar
outro para sua cama imediatamente.  por isso que j faz muitos meses que estou
sozinha.  por isso, na verdade, que decidi passar este ano inteiro sozinha.
Diante do que o observador mais arguto poder perguntar: Ento por que voc vaio para
a Itlia?
E tudo que posso responder  sobretudo quando olho para o belo Giovanni do outro lado
da mesa  : Boa pergunta.
Giovanni  meu parceiro de intercmbio de lnguas. Isto pode parecer uma insinuao,
mas infelizmente no . Tudo o que realmente significa  que ns nos encontramos
algumas noites por semana aqui em Roma para praticar o idioma um do outro. Primeiro
conversamos em italiano, e ele  paciente comigo; em seguida, conversamos em ingls, e
eu sou paciente com ele. Descobri que Giovanni algumas semanas depois de ter chegado
a Roma, graas ao grande cybercaf da Piazza Barbarini, do outro lado da rua, em frente
quele chafariz com a escultura de um homem com rabo de peixe soprando sua concha.
Ele (Giovanni, no o homem com o rabo de peixe) fixara um anncio no quadro de
avisos explicando que um italiano nativo estava procurando algum que falasse ingls
para treinar conversao nas duas lnguas. Logo ao lado do seu anncio havia outro com
o mesmo pedido, absolutamente idntico em cada palavra, e at na fonte usada. A nica
diferena era a informao para contato. Um dos anncios trazia o endereo eletrnico de
um tal Giovanni; o outro tinha o nome de um tal Dario. Mas at o nmero do telefone
residencial era o mesmo.
Usando meus aguados poderes de intuio, mandei um e-mail para os dois homens ao
mesmo tempo, perguntando, em italiano: Ser que vocs so irmos?
Foi Giovanni quem respondeu com este texto muito provocativo: Melhor ainda.
Gmeos!
Sim  muito melhor. Gmeos idnticos de 25 anos, altos, morenos e lindos, conforme
vim a descobrir, com aqueles gigantescos olhos castanhos de pupilas lquidas que os
italianos tm e que simplesmente me tiram o cho. Depois de conhecer os rapazes
pessoalmente, comecei a me perguntar se por acaso eu deveria ajustar um pouquinho
minha regra quanto a permanecer solteira durante este ano. Por exemplo, talvez eu
pudesse permanecer totalmente solteira exceto pelo fato de ter dois lindos irmos
italianos de 25 anos como amantes. Isso me lembrava um pouco um amigo meu que 
vegetariano, mas come bacon, e no entanto... Eu j estava escrevendo a minha carta para
o frum de alguma revista masculina:
Em meio  penumbra bruxuleante iluminada pelas velas do caf romano, era impossvel
dizer de quem eram as mos que acariciavam...
Mas no.
No, no, no.
Interrompi a fantasia no meio. Aquele no era o momento para eu arrumar uma histria
de amor e (conseqncia bvia e inevitvel) complicar ainda mais minha j to enrolada
vida. Aquele era o momento para eu procurar o tipo de cura e paz que s podem vir da
solido.
De todo modo, quela altura, em meados de novembro, o tmido e estudioso Giovanni e
eu j havamos nos tornado grandes amigos. Quanto a Dario  o mais extrovertido e
festeiro dos dois irmos , eu o apresentei  minha encantadora amiguinha sueca, Sofie, e
o modo como eles tm compartilhado as suas noites em Roma  outro tipo
completamente diferente de intercmbio. Mas Giovanni e eu s fazemos conversar. Bom,
comer e conversar. J faz vrias agradveis semanas que temos comido e conversado,
dividindo pizzas e gentis correes gramaticais, e a noite de hoje no foi nenhuma
exceo. Uma noite maravilhosa regada a novos idiomas e mozzarella fresca.
Agora  meia-noite e o tempo est enevoado, e Giovanni me acompanha at meu
apartamento por aquelas ruelas de Roma que serpenteiam de forma natural em volta dos
antigos prdios como pequenos riachos coleando ao redor das sombras formadas pelos
densos bosques de ciprestes. Agora estamos diante da minha porta. Estamos de frente um
para o outro. Ele me d um abrao caloroso. A coisa j evoluiu; durante as primeiras
semanas, ele s fazia apertar minha mo. Acho que, se eu ficasse na Itlia por mais trs
anos, poderia at ser que ele tomasse coragem para me beijar. Por outro lado, ele poderia
simplesmente me beijar agora mesmo, esta noite, aqui mesmo junto  minha porta...
ainda h uma chance... quero dizer, nossos corpos esto colados sob o luar... e  claro
que isso seria um erro terrvel... mas mesmo assim o fato de ele poder realmente fazer
isso agora  uma possibilidade to maravilhosa... ele poder simplesmente se curvar...
e... e...
Que nada.
Ele solta o abrao.
 Boa-noite, cara Liz  diz ele.
 Buona notte, caro mio  respondo.
Subo as escadas at meu apartamento no quarto andar, sozinha. Entro no meu pequenino
quitinete, sozinha. Fecho a porta atrs de mim. Mais uma noite solitria em Roma. Mais
uma longa noite de sono pela frente, sem ningum nem nada na minha cama a no ser
uma pilha de guias de conversao e dicionrios de italiano.
Estou sozinha, inteiramente sozinha, completamente sozinha.
Ao absorver essa realidade, largo minha bolsa, caio de joelhos e encosto a testa no cho.
Ali, ofereo ao universo uma fervorosa orao de agradecimento.
Primeiro, em ingls.
Em seguida, em italiano.
E ento  s para ter certeza  em snscrito.

2

E uma vez que j estou ali ajoelhada no cho em posio de splica, deixem-me manter
essa posio enquanto viajo no tempo at trs anos atrs, at o instante em que toda esta
histria comeou  um instante que tambm me encontrou nessa mesma exata posio:
de joelhos, no cho, rezando.
No entanto, tudo o mais em relao  cena de trs anos atrs era diferente. Daquela vez
eu no estava em Roma, mas sim no banheiro do andar de cima da grande casa no
subrbio de Nova York que eu acabara de comprar com meu marido. Eram mais ou
menos trs horas da manh de um novembro gelado. Meu marido dormia na nossa cama.
Eu estava escondida no banheiro pelo que deveria ser a 47a noite consecutiva, e  como
em todas aquelas outras noites  estava soluando. Soluando com tanta fora, na
verdade, que uma grande poa de lgrimas e muco se espalhava  minha frente sobre os
ladrilhos do banheiro, um verdadeiro lago formado por toda minha vergonha, medo,
confuso e dor.
Eu no quero mais estar casada.
Eu estava tentando tanto no saber isso, mas a verdade continuava a insistir.
Eu no quero mais estar casada. No quero morar nesta casa grande. No quero ter um
filho.
Mas todos esperavam que eu quisesse ter um filho. Eu estava com 31 anos. Meu marido e
eu  estvamos juntos havia oito anos, sendo seis casados  havamos construdo nossa
vida inteira com base na expectativa comum de que, uma vez superada a avanada marca
dos 30 anos, eu iria querer sossegar e ter filhos. Ambos espervamos que, a essa altura,
eu j tivesse me cansado de viajar e fosse ficar feliz em morar em uma casa grande e
barulhenta, cheia de crianas e de colchas feitas a mo, com um jardim nos fundos e um
reconfortante ensopado borbulhando em cima do fogo. (O fato de esse ser um retrato
bastante fiel da minha me  um indicador rpido de como antigamente era difcil para
mim perceber a diferena entre eu mesma e a poderosa mulher que havia me criado.) Mas
eu no queria nenhuma dessas coisas  e estava arrasada por estar me dando conta disso.
Pelo contrrio: meus 20 anos haviam chegado ao fim, aquele prazo final dos 30 havia se
abatido sobre mim como uma sentena de morte, e eu descobri que no queria
engravidar. Continuava esperando querer ter um filho, mas isso no acontecia. E eu
conheo a sensao de querer alguma coisa, podem acreditar. Sei muito bem o que 
desejo. Mas esse desejo no existia. Alm do mais, eu no conseguia parar de pensar no
que minha irm tinha me dito certo dia, enquanto amamentava seu primognito: Ter um
filho  como fazer uma tatuagem na cara. Voc precisa realmente ter certeza de que  isso
que voc quer antes de se comprometer.
Mas como eu poderia voltar atrs agora? Tudo estava no lugar certo. Supostamente,
aquele deveria ser o ano. Na verdade, j vnhamos tentando engravidar havia alguns
meses. Mas nada tinha acontecido (exceto pelo fato de  em um arremedo quase
sarcstico de uma gravidez  eu estar tendo enjos matinais psicossomticos e vomitando
meu caf-da-manh todos os dias, aflita). E todo ms, quando eu ficava menstruada, via-
me sussurrando furtivamente no banheiro: Obrigada, obrigada, obrigada, obrigada por
me dar mais um ms de vida.
Eu vinha tentando me convencer de que isso era normal. Todas as mulheres devem se
sentir assim quando esto tentando engravidar, conclu. (Ambivalente foi a palavra que
usei, evitando a descrio muito mais exata: inteiramente dominada pelo pnico.)
Vinha tentando me convencer de que os meus sentimentos eram comuns, apesar de todas
as provas em contrrio  como a conhecida com quem eu havia esbarrado na semana
anterior, que acabara de descobrir que estava grvida do primeiro filho depois de gastar
dois anos e rios de dinheiro em tratamentos de fertilidade. Ela estava em xtase. Sempre
desejara ser me, disse-me. Admitiu que vinha comprando roupinhas de beb
secretamente havia anos, e escondendo-as debaixo da cama, onde seu marido no as
encontraria. Vi a alegria em seu rosto e a reconheci. Era uma alegria idntica  que meu
prprio rosto havia irradiado na primavera anterior, no dia em que descobri que a revista
para a qual eu trabalhava iria me mandar para a Nova Zelndia para escrever um artigo
sobre a busca por uma lula gigante. E pensei: At o dia em que eu conseguir sentir o
mesmo xtase em relao a ter um filho que senti em relao a ir para a Nova Zelndia
atrs de uma lula gigante, no posso ter um filho.
Eu no quero mais estar casada.
Durante o dia, eu recusava essa idia, mas  noite ela me consumia. Que catstrofe.
Como eu podia ser uma imbecil criminosa a ponto de ir to fundo em um casamento para
no final me separar? Havamos acabado de comprar aquela casa, um ano antes. Eu no
tinha desejado aquela bela casa? No tinha adorado aquela casa? Ento, por que agora
passava as noites assombrando seus corredores, uivando como Media? Eu no sentia
orgulho de tudo o que havamos acumulado  a elegante casa em Hudson Valley, o
apartamento em Manhattan, as oito linhas telefnicas, os amigos, os piqueniques e as
festas, os finais de semana percorrendo as gndolas da hiperloja em forma de caixote
preferida, comprando ainda mais aparelhos a crdito? Eu havia participado ativamente de
cada instante da criao daquela vida  ento, por que sentia que nada daquilo combinava
comigo? Por que me sentia to soterrada pelo dever, cansada de ser o arrimo do casal, a
dona de casa, a coordenadora de eventos sociais, a que levava o cachorro para passear, a
esposa e a futura me, e  em alguns poucos instantes roubados  a escritora...?
Eu no quero mais estar casada.
Meu marido dormia no quarto ao lado, na nossa cama. Eu o amava e no conseguia
suport-lo, em igual medida. No podia acord-lo para faz-lo compartilhar o meu
desespero  de que adiantaria? J fazia meses que ele me via desmoronar, acompanhando
meu comportamento de louca (ambos concordvamos com essa definio), e eu s o
exauria. Ambos sabamos que havia alguma coisa errada comigo, e ele estava perdendo a
pacincia com isso. Brigvamos e chorvamos muito, e estvamos cansados daquele jeito
que s um casal cujo casamento est acabando pode ficar. Nossos olhos pareciam olhos
de refugiados.
Os muitos motivos pelos quais eu no queria mais estar casada com aquele homem so
pessoais demais e tristes demais para serem compartilhados aqui. Muitos deles tinham a
ver com coisas minhas, mas uma boa parte dos nossos problemas tinha a ver tambm com
as questes dele. Isso  natural; afinal de contas, h sempre duas pessoas em um
casamento  dois votos, duas opinies, dois conjuntos conflitantes de decises, desejos e
limitaes. Mas no considero adequado discutir as questes dele no meu livro.
Tampouco pediria a algum para acreditar que sou capaz de relatar uma verso imparcial
da nossa histria, portanto, a crnica do fim do nosso casamento no ser contada aqui.
Tambm no discutirei aqui todos os motivos pelos quais eu ainda queria ficar casada
com ele, nem todas as suas caractersticas maravilhosas, nem os motivos que me fizeram
am-lo e me casar com ele, nem os motivos pelos quais eu era incapaz de imaginar a vida
sem ele. No vou abrir nenhuma dessas gavetas. Basta dizer que, naquela noite, ele ainda
era, em igual medida, meu farol e minha ave de mau agouro. A nica coisa mais
inconcebvel do que ir embora era ficar; a nica coisa mais impossvel do que ficar era ir
embora. Eu no queria destruir nada nem ningum. S queria sair de fininho pela porta
dos fundos, sem causar alvoroo nem conseqncias, e depois s parar de correr quando
chegasse  Groenlndia.
Sei que essa parte da minha histria no  uma parte feliz. Mas eu a estou compartilhando
aqui porque alguma coisa estava prestes a acontecer naquele cho de banheiro que iria
mudar para sempre o curso da minha vida  quase como um daqueles
superacontecimentos astronmicos malucos, quando um planeta gira no espao sideral
sem nenhum motivo, e seu ncleo incandescente se modifica, reposicionando seus plos
e alterando radicalmente seu formato, de tal modo que a massa inteira do planeta se torna
subitamente oblonga em vez de esfrica. Alguma coisa assim.
O que aconteceu foi que comecei a rezar.
Rezar, sabem  tipo para Deus.

3

Aquilo foi uma estria para mim. E, como esta  a primeira vez em que menciono no meu
livro essa palavra to carregada de sentido  DEUS , e j que essa  uma palavra que vai
aparecer muitas outras vezes nestas pginas, parece justo que eu faa uma pequena pausa
aqui, s para que as pessoas possam decidir de uma vez o quo ofendidas precisam ficar.
Deixando para mais tarde a polmica sobre se Deus de fato existe (no  tenho uma idia
melhor: vamos esquecer essa polmica de uma vez por todas), deixem-me explicar
primeiro por que uso a palavra Deus, quando poderia muito bem usar as palavras Jeov,
Al, Shiva, Brahma, Vishnu ou Zeus. Ou ento, eu poderia chamar Deus de Aquilo, que
 como fazem as antigas escrituras em snscrito, e que considero traduzir bastante bem a
entidade onipresente e inominvel que algumas vezes j vivenciei. Mas esse Aquilo me
parece impessoal  uma coisa, no um ser , e eu prpria no consigo rezar para um
Aquilo. Preciso de um nome de verdade, para sentir totalmente que existe algum
presente. Pelo mesmo motivo, quando rezo, no ofereo minhas preces ao Universo, ao
Grande Vazio,  Fora, ao Ser Supremo, ao Inteiro, ao Criador,  Luz, ao Poder Maior,
nem mesmo  mais potica das manifestaes do nome de Deus, tirada, acho eu, dos
evangelhos gnsticos: A Sombra da Virada.
No tenho nada contra nenhum desses termos. Sinto que so todos equivalentes, porque
so todos descries igualmente adequadas e inadequadas do indescritvel. Mas todos ns
precisamos de um nome funcional para essa indescritibilidade, e "Deus"  o nome que me
soa mais caloroso, ento  ele que uso. Eu deveria confessar tambm que geralmente me
refiro a Deus como Ele, o que no me incomoda porque, a meu ver, trata-se somente de
um pronome pessoal que facilita as coisas, no de uma descrio anatmica precisa ou de
um motivo para revoluo.  claro que no me importo que as pessoas chamem Deus de
"Ela", e entendo o impulso que as leva a fazer isso. Repito - para mim, ambos so termos
equivalentes, igualmente adequados e inadequados. Embora eu ache que escrever
qualquer um dos dois pronomes em letra maiscula seja um toque a mais, uma pequena
gentileza na presena do divino.
Culturalmente, embora no teologicamente, sou crist. Nasci protestante, branca e anglo-
sax. E, embora eu de fato ame aquele incrvel professor da paz chamado Jesus, e embora
me reserve o direito de me perguntar em determinadas situaes difceis o que de fato Ele
faria, no consigo engolir aquela nica regra fixa da cristandade que insiste que Jesus  o
nico caminho para Deus." Estritamente falando, ento, no posso me considerar crist.
A maioria dos cristos que conheo aceita meus sentimentos em relao a isso com
benevolncia e tolerncia. Mas, bom, a maioria dos cristos que eu conheo no fala de
forma muito estrita. Para quem fala (e pensa) de forma estrita, tudo que posso fazer aqui 
dizer que sinto muito por quaisquer sentimentos feridos, e em seguida pedir licena para
no tocar mais no assunto.
Tradicionalmente, sempre me senti tocada pelos msticos transcendentais de todas as
religies. Sempre reagi com admirada animao a qualquer um que j tenha dito que
Deus no mora em uma escritura dogmtica, nem em um trono distante no cu, mas que
ele "est muito perto de ns - muito mais perto do que podemos imaginar, respirando
atravs dos nossos prprios coraes. Reajo com gratido a quem quer que tenha viajado
ao centro desse corao e depois tenha voltado ao mundo com um relato, para ns que
ficamos, de que Deus  uma experincia de amor supremo. Em toda tradio religiosa
sobre a Terra, sempre houve santos msticos e transcendentais que relataram exatamente
essa experincia. Infelizmente, muitos deles acabaram presos e mortos. Mesmo assim, eu
os tenho em muita alta considerao.
No final das contas, o que hoje penso em relao a Deus  simples. E assim: tive uma
cadela maravilhosa. Ela havia sido abandonada. Era uma cruza de cerca de dez raas
diferentes, mas parecia ter herdado as melhores caractersticas de todas elas. Ela era
marrom. Quando as pessoas me perguntavam "De que raa  a sua cadela?", eu sempre
dava a mesma resposta: Ela  marrom." Da mesma forma, quando me fazem a pergunta
"Em que tipo de Deus voc acredita?", minha resposta  fcil: "Acredito em um Deus
grandioso."

4

 claro que tive tempo de sobra para formular minhas opinies sobre divindade desde
aquela noite no cho do banheiro, quando falei diretamente com Deus pela primeira vez.
Mas, no meio daquela crise negra de novembro, eu no estava interessada em formular
opinies sobre teologia. Estava interessada apenas em salvar minha vida. Eu finalmente
percebera que parecia ter atingido um estado de impotncia e desespero que ameaava
minha vida, e ocorreu-me que, s vezes, pessoas nesse estado recorrem  ajuda de Deus.
Acho que eu tinha lido isso em um livro em algum lugar.
O que eu disse a Deus em meio a meus soluos arquejantes foi alguma coisa assim: "Oi,
Deus. Tudo bem? Eu sou a Liz. Muito prazer."
 isso mesmo - eu estava falando com o criador do universo como se houvssemos
acabado de ser apresentados em um coquetel. Mas ns trabalhamos com aquilo que
conhecemos nesta vida, e essas so as palavras que sempre uso no incio de um
relacionamento. Na verdade, era tudo que eu podia fazer para no dizer: "Sempre admirei
muito o seu trabalho..."
"Desculpe incomodar o senhor to tarde assim", continuei. "Mas  que eu estou com um
problema srio. E desculpe por nunca ter falado com o senhor assim diretamente, mas
espero de verdade sempre ter expressado minha enorme gratido por todas as bnos
que o senhor me deu na minha vida."
"Desculpe incomodar o senhor to tarde assim", continuei. "Mas  que eu estou com um
problema srio. E desculpe por nunca ter falado com o senhor assim diretamente, mas
espero de verdade sempre ter expressado minha enorme gratido por todas as bnos
que o senhor me deu na minha vida."
Esse pensamento me fez soluar com mais fora ainda. Deus esperou eu me acalmar. Eu
me recompus o suficiente para continuar: "No sou nenhuma especialista em orao,
como o senhor sabe. Mas ser que o senhor poderia por favor me ajudar? Estou
precisando desesperadamente de ajuda. No sei o que fazer. Preciso de uma resposta. Por
favor, me diga o que fazer. Por favor, me diga o que fazer. Por favor, me diga o que
fazer...
Assim, a prece se reduziu a essa simples splica  Por favor, me diga o que fazer -
inmeras vezes. No sei quantas vezes implorei. S sei que implorei como algum
tentando salvar a prpria vida. E eu no parava de chorar.
At que - muito de repente - aquilo parou.
Muito de repente, percebi que no estava mais chorando. Na verdade, havia parado de
chorar bem no meio de um soluo. Minha tristeza havia sido inteiramente aspirada para
fora de mim. Ergui a testa do cho e me sentei, surpresa, perguntando-me se veria algum
Ser Grandioso que havia levado embora o meu choro. Mas no havia ningum ali. Eu
estava sozinha. Mas tambm no estava de fato sozinha. Eu estava cercada por algo que
s posso descrever como um pequeno bolso de silncio - um silncio to raro que eu no
queria soltar a respirao, com medo de assust-lo. Era um silncio totalmente imvel.
No sei quando eu havia sentido tamanha imobilidade antes.
Ento escutei uma voz. Por favor, no se assustem - no era uma voz hollywoodiana
sada do Antigo Testamento, como a de Charlton Heston, tampouco uma voz que me
dizia para construir um campo de beisebol no quintal de casa. Era apenas a minha prpria
voz, falando de dentro de mim. Mas aquela era a minha voz de um jeito que eu nunca a
tinha escutado antes. Aquela era a minha voz, mas perfeitamente sensata, calma e
compassiva. Era a minha voz como soaria se eu s houvesse experimentado na vida amor
e certeza. Como posso descrever o calor da afeio daquela voz ao me dar a resposta que
selaria para sempre a minha f no divino?
A voz disse: Volte para a cama, Liz.
Soltei a respirao.
Imediatamente, ficou muito claro que essa era a nica coisa a ser feita. Eu no teria
aceitado nenhuma outra resposta. No teria confiado em uma voz grave e ribombante que
houvesse dito: Voc Precisa se Separar do Seu Marido! ou Voc No Deve se Divorciar
do Seu Marido! Porque isso no  a verdadeira sabedoria. A verdadeira sabedoria fornece
a nica resposta possvel para determinado instante e, naquela noite, voltar para a cama
era a nica resposta possvel. Volte para a cama, disse aquela voz interior onisciente,
porque voc no precisa saber a resposta final neste instante, s trs horas da manh de
uma quinta-feira de novembro. Volte para a cama, porque eu amo voc. Volte para a
cama, porque a nica coisa que voc precisa fazer por enquanto  descansar um pouco e
cuidar bem de si mesma at saber a resposta. Volte para a cama para que, quando a
tempestade chegar, voc esteja forte o suficiente para lidar com ela. E a tempestade vai
chegar, meu bem. Em breve. Mas no esta noite. Portanto:
Volte para a cama, Liz.
De certa forma, esse pequeno episdio tinha todas as caractersticas de uma tpica
experincia crist de converso - a noite escura da alma, o pedido de ajuda, a voz que
responde, a sensao de transformao. Mas eu no diria que isso foi uma converso
religiosa para mim, no uma converso tradicional, como nascer de novo ou ser salva.
Em vez disso, eu chamaria o que aconteceu naquela noite de incio de uma conversa
religiosa. As primeiras palavras de um dilogo aberto e exploratrio que, no final das
contas, me levaria de fato at bem perto de Deus.

5

Se eu de alguma forma pudesse saber que - como disse Lilly Tomlin certa vez - as coisas
iriam piorar muito antes de piorarem, no tenho certeza de como teria dormido naquela
noite. Mas, depois de sete meses muito difceis, deixei o meu marido. Quando finalmente
tomei essa deciso, pensei que o pior houvesse passado. Isso s mostra como eu sabia
pouca coisa sobre divrcio.
Certa vez, a revista The New Yorker publicou uma tira. Duas mulheres esto conversando
e uma delas diz para a outra: Se voc quiser mesmo conhecer algum, precisa se
divorciar dessa pessoa." Minha experincia,  claro, era o oposto. Eu diria que, se voc
quiser mesmo DEIXAR de conhecer algum, precisa se divorciar dessa pessoa. Porque
foi isso que aconteceu entre mim e meu marido. Acho que ns dois ficamos chocados
com a velocidade com a qual deixamos de ser as duas pessoas que melhor se conheciam
no mundo para nos transformarmos na dupla de desconhecidos que menos se entendia
que j existiu. No fundo dessa estranheza havia o fato desolador de ambos estarmos
fazendo algo que a outra pessoa jamais teria considerado possvel; ele jamais sonhou que
eu de fato o deixaria, e eu nunca, nem em meus devaneios mais loucos, pensei que ele
tornaria a minha sada to difcil.
Quando deixei meu marido, eu acreditava sinceramente que poderamos resolver nossos
assuntos prticos em poucas horas com uma calculadora, algum bom senso e um pouco
de boa vontade em relao  pessoa que um dia havamos amado. Minha sugesto inicial
foi vendermos a casa e dividirmos todos os bens pela metade; nunca me ocorreu que
pudssemos fazer qualquer outra coisa. Ele no achou justa essa sugesto. Ento eu subi
minha oferta, chegando at a sugerir um tipo diferente de diviso meio a meio: que tal ele
ficar com todos os bens e eu com a culpa? Mas nem mesmo essa oferta tornou possvel
um acordo. Ento eu no soube como agir. Como negociar depois que j se ofereceu
tudo? Eu no podia fazer nada, a no ser esperar a contraproposta dele. Minha culpa por
t-lo deixado me impedia de pensar que eu tinha o direito de ficar com sequer um centavo
do dinheiro que havia ganho ao longo da ltima dcada. Alm disso, minha recm-
descoberta espiritualidade tornava essencial para mim que ns no brigssemos. Ento
essa era a minha posio  eu no me defenderia dele, nem brigaria com ele. Durante um
tempo interminvel, contrariando os conselhos de todas as pessoas que gostavam de mim,
relutei at mesmo em consultar um advogado, porque considerava isso um ato de guerra.
Eu queria ser totalmente Gandhi naquela situao. Eu queria ser totalmente Nelson
Mandela naquela situao. Na poca, porm, no reparei que tanto Gandhi quanto
Mandela eram advogados.
Meses passaram. Minha vida era um limbo, e eu esperava para ser libertada, esperava
para ver quais seriam os termos do acordo. Estvamos vivendo separados (ele havia se
mudado para nosso apartamento de Manhattan), mas nada estava resolvido. Contas se
acumulavam, carreiras empacavam, a casa caa aos pedaos e os silncios do meu ex-
marido s eram quebrados por suas comunicaes ocasionais para me lembrar como eu
era uma pessoa ruim.
E, alm disso, David apareceu.
Todas as complicaes e os traumas daqueles horrveis anos de divrcio foram
multiplicados pelo drama de David  o cara por quem me apaixonei enquanto estava
terminando meu casamento. Eu disse que "me apaixonei" por David? O que quero dizer,
na verdade,  que sa do meu casamento e mergulhei nos braos de David da mesma
forma que um artista de circo de desenho animado mergulha de uma plataforma altssima
dentro de um pequeno copo d'gua, desaparecendo por completo. Eu me agarrei a David
para fugir do meu casamento como se ele fosse o ltimo helicptero saindo de Saigon.
Depositei nele toda minha esperana de salvao e de felicidade. E, sim, eu o amei. Mas,
se eu conseguisse pensar em uma palavra mais forte do que "desesperadamente" para
descrever o modo como amei David, usaria essa palavra aqui, e um amor desesperado 
sempre o tipo mais difcil de amor.
Fui morar com David imediatamente depois de deixar meu marido. Ele era    um cara
lindo. Nova-iorquino da gema, ator e escritor, com aqueles olhos castanhos de pupilas
lquidas que os italianos tm e que sempre me tiram o cho (eu j disse isso?). Descolado,
independente, vegetariano, desbocado, espiritualizado, sedutor. Um poeta-iogue rebelde.
O mais novo e irresistvel craque do time. Maior do que a vida. Maior do que tudo que h
de maior. Ou pelo menos era assim para mim. Na primeira vez em que Susan, minha
melhor amiga, me ouviu falar dele, bastou uma olhada no forte rubor em meu rosto para
ela me dizer: "Ai, meu Deus, baby, como voc est ferrada."
David e eu nos conhecemos porque ele estava atuando em uma pea baseada em contos
meus. Ele fazia um personagem que eu havia inventado, o que  de certa forma revelador.
No amor desesperado  sempre assim, no ? No amor desesperado, ns sempre
inventamos os personagens dos nossos parceiros, exigido que eles sejam o que
precisamos que sejam, e depois ficando arrasados quando eles se recusam a desempenhar
o papel que ns mesmos criamos.
Mas, ah, como ns nos divertimos durante aqueles primeiros meses, quando ele ainda era
o meu heri romntico e eu ainda era o seu sonho tornado realidade Eram uma excitao
e uma compatibilidade que eu jamais havia imaginado. Inventamos nossa prpria
linguagem. Passvamos dias fora da cidade e outros viajando de carro. Ele escalava at o
topo das coisas, planejava viagens pelo mundo que faramos juntos. Ns nos divertamos
mais na fila do departamento de trnsito do que a maioria dos casais em sua lua-de-mel.
Demos o mesmo apelido um ao outro, para que no houvesse separao entre ns.
Travamos objetivos juntos, fazamos juramentos e promessas juntos e jantvamos
juntos. Ele lia livros livros para mim, e ele lavava a minha roupa. (Na primeira vez em
que isso aconteceu, liguei para Susan para relatar a maravilha, abismada como se
houvesse acabado de ver um camelo usando um orelho. Eu disse: "Um homem acabou
de lavar a minha roupa! E lavou as peas delicadas na mo!" E ela repetiu: "Ai, meu
Deus, baby, como voc est ferrada.")
pensando que o divrcio de fato poderia acontecer de forma tranqila, embora estivesse
dando a meu marido uma folga desse assunto durante o vero, para ns dois podermos
esfriar a cabea. De toda forma, era muito fcil no pensar em toda aquela perda no meio
de tanta felicidade. Ento aquele vero (tambm conhecido como "a trgua") terminou.
No dia 9 de setembro de 2001, encontrei meu marido frente a frente pela primeira vez,
sem perceber que todos os nossos futuros encontros precisariam de advogados entre ns
para servir de mediadores. Jantamos em um restaurante. Tentei falar sobre a nossa
separao, mas tudo que fizemos foi brigar. Ele me disse que eu era uma mentirosa e uma
traidora, e que ele me odiava e nunca mais falaria comigo. Duas manhs mais tarde,
acordei de uma noite de sono agitada e descobri que avies seqestrados estavam sendo
arremessados contra os dois prdios mais altos da minha cidade, enquanto tudo de
invencvel que um dia se mantivera em p ia-se tornando uma avalanche fumegante de
runas. Liguei para o meu marido, para ter certeza de que ele estava bem, e choramos
juntos com aquela tragdia, mas no fui encontr-lo. Durante aquela semana, quando
todo mundo em Nova York deixou a animosidade de lado em deferncia  tragdia maior
que estava acontecendo, mesmo assim no voltei para meu marido. Foi desse modo que
ambos soubemos que havia terminado mesmo.
No  exagero dizer que no dormi mais durante os quatro meses seguintes.
Pensava que j houvesse me despedaado antes mas, naquele momento (em harmonia
com o aparente colapso do mundo inteiro), minha vida realmente virou um caos. Hoje me
envergonho de pensar no que impus a David durante aqueles meses em que moramos
juntos, logo depois do 11 de setembro e da minha separao. Imaginem sua surpresa ao
descobrir que a mulher mais feliz, mais confiante que ele j conhecera na verdade era -
quando voc ficava sozinho com ela - um poo sem fundo e enlameado de tristeza. Mais
uma vez, eu no conseguia parar de chorar. Foi ento que ele comeou a recuar, e foi
ento que eu vi o outro lado do meu apaixonado heri romntico - o David solitrio como
um nufrago, frio e que precisava de mais espao para viver do que um rebanho de bises
norte-americanos.
O sbito recuo emocional de David provavelmente teria sido uma catstrofe para mim at
mesmo nas melhores circunstncias, j que sou uma das formas de vida mais afetuosas do
planeta (algo como uma cruza de golden retriever com molusco), mas aquelas eram as
piores circunstncias possveis para mim. Eu estava insegura e dependente, e precisava de
mais cuidados do que trigmeos prematuros. Seu afastamento s fez me tornar mais
carente, e minha carncia s fez acelerar seu afastamento, at que, em pouco tempo, ele
recuava debaixo de uma chuva de gritos chorosos meus: "Aonde voc vai? O que
aconteceu com a gente?"
(Dica de relacionamento: Os homens ADORAM isso.)
O fato  que eu havia me viciado em David (em minha defesa, posso dizer que ele havia
possibilitado isso, j que era uma espcie de homem fatal) e, agora que sua ateno
estava desaparecendo, sofria as conseqncias facilmente previsveis. O vcio  a marca
de toda histria de amor baseada na obsesso. Tudo comea quando o objeto de sua
adorao lhe d uma dose generosa, alucinante de algo que voc nunca ousou admitir que
queria - um explosivo coquetel emocional, talvez, feito de amor estrondoso e louca
excitao. Logo voc comea a precisar dessa ateno intensa com a obsesso faminta de
qualquer viciado. Quando a droga  retirada, voc imediatamente adoece, louco e em
crise de abstinncia (sem falar no ressentimento para com o traficante que incentivou
voc a adquirir seu vcio, mas que agora se recusa a descolar o bagulho bom - apesar de
voc saber que ele tem algum escondido em algum lugar, caramba, porque ele antes lhe
dava de graa). O estgio seguinte  voc esqueltica e tremendo em um canto, sabendo
apenas que venderia sua alma ou roubaria seus vizinhos s para ter aquela coisa mais
uma vez que fosse.
Enquanto isso, o objeto da sua adorao agora sente repulsa por voc. Ele olha para voc
como se voc fosse algum que ele nunca viu antes, muito menos algum que um dia
amou com grande paixo. A ironia  que voc no pode culp-lo. Quero dizer, olhe bem
para voc. Voc est um caco, irreconhecvel at mesmo aos seus prprios olhos.
Ento  isso. Voc agora chegou ao ponto final da obsesso amorosa  a completa e
implacvel desvalorizao de si mesma.
O fato de eu ser capaz de escrever calmamente sobre isso hoje  uma grande prova dos
poderes de cura do tempo, porque no encarei os fatos muito bem quando estavam
acontecendo. Perder David logo depois do fracasso do meu casamento, e logo depois dos
ataques terroristas  minha cidade, e bem no meio da pior fase do divrcio (experincia
de vida que meu amigo Brian comparou a "ter um acidente de carro gravssimo todo
santo dia durante mais ou menos dois anos"), bom, era simplesmente coisa demais.
David e eu continuvamos a ter nossos momentos de diverso e compatibilidade durante
o dia mas,  noite, na cama dele, eu me tornava a nica sobrevivente de um ocaso nuclear
enquanto ele se afastava de mim a olhos vistos, mais e mais a cada dia, como se eu
tivesse uma doena contagiosa. Passei a ter medo da noite como se ela fosse a masmorra
de um carrasco. Eu ficava ali deitada ao lado do corpo adormecido de David, lindo e
inacessvel, e entrava em uma espiral de pnico feita de solido e idias suicidas
meticulosamente detalhadas. Todas as partes do meu corpo doam. Eu tinha a sensao de
ser uma espcie de mquina primitiva impulsionada  mola e submetida a uma tenso
muito maior do que havia sido construda para suportar, prestes a estourar, pondo em
grande risco qualquer um que estivesse por perto. Imaginava as partes do meu corpo
saindo voando do meu trax para escapar do ncleo vulcnico de infelicidade em que eu
havia me transformado. Na maioria das manhs, David acordava e me encontrava
mergulhada em um sono agitado, deitada no cho ao lado da cama, enrolada em uma
pilha de toalhas de banho, como um cachorro.
"O que foi desta vez?", perguntava ele  mais um homem completamente exaurido por
mim.
Acho que perdi algo como 15 quilos durante essa fase.

6

Ah, mas nem tudo foi ruim durante esses anos...
J que Deus nunca fecha uma porta na sua cara sem abrir uma janela (ou qualquer que
seja o velho ditado), algumas coisas maravilhosas aconteceram comigo  sombra de toda
aquela tristeza. Para comear, finalmente comecei a aprender italiano. Em segundo lugar,
encontrei uma Guru indiana. Por fim, fui convidada por um velho xam a ir morar com
ele na Indonsia.
Vou explicar tudo na ordem.
As coisas comearam a melhorar um pouco quando sa do apartamento de David, no
incio de 2002, e encontrei um apartamento s para mim pela primeira vez na vida.
Aquilo era um luxo, j que eu ainda estava pagando por aquele casaro no subrbio onde
ningum mais morava e que meu marido me proibia de vender, e ainda estava tentando
honrar todas as minhas contas de advogados e terapeutas... mas ter um quarto-e-sala s
meu era vital para a minha sobrevivncia. Eu via o apartamento quase como um
sanatrio, uma clnica de repouso para a recuperao de mim mesma. Pintei as paredes
com as cores mais quentes que consegui encontrar, e comprava flores para mim mesma
toda semana, como se estivesse me visitando no hospital. Minha irm me deu uma bolsa
de gua quente como presente pela casa nova (para eu no precisar ficar totalmente
sozinha em uma cama fria), e eu dormia todas as noites com aquele objeto aninhado junto
a meu corao, como algum tratando uma leso esportiva.
David e eu tnhamos terminado de vez. Ou talvez no tivssemos.  difcil lembrar agora
quantas vezes terminamos e tornamos a reatar durante aqueles meses. Mas surgiu um
padro: eu me separava de David, recuperava minha fora e minha confiana, e ento
(atrado, como sempre, por minha fora e confiana) sua paixo por mim renascia. Com
respeito, sobriedade e inteligncia, ns discutamos uma "nova tentativa", sempre com
algum novo e saudvel plano para minimizar nossas aparentes incompatibilidades.
Estvamos muito comprometidos em resolver aquela histria. Por que como era possvel
duas pessoas que se amavam tanto no terminarem felizes para sempre? Aquilo tinha de
dar certo. No tinha? Novamente juntos, e com as esperanas renovadas,
compartilhvamos alguns dias de uma felicidade delirante. Algumas vezes, at semanas.
Mas, depois de algum tempo, David tornava a se afastar de mim, e eu me agarrava a ele
(ou eu me agarrava a ele e ele se afastava de mim  nunca conseguamos entender como
o processo comeava), e acabava mais uma vez destruda. E ele acabava indo embora.
David era ao mesmo tempo meu m e minha criptonita.
Porm, durante aqueles perodos em que estvamos mesmo separados, por mais difcil
que fosse, eu estava treinando viver sozinha. E essa experincia estava provocando o
incio de uma mudana interna. Eu comeava a sentir que - embora minha vida ainda
parecesse um acidente com vrios veculos em alguma estrada movimentada durante um
feriado nacional - estava prestes a me tornar uma pessoa capaz de administrar a si mesma.
Quando no estava com vontade de me matar por causa do meu divrcio, nem com
vontade de me matar por causa do meu drama com David, eu de fato estava quase
encantada com todos os compartimentos de tempo e espao que iam surgindo nos meus
dias, durante os quais eu podia fazer a mim mesma uma pergunta nova e radical: "O que
voc quer fazer, Liz?"
Durante a maior parte do tempo (como ainda estava muito abalada por ter largado meu
casamento), eu sequer ousava fazer essa pergunta a mim mesma, mas apenas festejava
internamente o fato de ela existir. Quando finalmente comecei a responder, eu o fiz com
cautela. S me permitia expressar desejos pequenos e hesitantes. Tais como:
Quero ir a uma aula de ioga.
Quero ir embora desta festa, voltar para casa e ler um romance.
Quero comprar um estojo novo para mim.
E ento vinha sempre aquela mesma resposta estranha, sempre a mesma:
Quero aprender a falar italiano.
Havia anos que eu tinha vontade de falar italiano - lngua que considerava mais linda do
que um buqu de rosas -, mas nunca consegui encontrar uma justificativa prtica para
estudar. Por que no simplesmente melhorar o francs ou o russo que eu j havia
estudado anos antes? Ou por que no aprender espanhol, para poder me comunicar
melhor com milhes de meus co-cidados americanos? O que eu iria fazer com italiano?
Eu no me mudaria para l. Seria mais til aprender a tocar acordeo.
Mas por que tudo sempre tem de ter uma aplicao prtica? Eu passara tantos anos sendo
um soldadinho bem-comportado - trabalhando, produzindo, sem nunca perder um prazo,
zelando por pessoas queridas, pelas minhas gengivas e por meu nome na praa, votando
etc. Ser que esta nossa vida tem de ser apenas dever? Naquele perodo sombrio de perda,
ser que eu precisava de outra justificativa para aprender italiano alm do fato de que
essa era a nica coisa em que eu conseguia pensar que poderia me proporcionar algum
prazer naquele momento? E estudar um idioma, afinal de contas, no era um objetivo
assim to disparatado. No era como se eu estivesse dizendo, aos 32 anos de idade:
"Quero ser a primeira bailarina do New York City Ballet." Estudar um idioma  algo que
voc de fato pode fazer. Assim, matriculei-me em um daqueles cursos de extenso (mais
conhecidos como Aulas Noturnas para Senhoras Divorciadas). Meus amigos acharam
isso hilrio. Meu amigo Nick perguntou: "Por que voc est estudando italiano? Para
tipo, caso a Itlia um dia volte a invadir a Etipia, e dessa vez consiga, poder se gabar de
dominar uma lngua falada em dois pases?"
Mas eu estava adorando. Cada palavra era para mim o canto de um pardal, um passe de
mgica, uma trufa. Depois da aula, eu voltava para casa pisando nas poas de chuva,
enchia a banheira de gua quente e ficava ali deitada no meio da espuma, lendo o
dicionrio de italiano para mim mesma, sem pensar nas presses do meu divrcio nem na
minha decepo amorosa. As palavras me faziam rir de alegria. Comecei a me referir ao
meu celular como il mio telefonino ("meu telefonezinho"). Virei uma daquelas pessoas
chatas que sempre dizem Ciao! S que eu era ainda mais chata, porque sempre explicava
de onde vem a palavra ciao. (Se estiverem interessados,  uma abreviao de uma
expresso usada pelos venezianos medievais como cumprimento informal: Sono il suo
schiavo! ou seja: "Eu sou o seu escravo.") O simples fato de pronunciar essas palavras
fazia eu me sentir sexy e feliz. A advogada que estava cuidando do meu divrcio me
disse para eu no me preocupar, contando que tinha uma cliente (de origem coreana) que
depois de um divrcio pssimo, havia mudado seu nome oficialmente para alguma coisa
italiana, s para se sentir sexy e feliz novamente. Talvez, no final das contas, eu fosse
mesmo me mudar para a Itlia...

7

A outra coisa importante que estava acontecendo durante aquela poca era a aventura
recm-descoberta da disciplina espiritual. Auxiliada e incentivada,  claro, pela entrada
na minha vida de uma Guru indiana de carne e osso  por quem sempre serei grata a
David. Eu havia sido apresentada  minha Guru na primeira noite em que fora ao
apartamento de David. Praticamente me apaixonei por eles dois ao mesmo tempo. No
quarto dele, em cima da penteadeira, vi uma foto de uma mulher indiana de uma beleza
radiante, e perguntei:
- Quem  essa?
- Essa  a minha mentora espiritual - respondeu ele.
Meu corao quase parou, depois deu uma pirueta e caiu de cara no cho.
Em seguida se levantou, limpou as roupas, respirou fundo e anunciou: "Eu quero uma
mentora espiritual." Eu literalmente quero dizer que foi o meu corao quem disse isso,
falando pela minha boca. Senti uma estranha diviso de mim mesma, e minha mente saiu
do meu corpo por um instante, virou-se de frente para o meu corao, atnita, e
perguntou silencionamente: "Quer MESMO?"
"Quero", respondeu meu corao. "Quero sim"
Ento minha mente perguntou a meu corao, com uma pontinha de sarcasmo: "Desde
QUANDO?"
Mas eu j sabia a resposta: desde aquela noite no cho do banheiro.
Meu Deus, como eu queria uma mentora espiritual. Comecei imediatamente a construir
uma fantasia de como seria ter algum assim. Imaginei que aquela indiana de beleza
radiante iria ao meu apartamento algumas noites por semana, e que ficaramos sentadas
tomando ch e conversando sobre divindade, e ela me daria livros para ler e me explicaria
o significado das estranhas sensaes que eu tinha durante a meditao...
Toda essa fantasia foi rapidamente destruda quando David me revelou a importncia
internacional daquela mulher, falando-me de suas dezenas de milhares de discpulos -
muitos dos quais nunca a encontraram pessoalmente. No entanto, disse ele, ali mesmo em
Nova York os devotos da Guru se reuniam todas as teras-feiras  noite, para meditar e
entoar cnticos.
- Se a idia de estar em uma sala com vrias centenas de pessoas entoando o nome de
Deus em snscrito no assustar voc - disse David -, pode vir quando quiser.
Na noite da tera-feira seguinte fui com ele. Longe de ficar assustada com aquelas
pessoas de aparncia comum cantando para Deus, senti minha alma se elevar, difana,
sustentada pelo cntico. Voltei a p para casa naquela noite, sentindo que o ar podia
passar atravs de mim, como se eu fosse um pano limpo flutuando em um varal, como se
a prpria Nova York houvesse se transformado em uma cidade feita de papel de arroz - e
eu era leve o suficiente para correr por todos os seus telhados. Comecei a ir aos cnticos
todas as teras-feiras. Depois comecei a meditar todas as manhs com o antigo mantra em
snscrito que a Guru d a todos os seus discpulos (o suntuoso Om Namah Shivaya, que
significa Eu honro a divindade que reside em mim). Em seguida, ouvi a Guru falar ao
vivo pela primeira vez, e suas palavras fizeram meu corpo todo se arrepiar, at a pele do
meu rosto. Quando fiquei sabendo que ela administrava um ashram na ndia, tive certeza
de que deveria ir para l assim que pudesse.

8

No meio-tempo, porm, eu precisava fazer uma viagem  Indonsia.
Isso aconteceu, mais uma vez, por causa de um trabalho para uma revista. Bem quando
eu estava me sentindo especialmente deprimida comigo mesma por estar sem dinheiro,
sozinha e presa no Campo de Concentrao dos Divorciados, a editora de uma revista
feminina perguntou se poderia me pagar uma viagem a Bali para escrever uma matria
sobre pessoas que saem de frias para fazer ioga. Por minha vez, fiz a ela uma srie de
perguntas, a maioria na linha de Macaco gosta de banana? e Ser que o cu  azul?
Quando cheguei a Bali (que, para ser sucinta,  um lugar muito agradvel), o instrutor
que administrava o retiro de ioga nos perguntou: "Enquanto vocs esto aqui, algum
gostaria de ir visitar um xam balins de nona gerao?" (outra pergunta bvia demais
para sequer ser respondida); ento, certa noite, fomos todos at a casa dele.
O xam, como pudemos ver, era um velhote baixinho, de olhos alegres, pele morena
avermelhada e uma boca quase sem dentes, cuja semelhana, em todos os aspectos, com
o Yoda de Guerra nas Estrelas era impressionante. Seu nome era Ketut Liyer. Ele falava
um ingls irregular e muito engraado, mas havia um tradutor disponvel para quando ele
empacasse em alguma palavra.
Nosso instrutor de ioga nos dissera antes de irmos que cada um poderia levar uma
pergunta ou um problema para o xam, e ele tentaria nos ajudar com nossas dificuldades.
Eu vinha pensando h dias no que perguntar a ele. Minhas primeiras idias eram
horrveis. O senhor pode fazer o meu marido me dar o divrcio? O senhor pode fazer o
David tornar a sentir teso por mim? Esses pensamentos me faziam sentir vergonha de
mim mesma, e com razo: quem viaja at o outro lado do mundo para encontrar um velho
xam da Indonsia s para lhe pedir para resolver uns problemas de homem?
Ento, quando o velhote me perguntou pessoalmente o que eu queria de verdade,
encontrei outras palavras, mais verdadeiras.
- Eu quero ter uma experincia duradoura de Deus. Algumas vezes eu sinto que entendo a
divindade de Deus, mas depois deixo de entender porque me distraio com meus desejos e
medos mesquinhos. Quero estar com Deus o tempo todo. Mas no quero ser nenhuma
monja, nem abrir mo por completo dos prazeres mundanos. Acho que o que eu quero 
aprender a viver neste mundo e desfrutar seus prazeres, mas tambm me dedicar a Deus.
Ketut disse que podia responder  minha pergunta com uma imagem. Mostrou-me um
esboo que havia desenhado certa vez durante a meditao. Era uma figura humana
andrgina, de p, com as mos unidas em prece. Mas essa figura tinha quatro pernas e
no tinha cabea. Onde deveria estar a cabea, havia apenas um tufo selvagem de
samambaias e flores. Em cima do corao estava desenhado um pequeno rosto sorridente.
- Para encontrar o equilbrio que voc busca -- disse Ketut por intermdio do tradutor --,
 nisso que voc tem de se transformar. Precisa manter os ps plantados com tanta
firmeza na terra que  como se tivesse quatro pernas, em vez de duas. Assim, voc
consegue permanecer no mundo. Mas voc tem de parar de ver o mundo atravs da sua
cabea. Em vez disso, precisa olhar pelo corao. Assim voc vai conhecer Deus.
Ento ele me perguntou se podia ler a minha mo. Eu lhe estendi a esquerda, e ele ento
me decifrou como se eu fosse um quebra-cabea de apenas trs peas.
- Voc  uma viajante do mundo - comeou ele.
Considerei isso um pouco bvio, talvez, j que eu estava na Indonsia, mas no falei
nada...
- Voc tem mais sorte do que qualquer pessoa que eu j conheci. Vai viver muito tempo,
ter muitos amigos, muitas experincias. Vai ver o mundo inteiro. S tem um problema na
sua vida. Voc se preocupa demais. Sempre fica emotiva demais, nervosa demais. Se eu
jurar que voc nunca vai ter nenhum motivo na vida para se preocupar, voc vai acreditar
em mim?
Nervosa, aquiesci, sem acreditar nele.
- No trabalho, voc faz alguma coisa criativa, talvez seja artista, e recebe um bom
dinheiro por isso. Sempre vai receber um bom dinheiro por essa coisa que voc faz. Voc
 generosa com dinheiro, talvez generosa demais. Isso tambm  um problema. Voc vai
perder todo o seu dinheiro uma vez na vida. Acho que talvez isso acontea em breve.
- Acho que talvez isso acontea entre seis e dez meses - falei, pensando no meu divrcio.
Ketut aquiesceu como quem diz, , parece ser mais ou menos isso.
- Mas no se preocupe - disse ele. - Depois de perder todo o seu dinheiro, voc vai
recuperar tudo de novo. Logo vai ficar tudo bem. Voc vai ter dois casamentos na sua
vida. Um curto, outro longo. E vai ter dois filhos...
Esperei ele dizer, "um curto, outro longo", mas de repente ele se calou, franzindo o
cenho, enquanto olhava para minha palma. Ento disse:
- Estranho... - o que  algo que voc nunca quer ouvir nem de quem est lendo sua mo,
nem do seu dentista. Pediu-me para me posicionar bem debaixo da lmpada no teto, para
ele poder ver melhor.
- Eu me enganei - anunciou ele. - Voc s vai ter um filho. Mais tarde, uma menina.
Talvez. Se voc decidir... mas tem mais alguma coisa. - Ele franziu o cenho e em seguida
ergueu o rosto, subitamente tomado pela certeza: - Algum dia, em breve, voc vai voltar
aqui para Bali. Precisa voltar. Vai ficar aqui em Bali durante trs, talvez quatro meses.
Vai ser minha amiga. Talvez fique morando aqui com a minha famlia. Eu posso praticar
o meu ingls com voc. Nunca tive ningum para praticar meu ingls comigo. Acho que
voc  boa com as palavras. Acho que esse trabalho criativo que voc faz tem a ver com
palavras, no tem?
- Tem! - falei. - Eu sou escritora. Sou escritora de livros!
- Voc  uma escritora de livros de Nova York -- disse ele meneando a cabea,
concordando. - Ento voc vai voltar aqui para Bali e me ensinar ingls. E eu vou ensinar
a voc tudo que eu sei.
Ele ento se levantou e esfregou as mos, como quem diz: Ento est combinado.
- Se o senhor estiver falando srio, eu tambm estou - falei.
Ele me olhou com um sorriso de sua boca sem dentes e disse:
- A gente se v.

9

Quando um xam balins de nona gerao lhe diz que o seu destino  se mudar para Bali
e morar com ele durante quatro meses, sou o tipo de pessoa que acha que voc deve se
esforar ao mximo para fazer isso. E foi assim, finalmente, que toda esta minha idia
sobre este ano de viagens comeou a tomar corpo. Eu simplesmente tinha de voltar 
Indonsia de algum jeito, dessa vez por minha conta. Isso era bvio. Mas no conseguia
imaginar como fazer isso, considerando minha vida catica e bagunada. (Eu no apenas
ainda tinha um divrcio caro a resolver, e problemas com David, mas ainda tinha um
emprego em uma revista que me impedia de passar trs ou quatro meses onde quer que
fosse.) Mas eu precisava voltar para l. No precisava? Ele no havia previsto isso? O
problema era que eu tambm queria ir  ndia para visitar o ashram da minha Guru, e ir 
ndia tambm  uma empreitada cara e demorada. Para tornar as coisas ainda mais
confusas, tambm estava louca de vontade de ir  Itlia, para poder praticar meu italiano
no contexto certo, mas tambm porque a idia de passar algum tempo vivendo em meio a
uma cultura onde o prazer e a beleza so reverenciados me atraa.
Todos esses desejos pareciam conflitantes entre si. Sobretudo o conflito Itlia/ndia. O
que era mais importante? A parte de mim que queria comer vitela em Veneza? Ou a parte
de mim que queria acordar bem antes de o dia raiar na austeridade de um ashram para
iniciar um longo dia de meditao e prece? O grande poeta e filsofo sufista Rum certa
vez aconselhara seus discpulos a escrever as trs coisas que mais queriam na vida. Se
qualquer item dessa lista estivesse em conflito com outro, avisava Rumi, o autor estava
fadado  infelicidade. Melhor viver uma vida com um nico foco, ensinou ele. Mas e
quanto s vantagens de se viver em harmonia entre extremos? E se, de alguma forma,
voc pudesse criar uma vida abrangente o bastante para sincronizar opostos
aparentemente incongruentes em uma viso de mundo que no exclusse nada? A minha
verdade era exatamente a que eu havia revelado ao xam de Bali - eu queria vivenciar as
duas coisas. Queria os prazeres do mundo e queria a transcendncia divina - as glrias
duais da vida humana. Eu queria aquilo que os gregos chamavam de kalos kai agathos, o
perfeito equilbrio do bom e do belo. Vinha sentindo falta das duas coisas durante aqueles
ltimos anos difceis, porque tanto o prazer quanto a devoo precisam de um ambiente
sem estresse para florescer, e eu estava vivendo em um imenso compactador de lixo de
ansiedade sem fim. Quanto  maneira de equilibrar a nsia de prazer com o desejo de
devoo-- bom, com certeza haveria uma maneira de aprender a fazer isso. E bastou-me
uma curta estada em Bali para me sugerir que talvez eu pudesse aprender isso com os
balineses. Talvez at com o prprio xam.
Quatro ps no cho, uma cabea cheia de folhagem, olhar para o mundo atravs do
corao...
Ento parei de tentar escolher - Itlia? ndia? Ou Indonsia? -, e acabei admitindo que
queria viajar para os trs lugares. Quatro meses em cada lugar. Um ano ao todo.  claro
que isso era um sonho um pouco mais ambicioso do que "Quero comprar um estojo novo
para mim". Mas era o que eu queria. E eu sabia que queria escrever sobre isso. No era
nem que eu quisesse explorar em detalhes os pases em si; isso j havia sido feito. O que
eu queria era explorar em detalhes um aspecto de mim mesma em relao ao contexto de
cada pas, em um lugar que tradicionalmente fazia muito bem aquela coisa especfica. Eu
queria explorar a arte do prazer na Itlia, a arte da devoo na ndia e, na Indonsia, a arte
de equilibrar as duas coisas. Foi somente mais tarde, depois de admitir esse sonho, que
percebi a feliz coincidncia de que todos esses pases comeam com a letra I, que
significa "eu" em ingls. Isso me pareceu um sinal bastante auspicioso para uma viagem
de autodescoberta.
Agora, imaginem por favor todas as oportunidades de escrnio que essa idia criou para
meus amigos engraadinhos. Ah, eu queria visitar os trs Is? Ento por que no passar o
ano no Ir, na Costa do Marfim (Ivory Coast, em ingls) e na Islndia? Ou, melhor ainda
- por que no fazer uma peregrinao ao grande triunvirato suburbano formado pela
cidade de Islip, pela auto-estra-da I-95 e pela loja de mveis Ikea? Minha amiga Susan
sugeriu que talvez eu devesse fundar uma organizao sem fins lucrativos chamada
"Divorciadas sem Fronteiras". Mas toda essa gozao no adiantou nada, porque o I, ou
seja, "eu", ainda no estava livre para ir aonde quer que fosse. Muito tempo depois de eu
ter abandonado meu casamento, o divrcio ainda estava longe de sair. Comeara a ter de
pressionar meu marido por intermdio dos advogados, fazendo coisas horrveis sadas dos
meus piores pesadelos sobre divrcio, como enviar documentos por oficiais de justia e
assinar acusaes jurdicas formais (exigidas pela lei do estado de Nova York) pela
suposta crueldade mental dele - documentos esses que no deixavam espao para
dvidas, nenhuma brechinha para dizer ao juiz: "Ei, olha s, esse foi um relacionamento
muito complicado, e eu tambm cometi erros terrveis, e sinto muitssimo por isso, mas
tudo que eu quero  que me deixem sair."
(Fao uma pausa aqui para oferecer uma prece a meu gentil leitor: que voc nunca,
jamais precise se divorciar em Nova York.)
A primavera de 2003 levou as coisas ao pice. Um ano e meio depois de eu ter sado de
casa, meu marido estava finalmente disposto a discutir os termos de um acordo. Sim, ele
queria dinheiro, a casa e o contrato de aluguel do apartamento de Manhattan em seu
nome - tudo que eu vinha oferecendo desde o incio. Mas tambm estava pedindo coisas
em que eu jamais havia pensado (uma porcentagem dos royalties dos livros que eu havia
escrito durante o casamento, uma parte dos possveis direitos cinematogrficos do meu
trabalho, uma participao nas minhas contas de previdncia privada etc.) e, nessa hora,
precisei finalmente manifestar meu desacordo. Seguiram-se meses de negociaes entre
nossos advogados, uma espcie de meio-termo comeou lentamente a tomar forma, e
parecia que meu marido poderia de fato aceitar um acordo modificado. Isso iria me custar
uma fortuna, mas uma briga judicial seria infinitamente mais cara e demorada, sem falar
nos danos psicolgicos. Se ele assinasse o acordo, tudo que eu precisaria fazer seria pagar
e ir embora. O que, naquele momento, estava bom para mim. Com nosso relacionamento
agora completamente arruinado, e at mesmo a civilidade destruda entre ns, tudo que
eu queria quela altura era sair porta afora.
A questo era - ser que ele iria assinar? Mais semanas passaram, enquanto ele
contestava outros detalhes. Se ele no concordasse com o acordo, teramos de ir  justia.
Um processo quase certamente significaria que todo msero centavo seria perdido em
honorrios de advogados. Pior de tudo, um processo significaria mais um ano - pelo
menos - de toda aquela confuso. Assim, qualquer que fosse a deciso do meu marido (e
ele ainda era meu marido, no final das contas), ela iria determinar ainda mais um ano da
minha vida. Ser que eu estaria viajando sozinha pela Itlia, pela ndia e pela Indonsia?
Ou estaria prestando depoimento em algum lugar do subsolo de um tribunal durante uma
audincia?
Eu ligava para minha advogada 14 vezes por dia  alguma notcia? -, e todos os dias ela
me garantia que estava fazendo o melhor que podia, e que ligaria imediatamente se o
acordo fosse assinado. O nervosismo que senti durante essa poca foi um misto de um
adolescente esperando ser chamado  sala do coordenador da escola e de um paciente
aguardando o resultado de uma bipsia. Eu adoraria relatar que permaneci calma e zen,
mas no foi isso que aconteceu. Em vrias noites, tomada por ondas de raiva, espanquei
meu sof com um taco de softball. Durante a maior parte do tempo, eu me sentia apenas
dolorosamente deprimida.
Enquanto isso, David e eu havamos terminado de novo. Dessa vez, parecia que era para
valer. Ou talvez no - no conseguamos largar o osso definitivamente. Muitas vezes, eu
ainda era tomada por um desejo de sacrificar tudo pelo amor dele. Em outras, o que eu
sentia era o instinto contrrio - de colocar tantos continentes e oceanos quanto possvel
entre mim e aquele cara, na esperana de encontrar paz e felicidade.
Eu agora tinha rugas no rosto, vincos permanentes e fundos entre as sobrancelhas, de
tanto chorar e me preocupar.
E, no meio disso tudo, um livro que eu havia escrito alguns anos antes estava sendo
publicado em edio de bolso, e eu precisava fazer uma pequena turn de promoo.
Levei minha amiga Iva comigo para me fazer companhia. Iva tinha a mesma idade que
eu, mas havia sido criada em Beirute, no Lbano. O que significa que, enquanto eu
praticava esportes e fazia testes para musicais em uma escola de ensino fundamental de
Connecticut, ela se encolhia em um abrigo antiareo cinco noites por semana, tentando
no morrer. No tenho certeza de como essa exposio precoce  violncia criou algum
que hoje  to estvel, mas Iva  uma das almas mais calmas que conheo. Alm do mais,
ela tem o que chamo de "Batfone para o Universo", algum tipo de canal com o divino
exclusivamente seu, aberto 24 horas por dia.
Ento estvamos atravessando o Kansas de carro, e eu estava em meu estado habitual de
angstia e suores frios em relao ao acordo do divrcio  ser que ele vai assinar, ser
que ele no vai assinar? -, e disse a Iva:
- Acho que no consigo agentar mais um ano de processo. Eu agora queria uma
interveno divina. Queria poder escrever um abaixo-assinado para Deus pedindo para
isto terminar.
-- Ento por que no escreve?
Expliquei para Iva minhas opinies pessoais sobre a prece. Ou seja, que no me sinto 
vontade pedindo coisas especficas para Deus, porque isso me parece uma certa fraqueza
de f. No gosto de pedir: "Ser que o senhor poderia mudar isto ou aquilo na minha vida
que est difcil para mim?" Porque  quem sabe? - Deus pode querer que eu enfrente esse
desafio especfico por algum motivo. Em vez disso, sinto-me mais confortvel rezando
para ter coragem para enfrentar tudo que acontecer na minha vida com equanimidade,
seja o que for.
Iva escutou com educao e, em seguida, perguntou:
- Onde voc arrumou essa idia idiota?
- Como assim?
- Onde arrumou a idia de que no pode fazer um pedido ao universo com uma prece?
Voc faz parte do universo, Liz. Voc  um pedao dele, e tem todo o direito de
participar das aes do universo, e de deixar claros os seus sentimentos. Ento, diga a sua
opinio. Defenda o seu ponto de vista. Acredite em mim: no mnimo, isso vai ser levado
em considerao.
-  mesmo? - Tudo isso era novidade para mim.
- ! Escute, se voc fosse escrever um abaixo-assinado para Deus neste instante, o que
diria?
Pensei um pouco, em seguida saquei um caderninho e escrevi o seguinte:

Querido Deus.
Por favor intervenha e ajude a terminar este divrcio. Meu marido e eu no conseguimos
manter nosso casamento, e agora no estamos conseguindo nos divorciar. Esse processo
venenoso est nos causando sofrimento e a todos aqueles que gostam de ns.
Eu sei que o senhor est ocupado com guerras e tragdias, e com conflitos muito maiores
do que a disputa infindvel de um casal disfuncional. Mas acho que a sade do planeta 
afetada pela sade de cada indivduo que vive nele. Enquanto duas almas quaisquer
estiverem envolvidas em algum conflito, o mundo inteiro ser contaminado por isso. Da
mesma forma, se duas almas quaisquer puderem ser libertadas da discrdia, isso ir
aumentar a sade generalizada do mundo inteiro, do mesmo modo que algumas clulas
saudveis em um corpo podem aumentar a sade generalizada do mundo inteiro, do
mesmo modo que algumas clulas saudveis em um corpo podem aumentar a sade
generalizada desse corpo.
Meu mais humilde pedido, portanto,  que o senhor nos ajude a terminar este conflito, de
modo que mais duas pessoas possam ter a oportunidade de se tornarem livres e
saudveis, e para que haja um pouquinho menos de animosidade e de amargura em um
mundo j to prejudicado pelo sofrimento.
Agradeo-lhe por sua gentil ateno.
Respeitosamente,
Elizabeth M. Gilbert

Li o texto para Iva, e ela aquiesceu, aprovando.
- Eu assinaria esse abaixo-assinado - disse ela.
Entreguei-lhe o abaixo-assinado junto com uma caneta, mas ela estava ocupada dirigindo,
ento falou:
- No, vamos fingir que eu j assinei. Assinei no meu corao.
- Obrigada, Iva. Seu apoio  muito importante.
- Mas quem mais iria assinar? - perguntou ela.
- Minha famlia. Minha me e meu pai. Minha irm.
- Tudo bem - disse ela. - Eles acabaram de assinar. Pode considerar seus nomes escritos.
Pude at sentir quando eles assinaram. Eles agora esto na lista. Ento... quem mais
assinaria? Comece a citar nomes.
Ento comecei a citar os nomes de todas as pessoas que pensei que assinariam aquele
abaixo-assinado. Citei todos os meus amigos mais chegados, depois alguns parentes e
algumas pessoas com quem eu trabalhava. Depois de cada nome, Iva dizia com
segurana: "T bom. Ele acabou de assinar", ou "Ela acabou de assinar". Algumas vezes,
ela sugeria seus prprios signatrios, como: "Meus pais acabaram de assinar. Eles
criaram os filhos durante uma guerra. Detestam conflitos inteis. Ficariam felizes em ver
seu divrcio terminar."
Fechei os olhos e esperei que outros nomes me ocorressem.
- Acho que Bill e Hillary Clinton acabaram de assinar - falei.
- No duvido - disse ela. - Escute, Liz... qualquer um pode assinar esse abaixo-assinado.
Voc entende isso? Chame todo mundo, vivo ou morto, e comece a juntar assinaturas.
- So Francisco de Assis acabou de assinar!
-  claro que sim! - Iva bateu com a mo no volante, decidida.
Agora eu estava embalada:
- Abraham Lincoln acabou de assinar! E Gandhi, e Mandela, e todos os defensores da
paz. Eleanor Roosevelt, Madre Teresa, Bono, Jimmy Carter, Mohamed Ali, Jackie
Robinson e o Dalai Lama... e a minha av que morreu em 1984, e a minha av que ainda
est viva... e o meu professor de italiano, e a minha terapeuta, e a minha agente... e
Martin Luther King Jr. e Katharine Hepburn... e Martin Scorsese (o que no seria
necessariamente de se esperar, mas mesmo assim  gentil da parte dele)... e a minha
Guru,  claro... e Joanne Woodward, e Joana d'Arc, e a sra. Carpenter, minha professora
da terceira srie, e Jim Henson...
Os nomes iam jorrando da minha boca. No pararam de jorrar durante quase uma hora,
enquanto amos atravessando o Kansas, e meu abaixo-assinado da paz comeou a
acumular pginas e mais pginas de signatrios. Iva continuava a confirmar  pronto, ele
assinou; pronto, ela assinou - e eu comecei a ter uma poderosa sensao de estar
protegida, cercada pela boa vontade coletiva de tantas almas importantes.
O ritmo da lista finalmente diminuiu, e minha ansiedade diminuiu com ele. Eu estava
com sono. Iva disse:
- Tire um cochilo. Eu dirijo.
Fechei os olhos. Um ltimo nome surgiu.
- Michael J. Fox acabou de assinar - murmurei e, em seguida, adormeci. No sei quanto
tempo passei dormindo, talvez tenham sido s dez minutos, mas foi um sono profundo.
Quando acordei, Iva ainda estava dirigindo. Ela cantarolava uma musiquinha para si
mesma. Dei um bocejo.
Meu celular tocou.
Olhei para aquele telefonino maluco vibrando de excitao no cinzeiro do carro alugado.
Sentia-me desorientada, meio chapada com o cochilo, e subitamente incapaz de me
lembrar de como funciona um telefone.
- Vamos - disse Iva, j sabendo. - Atenda esse troo.
Peguei o celular, sussurrei um "Al".
- timas notcias! - anunciou minha advogada da longnqua Nova York. - Ele acabou de
assinar!

10

Algumas semanas mais tarde, estava morando na Itlia. Pedi demisso do meu emprego,
paguei o acordo do meu divrcio e os honorrios dos advogados, abri mo da minha casa,
abri mo do meu apartamento, guardei todos os pertences que me restavam na casa da
minha irm e arrumei duas malas. Meu ano de viagem havia comeado. E eu de fato
posso fazer isso devido a um milagre pessoal atordoante: minha editora comprou,
adiantado, o livro que vou escrever sobre as minhas viagens. Em outras palavras, tudo
acabou acontecendo exatamente como o xam indonsio havia previsto. Eu perderia todo
o meu dinheiro, e ele seria imediatamente reposto -- ou pelo menos o suficiente para
me comprar um ano de vida.
Ento agora sou moradora de Roma. O apartamento que encontrei  um pequeno
quitinete em um prdio tombado, localizado a poucos estreitos quarteires da escada da
Piazza d'Espagna, abrigado sob as graciosas sombras do elegante Parque Borghese, na
rua logo acima da Piazza del Popolo, onde os antigos romanos costumavam correr de
carruagem. E claro que esse bairro no tem a extensa grandiosidade do meu antigo bairro
nova-iorquino, que dava para a entrada do Lincoln Tunnel, mas mesmo assim...
Vai servir.

11

A primeira refeio que fiz em Roma no foi nada de mais. Foi s uma massa caseira
(spaghetti carbonara) com uma poro de espinafre refogado com alho. (O grande poeta
romntico Shelley escreveu certa vez uma carta horrorizada para um amigo na Inglaterra
sobre a culinria italiana: "Moas de boa famlia chegam a comer - voc nunca vai
adivinhar o qu - ALHO!") Tambm comi uma alcachofra, s para provar; os romanos
tm muito orgulho de suas alcachofras. Depois houve um outro acompanhamento
surpresa trazido pela garonete, de graa - uma poro de flores de abobrinha fritas com
um pedao de queijo cremoso no centro (preparadas com tanta delicadeza que as flores
provavelmente nem perceberam que no estavam mais no p). Depois do espaguete,
provei a vitela. Ah, e tambm bebi uma garrafa do vinho tinto da casa, sozinha. E comi
um pouco de po morno, com azeite e sal. De sobremesa, tiramis.
Caminhando de volta para casa depois da refeio, por volta das 11 da noite, pude ouvir
barulhos vindos de um dos prdios na minha rua, algo que parecia uma conveno de
crianas de 7 anos - talvez uma festinha de aniversrio? Risos, gritos e crianas correndo.
Subi as escadas at meu apartamento, deitei-me na minha cama nova e apaguei a luz.
Esperei para ver quando ia comear a chorar ou a me preocupar, j que era isso o que
geralmente acontecia comigo quando as luzes estavam apagadas, mas na verdade eu
estava me sentindo bem. Eu estava bem. Sentia os primeiros sintomas do contentamento.
Meu corpo cansado perguntou  minha mente cansada: "Era s disso que voc precisava,
ento?"
No houve resposta. Eu j estava profundamente adormecida.

12

Em todas as grandes cidades do mundo ocidental, algumas coisas so sempre iguais. Os
mesmos africanos esto sempre vendendo cpias das mesmas bolsas e culos de marca, e
os mesmos msicos guatemaltecos esto sempre tocando a mesma msica em suas flautas
de bambu. Mas algumas coisas s existem em Roma. Como o vendedor de sanduches
que me chma com tanta desenvoltura de linda toda vez que nos falamos. Quer este
panino grelhado ou frio, bella? Ou os casais que se abraam e se beijam por toda parte,
como se houvesse algum concurso disso, enroscando-se uns nos outros em bancos de
praa, acariciando os cabelos e partes ntimas uns dos outros, encostando-se e
remexendo-se sem cessar...
E h tambm os chafarizes. Plnio, o Velho, escreveu certa vez: Caso algum um dia
reflita sobre a abundncia do fornecimento pblico de gua em Roma para banhos,
cisternas, calhas, casas, jardins, villas; e caso leve em conta a distncia que ela precise
percorrer, os arcos que precisam atravessar, as montanhas que precisa perfurar, os vales
que precisa transpor  ir reconhecer que nunca houve nada de mais maravilhoso em todo
o mundo.
Alguns sculos depois, eu j tinha alguns candidatos ao posto de meu chafariz romano
predileto. Um deles fica na Villa Borghese. No centro desse chafariz h uma alegre
famlia de bronze. Papai  um fauno, e mame, uma mulher normal. Eles tm um
bebezinho que gosta de comer uvas. Mame e papai esto em uma pose estranha - frente
a frente, segurando os pulsos um do outro, ambos inclinados para trs.  difcil dizer se
esto puxando um ao outro porque esto brigando ou se esto se sacudindo alegremente,
mas h muita energia na cena. Seja como for, a criana est encarapitada em cima de seus
pulsos, bem no meio deles, sem se deixar afetar por sua alegria ou por sua disputa,
mordiscando seu cacho de uvas. Seus pequeninos cascos fendidos balanam abaixo dele,
enquanto ele come. (Ele puxou ao pai.)
E o incio de setembro de 2003. O tempo est quente e preguioso. A essa altura, meu
quarto dia em Roma, minha sombra ainda no recaiu sobre a entrada de nenhuma igreja
ou museu, e tampouco abri um guia. Mas tenho caminhado sem parar e a esmo, e de fato
acabei encontrando o lugarzinho que um motorista de nibus simptico informou vender
O Melhor Gelato de Roma. O lugar se chama "Il Gelato di San Crispino". No tenho
certeza, mas acho que se pode traduzir isso como "o sorvete do santo crespo". Provei uma
mistura dos sabores mel e avel. Voltei mais tarde naquele mesmo dia para provar o de
grapefruit e o de melo. Ento, logo depois do jantar naquela mesma noite, percorri todo
o caminho at l mais uma vez, s para provar um copinho do sorvete de canela com
gengibre.
Venho tentando ler um artigo de jornal inteiro por dia, por mais que demore. Consulto
aproximadamente uma palavra a cada trs no meu dicionrio. A notcia de hoje era
fascinante.  difcil imaginar uma manchete mais dramtica do que: "Obesit! I Bambini
Italiani Sono i Pi Grassi d'Europa!" Meu Deus! Obesidade! Acho que o artigo est
dizendo que os bebs italianos so os mais gordos da Europa! Depois de ler mais, fico
sabendo que os bebs italianos so consideravelmente mais gordos do que os bebs
alemes, e muito consideravelmente mais gordos do que os bebs franceses. (Felizmente,
no havia referncia a qual seria sua comparao com os bebs americanos.) As crianas
italianas mais velhas tambm esto perigosamente obesas nos dias de hoje, diz o artigo.
(A indstria da massa se defendeu.) As alarmantes estatsticas sobre a gordura das
crianas italianas foram reveladas ontem por - essa parte nem  preciso traduzir  "una
task force internazionale" Levei quase uma hora para decifrar o artigo inteiro. Durante
todo o tempo, eu estava comendo uma pizza e escutando uma das crianas italianas tocar
acordeo do outro lado da rua. O menino no me pareceu muito gordo, mas pode ter sido
porque ele era cigano. No tenho certeza se no entendi direito a ltima linha do artigo,
mas parecia que o governo estava dizendo que a nica forma de lidar com a crise de
obesidade na Itlia era instaurar um imposto para quem estivesse acima do peso...? Ser
que isso era verdade? Depois de eu passar alguns meses comendo deste jeito, ser que
vo me prender?
Tambm  importante ler o jornal todos os dias para ver como anda o papa. Aqui, em
Roma, a sade do papa  registrada todos os dias no jornal, do mesmo jeito que a
meteorologia ou a programao de TV. Hoje o papa est cansado. Ontem o papa estava
menos cansado do que hoje. Amanh, esperamos que o papa no esteja to cansado
quanto estava hoje.
Isto aqui  um tipo de paraso do idioma para mim. Para algum que sempre quis falar
italiano, o que poderia ser melhor do que Roma?  como se algum tivesse inventado
uma cidade s para se adequar s minhas especificaes, onde todo mundo (at as
crianas, at os motoristas de txi, at os atores dos comerciais!) fala esta lngua mgica.
Enquanto eu estiver aqui, eles vo at imprimir os jornais em italiano; eles no se
importam! Eles aqui tm livrarias que s vendem livros escritos em italiano! Descobri
uma livraria dessas ontem de manh e tive a sensao de estar entrando em um palcio
encantado. Tudo era em italiano - at as histrias do dr. Seuss. Passeei pela loja, tocando
todos os livros, esperando que algum que me visse pensasse que eu era uma italiana. Ah,
como eu queria que o italiano se revelasse para mim! Essa sensao me lembrava quando
eu tinha 4 anos de idade e ainda no sabia ler, mas estava morrendo de vontade de
aprender. Lembro-me de ficar sentada na sala de espera do consultrio de um mdico
com minha me, segurando uma revista de prendas domsticas na frente do rosto, virando
as pginas devagar, encarando o texto, e esperando que os adultos da sala de espera
pensassem que eu estava lendo de verdade. Desde essa poca eu no me sentia to
carente de compreenso. Encontrei alguns livros de poetas americanos nessa livraria, com
a verso original em ingls impressa em uma pgina e a traduo italiana na outra.
Comprei um volume de Robert Lowell e outro de Louise Glck.
Existem aulas de conversao espontneas por toda parte. Hoje eu estava sentada em um
banco de parque quando uma senhora muito baixinha vestida de preto chegou perto,
sentou-se ao meu lado e comeou a me dar um sermo sobre alguma coisa. Sacudi a
cabea, muda e sem entender. Pedi desculpas, dizendo em um italiano muito educado:
- Desculpe, mas eu no falo italiano -, e ela fez uma cara de quem poderia me bater com
uma colher de pau, se tivesse uma ali. Insistiu:
- Voc est entendendo!
(O interessante  que ela estava certa. Essa frase eu entendi.) Ento quis saber de onde eu
era. Eu lhe disse que era de Nova York, e perguntei de onde ela era. D - ela era de
Roma. Ao ouvir isso, bati palmas como um beb. Ah, Roma! Linda Roma! Eu amo
Roma! Bonita Roma! Ela ficou ouvindo minhas exclamaes primitivas com ceticismo.
Ento foi direto ao assunto e me perguntou se eu era casada. Eu lhe disse que era
divorciada. Aquela era a primeira vez que eu dizia aquilo a algum, e ali estava eu,
dizendo em italiano.  claro que ela perguntou:
- Perch? - Bom... "Por que"  uma pergunta difcil de responder em qualquer idioma.
Gaguejei, e finalmente consegui dizer:
- Labbiamo rotto (Ns terminamos).
Ela aquiesceu, levantou-se, subiu a rua at seu ponto, subiu no nibus e sequer se virou
para olhar para mim novamente. Ser que estava com raiva de mim? Estranhamente,
fiquei esperando por ela naquele banco de parque durante vinte minutos, pensando, de
forma irracional, que ela poderia voltar e continuar nossa conversa, mas ela nunca voltou.
Seu nome era Celeste, pronunciado com um tch duro, como em cello.
Mais tarde, naquele mesmo dia, encontrei uma biblioteca. Ah, como eu adoro uma
biblioteca. J que estamos em Roma, essa biblioteca  um lindo prdio antigo, e no
interior h um jardim que voc nunca teria adivinhado que existia, se houvesse apenas
olhado o lugar da rua. O jardim  um quadrado perfeito, salpicado de ps de laranjeira, e
com um chafariz no centro. Pude ver imediatamente que aquele chafariz seria um
competidor para o posto de meu preferido em Roma, embora ele fosse diferente de todos
os que eu j havia visto. Para comear, no era esculpido em mrmore imperial. Aquele
era um chafariz pequeno, verde, musguento, orgnico. Parecia um tufo de samambaias
desgrenhado e mido. (Na verdade, era exatamente igual  abundante folhagem que
crescia da cabea da figura em postura de prece que o velho xam indonsio havia
desenhado para mim.) A gua jorrava do centro desse arbusto verdejante e, em seguida,
respingava sobre as folhas, fazendo subir pelo jardim inteiro um som lindo e melodioso.
Encontrei um banco debaixo de uma laranjeira e abri um dos livros de poesia que havia
comprado na vspera. Louise Glck. Li o primeiro poema em italiano, depois em ingls,
e me detive na seguinte estrofe:
Dal centro della mia vita venne una grande fontana.
"Do centro da minha vida veio um grande chafariz..."
Larguei o livro no meu colo, trmula de alvio.

13

Verdade seja dita, no sou a melhor viajante do mundo. Sei disso porque j viajei muito,
e conheci pessoas que so timas viajantes. Verdadeiros talentos naturais. Conheci
viajantes que so to fisicamente resistentes que seriam capazes de beber a gua de uma
sarjeta de Calcut em uma caixa de sapatos e no passar mal. Pessoas que absorvem
novos idiomas, enquanto o restante de ns s consegue absorver doenas infecciosas.
Pessoas que sabem como acalmar um guarda de fronteira ameaador ou seduzir um
burocrata pouco cooperativo na seo de vistos. Pessoas que tm a altura e a compleio
certas para parecerem mais ou menos normais em qualquer lugar que estejam - na
Turquia, poderiam muito bem ser turcas, no Mxico so subitamente mexicanas, na
Espanha poderiam ser confundidas com bascos e na frica do Norte algumas vezes
podem passar por rabes...
No tenho essas qualidades. Em primeiro lugar, no passo despercebida. Alta, loura e
com a pele cor-de-rosa, sou to camaleoa quanto um flamingo. Onde quer que eu v, 
exceo de Dusseldorf, eu me destaco de forma gritante. Quando fui  China, as mulheres
costumavam se aproximar de mim na rua e me apontar para seus filhos como se eu fosse
algum animal que houvesse fugido do zoolgico. E seus filhos -- que nunca haviam visto
nada parecido com essa pessoa de rosto rosado e cabelos amarelos que mais parece um
fantasma - muitas vezes abriam o berreiro ao me ver. Realmente detestei isso na China.
Tenho pouco talento (ou melhor, tenho preguia) para pesquisar um lugar antes de viajar,
e minha tendncia  simplesmente aparecer e ver o que acontece. Quando voc viaja
assim, o que tipicamente "acontece"  que voc acaba passando um tempo parado no
meio da estao de trem sem saber o que fazer, ou gastando dinheiro demais em hotis
por estar desinformado. Meu precrio senso de orientao e geografia significa que
explorei seis continentes na vida tendo apenas a mais vaga das idias de onde estava
naquele momento. Alm da minha bssola interna avariada, tambm no tenho grandes
reservas de sangue-frio, o que pode ser um problema em viagem. Nunca aprendi a dar ao
meu rosto aquela expresso de invisibilidade competente to til quando se viaja por
lugares perigosos e desconhecidos. Vocs sabem-- aquela expresso de algum que est
totalmente relaxado, inteiramente no controle da situao, que faz voc parecer estar em
casa em qualquer lugar, em todos os lugares, at mesmo no meio de uma rebelio em
Jacarta. Ah, no. Quando no sei o que estou fazendo, tenho cara de quem no sabe o que
est fazendo. Quando estou animada ou nervosa, tenho cara de animada ou nervosa. E
quando estou perdida, o que  freqente, tenho cara de perdida. Meu rosto  um
transmissor transparente de cada pensamento meu. Como David disse certa vez: "O seu
rosto  o oposto do rosto de quem joga pquer. Parece o rosto de quem joga... minigolfe."
E, ah, que tormentos as viagens j inflingiram a meu sistema digestivo! No quero
mesmo ficar colocando minhocas na sua cabea (com o perdo da expresso), mas acho
que basta dizer que j vivenciei todas as mais dramticas emergncias digestivas. No
Lbano, certa noite passei to mal que s podia pensar que, de alguma forma, havia
contrado uma verso do Oriente Mdio do vrus Ebola. Na Hungria, padeci de um mal
intestinal inteiramente diferente, que mudou para sempre a minha relao com a
expresso "bloco socialista". Mas tambm tenho outras fraquezas fsicas. Dei um jeito
nas costas no primeiro dia de viagem pela frica, fui o nico membro do meu grupo a
sair das florestas da Venezuela com picadas de aranha infeccionadas, e pergunto a vocs
-- por favor! -- quem  que consegue uma queimadura de sol em Estocolmo?
Mesmo assim, apesar de tudo isso, viajar  a verdadeira grande paixo da minha vida.
Sempre senti, desde que tinha 16 anos e fui  Rssia pela primeira vez com o dinheiro
que juntei cuidando de crianas, que viajar compensa qualquer custo ou sacrifcio. Sou
leal e constante em meu amor pelas viagens, de um modo como nem sempre fui leal e
constante em relao s minhas outras paixes. Tenho pelas viagens o mesmo sentimento
que uma feliz nova mame tem por seu recm-nascido barulhento, irrequieto e cheio de
clicas - simplesmente no ligo para o que elas me fazem suportar. Porque eu as adoro.
Porque elas so minhas. Porque so exatamente a minha cara. Elas podem golfar em cima
de mim se quiserem - eu simplesmente no ligo.
Mas enfim, para um flamingo, no sou assim to impotente. Tenho meu prprio conjunto
de tcnicas de sobrevivncia. Sou paciente. Sei fazer uma mala levinha. No tenho medo
de comer nada. Mas meu maior talento em relao s viagens  que consigo fazer
amizade com qualquer pessoa. Consigo fazer amizade com os mortos. Certa vez, fiquei
amiga de um criminoso de guerra na Srvia, e ele me convidou para passar as frias com
sua famlia nas montanhas. No que eu tenha orgulho de ter assassinos em massa srvios
na lista das minhas pessoas mais queridas (precisei ficar amiga dele por causa de um
trabalho, e tambm para que ele no me desse um soco), mas s estou dizendo que posso
fazer isso. Se no tiver mais ningum com quem conversar, eu provavelmente poderia
ficar amiga de um fradinho de rua.  por isso que no tenho medo de viajar para os
lugares mais distantes do mundo, no se l houver seres humanos que eu possa encontrar.
Antes de eu viajar para a Itlia, as pessoas me perguntavam: "Voc tem amigos em
Roma?", e eu simplesmente fazia que no com a cabea, pensando comigo mesma: Mas
vou ter.
Na maior parte das vezes, voc conhece seus amigos de viagem por acidente, como
quando algum se senta ao seu lado em um trem, ou em um restaurante, ou na cela de
alguma delegacia. Mas esses so encontros aleatrios, e voc nunca deve confiar apenas
no acaso. Para uma abordagem mais sistemtica, ainda existe o maravilhoso antigo
sistema da "carta de apresentao" (hoje mais provavelmente um e-mail) apresentando
voc formalmente ao amigo de um amigo. Essa  uma tima forma de conhecer pessoas,
se voc tiver cara-de-pau suficiente para dar o primeiro telefonema e se convidar para
jantar. Assim, antes de viajar para a Itlia, perguntei a todo mundo que eu conhecia nos
Estados Unidos se eles tinham algum amigo em Roma, e fico feliz em informar que
embarquei no avio com uma lista respeitvel de contatos italianos.
Entre todos os indicados  minha Lista de Novos Amigos Italianos em Potencial, estou
mais curiosa para conhecer um cara chamado... preparem-se... Luca Spaghetti. Luca
Spaghetti  muito amigo do meu grande amigo Patrick McDevitt, que conheo desde a
faculdade. E esse  o nome de verdade dele, juro por Deus, no estou inventando. 
incrvel demais. Quero dizer - pensem um pouco. Imaginem o que  passar a vida inteira
com um nome como Patrick McDevitt?
De qualquer forma, estou planejando entrar em contato com Luca Spaghetti o mais rpido
possvel.
14

Mas primeiro preciso resolver a questo da escola. Minhas aulas comeam hoje na
Academia de Estudos de Idiomas Leonardo da Vinci, onde estudarei italiano cinco dias
por semana, quatro horas por dia. Estou superanimada com essas aulas. Adoro ser
estudante. Escolhi minhas roupas todas na noite passada, do mesmo jeito que fiz na
vspera do meu primeiro dia de aula no C.A., com meus sapatos de verniz e minha
lancheira nova. Espero que a professora goste de mim.
No primeiro dia na Leonardo da Vinci, todos temos de fazer um teste de nivelamento
para sermos colocados na turma certa segundo nossos conhecimentos de italiano. Quando
fiquei sabendo disso, imediatamente comecei a esperar que no me colocassem em uma
turma de nvel um, porque isso seria humilhante, uma vez que eu j tinha feito um
semestre inteiro de aulas de italiano na minha Escola Noturna para Senhoras Divorciadas
em Nova York, e uma vez que havia passado o vero memorizando fichas, e uma vez que
estava em Roma j fazia uma semana, treinando o idioma em primeira mo, tendo
chegado at a conversar com vovozinhas sobre divrcio. O problema  que no sei
quantos nveis esta escola tem mas, assim que escutei a palavra nvel, resolvi que
precisava entrar no nvel dois -- pelo menos.
Ento hoje est chovendo a cntaros, e chego cedo  escola (como sempre cheguei  CDF
!) e fao o teste. Que teste mais difcil! No consigo fazer nem um dcimo. Sei tanto
italiano, conheo dzias de palavras em italiano, mas eles no me perguntam nada do que
eu sei. Depois vem uma prova oral, que  ainda pior. Um professor de italiano bem
magrinho chega para me entrevistar, falando rpido demais, na minha opinio, e eu
deveria estar fazendo uma prova bem melhor, mas estou nervosa e erro coisas que j sei
(por exemplo: por que falei Vado a scuola em vez de Sono andata a scuola! Isso eu sei!).
No final das contas, fica tudo bem. O professor de italiano magrinho olha minha prova e
escolhe a minha turma:
Nvel DOIS!
As aulas comeam  tarde. Ento saio para almoar (endvias na brasa), depois volto
saltitando para a escola e passo com ar de superioridade pelos alunos do nvel um (que
devem ser molto stupido mesmo) e entro na minha primeira aula. Com meus colegas. S
que rapidamente fica bvio que aqueles no so meus colegas, e que no tenho nada que
estar ali, porque o nvel dois , na verdade, muito difcil. Tenho a sensao de estar
conseguindo no me afogar, mas  por pouco. A cada respirao, engulo mais gua. O
professor, um cara magrinho (por que os professores aqui so to magrinhos? No confio
em italianos magros), avana depressa demais, pulando captulos inteiros do livro,
dizendo: "Isto vocs j sabem, isto aqui tambm...", e mantendo um dilogo rapidssimo
com meus colegas aparentemente fluentes. Meu estmago se contrai de terror, e fico
tentando respirar e rezando para ele no me chamar. Assim que chega a hora do intervalo,
saio correndo da sala com as pernas bambas e disparo at a sala da administrao, quase
chorando, onde pergunto em um ingls muito claro se eles poderiam, por favor, me
passar para uma turma de nvel um. Coisa que eles fazem. E agora estou aqui.
Este professor  gordinho e fala devagar. Bem melhor.

15
O interessante em relao  minha aula de italiano  que ningum na verdade precisa
estar aqui. Somos 12 pessoas estudando juntas, de todas as idades, de todos os cantos do
mundo, e todos vieram para Roma pelo mesmo motivo - aprender italiano s porque
esto com vontade- Nenhum de ns  capaz de citar uma nica razo prtica para estar
aqui. O chefe de ningum disse: " fundamental voc aprender italiano para podermos
fazer nossos negcios internacionais." Todo mundo, at mesmo o srio engenheiro
alemo, compartilha o que eu pensava ser o meu motivo particular: todos ns queremos
falar italiano porque adoramos a sensao que o idioma nos d. Uma russa de expresso
triste nos diz que est fazendo aulas de italiano porque "eu acho que mereo alguma coisa
bonita". O engenheiro alemo diz: "Eu quero italiano porque adoro a dolce vita" -- a vida
bela. (S que, com seu sotaque alemo duro, acaba parecendo que ele est dizendo que
adora a "deustsche vita" - a vida alem -, coisa que tenho certeza de que ele j teve
bastante).
Como descobrirei ao longo dos prximos meses, na verdade h alguns bons motivos para
o italiano ser a lngua mais bela e sedutora do mundo, e para eu no ser a nica pessoa
que pensa assim. Para entender o porqu, voc primeiro precisa entender que a Europa
era uma confuso de inmeros dialetos derivados do latim que aos poucos, ao longo dos
sculos, se transformaram em alguns idiomas distintos - francs, portugus, espanhol,
italiano. O que aconteceu na Frana, em Portugal e na Espanha foi uma evoluo
orgnica: o dialeto da cidade mais proeminente se tornou, aos poucos, a lngua oficial da
regio toda. Portanto, o que hoje chamamos de francs  na verdade uma verso do
parisiense medieval. O portugus  na verdade o lisboeta. O espanhol  essencialmente o
madrilenho. Essas so vitrias capitalistas; a cidade mais forte acabou determinando o
idioma do pas inteiro.
Na Itlia foi diferente. Uma diferena importante foi que, durante muito tempo, a Itlia
sequer foi um pas. Ela s se unificou bem tarde (1861) e, at ento, era uma pennsula de
cidades-Estado em guerra entre si, dominadas por orgulhosos prncipes locais ou por
outras potncias europias. Partes da Itlia pertenciam  Frana, partes  Espanha, partes
 Igreja, e partes a quem quer que conseguisse conquistar a fortaleza ou o palcio local. O
povo italiano se mostrava alternativamente humilhado e conformado com toda essa
dominao. A maioria no gostava muito de ser colonizada por seus co-cidados
europeus, mas sempre havia aquele bando aptico que dizia: "Franza o Spagna, purch
se magna", que, em dialeto, significa: "Frana ou Espanha, contanto que eu possa
comer."
Toda essa diviso interna significa que a Itlia nunca se unificou adequadamente, e o
mesmo aconteceu com a lngua italiana. Assim, no  de espantar que, durante sculos, os
italianos tenham escrito e falado dialetos locais incompreensveis para quem era de outra
regio. Um cientista florentino mal conseguia se comunicar com um poeta siciliano ou
com um comerciante veneziano (exceto em latim, que no chegava a ser considerada a
lngua nacional). No sculo XVI, alguns intelectuais italianos se juntaram e decidiram
que isso era um absurdo. A pennsula italiana precisava de um idioma italiano, pelo
menos na forma escrita, que fosse comum a todos. Ento esse grupo de intelectuais fez
uma coisa indita na histria da Europa; escolheu a dedo o mais bonito dos dialetos locais
e o batizou de italiano.
Para encontrar o dialeto mais bonito, eles precisaram recuar duzentos anos, at a Florena
do sculo XIV. O que esse grupo decidiu que a partir dali seria considerada a lngua
italiana correta foi a linguagem pessoal do grande poeta florentino Dante Alighieri. Ao
publicar sua Divina Comdia, em 1321, descrevendo em detalhes uma jornada visionria
pelo Inferno, Purgatrio e Paraso, Dante havia chocado o mundo letrado ao no escrever
em latim. Considerava o latim um idioma corrupto, elitista, e achava que o seu uso na
prosa respeitvel havia "prostitudo a literatura", transformando a narrativa universal em
algo que s podia ser comprado com dinheiro, por meio dos privilgios de uma educao
aristocrtica. Em vez disso, Dante foi buscar nas ruas o verdadeiro idioma florentino
falado pelos moradores da cidade (o que inclua ilustres contemporneos seus, como
Boccaccio e Petrarca), e usou esse idioma para contar sua histria.
Ele escreveu sua obra-prima no que chamava de dolce stil nuovo, o doce estilo novo" do
vernculo, e moldou esse vernculo ao mesmo tempo que escrevia, atribuindo-lhe uma
personalidade de uma forma to pessoal quanto Shakespeare um dia faria com o ingls
elizabetano. O fato de um grupo de intelectuais nacionalistas se reunir muito mais tarde e
decidir que o italiano de Dante seria, a partir dali, a lngua oficial da Itlia seria mais ou
menos como se um grupo de acadmicos de Oxford houvesse se reunido um dia no
sculo XIX e decidido que - daquele ponto em diante - todo mundo na Inglaterra iria falar
o puro idioma de Shakespeare. E a manobra realmente funcionou.
O italiano que falamos hoje, portanto, no  o romano ou o veneziano (embora essas
cidades fossem poderosas do ponto de vista militar e comercial), e sequer  inteiramente
florentino. O idioma  fundamentalmente dantesco. Nenhum outro idioma europeu tem
uma linhagem to artstica. E, talvez, nenhum outro idioma jamais tenha sido to
perfeitamente ordenado para expressar os sentimentos humanos quanto esse italiano
florentino do sculo XIV, embelezado por um dos maiores poetas da civilizao
ocidental. Dante escreveu sua Divina Comdia em terza rima, tera rima, uma cadeia de
versos em que cada rima se repete trs vezes a cada cinco linhas, o que d a esse belo
vernculo florentino o que os estudiosos chamam de "ritmo em cascata" - ritmo esse que
sobrevive at hoje no falar cadenciado e potico dos taxistas, aougueiros e funcionrios
pblicos italianos. A ltima linha da Divina Comdia, em que Dante se depara com a
viso de Deus em pessoa,  um sentimento que ainda pode ser facilmente compreendido
por qualquer um que conhea o chamado italiano moderno. Dante escreve que Deus no
 apenas uma imagem ofuscante de luz gloriosa, mas que Ele , acima de tudo, l'amor
che move il sole e l'altre stelle...
"O amor que move o Sol e as outras estrelas."
Ento no  mesmo de se espantar que eu quisesse to desesperadamente aprender esse
idioma.

16

Depois de cerca de dez dias na Itlia, a Depresso e a Solido acabam me encontrando.
Estou passeando pela Villa Borghese certa tarde, depois de um agradvel dia de aula, e o
sol est se pondo em tons de dourado acima da Baslica de So Pedro. Sinto-me contente
neste cenrio romntico, mesmo estando completamente sozinha, enquanto todas as
outras pessoas no parque esto acariciando um amante ou brincando com uma criana
risonha. Mas quando paro e me apio em uma balaustrada para admirar o pr-do-sol,
acabo pensando um pouco demais, e meus pensamentos se tornam sombrios, e  ento
que as duas me encontram.
Aproximam-se de mim, silenciosas e ameaadoras como detetives particulares, e me
cercam - a Depresso pela esquerda, a Solido pela direita. Sequer precisam me mostrar
seus distintivos. Eu as conheo muito bem. H anos que temos brincado de gato e rato.
Embora eu reconhea que estou surpresa por encontr-las neste elegante jardim italiano
ao entardecer. Elas no combinam com este lugar.
Pergunto a elas:
"Como vocs me encontraram aqui? Quem disse a vocs que eu tinha vindo para Roma?"
A Depresso, sempre bancando a esperta, diz:
"Como assim, voc no est feliz em nos ver?"
"V embora", digo a ela.
A Solido, a mais sensvel das duas, diz:
"Desculpe, mas eu talvez precise seguir a senhora durante toda a sua viagem.  a minha
misso."
"Eu preferiria que voc no fizesse isso", digo-lhe, e ela d de ombros, quase pedindo
desculpas, mas se aproximando ainda mais.
Ento elas me revistam. Esvaziam meus bolsos de qualquer alegria que eu estivesse
carregando aqui. A Depresso chega a confiscar minha identidade; mas ela sempre faz
isso. Ento a Solido comea a me interrogar, coisa que detesto, porque sempre dura
horas. Ela  educada, mas implacvel, e sempre acaba me encurralando. Pergunta se eu
acho que tenho algum motivo para estar feliz. Pergunta por que estou sozinha esta noite,
outra vez. Pergunta (embora j tenhamos passado por esse mesmo interrogatrio vezes
sem conta) por que no consigo manter um relacionamento, por que arruinei meu
casamento, por que estraguei tudo com David, por que estraguei tudo com todos os
homens com quem j estive. Pergunta-me onde eu estava na noite em que completei 30
anos, e por que as coisas azedaram tanto desde ento. Pergunta por que no consigo me
recuperar, e por que no estou nos Estados Unidos, morando em uma bela casa e criando
belos filhos, como qualquer mulher respeitvel da minha idade deveria fazer. Pergunta
por que, exatamente, eu acho que mereo umas frias em Roma, quando transformei
minha vida em tamanho caos. Pergunta por que acho que fugir para a Itlia como uma
estudante universitria vai me fazer feliz. Pergunta onde acho que vou estar quando ficar
velha, se continuar vivendo assim.
Volto a p para casa, esperando conseguir me livrar delas, mas elas continuam a me
seguir, essas duas capangas. A Depresso me segura firme pelo ombro e a Solido me
bombardeia com seu interrogatrio. Sequer tenho foras para jantar; no quero que elas
fiquem me espionando. Tambm no quero que subam as escadas at o meu apartamento,
mas conheo a Depresso, e sei que ela carrega um cassetete, entto no h como impedi-
la de entrar, se ela decidir que quer fazer isso.
"No  justo vocs virem aqui", digo  Depresso. "J paguei vocs. J cumpri a minha
pena l em Nova York."
Mas ela simplesmente me d aquele sorriso sombrio, acomoda-se em minha cadeira
preferida e acende um charuto, enchendo o aposento com sua fumaa desagradvel. A
Solido olha aquela cena e d um suspiro, em seguida deita-se na minha cama e se cobre
com as cobertas, inteiramente vestida, de sapato e tudo. Estou sentindo que vai me
obrigar a dormir com ela de novo esta noite.

17
Eu havia parado de tomar meu remdio poucos dias antes. Parecia-me simplesmente uma
loucura tomar antidepressivos na Itlia. Como  que eu poderia ficar deprimida aqui?
Nunca quis tomar remdios, para comeo de conversa. Passara muito tempo lutando para
no tom-los, sobretudo devido a uma longa lista de objees pessoais (por exemplo: os
americanos tomam remdios demais; ainda no sabemos que efeito esse negcio tem no
crebro a longo prazo;  um crime o fato de at as crianas americanas tomarem
antidepressivos nos dias de hoje; estamos tratando os sintomas, no as causas, de uma
emergncia nacional na rea da sade mental...). Mesmo assim, durante os ltimos anos
da minha vida, no havia dvida de que eu estava enfrentando graves problemas, e de que
esses problemas no estavam indo embora depressa. Conforme meu casamento se
desintegrava e meu drama com David se desenvolvia, eu passara a apresentar todos os
sintomas de uma depresso grave - perda de sono, apetite e desejo sexual, crises de choro
incontroiveis, dores crnicas nas costas e no estmago, instrospeco e desespero,
dificuldade para me concentrar no trabalho, incapacidade at mesmo para me importar
com o fato de os republicanos terem acabado de roubar uma eleio presidencial... a lista
era infindvel.
Quando se est perdido nessa selva, algumas vezes  preciso algum tempo para voc se
dar conta de que est perdido. Durante muito tempo, voc pode se convencer de que s se
afastou alguns metros do caminho, de que a qualquer momento ir conseguir voltar para a
trilha marcada. Ento a noite cai, e torna a cair, e voc continua sem a menor idia de
onde est, e  hora de reconhecer que se afastou tanto do caminho que sequer sabe mais
em que direo o sol nasce.
Encarei minha depresso como se fosse o maior desafio da minha vida, e  claro que era
mesmo. Passei a estudar minha prpria experincia depressiva, tentando desvendar suas
causas. O que estava na raiz de todo aquele desespero? Seria psicolgico? (Culpa de
mame e papai?) Seria apenas temporrio, um "perodo difcil" da minha vida? (Quando
o divrcio terminar, ser que a depresso vai terminar tambm?) Seria gentico? (A
Melancolia, chamada de muitos nomes, aflige minha famlia h geraes, junto com seu
triste noivo, o Alcoolismo.) Seria cultural? (Ser que isso  apenas a ressaca de uma
americana ps-feminista que trabalha tentando encontrar o equilbrio em um mundo
urbano cada vez mais estressante e alienante?) Seria astrolgico? (Ser que estou to
triste porque sou uma canceriana sensvel cujas principais caractersticas so todas
regidas pelo instvel Gmeos?) Seria artstico? (As pessoas criativas no sofrem sempre
de depresso por serem ultra-sensveis e especiais?) Seria evolucionrio? (Ser que
carrego comigo o pnico residual que vem de milnios de tentativas da minha espcie de
sobreviver em um mundo brutal?) Seria crmico? (Ser que esses espasmos de tristeza
so apenas as conseqncias de um mau comportamento em vidas passadas, os ltimos
obstculos antes da libertao? Seria hormonal? Nutricional? Filosfico? Sazonal?
Ambiental? Ser que eu estava experimentando uma nsia universal por Deus? Ser que
estava com um desequilbrio qumico? Ou ser que eu simplesmente precisava transar?)
Que quantidade incrvel de fatores constitui um nico ser humano! Em quantas camadas
ns funcionamos, e que quantidade de influncias recebemos de nossas mentes, corpos,
histrias, famlias, cidades, almas e almoos! Passei a ter a sensao de que minha
depresso se devia provavelmente a uma combinao instvel de todos esses fatores, e
provavelmente tambm inclua algumas coisas que eu no saberia nem identificar nem
explicar. Ento, passei a lutar em todas as frentes. Comprei todos aqueles livros de auto-
ajuda com ttulos ridculos (sempre tomando o cuidado de embrulhar o livro na ltima
edio de alguma revista masculina, para que desconhecidos no soubessem o que eu
estava de fato lendo). Comecei buscando ajuda especializada com uma terapeuta cuja
gentileza estava  altura de sua competncia profissional. Rezei como uma freira novia.
Parei de comer carne (pelo menos por algum tempo) depois que algum me disse que eu
estava "comendo o medo do animal na hora de sua morte". Algum massagista esotrico
meio doido me disse que eu deveria usar calcinhas cor de laranja para reequilibrar meus
chacras sexuais, e, putz - eu realmente fiz isso. Bebi quantidades suficientes daquele
maldito ch de erva-de-so-joo para alegrar um gulag russo inteiro, sem nenhum efeito
perceptvel. Fiz exerccios. Expus-me ao poder de revigorao da arte e protegi-me
cuidadosamente de filmes, livros e canes tristes (se algum mencionasse as palavras
Leonard e Cohen na mesma frase, eu precisava sair da sala).
Tentei muito lutar contra os soluos constantes. Lembro-me de me perguntar certa noite,
enquanto estava encolhida no mesmo canto do meu velho sof, novamente aos prantos
por causa da mesma repetio de pensamentos tristes: "Ser que voc consegue mudar
alguma coisa nesse quadro, Liz?" E tudo que eu conseguia pensar em fazer era me
levantar, ainda aos soluos, e tentar me equilibrar em um p s no meio da minha sala. S
para provar que - embora eu no conseguisse fazer as lgrimas pararem de correr, nem
modificar meu desolador dilogo interno -- eu ainda no estava inteiramente fora de
controle: pelo menos podia chorar histericamente, enquanto me equilibrava em um p s.
Ora, j era um comeo.
Eu atravessava a rua para caminhar onde havia sol. Apoiava-me em minha rede pessoal,
aproximando-me da minha famlia e alimentando minhas amizades mais energizantes. E,
quando aquelas revistas femininas intrometidas no paravam de me dizer que minha
baixa auto-estima no estava ajudando em nada a curar a depresso, fiz um bonito corte
de cabelos, comprei alguns produtos caros de maquiagem e um belo vestido. (Quando um
amigo elogiou meu novo visual, tudo que consegui dizer, de cara fechada, foi: "Operao
Auto-Estima - Porra de Dia Um.")
A ltima coisa que tentei, depois de dois anos de luta contra essa tristeza, foi tomar
remdios. Se me permitem expor minhas opinies aqui, acho que isso sempre deve ser a
ltima coisa a se tentar. Para mim, a deciso de tomar o caminho da "Vitamina P"
aconteceu depois de uma noite em que eu havia passado horas sentada no cho do meu
quarto, tentando seriamente convencer a mim mesma a no cortar meu prprio brao com
uma faca de cozinha. Nessa noite, ganhei a discusso com a faca, mas foi por pouco.
Naquela poca, andava tendo algumas outras boas idias - sobre como pular do alto de
um prdio ou explodir minha cabea com um tiro poderia pr fim ao sofrimento Mas
alguma coisa no fato de passar a noite com uma faca na mo me fez ver a situao com
outros olhos.
Na manh seguinte, liguei para minha amiga Susan bem cedinho e implorei-lhe que me
ajudasse. Acho que nenhuma mulher na histria da minha famlia fez isso antes, sentar-se
no meio da estrada daquele jeito e dizer, na metade da vida: "No consigo dar mais
nenhum passo - algum precisa me ajudar." Parar de andar no teria adiantado nada para
aquelas mulheres. Ningum as teria ajudado, nem poderia. A nica coisa que teria
acontecido era que elas e suas famlias teriam passado fome. Eu no conseguia parar de
pensar nessas mulheres.
E nunca vou me esquecer da expresso de Susan ao entrar correndo no meu apartamento,
cerca de uma hora depois do meu telefonema pedindo socorro, e me ver encolhida no
sof. A imagem da minha dor refletida no visvel medo que ela sentiu pela minha vida
ainda  para mim uma das lembranas mais assustadoras de todos aqueles anos
assustadores. Fiquei encolhida em posio fetal, enquanto Susan dava alguns telefonemas
e encontrava um psiquiatra que pudesse me atender naquele mesmo dia para conversar
sobre a possibilidade de me receitar antidepressivos. Escutei metade daquele dilogo
telefnico de Susan com o mdico, e ouvi-a dizer: "Acho que minha amiga vai se
machucar seriamente." Eu tambm estava com medo.
Quando fui  consulta com o psiquiatra, naquela tarde, ele me perguntou por que eu havia
demorado tanto a pedir ajuda -- como se eu j no estivesse tentando ajudar a mim
mesma havia muito tempo. Eu lhe falei sobre minhas objees e minhas reservas em
relao aos antidepressivos. Pus em cima da mesa dele exemplares dos trs livros que eu
j havia publicado e disse: "Eu sou escritora. Por favor, no faa nada que v prejudicar
meu crebro. Ele disse: "Se voc estivesse com uma doena renal, no hesitaria em tomar
remdios para cur-la - por que est hesitando neste caso?" Mas isso s mostrava o
quanto ele era ignorante em relao  minha famlia, entendem? Um Gilbert poderia
muito bem no medicar uma doena renal, no hesitaria em tomar remdios para cur-la -
por que est hesitando neste caso?" Mas isso s mostrava o quanto ele era ignorante em
relao  minha famlia, entendem? Um Gilbert poderia muito bem no medicar uma
doena renal, j que somos uma famlia que considera qualquer doena um sinal de
fracasso pessoal, tico e moral.
Ele me receitou vrios remdios diferentes - Xanax, Zoloft, Wellbutrin, Busperin -, at
encontrar a combinao que no me deixasse enjoada nem transformasse minha libido em
uma vaga lembrana. Em pouco tempo, menos de uma semana, pude sentir um pouco
mais de luz irromper em minha mente. Tambm finalmente consegui dormir. E esse foi o
verdadeiro presente, porque, quando voc no consegue dormir, no consegue sair do
buraco - no h nenhuma chance. As plulas me devolveram essas horas de recuperao
noturna, e tambm impediram minhas mos de tremer e aliviaram a intensa presso no
meu peito e o boto de emergncia apertado dentro do meu corao.
Mesmo assim, nunca me senti muito bem tomando esses remdios, embora eles tenham
me ajudado imediatamente. Pouco importava quem me dissesse que esses remdios eram
uma boa idia e que eram perfeitamente seguros; tom-los nunca deixou de ser um
conflito para mim. Os remdios faziam parte da minha ponte para o outro lado, no h
dvida, mas eu queria parar assim que possvel. Comecei a tomar a medicao em janeiro
de 2003. Em maio, j estava diminuindo significativamente a dosagem. De toda forma,
aqueles haviam sido os meses mais difceis - os ltimos meses do divrcio, os ltimos
turbulentos meses com David. Ser que eu teria suportado essa poca sem os remdios, se
tivesse segurado um pouco mais? Ser que teria sobrevivido a mim mesma sozinha? No
sei.  essa a caracterstica da vida humana -- no h grupo placebo, no h nenhuma
maneira de saber como qualquer um de ns teria se comportado caso qualquer uma das
variveis houvesse mudado.
O que sei  que esses remdios fizeram meu pesar parecer menos catastrfico. Ento, sou
grata por isso. Mas ainda sou profundamente ambivalente em relao a remdios que
alteram o humor. Fico pasma com seu poder, mas preocupada com sua difuso, acho que
precisam ser receitados e usados com muito mais moderao nos Estados Unidos, e
nunca sem o tratamento paralelo de um aconselhamento psicolgico. Medicar o sintoma
de qualquer doena sem explorar sua causa inicial  apenas um modo classicamente burro
e ocidental de achar que qualquer um poderia melhorar de verdade. Essas plulas podem
ter salvado a minha vida, mas s fizeram isso em conjuno com cerca de outros vinte
esforos que eu estava fazendo simultaneamente, durante aquele mesmo perodo, para
resgatar a mim mesma, e espero nunca mais precisar delas. Houve um mdico que
sugeriu que eu poderia precisar tomar antidepressivos muitas vezes na vida por causa da
minha "tendncia  melancolia". Queira Deus que ele esteja errado. Pretendo fazer tudo
que estiver ao meu alcance para provar que ele est errado, ou pelo menos para lutar
contra essa tendncia melanclica com todas as ferramentas disponveis. No sei dizer se
isso faz de mim uma cabea-dura que est prejudicando a si mesma, ou uma cabea-dura
que est preservando a si mesma.
Mas  assim que eu penso.

18

Ou melhor,  aqui que estou. Estou em Roma, e estou em apuros. As capangas Depresso
e Solido tornaram a entrar na minha vida sem pedir licena, e acabei de tomar meu
ltimo Wellbutrin trs dias atrs. H mais remdios na minha ltima gaveta, mas no
quero tom-los. Quero ficar livre deles para sempre. Mas tambm no quero a Depresso
e a Solido na rea, ento no sei o que fazer, e estou entrando em uma espiral de pnico,
como sempre entro quando no sei o que fazer. Ento o que fao esta noite  pegar meu
caderninho mais ntimo, que guardo ao lado da cama em caso de emergncia. Abro-o.
Procuro a primeira pgina em branco. Escrevo:
"Preciso da sua ajuda."
Ento espero. Depois de um tempinho, surge uma resposta, na minha prpria caligrafia:
Estou bem aqui. Como posso ajudar?
E assim recomea minha conversa mais estranha e mais secreta. Aqui, no mais ntimo dos
caderninhos, converso comigo mesma. Converso com aquela mesma voz que conheci
naquela noite no meu banheiro, quando rezei a Deus pela primeira vez, aos prantos,
pedindo ajuda, e quando alguma coisa (ou algum) disse: "Volte para a cama, Liz." Nos
anos que se seguiram, descobri essa mesma voz em perodos de angstia, e aprendi que a
melhor maneira de encontr-la  por meio de uma conversa por escrito. Tambm fiquei
surpresa ao descobrir que quase sempre posso acessar essa voz, por mais negra que esteja
a minha angstia. Mesmo durante os piores perodos de sofrimento, essa voz calma,
compassiva, afetuosa e infinitamente sbia (que talvez seja eu, ou talvez no seja
exatamente eu) est sempre disponvel para uma conversa no papel a qualquer hora do
dia ou da noite.
Decidi parar de me preocupar se o fato de conversar comigo mesma no papel quer dizer
que sou maluca. Talvez a voz que eu esteja chamando seja a voz de Deus, ou talvez seja a
minha Guru falando atravs de mim. Ou talvez seja o anjo que cuida do meu caso, ou
talvez seja o meu Eu Superior, ou talvez, na verdade, seja apenas uma criao do meu
subconsciente, inventada para me proteger do meu prprio tormento. Madre Teresa
chamava essas vozes interiores divinas de "locues" - palavras sobrenaturais que
aparecem na mente de forma espontnea, traduzidas para o nosso prprio idioma, para
lhe oferecer consolo celeste. Sei muito bem o que Freud teria dito sobre esse tipo de
consolo espiritual,  claro - que  irracional e que "no merece confiana. A experincia
nos ensina que o mundo no  um jardim-de-infncia". Concordo - o mundo no  um
jardim-de-infncia. Mas o prprio fato de o mundo ser to desafiador  exatamente o
motivo pelo qual voc de vez em quando precisa sair de sua jurisdio para encontrar
ajuda, recorrendo a uma autoridade maior em busca de reconforto.
No incio da minha experincia espiritual, nem sempre tive essa f toda na voz interior da
sabedoria. Lembro-me de cena vez recorrer a meu caderninho ntimo em uma fria
amargurada de raiva e tristeza, e rabiscar uma mensagem para minha voz interior - para
meu reconforto interior divino - que ocupou uma pgina inteira de letras maisculas:
"PORRA, EU NO ESTOU ACREDITANDO EM VOC!!!!!!!!"
Depois de alguns instantes, ainda ofegante, senti um pontinho de luz claramente se
acender dentro de mim. E ento me vi escrevendo a seguinte resposta bem-humorada e
muito calma:
Ento com quem voc est falando?
Desde ento, nunca mais duvidei de sua existncia. Logo, hoje  noite estendo outra vez a
mo para essa voz. E a primeira vez que fao isso desde que cheguei  Itlia. O que
escrevo no meu dirio esta noite  que estou fraca e com muito medo. Explico que a
Depresso e a Solido apareceram, e que estou com medo de elas nunca mais irem
embora. Digo que no quero mais tomar os remdios, mas estou com medo de precisar
tomar. Estou com pnico de nunca mais conseguir dar um jeito na minha vida.
Como resposta, de algum lugar de dentro de mim, surge uma presena agora familiar, que
me oferece todas as certezas que eu sempre quis que outra pessoa me desse quando eu
estava com problemas. O que me vejo escrevendo para mim mesma no papel  o
seguinte:

Estou aqui. Eu amo voc. No me importo se voc tiver de passar a noite inteira
acordada chorando, eu fico com voc. Se voc precisar dos remdios de novo, no tem
problema, tome - eu vou amar voc do mesmo jeito, se fizer isso. Se voc no precisar
dos remdios, vou amar voc do mesmo jeito. No h nada que voc possa fazer para
perder o meu amor. Vou proteger voc at voc morrer, e depois da sua morte vou
continuar protegendo voc. Sou mais forte do que a Depresso e mais corajosa do que a
Solido, e nada nunca vai me desanimar.

Hoje, esse estranho gesto interior de amizade - a mo estendida por mim para mim
mesma, quando no h mais ningum por perto para oferecer consolo - me lembra algo
que me aconteceu certa vez em Nova York. Uma tarde, entrei em um prdio comercial s
pressas, e corri para o elevador que estava parado. Ao entrar, vi a mim mesma de relance
no reflexo de um espelho de segurana. Naquele instante, meu crebro fez uma coisa
esquisita - enviou a seguinte mensagem, que durou uma frao de segundo: "Ei! Voc
conhece aquela mulher ali! Ela  amiga sua!" E eu, de fato, sa correndo em direo ao
meu prprio reflexo com um sorriso no rosto, pronta para cumprimentar aquela moa de
cujo nome eu havia me esquecido, mas cujo rosto era to conhecido. Em uma frao de
segundo,  claro, percebi meu erro, e ri, envergonhada por no saber como funciona um
espelho, feito um cachorro. Por algum motivo, porm, torno a me lembrar desse incidente
nesta noite, durante minha tristeza romana, e vejo-me escrevendo este reconfortante
lembrete no p da pgina:
Nunca se esquea de que, um dia, em um instante de espontaneidade, voc reconheceu a
si mesma como uma amiga.
Caio no sono segurando o caderninho bem apertado contra o peito, aberto nessa ltima
frase reconfortante. Pela manh, quando acordo, ainda posso sentir um rano da fumaa
do charuto da Depresso, mas ela prpria no est por perto. Em algum momento da
noite, levantou-se e foi embora. E sua amiga Solido tambm deu o fora.

19

Tem uma coisa estranha, porm. Desde que cheguei a Roma, por algum motivo no
consegui fazer ioga. Durante anos, mantive uma prtica regular e sria, e cheguei at a
trazer meu tapetinho, junto com as minhas melhores intenes. Mas, aqui, simplesmente
no consigo. Quero dizer, quando  que vou fazer meus alongamentos de ioga? Antes do
meu caf-da-manh italiano reforado, feito de doces de chocolate e de um duplo
cappuccino? Ou depois? Durante os meus primeiros dias aqui, eu desenrolava meu
tapetinho todas as manhs, como quem vai praticar, mas descobria que s conseguia
olhar para ele e rir. Certa vez, cheguei at a dizer para mim mesma em voz alta,
assumindo a persona do tapetinho: "Ento, senhorita Penne ai Quattro Formaggi...
vamos ver o que voc tem para mostrar hoje." Desconcertada, guardei o tapetinho de ioga
no fundo da mala (e ele, de fato, no tornaria a ser desenrolado at a ndia). Em seguida,
sa para dar uma volta e tomei um sorvete de pistache. Coisa que os italianos consideram
perfeitamente razovel de se fazer s nove e meia da manh e, para ser franca, concordo
inteiramente com eles.
A cultura romana simplesmente no combina com a cultura do ioga, no at onde posso
constatar. Na verdade, decidi que Roma e ioga no tm absolutamente nada em comum.
A no ser pelo fato de ambos lembrarem um pouco a palavra toga.

20

Eu precisava fazer alguns amigos. Ento sa  sua procura, e agora estamos em outubro e
tenho uma bela coleo. J conheo duas Elizabeths em Roma alm de mim. Ambas so
americanas, ambas so escritoras. A primeira Elizabeth  romancista e a segunda
Elizabeth escreve livros de culinria. Com um apartamento em Roma, uma casa na
Umbria, um marido italiano e um emprego que exige que ela viaje pela Itlia comendo e
escrevendo a respeito para a revista Gourmet, parece que a segunda Elizabeth deve ter
salvo vrios rfos do afogamento durante alguma vida pregressa. No  de surpreender
que ela conhea todos os melhores lugares para se comer em Roma, incluindo uma
gelateria que serve arroz doce gelado (e, se eles no servem esse tipo de coisa no cu,
ento no sei mesmo se quero ir para l). Ela me levou para almoar no outro dia, e o que
comemos incluiu no apenas cordeiro e trufas e um carpaccio enrolado em volta de uma
musse de avel, como tambm uma extica porozinha de lampascione em conserva,
que - como todo mundo sabe -  o bulbo de uma flor, o jacinto selvagem.
 claro que, a esta altura, tambm j fiz amizade com Giovanni e Dario, os gmeos de
conto de fadas do meu intercmbio de lnguas. Na minha opinio, a gentileza de Giovanni
o torna um tesouro nacional da Itlia. Ele ganhou meu carinho para todo o sempre no dia
em que nos conhecemos, quando eu estava frustrada com minha incapacidade para
encontrar as palavras que queria em italiano, e ele ps a mo no meu brao e disse:
- Liz, voc tem de ser muito gentil com voc mesma quando estiver aprendendo alguma
coisa nova.
Algumas vezes, sinto que ele  mais velho do que eu, com seu rosto compenetrado, seu
diploma de filosofia e suas opinies polticas srias. Gosto de tentar faz-lo rir, mas
Giovanni nem sempre entende as minhas piadas  difcil compreender o humor em um
segundo idioma. Sobretudo quando se  um rapaz to srio quanto Giovanni. Noite
dessas, ele me falou:
- Quando voc est sendo irnica, sempre fico para trs. Sou mais lento.  como se voc
tosse o raio e eu fosse o trovo.
E eu pensei: Isso amor! E voc  o m e eu sou o ao! Me leve at o seu couro, tire a
minha renda!
Mas, ainda assim, ele no me beijou.
No vejo muito o outro gmeo, Dario, embora ele passe bastante tempo com Sofie. Sofie
 minha melhor amiga da aula de italiano, e sem dvida  algum com quem voc
tambm gostaria de passar o seu tempo, se voc fosse Dario. Sofie  sueca e tem pouco
menos de 30 anos, e  to bonita que voc poderia coloc-la em um anzol e us-la como
isca para pegar homens de todas as nacionalidades e faixas etrias possveis. Sofie acabou
de tirar uma licena de quatro meses de seu bom emprego em um banco sueco, para
horror de sua famlia e espanto de seus colegas, somente porque queria vir a Roma
aprender a falar a linda lngua italiana. Todos os dias, depois da aula, Sofie e eu vamos
nos sentar  margem do Tibre, para tomar nosso gelato e estudar juntas. Nem seria certo
chamar isso de "estudo", essa coisa que fazemos juntas. Est mais para uma admirao
compartilhada da lngua italiana, quase um ritual de adorao, e no paramos de sugerir
uma  outra novas e maravilhosas expresses. Como, por exemplo, acabamos de aprender
um dia desses que un'amica stretta significa "uma amiga ntima". Mas o significado
literal de stretta  justa, como para roupas, como uma saia justa. Ento, em italiano, uma
amiga ntima  uma amiga que voc pode usar bem apertada, colada no corpo, e  isso
que minha amiguinha sueca Sofie est se tornando para mim.
No incio, eu gostava de pensar que Sofie e eu parecamos irms. Ento, no outro dia,
estvamos andando de txi por Roma e o cara que dirigia perguntou se Sofie era minha
filha. Gente, vejam bem - a moa tem s uns sete anos a menos do que eu. Entrei em total
parania, tentando explicar para mim mesma o que ele acabara de dizer. (Por exemplo,
pensei, Talvez esse taxista romano no fale muito bem italiano, e na verdade tenha
querido perguntar se a gente era irm.) Mas no. Ele disse filha, e quis dizer mesmo
filha. Ah, o que posso dizer? Passei por muita coisa durante estes ltimos anos. Devo
estar com uma aparncia bem sofrida e velha depois desse divrcio. Mas, como diz a
velha cano country texana, "I've been screwed and sued and tattooed, and I'm still
standin' here in front of you...": j fui enganado, processado e tatuado, e ainda estou aqui
em p na sua frente.
Tambm fiz amizade com um casal legal, Maria e Giulio, que me foi apresentado por
minha amiga Anne -- uma pintora americana que morou em Roma alguns anos atrs.
Maria  dos Estados Unidos, Giulio  do sul da Itlia. Ele  cineasta e ela trabalha para
uma organizao internacional de polticas agrcolas. Ele no fala muito bem ingls, mas
ela fala italiano fluentemente (nada demais, j que tambm  fluente em francs e chins).
Giulio quer aprender ingls, e perguntei a ele se poderia treinar conversao comigo em
mais um intercmbio de lnguas. Caso vocs estejam se perguntando por que ele no
poderia simplesmente aprender ingls com sua mulher nascida nos Estados Unidos, 
porque eles so casados, e brigam demais sempre que um tenta ensinar alguma coisa ao
outro. Assim, Giulio e eu agora nos encontramos para almoar duas vezes por semana
para treinar nosso italiano e nosso ingls; coisa boa de se fazer para duas pessoas sem
nenhum histrico de irritar uma  outra.
Giulio e Maria tm um apartamento lindo cuja caracterstica mais impressionante, a meu
ver,  a parede que Maria certa vez cobriu com xingamentos irados contra Giulio
(rabiscados com marcador preto grosso), porque eles estavam discutindo, e "ele grita
mais alto do que eu", e ela queria que ele a deixasse falar.
Acho Maria incrivelmente sexy, e essa exploso de pichaes impetuosas  apenas mais
uma mostra disso. O interessante, porm,  que Giulio considera a parede rabiscada um
sinal claro da represso de Maria, porque ela escreveu seus xingamentos a ele em
italiano, e o italiano  sua segunda lngua, uma lngua em que ela precisa pensar por um
instante antes de conseguir escolher suas palavras. Ele disse que, se Maria houvesse
realmente se permitido ser tomada pela raiva - coisa que ela nunca faz, como boa anglo-
protestante -, ento teria coberto aquela parede toda com sua lngua materna, o ingls. Ele
diz que todos os americanos so assim: reprimidos. O que os torna perigosos e
potencialmente mortais quando perdem as estribeiras de verdade.
- Povo selvagem - pontifica ele.
O que me encanta  que estamos todos tendo essa conversa em volta de um agradvel e
tranqilo jantar, olhando para essa mesma parede.
- Mais vinho, amor? - perguntou Maria.
Mas meu mais novo melhor amigo na Itlia,  claro,  Luca Spaghetti. Alis, at na Itlia,
ter o sobrenome Spaghetti  considerado algo muito engraado. Sou grata a Luca, porque
ele finalmente me permitiu ficar quites com meu amigo Brian, que teve a sorte de,
quando criana, ter um vizinho de porta de origem indgena chamado Dennis Ha-Ha, e
que portanto sempre pde se gabar de ter o amigo com o nome mais legal. Finalmente,
posso competir.
Luca tambm fala um ingls perfeito e  bom de garfo (em italiano, una buona forchetta),
o que faz dele uma companhia estupenda para gente comilona como eu. Ele muitas vezes
me telefona no meio do dia para dizer: "Ei, estou aqui pertinho da sua casa... quer me
encontrar para tomar um caf rpido? Ou para comer uma rabada?" Passamos um tempo
nesses restaurantezinhos escondidos nas ruelas de Roma. Gostamos dos que tm
iluminao com lmpadas fluorescentes e nenhum letreiro na porta. Toalhas de mesa
quadriculadas de vermelho. Licor limoncello feito em casa. Vinho tinto feito em casa.
Pratos de massa servidos em pores inacreditveis pelo que Luca chama de "pequenos
Jlios Csares" - romanos tpicos, orgulhosos e truculentos, com as costas das mos bem
cabeludas e topetes cuidados com amor. Certo dia, eu disse a Luca:
- Me parece que esses caras se consideram em primeiro lugar romanos, em segundo lugar
italianos e em terceiro lugar europeus.
Ele me corrigiu:
-- No... Eles so em primeiro lugar romanos, em segundo lugar romanos e em terceiro
lugar romanos. E todos eles so imperadores.
Luca  contador. Um contador italiano, o que significa que, segundo sua prpria
definio, ele  "um artista", porque existem vrias centenas de leis tributrias em vigor
na Itlia, e todas elas se contradizem entre si. Assim, fazer uma declarao de imposto de
renda aqui exige uma improvisao digna de um jazzman. Acho engraado que ele seja
contador, porque esse parece um trabalho sisudo demais para um cara to descontrado.
Por outro lado, Luca acha engraado que exista outro lado de mim -- o lado do ioga --
que ele nunca viu. Ele no consegue imaginar por que eu iria querer ir para a ndia - e
para um ashram, ainda por cima! -, quando poderia simplesmente passar o ano inteiro na
Itlia, lugar que obviamente combina comigo. Sempre que me v enxugando o molho que
sobrou no meu prato com um naco de po e em seguida lambendo os dedos, ele diz: "O
que voc vai comer quando for para a ndia?" Algumas vezes ele me chama de Gandhi
em um tom dos mais irnicos, geralmente quando estou abrindo a segunda garrafa de
vinho.
Luca j viajou bastante, embora alegue que nunca poderia viver em nenhum outro lugar
que no fosse Roma, perto de sua me, j que, afinal de contas, ele  um homem italiano -
o que ele pode fazer? Mas no  apenas sua mamma que o faz ficar por aqui. Ele tem
trinta e poucos anos, e namora a mesma mulher desde a adolescncia (a graciosa
Giuliana, que Luca descreve carinhosa e adequadamente como acqua e sapone - pura
como "gua e sabo em sua doce inocncia). Todos os seus amigos so os mesmos desde
a infncia e so todos do mesmo bairro. Todo domingo, eles assistem juntos aos jogos de
futebol -- no estdio ou em um bar (se os times romanos estiverem jogando fora de casa)
-, e em seguida voltam todos separadamente para as casas onde cresceram, para comer as
copiosas refeies das tardes de domingo preparadas por suas respectivas mes e avs.
Se eu fosse Luca Spaghetti, tambm no sairia de Roma.
Mas Luca esteve nos Estados Unidos algumas vezes e gosta do pas. Considera Nova
York fascinante, mas acha que as pessoas l trabalham demais, embora reconhea que
elas parecem gostar disso. Enquanto os romanos trabalham muito e detestam. Aquilo de
que Luca Spaghetti no gosta  a comida americana, que ele diz poder ser descrita em
duas palavras: "pizza ruim".
Eu estava com Luca na primeira vez em que tentei comer os intestinos de um cordeiro
recm-nascido.  uma especialidade romana. Do ponto de vista culinrio, Roma  uma
cidade um tanto brutal, conhecida por seus pratos tpicos rsticos, como tripas e lngua -
todas as partes do animal que os ricos do norte jogam fora. Meus intestinos de cordeiro
estavam razoveis, contanto que eu no pensasse muito no que eram. Foram servidos em
um molho espesso, amanteigado e picante que estava delicioso, mas os intestinos tinham
uma consistncia... bem... de intestinos. Algo parecido com fgado, mas mais esponjoso.
Estava indo tudo bem, at eu comear a pensar em como poderia descrever aquele prato,
e pensei: No parecem intestinos. Na verdade, parecem lombrigas. Ento empurrei o
prato para o lado e pedi uma salada.
- No gostou? - perguntou Luca, que adora esse prato.
- Aposto que Gandhi nunca comeu intestinos de cordeiro na vida - falei.
- Poderia ter comido.
- No, Luca, no poderia, no. O Gandhi era vegetariano
- Mas os vegetarianos podem comer isto - insistiu Luca. - Por que isto aqui no  carne,
Liz.  s merda.

21
Reconheo que, algumas vezes, me pergunto o que estou fazendo aqui.
Embora tenha vindo  Itlia para ter uma experincia de prazer, durante minhas primeiras
semanas aqui senti um certo pnico em relao a como se faz isso. Para falar
francamente, o prazer puro no  o meu paradigma cultural. Venho de uma longa
linhagem de pessoas supercumpridoras do seu dever. A famlia da minha me era de
imigrantes suecos que, nas fotografias, aparecem com cara de quem, se um dia tivesse
visto algo de prazeroso na vida, teria pisado em cima com suas botas de solas de pregos
(Meu tio chama todos eles de "to sem graa quanto vacas".) O lado da famlia do meu
pai era de puritanos ingleses, famosos por sua inclinao para a boa vida. Se eu consultar
a rvore genealgica do meu pai at o sculo XVII, sou capaz at de encontrar parentes
chamados Diligncia e Docilidade.
Meus pais, por sua vez, tm uma pequena fazenda, e minha irm e eu fomos criadas
trabalhando. Aprendemos a ser fortes, responsveis, as melhores alunas da turma na
escola, as babs mais eficientes e organizadas da cidade, o perfeito modelo em miniatura
de nossos pais fazendeiro/enfermeira, dois verdadeiros canivetes suos, nascidas para
executar todo tipo de tarefa. Havia muita diverso na minha famlia, muito riso, mas as
paredes eram cobertas por listas de coisas a fazer, e nunca vivi nem presenciei o perfeito
cio nem uma vez em toda a minha vida.
Falando de modo geral, porm, os americanos so dotados de uma incapacidade de
relaxar e se deixar levar pelo simples prazer. Nosso pas  formado por gente em busca de
entretenimento. Os americanos gastam bilhes para se manterem entretidos com todo tipo
de coisa, da pornografia aos parques temticos, passando pela guerra, mas isso no 
exatamente sinnimo de uma diverso tranqila. Os americanos trabalham mais, durante
mais horas e em situaes mais estressantes do que qualquer outro povo no mundo hoje
em dia. No entanto, como bem observou Luca Spaghetti, parecemos gostar disso.
Estatsticas alarmantes sustentam essa afirmao, mostrando que muitos americanos se
sentem mais felizes e realizados em seus escritrios do que em suas prprias casas. 
claro que todos ns inevitavelmente trabalhamos demais, e em seguida ficamos exaustos
e precisamos passar o fim de semana inteiro de pijama, comendo cereal direto da caixa e
olhando fixamente para a televiso em um estado prximo ao coma (o que  o contrrio
de trabalhar, sim, mas no  exatamente sinnimo de prazer). Os americanos no sabem
muito bem como no fazer nada. Essa  a causa daquele grande e triste esteretipo
americano - o executivo superestressado que sai de frias, mas no consegue relaxar.
Certo dia, perguntei a Luca Spaghetti se os italianos tm esse mesmo problema quando
tiram frias. Ele riu tanto que quase entrou dentro de um chafariz com motocicleta e tudo.
- Ah, no! - disse. - Ns somos os mestres do bel far niente.
Essa  uma expresso tima. Bel far niente significa "a beleza de no fazer nada". Vejam
bem - os italianos tradicionalmente sempre foram bons trabalhadores, especialmente
aqueles sofridos trabalhadores conhecidos como braccianti (assim chamados porque no
tinham outra coisa que no a fora bruta de seus braos  braccie - para ajud-los a
sobreviver neste mundo). Mas, mesmo com esse histrico de trabalho rduo, o bel far
niente sempre foi um ideal prezado pelos italianos. A beleza de no fazer nada  o
objetivo de todo nosso trabalho, a realizao final pela qual se recebe os mais calorosos
elogios. Quanto maior a elegncia e o deleite com os quais voc conseguir no fazer
nada, maior a sua conquista na vida. E voc nem precisa necessariamente ser rico para
conseguir isso. Existe outra expresso italiana maravilhosa: l'arte d'arrangiarsi - a arte de
produzir algo a partir do nada. A arte de transformar alguns poucos ingredientes simples
em um banquete, ou alguns amigos reunidos em uma festa. Qualquer pessoa com talento
para felicidade pode fazer isso, no apenas os ricos.
Para mim, porm, um grande obstculo na minha busca pelo prazer era meu arraigado
sentimento de culpa puritana. Ser que eu realmente mereo este prazer? Isso tambm 
muito americano -- a insegurana quanto a se merecemos nossa felicidade. Nos Estados
Unidos, o mundo da publicidade gira completamente em torno da necessidade de
convencer o consumidor indeciso de que sim, voc mereceu mesmo um presente especial.
Isto aqui  para voc! Voc merece um tempo hoje! Porque voc merece! Voc se
esforou tanto! E o consumidor inseguro pensa: Isso! Obrigado! Vou mesmo comprar
umas latinhas de cerveja, p! Talvez at uma dzia de latinhas! E ento vm os excessos
reacionrios. Seguidos pelo remorso. Essas campanhas publicitrias provavelmente no
teriam o mesmo sucesso na cultura italiana, onde as pessoas j sabem que tm o direito
de aproveitar a vida. A resposta italiana para "Voc merece um tempo hoje"
provavelmente seria: , pois .  por isso que estou planejando fazer uma pausa ao
meio-dia para ir at a sua casa comer a sua mulher.
E provavelmente por isso que, quando eu disse a meus amigos italianos que vim ao seu
pas para vivenciar quatro meses de puro prazer, eles no demonstraram nenhum espanto
com isso. Complimenti! Vai avanti! "Parabns", disseram eles. "V em frente." "Acabe-
se." "No se acanhe." Ningum disse nenhuma vez: "Que coisa mais irresponsvel" ou
"Que luxo mais desmedido". Porm, embora os italianos tenham me dado total permisso
para me divertir, mesmo assim no consigo relaxar. Durante minhas primeiras semanas
na Itlia, todas as minhas sinapses protestantes zuniam de preocupao,  procura de uma
tarefa a cumprir. Eu queria abordar o prazer como se ele fosse um dever de casa, ou um
gigantesco projeto para alguma feira de cincias. Refletia sobre questes como: "De que
modo o prazer pode ser maximizado com mais eficincia?" Perguntava-me se poderia
passar todo meu tempo na Itlia na biblioteca, pesquisando a histria do prazer. Ou talvez
eu devesse entrevistar italianos que j tiveram muito prazer na vida, para lhes perguntar
que sensao seu prazer lhes d, e depois escrever um relatrio sobre o assunto. (Com
espaamento duplo e margens de 2,5 centmetros talvez? Para ser entregue na segunda-
feira bem cedinho?)
Quando percebi que a nica pergunta importante era: "Como  que eu defino o prazer?",
e que eu estava de fato em um pas onde as pessoas me permitiam explorar essa pergunta
livremente, tudo mudou. Tudo se tornou... delicioso. Tudo que eu precisava fazer era me
perguntar todos os dias, pela primeira vez na vida: "O que voc gostaria de fazer hoje,
Liz? O que te daria prazer neste momento?" Sem ter de pensar no que algum mais iria
achar, e sem mais nenhuma obrigao com que me preocupar, essa pergunta finalmente
se tornou clara e absolutamente pessoal.
Foi interessante para mim descobrir o que eu no queria fazer na Itlia, depois de ter dado
a mim mesma a autorizao para aproveitar minha experincia ali. Existem tantas
manifestaes de prazer na Itlia, e eu no tinha tempo para prov-las todas. Aqui voc
precisa, de certa forma, escolher o seu prazer principal, ou ento fica soterrado. J que era
assim, no me interessei pela moda, nem pela pera, nem pelo cinema, nem por carros de
luxo, nem por esquiar nos Alpes. Sequer tive vontade de ver muita arte. Tenho um pouco
de vergonha de confessar isso, mas no visitei um museu sequer durante meus quatro
meses na Itlia. (Ai, cara...  pior ainda. Preciso confessar que fui a um museu: o Museu
Nacional da Massa, em Roma.) Descobri que tudo que eu queria fazer, na verdade, era
comer aquela comida maravilhosa e falar o mximo possvel daquele italiano
maravilhoso. Era isso. Assim sendo, escolhi, na verdade, dois prazeres principais -- falar
e comer (com nfase especial no gelato).
A quantidade de prazer que derivei desse comer e falar foi incomensurvel e ao mesmo
tempo to simples. Certa vez, em meados de outubro, passei algumas horas que poderiam
no parecer nada para algum de fora, mas que ficaro para sempre marcadas como as
mais felizes da minha vida. Descobri uma feira perto do meu apartamento, a apenas
algumas ruas de distncia, na qual, por algum motivo, eu nunca havia reparado antes. L,
cheguei perto de uma pequena barraca de frutas e legumes onde uma italiana e seu filho
estavam vendendo uma seleo de seus produtos - como folhas de espinafre suculentas,
de um verde quase to escuro quanto algas marinhas, tomates to vermelhos e cor de
sangue que pareciam os rgos internos de uma vaca e uvas cor de champanhe com a
pele to esticada quanto o mai de uma bailarina.
Escolhi um molho de aspargos finos e brilhantes. Consegui perguntar  mulher, em um
italiano sem tropeos, se eu poderia levar apenas metade dos aspargos. Era para uma
pessoa s, expliquei - eu no precisava de muito. Ela imediatamente pegou os aspargos
das minhas mos e dividiu-os. Perguntei-lhe se eu poderia encontrar aquela feira todos os
dias no mesmo lugar, e ela disse que sim, ela estava ali todos os dias a partir das sete da
manh. Ento seu filho, que era uma graa, me deu uma olhada de esguelha e falou:
- Bom, ela tenta chegar s sete... - Ns trs rimos. Essa conversa inteira aconteceu em
italiano, lngua na qual, poucos meses antes, eu no conseguia falar sequer uma palavra.
Voltei a p para o meu apartamento e preparei dois ovos quentes para meu almoo.
Descasquei os ovos e arrumei-os em um prato ao lado dos sete talos de aspargos (to
finos e crocantes que nem precisavam ser cozidos). Pus no prato tambm algumas
azeitonas, os quatro pedaos de queijo de cabra que havia comprado na vspera na
formaggeria mais embaixo na rua e duas fatias de um salmo rosado, gorduroso. Como
sobremesa, um lindo pssego, que a mulher do mercado havia me dado e que ainda
estava morno com o calor do sol de Roma. Durante um tempo muito longo, sequer
consegui tocar na comida, porque aquele era um almoo magistral, uma verdadeira
expresso da arte de se virar. Por fim, depois de ter absorvido inteiramente a beleza da
minha refeio, fui me sentar sob um raio de sol no meu cho de tbuas corridas e comi
tudinho, com os dedos, enquanto lia meu artigo de jornal dirio em italiano. Todos os
meus poros transpiravam felicidade.
At que - como tantas vezes aconteceu durante esses primeiros meses de viagem, e como
sempre acontece quando sinto uma felicidade assim - meu alarme de culpa disparou.
Ouvi a voz do meu ex-marido falando com desdm no meu ouvido: Ento foi por isso
que voc largou tudo? Foi por isso que destruiu toda a sua vida? Por alguns talos de
aspargos e um jornal em italiano?
Respondi a ele, em voz alta:
- Em primeiro lugar - falei -, me desculpe, mas isto aqui no  mais problema seu. E em
segundo, para responder  sua pergunta... foi.

22

Um assunto bvio ainda precisa ser abordado em relao a toda essa questo da minha
busca pelo prazer na Itlia: e o sexo?
A resposta simples para essa pergunta : no quero transar com ningum enquanto estiver
aqui.
A resposta mais completa e mais honesta : claro que eu as vezes quero
desesperadamente transar, mas decidi no praticar esse esporte, pelo menos por algum
tempo. No quero me envolver com ningum.  claro que sinto falta de ser beijada,
porque eu adoro beijar. (Reclamo tanto disso com Sofie que um dia desses ela finalmente
disse, irritada: "Pelo amor de Deus, Liz... Se a coisa ficar ruim demais, eu beijo voc.")
Mas no vou fazer nada a esse respeito por enquanto. Ultimamente, quando me sinto
sozinha, penso: Ento fique sozinha, Liz. Aprenda a lidar com a solido. Aprenda a
conhecer a solido. Acostume-se a ela, pela primeira vez na sua vida. Bem-vinda 
experincia humana. Mas nunca mais use o corpo ou as emoes de outra pessoa como
um modo de satisfazer seus prprios anseios no-realizados.
Vejo isso mais como uma espcie de aplice de vida emergencial do que qualquer outra
coisa. Comecei cedo na vida a correr atrs do prazer sexual e romntico. Mal tive uma
adolescncia antes de arrumar meu primeiro namorado, e sempre tive um menino ou um
homem (ou, algumas vezes, os dois) na minha vida desde os meus 15 anos. Isso agora faz
- deixe-me ver - mais ou menos 19 anos. Ou seja, durante quase duas dcadas inteiras,
estive envolvida em algum tipo de drama com algum tipo de cara. Cada qual se
sobrepondo ao seguinte, sem sequer uma semana de intervalo entre os dois. E no posso
evitar pensar que isso representou uma espcie de entrave no meu caminho rumo 
maturidade.
Alm disso, tenho problemas de limites com os homens. Ou talvez no seja justo dizer
isso. Para ter problemas com limites,  preciso primeiro ter limites, certo? Mas eu sou
inteiramente tragada pela pessoa que amo. Sou como uma membrana permevel. Se eu
amo voc, eu lhe dou tudo que tenho. Dou-lhe o meu tempo, a minha dedicao, a minha
bunda, o meu dinheiro, a minha famlia, o meu cachorro, o dinheiro do meu cachorro, o
tempo do meu cachorro  tudo. Se eu amo voc, carregarei para voc toda a sua dor,
assumirei por voc todas as suas dvidas (em todos os sentidos da palavra), protegerei
voc da sua prpria insegurana, projetarei em voc todo tipo de qualidade que voc na
verdade nunca cultivou em si mesmo e comprarei presentes de Natal para sua famlia
inteira. Eu lhe darei o sol e a chuva e, se no estiverem disponveis, darei-lhe um vale de
sol e um vale de chuva. Darei a voc tudo isso e mais, at ficar to exausta e debilitada
que a nica maneira que terei de recuperar minha energia ser me apaixonar por outra
pessoa.
No  com orgulho que revelo esses fatos sobre mim mesma, mas  assim que sempre foi.
Algum tempo depois de eu ter deixado o meu marido, estava em uma festa, e um cara que
eu mal conhecia me disse:
- Sabe, voc parece uma pessoa completamente diferente agora que est com esse
namorado novo. Voc antes se parecia com o seu marido, mas agora se parece com o
David. Voc at se veste igual a ele e fala igual a ele. Sabe como algumas pessoas se
parecem com seus cachorros? Acho que talvez voc sempre se parea com os seus
homens.
Querido Deus, eu realmente gostaria de sair desse padro, de dar a mim mesma um pouco
de espao para descobrir como sou e como falo quando no estou tentando me misturar
com outra pessoa. E tambm, vamos ser honestos -- pode ser que o fato de eu deixar a
intimidade em paz durante algum tempo seja um generoso servio prestado 
coletividade. Quando olho para o histrico amoroso que deixei para trs, ele no parece
to bom. Foi uma catstrofe depois da outra. Quantos outros tipos diferentes de homem
posso continuar tentando amar e continuar fracassando? Pensem nisso assim -- se vocs
tivessem acidentes de trnsito graves um atrs do outro, eles no acabariam tirando sua
carteira de motorista? E voc no iria, de certa forma, querer que eles fizessem isso?
Existe uma ltima razo pela qual hesito em me envolver com outra pessoa. O fato  que
ainda estou apaixonada por David, e no acho isso justo com o cara seguinte. Sequer sei
se David e eu de fato j terminamos. Ainda estvamos nos vendo bastante antes de eu
viajar para a Itlia, embora fizesse muito tempo que no transvamos. Mas ainda
reconhecamos que ambos tnhamos esperana de talvez, um dia...
No sei.
O que sei  o seguinte: estou exausta com as conseqncias cumulativas de uma vida de
escolhas apressadas e paixes caticas. Quando viajei para a Itlia, meu corpo e meu
esprito estavam debilitados. Eu me sentia o solo cansado da roa de algum agricultor,
explorado muito alm do limite e precisando passar um tempo ocioso. Ento foi por isso
que parei.
Acreditem, estou consciente da ironia de se ir para a Itlia em busca do prazer durante um
perodo de celibato voluntrio. Mas acredito realmente que a abstinncia seja a coisa
certa para mim agora. Tive particularmente certeza disso na noite em que pude ouvir
minha vizinha de cima (uma moa italiana muito bonita, dona de uma coleo incrvel de
botas de salto alto) na transa mais demorada, mais cheia de gritos, do barulho de corpos
se chocando, de rangidos e de acrobacias que eu jamais havia escutado, na companhia do
mais recente e sortudo visitante ao seu apartamento. Essa dana durou bem mais de uma
hora, com direito a efeitos sonoros descontrolados e gritos guturais. E tudo em que eu
conseguia pensar, deitada na minha cama no andar bem debaixo deles, sozinha e cansada,
era: Pelo barulho, isso parece que est dando um trabalho danado.
 claro que, algumas vezes, realmente sou tomada pelo desejo. A cada dia vejo, em
mdia, cerca de uma dzia de italianos que eu poderia facilmente imaginar na minha
cama. Ou me imaginar na deles. Ou em qualquer outro lugar. Na minha opinio, os
romanos so ridiculamente, dolorosamente, estupidamente bonitos. Mais bonitos at do
que as romanas, para ser sincera. Os italianos so bonitos da mesma forma que as
francesas so bonitas, ou seja, no poupam um s detalhe na busca pela perfeio.
Parecem poodles de concurso. Algumas vezes, eu os acho to bonitos que sinto vontade
de aplaudir. Para descrever os homens daqui, sou obrigada a recorrer a expresses tiradas
de romances baratos, tamanha a sua beleza. Eles so "diabolicamente atraentes", ou
"surpreendentemente musculosos".
Porm, se me permitem admitir uma coisa no to lisonjeira a meu respeito, esses
romanos da rua no esto prestando muita ateno em mim. Alis, eles no esto sequer
me olhando. No comeo, achei isso um pouco alarmante. Eu j estivera na Itlia uma vez,
aos 19 anos, e uma coisa de que me lembro  de ter sido constantemente importunada
pelos homens na rua. E nas pizzarias. E no cinema. E no Vaticano. Era interminvel e
chatssimo. Isso costumava ser um verdadeiro problema para quem vinha  Itlia, algo
quase capaz de estragar seu apetite. Agora, aos 34 anos de idade, eu era aparentemente
invisvel. E claro que, de vez em quando, um homem me diz de forma simptica: "Est
bonita hoje, signorina", mas isso no  muito comum e nunca se torna agressivo. E,
embora com certeza seja agradvel no ser bolinada por nenhum desconhecido nojento
no nibus, toda mulher tem seu orgulho feminino, e  legitimo que ela se pergunte: O que
mudou aqui? Ser que fui eu? Ou ser que foram eles?
Ento saio perguntando, e todo mundo concorda que, sim, houve uma verdadeira
mudana na Itlia durante os ltimos dez a 15 anos. Talvez seja uma vitria do
feminismo, ou uma evoluo cultural, ou os efeitos moderniza dores inevitveis de o pas
ter entrado para a Comunidade Europia. Ou talvez seja simplesmente a vergonha que os
homens mais jovens sentem da libidinosidade de seus pais e avs. Qualquer que seja o
motivo, porm, parece que a Itlia decidiu, como sociedade, que esse tipo de
comportamento importuno e inconveniente com as mulheres no  mais aceitvel. Nem
mesmo minha linda jovem amiga Sofie  importunada nas ruas, e essas suecas com cara
de moas leiteiras eram as que mais costumavam sofrer com isso.
Concluso: parece que os italianos ganharam o prmio de melhor progresso de
comportamento.
O que  um alvio, porque, durante algum tempo, pensei que o problema fosse comigo.
Quero dizer, tive medo de talvez no estar atraindo ateno nenhuma, porque no era
mais nenhuma tetia de 19 anos. Tive medo de que talvez meu amigo Scott estivesse
certo no vero passado, quando disse:
- Ah, Liz, no se preocupe... aqueles italianos no vo mais incomodar voc. L no 
como na Frana, onde eles curtem coroas.

23

Ontem  tarde, fui assistir a um jogo de futebol com Luca Spaghetti e seus amigos. amos
ver o Lazio jogar. Existem dois times de futebol em Roma - o Lazio e o Roma. A
rivalidade entre os times e seus torcedores  enorme, e capaz de dividir famlias e bairros
felizes, transformando-os em zonas de guerra civil.  importante escolher cedo na vida se
voc torce para o Lazio ou para o Roma, porque isso, em grande parte, ir determinar
com quem voc passa as tardes de domingo pelo resto da vida.
Luca tem um grupo de cerca de dez amigos chegados que se amam todos como irmos.
S que metade deles torce pelo Lazio e metade pelo Roma. Na verdade, no  culpa
deles; eles nasceram em famlias onde a lealdade j estava estabelecida. O av de Luca
(conhecido, espero eu, como Nonno Spaghetti) deu-lhe sua primeira camisa azul celeste
do Lazio quando o menino mal sabia andar. Luca, por sua vez, torcer pelo Lazio at
morrer.
- A gente pode mudar de mulher - disse ele. - Pode mudar de emprego, de nacionalidade
e at de religio, mas a gente nunca pode mudar de time.
Por sinal, "torcedor" em italiano  tifoso. A palavra vem de tifo. Ou seja: algum tomado
por uma febre alta.
Meu primeiro jogo de futebol com Luca Spaghetti foi, para mim, um delicioso banquete
da lngua italiana. Naquele estdio, aprendi todo tipo de palavras novas e interessantes
que no se aprende na escola. Sentado atrs de mim havia um velho que desfiava uma
sucesso fenomenal de improprios enquanto gritava para os jogadores em campo. No
entendo muito de futebol, mas com certeza no perdi tempo fazendo a Luca perguntas
idiotas sobre o que estava acontecendo no jogo. Tudo que eu perguntava era: "Luca, o
que o cara atrs de mim acabou de dizer? O que quer dizer cafone?" E Luca - sem nunca
tirar os olhos do campo - respondia: "Cuzo. Quer dizer cuzo."
Eu escrevia a palavra. Depois fechava os olhos e ouvia um pouco mais da arenga do
velho, que era mais ou menos assim:

Dai, dai, dai, Albertini, dai... va bene, va bene, ragazzo mio, perfetto, bravo, bravo...
Dai! Dai! Via! Via! Nella porta! Eccola, eccola, eccola, mio bravo ragazzo, caro mio,
eccola, eccola, ecco... AAAHHHHHHHHHHHH! VAFFANCULO!!! FIGLIO DI
MIGNOTTA!! STRONZO! CAFONE! TRADITORE! Madonna... Ah, Dio mio, perch,
perch, perch, questo  stupido,  una vergogna, la vergog-na... Che casino, che
bordello... NON HAI UN CUORE, ALBERTINI! FAI FINTA! Guarda, non  successo
niente... Dai, dai, ah... Molto migliore, Albertini, molto migliore, s s s, eccola, bello,
bravo, anima mia, ah, ottimo, eccola adesso... nella porta, nella porta, nell...
VAFFANCULO!!!!!!!

Que posso tentar traduzir como:

Vamos l, vamos l, vamos l, Albertini, vamos l... Isso, isso, meu garoto, perfeito,
brilhante, brilhante... Vamos l! Vamos l! Vamos! Vamos! Para o gol! Pronto, pronto,
pronto, meu garoto brilhante, meu querido, pronto, pronto, pron... AHHHH! V SE
FODER! SEU FILHO DE UMA PUTA! SEU MERDA! SEU CUZO! SEU TRAIDOR!...
Minha Nossa Senhora... Ai, meu Deus, por qu, por qu, por qu, que burrice, que
vergonha, que vergonha... Que zona... [Nota da autora: Infelizmente, no h como
traduzir direito as fabulosas expresses italianas che casino e che bordello, que
literalmente significam "que cassino" e "que puteiro", mas que, no fundo, querem dizer
"que puta zona".]... VOC NO TEM CORAO, ALBERTINI!!!! EST FINGINDO!
Olhe, no aconteceu nada... Vamos l, vamos l, a, isso... Muito melhor, Albertini, muito
melhor, isso isso isso, a, lindo, brilhante, a, excelente,  isso a... para o gol, para o gol,
para o... V SE FODEEEER!!!

Ah que momento mais especial e mais sortudo da minha vida estar sentada na frente
desse homem. Eu adorava cada palavra que saa de sua boca. Queria recostar a cabea no
seu velho colo e deix-lo desfiar seus eloqentes improprios aos meus ouvidos para
sempre. E no era s ele! O estdio inteiro estava repleto de solilquios assim. E que
animao! Sempre que acontecia no campo alguma grave omisso de justia, o estdio
inteiro se punha de p, com todos os homens acenando, ultrajados e berrando palavres,
como se todos os 20 mil presentes houvessem acabado de participar de uma confuso de
trnsito. Os jogadores do Lazio no eram menos dramticos do que seus torcedores,
rolando no cho de dor como em uma cena de morte de Jlio Csar, exagerando cada
movimento, e em seguida pondo-se de p dois segundos depois para encabear mais um
ataque ao gol. Mas o Lazio acabou perdendo.
Precisando ser consolado depois do jogo, Luca Spaghetti perguntou a seus amigos:
-- Vamos sair?
Imaginei que isso significasse: "Vamos sair para um bar?" E o que os torcedores
americanos fariam se o seu time houvesse acabado de perder. Iriam a um bar e ficariam
completamente embriagados. E no so s os americanos que fariam isso -- os ingleses,
os australianos, os alemes tambm... todo mundo, certo? Mas Luca e seus amigos no
foram a um bar para afogar as mgoas. Foram a uma padaria. Uma padaria pequenina,
discreta, escondida em um subsolo de um bairro romano qualquer. No domingo  noite, o
lugar estava lotado. Mas ele sempre fica lotado depois dos jogos. Os torcedores do Lazio
sempre param ali antes de voltar do estdio para casa, e passam horas em p na rua,
recostados em suas motos, conversando sobre o jogo, parecendo mais machos do que
nunca, e comendo bombas de creme. Eu amo a Itlia.

24

Estou aprendendo cerca de vinte novas palavras em italiano por dia. No paro de estudar,
percorrendo minhas fichas enquanto caminho pela cidade, esquivando-me dos pedestres
locais. Onde estou arrumando espao no meu crebro para guardar essas palavras?
Espero que minha mente talvez tenha decidido se livrar de alguns antigos pensamentos
negativos e lembranas tristes, e substitu-los por essas esfuziantes palavras novas.
Tenho estudado bastante italiano, mas continuo a esperar que um dia o idioma
simplesmente se revele a mim, inteiro, perfeito. Um dia, vou abrir a boca e, em um passe
de mgica, falarei fluentemente. Nesse dia, serei uma verdadeira italiana, em vez de uma
americana tpica que ainda no consegue escutar algum chamando seu amigo Marco do
outro lado da rua sem instintivamente querer gritar de volta: "Polo!" Eu gostaria que o
italiano simplesmente passasse a morar no meu crebro, mas essa lngua tem muitas
armadilhas. Por exemplo, por que as palavras italianas para "rvore" e "hotel" (albero e
albergo) so to parecidas? Isso me faz, sem querer, dizer sempre s pessoas que fui
criada em "uma plantao de hotis de Natal", em vez de usar a descrio mais exata e
ligeiramente menos surreal "plantao de rvores de Natal". E h tambm as palavras que
tm duplo ou at triplo significado. Por exemplo, tasso, que pode significar juros, o
animal texugo ou a rvore teixo. Dependendo do contexto, suponho. O que mais me
perturba  quando me deparo com palavras em italiano que so de fato -- detesto dizer
isso -- feias. Encaro isso quase como uma ofensa pessoal. Desculpe, mas no viajei at a
Itlia para aprender a pronunciar uma palavra como schermo (tela).
Mesmo assim, no geral, vale muito a pena. Giovanni e eu nos divertimos muito
ensinando um ao outro expresses em ingls e italiano. Na outra noite, estvamos
conversando sobre as expresses que se usam quando se est tentando reconfortar algum
com problemas. Eu lhe disse que, em ingls, ns algumas vezes dizemos: "I've been
there" ("j passei por isso", mas literalmente "j estive a"). No incio, ele no entendeu 
j estive onde? Mas eu lhe expliquei que, algumas vezes, a tristeza profunda  quase um
local especfico, uma coordenada em algum mapa do tempo. Quando voc est nessa
selva de tristeza, no consegue imaginar que um dia conseguir encontrar a sada para um
lugar melhor. Mas, se algum lhe garante que tambm j esteve nesse mesmo lugar, e
conseguiu sair dele, isso s vezes traz alento.
- Ento a tristeza  um lugar? - perguntou Giovanni.
-- Algumas vezes as pessoas passam anos l -- falei.
Em troca, Giovanni me disse que, ao demonstrar empada, os italianos dizem L'ho provato
sulla mia pelle, que significa: "Senti isso na prpria pele. Ou seja, eu tambm j fui
atingido ou ferido dessa forma, e sei exatamente pelo que voc est passando.
At agora, no entanto, o que mais gosto de dizer em italiano  uma palavra simples,
comum:
Attraversiamo.
Quer dizer: "Vamos atravessar." Os amigos dizem isso uns para os outros sem parar
quando esto andando pela calada e decidem que chegou a hora de passar para o outro
lado da rua. Ou seja,  literalmente uma palavra pedestre. Ela no tem nada de mais.
Mesmo assim, por algum motivo, causa-me um efeito poderoso. Na primeira vez em que
Giovanni me disse isso, estvamos caminhando perto do Coliseu. De repente, eu o ouvi
dizer essa palavra linda
e parei, perguntando:
- O que isso quer dizer? O que voc acabou de falar?
- Attraversiamo.
Ele no conseguia entender por que eu gostava tanto dessa palavra. Vamos atravessar a
rua? Mas, aos meus ouvidos, essa  a perfeita combinao de sonoridades italianas. O a
aberto e promissor da primeira slada, o r enrolado, o s tranqilizador e a interminvel
combinao "ii-aaaa-mo" no final. Adoro essa palavra. Agora a digo o tempo inteiro.
Invento qualquer desculpa para diz-la. Isso est deixando Sofie maluca. Vamos
atravessar! Vamos atravessar! Estou sempre puxando-a de um lado para o outro em meio
ao trfego romano enlouquecido. Vou acabar matando ns duas com essa palavra.
A palavra preferida de Giovanni em ingls  half-assed, algo como "nas coxas".
A de Luca Spaghetti  surrender -- entrega, rendio.

25

Atualmente, na Europa, vem acontecendo uma queda de brao. Algumas cidades esto
competindo com outras para ver quem vai emergir como a grande metrpole europia do
sculo XXI. Ser Londres? Paris? Berlim? Zurique? Talvez Bruxelas, centro da jovem
comunidade? Todas tentam superar as outras culturalmente, arquitetonicamente,
politicamente, tributariamente. Mas  preciso dizer que Roma no entrou nessa corrida
por status. Roma no compete. Roma fica s olhando toda essa aflio e esforo,
inteiramente impassvel, cantarolando uma melodia como quem diz: Ei... podem fazer o
que quiserem, mas eu continuo sendo Roma. A segurana rgia desta cidade me inspira,
to firme e to azeitada, to bem-humorada e to monumental, como quem sabe que tem
o seu lugar especial na Histria. Quando eu for uma velha senhora, gostaria de ser como
Roma.
Hoje fui fazer uma caminhada de seis horas pela cidade. Isso  fcil de fazer,
especialmente se voc parar com freqncia para se reabastecer de caf expresso e doces.
Comeo na porta do meu apartamento, depois saio vagando pelo verdadeiro shopping
center cosmopolita que  o meu bairro. (Apesar de eu no tender a chamar isto aqui
exatamente de bairro, no no sentido tradicional da palavra. Quero dizer, se isto aqui 
um bairro, ento os meus vizinhos so simplesmente aquelas pessoas normais e comuns
com nomes como Valentino, Gucci e Armani.) Esta sempre foi uma regio abastada da
cidade. Rubens, Tennyson, Stendhal, Balzac, Liszt, Wagner, Thackeray, Byron, Keats -
todos eles moraram aqui. Moro no lugar que eles costumavam chamar de "o gueto
ingls", onde todos os aristocratas chiques descansavam em suas grandes viagens pela
Europa. Um clube de viagens londrino chegou a se chamar "A Sociedade dos Diletantti"
-- imaginem fazer propaganda do fato de ser um diletante! Ah, que gloriosa falta de
vergonha...
Caminho at a Piazza del Popolo, com seu imponente arco esculpido por Bernini em
homenagem  histrica visita da rainha Cristina da Sucia (que, na verdade, foi uma das
personalidades mais bombsticas da Histria, E assim que minha amiga Sofie descreve
sua grande rainha: "Ela sabia montar, sabia caar, era uma erudita, virou catlica e levava
uma vida totalmente escandalosa. Alguns dizem que ela era homem mas, no mnimo, ela
provavelmente era lsbica. Usava calas compridas, participava de escavaes
arqueolgicas, colecionava obras de arte e se recusou a deixar um herdeiro"). Ao lado do
arco fica uma igreja onde se pode entrar de graa e ver dois quadros de Caravaggio
retratando o martrio de So Pedro e a converso de So Paulo (to fustigado pela graa
que est cado no cho em um xtase divino; nem mesmo seu cavalo consegue acreditar).
Esses quadros de Caravaggio sempre me fazem sentir pequena e insignificante, mas eu
me alegro passando para o outro lado da igreja para admirar um afresco que retrata o
menino Jesus mais feliz, mais bem-humorado e mais risonho de toda Roma.
Comeo a andar de novo em direo ao sul. Passo pelo Palazzo Borghese, um prdio que
j abrigou muitos hspedes famosos, incluindo Pauline, a escandalosa irm de Napoleo,
que mantinha ali um nmero no revelado de amantes. Ela tambm gostava de usar as
prprias criadas como banquinhos para os ps. (Quem l essa frase no Guia de Roma
Companion sempre espera ter lido errado, mas no - a frase est correta. Ficamos
sabendo que Pauline tambm gostava de ser carregada para o banho por um "negro
gigantesco".)
Depois passeio pelas margens do caudaloso e lamacento Tibre, que mais parece o rio de
uma zona rural, at a Ilha do Tibre, que  um dos meus lugares tranqilos preferidos em
Roma, Essa ilha sempre esteve associada  cura. Um templo a Esculpio foi construdo
nela depois de uma peste em 291 a.C.; na Idade Mdia, um hospital foi erguido ali por
um grupo de monges chamados Fatebenefratelli (que pode ser traduzido informalmente
como "os irmos fazedores do bem"); e at hoje existe um hospital na ilha.
Atravesso o rio at o Trastevere - o bairro onde supostamente moram os verdadeiros
romanos, os operrios, os homens que, ao longo dos sculos, construram todos os
monumentos na outra margem do Tibre. L almoo em uma trattoria tranqila e passo
horas saboreando minha comida e meu vinho, porque ningum no Trastevere jamais ir
impedir voc de fazer uma refeio demorada, se for isso que voc queira fazer. Peo
uma poro sortida de bruschette, uma massa cacto e pepe (uma especialidade romana
simples de massa, servida com queijo e pimenta), e em seguida um frango assado
pequeno, que acabo dividindo com o vira-lata que estava me olhando almoar como s
um vira-lata pode fazer.
Depois, atravesso a ponte de volta, passo pelo antigo gueto judeu, lugar de profunda
tristeza que perdurou por sculos, at ser esvaziado pelos nazistas. Torno a rumar para o
norte e passo pela Piazza Navona, com seu imenso chafariz em homenagem aos grandes
rios do planeta Terra (que com orgulho, embora no de forma totalmente correta, inclui o
Tibre na lista). Em seguida vou dar uma olhada no Panteo. Tento olhar para o Panteo
sempre que tenho oportunidade, j que, afinal de contas, estou em Roma, e um velho
ditado diz que quem vai a Roma e no v o Panteo "vai e volta burro".
No caminho de volta para casa, fao um pequeno desvio e paro no endereo de Roma que
considero mais estranhamente perturbador - o Augusteum. A pilha de tijolos grande,
circular e caindo aos pedaos comeou a vida como um glorioso mausolu construdo por
Otaviano Augusto para abrigar seus restos mortais e os de sua famlia por toda a
eternidade. Devia ser impossvel para o imperador imaginar, na poca, que Roma algum
dia seria outra coisa que no um imprio em louvor a Augusto. Como ele poderia ter
previsto a queda do imprio? Ou como poderia saber que, com todos os aquedutos
destrudos pelos brbaros e as grandes estradas em runas, a cidade perderia seus
habitantes, e seriam necessrios quase vinte sculos para que Roma recuperasse a
populao que se gabava de ter no auge de sua glria?
O mausolu de Augusto foi tomado pelas runas e pelos ladres na Idade das Trevas.
Algum roubou as cinzas do imperador - no se sabe quem. J no sculo XII, porm, o
monumento havia sido restaurado como uma fortaleza para a poderosa famlia Colonna,
para proteg-la dos ataques de vrios prncipes guerreiros. Em seguida, o Augusteum foi,
de certa forma transformado em vinhedo, depois em jardim renascentista, depois em
praa de tourada (j estamos no sculo XVIII), depois em depsito de fogos de artifcio,
depois em sala de concertos. Durante a dcada de 1930, Mussolini confiscou a
propriedade e restaurou suas bases clssicas, para que ela um dia pudesse servir de local
de descanso para os seus restos mortais. (Mais uma vez, devia ser impossvel, na poca,
imaginar que Roma jamais fosse ser qualquer outra coisa que no um imprio em louvor
a Mussolini.)  claro que o sonho fascista de Mussolini no durou muito, e tampouco ele
teve o funeral imperial que previra.
Hoje em dia, o Augusteum  um dos lugares mais tranqilos e mais solitrios de Roma,
enterrado bem fundo no cho. Ao longo dos sculos, a cidade foi crescendo  sua volta.
(Dois centmetros e meio por ano  geralmente a regra para a acumulao dos detritos do
tempo.) O trfego acima do monumento rodopia em um crculo catico, e ningum nunca
desce l -- at onde eu saiba -- a no ser para usar o lugar como banheiro pblico. Mas a
construo ainda existe, mantendo-se orgulhosamente plantada em solo romano,  espera
de sua prxima encarnao.
Considero muito reconfortante a resistncia do Augusteum, o fato de essa estrutura ter
tido uma histria to atribulada e, mesmo assim, ter sempre conseguido se ajustar 
loucura especfica de cada poca. Para mim, o Augusteum  como algum que levou uma
vida totalmente louca - algum que talvez tenha comeado como dona de casa, depois
inesperadamente ficado viva, em seguida virado danarina para ganhar dinheiro, de
alguma forma tenha se tornado a primeira dentista mulher do espao sideral, e depois
tentado a sorte na poltica - e que, mesmo assim, conseguiu manter intacta a conscincia
de si prprio durante cada reviravolta.
Olho para o Augusteum e penso que, no final das contas, talvez a minha vida na verdade
no tenha sido to catica assim.  apenas este mundo que  catico e nos traz mudanas
que ningum poderia ter previsto. O Augusteum me alerta para eu no me apegar a
nenhuma idia intil sobre quem sou, o que represento, a quem perteno ou que funo
eu poderia ter sido criada para executar. Sim, eu ontem posso ter sido um glorioso
monumento a algum -mas amanh posso virar um depsito de fogos de artifcio. At
mesmo na Cidade Eterna, diz o silencioso Augusteum,  preciso estar preparado para
tumultuosas e interminveis ondas de transformao.

26

Logo antes de deixar Nova York e de me mudar para a Itlia, eu enviara a mim mesma,
pelo correio, uma caixa de livros. Disseram que a caixa demoraria de quatro a seis dias
para chegar ao meu apartamento de Roma, mas acho que o correio italiano deve ter lido
errado essa instruo e entendido "46 dias", pois j se passaram dois meses e no vi nem
sinal da minha caixa. Meus amigos italianos me dizem para esquecer completamente
a caixa. Dizem que ela tanto pode chegar quanto pode no chegar, mas no temos como
controlar esse tipo de coisa.
- Ser que algum roubou minha caixa? - pergunto a Luca Spaghetti. - Ser que o correio
perdeu?
Ele cobre os olhos com as mos.
- No faa essas perguntas - diz ele. - Voc s vai se aborrecer.
O mistrio da minha caixa desaparecida provoca uma longa conversa certa noite entre
mim, minha amiga americana Maria e seu marido, Giulio. Maria acha que, em uma
sociedade civilizada, a pessoa deveria poder confiar em coisas como um servio de
correios que entregasse sua correspondncia no prazo previsto, mas Giulio discorda. Ele
afirma que o correio no pertence a nenhum homem, mas ao destino, e que a entrega da
correspondncia no  algo que algum possa garantir. Maria, aborrecida, diz que isso 
apenas mais uma prova do abismo entre catlicos e protestantes. O abismo fica mais
aparente, diz ela, no fato de os italianos - incluindo seu prprio marido - nunca
conseguirem fazer planos para o futuro, nem mesmo com uma semana de antecedncia.
Se voc pedir a uma protestante do Meio-Oeste americano para se comprometer com um
jantar na semana seguinte, essa protestante, acreditando ser capit do prprio destino,
dir: "Quinta-feira  noite est bom para mim." Mas, se voc pedir a um catlico da
Calbria para marcar o mesmo compromisso, ele simplesmente dar de ombros, erguer
os olhos para Deus e perguntar: "Como  que qualquer um de ns pode saber se vai estar
livre para jantar na quinta-feira que vem, j que tudo est nas mos de Deus e nenhum de
ns conhece o prprio destino?"
Mesmo assim, vou  agncia dos correios algumas vezes para tentar descobrir que fim
levou a minha caixa, sem sucesso. A funcionria dos correios de Roma no fica nada
contente quando seu telefonema para o namorado  interrompido pela minha presena. E,
nessa situao estressante, o meu italiano - que tem melhorado mesmo, juro - me escapa.
Quando tento falar de maneira lgica sobre a minha caixa de livros perdida, a mulher me
olha como se eu estivesse soltando perdigotos.
- Ser que ela chega na semana que vem? - pergunto-lhe, em italiano.
Ela d de ombros:
- Magari.
Eis outra gria italiana intraduzvel, que significa algo entre "com sorte, talvez" e "pode
esperar sentado, idiota".
Ah, talvez seja melhor assim. De toda forma, sequer consigo me lembrar dos livros que
coloquei na caixa. Com certeza, foram coisas que pensei que deveria estudar se quisesse
entender italiano. Eu havia enchido essa caixa com todo tipo de material de pesquisa
sobre Roma que simplesmente no parece mais importante agora que estou aqui. Acho
que cheguei at a pr na caixa o texto completo e integral do Declnio e Queda do
Imprio Romano, de Edward Gibbon. Talvez, no final das contas, eu esteja mais feliz sem
ela. J que a vida  to curta, ser que eu quero mesmo passar um noventa avos dos dias
que me restam lendo Edward Gibbon?

27
Na semana passada, conheci uma moa australiana que estava viajando pela Europa de
mochilo pela primeira vez na vida. Expliquei a ela como chegar  estao de trem. Ela
estava a caminho da Eslovnia, s para ver como era. Quando escutei seus planos, fui
tomada por um forte espasmo de inveja, pensando: Eu quero ir  Eslovnia! Por que
nunca viajo para lugar nenhum?
A primeira vista, pode-se pensar que eu j estou viajando. E querer viajar quando j se
est viajando, admito,  um tipo de loucura gananciosa. E como ter a fantasia de transar
com seu artista de cinema preferido, quando voc j est transando com seu outro artista
de cinema preferido. Mas o fato de essa moa ter perguntado o caminho para mim (para
ela, eu era obviamente local) sugere que, tecnicamente, no estou viajando em Roma,
mas sim morando aqui. Quando esbarrei com a moa, na verdade, eu estava indo pagar
minha conta de luz, coisa com a qual nenhum viajante se preocupa. A energia de se viajar
para algum lugar e a energia de se morar em algum lugar so duas energias
fundamentalmente diferentes, e alguma coisa no meu encontro com essa australiana a
caminho da Eslovnia simplesmente me deixou morrendo de vontade de cair na estrada.
E foi por isso que liguei para minha amiga Sofie e falei:
- Vamos passar o dia em Npoles e comer pizza!
Poucas horas depois, estvamos no trem, e ento - como em um passe de mgica -
chegamos. Eu me apaixonei instantaneamente por Npoles. Furiosa, exuberante,
barulhenta, suja, incontrolvel Npoles. Um formigueiro dentro de uma coelheira, com
todo o exotismo de um bazar oriental e um toque de vodu de Nova Orleans. Um hospcio
muito doido, perigoso e alegre. Meu amigo Wade veio a Npoles na dcada de 1970 e foi
assaltado... dentro de um museu. A cidade  toda decorada com a roupa que as pessoas
pem para secar nas janelas, e que fica se sacudindo por cima de cada rua; as camisetas e
os sutis recm-lavados de todo mundo se sacodem ao vento como bandeirolas de prece
tibetanas. No existe uma s rua em Npoles onde algum menino metido a marrento
vestindo uma bermuda e meias de cores diferentes no esteja gritando da calada para
algum outro menino metido a marrento em algum telhado ali perto. Tampouco existe um
s prdio que no tenha pelo menos uma velha corcunda sentada  janela, observando
desconfiada a atividade l embaixo.
As pessoas aqui tm um orgulho louco do fato de serem napolitanas, e por que no
deveriam ter? Esta  a cidade que deu ao mundo a pizza e o sorvete. As napolitanas, em
especial, so um bando de senhoras de vozes fortes, que falam alto, so generosas e
intrometidas, todas mandonas, mal-humoradas e sempre se metendo na sua vida e
simplesmente tentando ajudar voc, pelo amor de Deus, sua estpida -- por que elas
precisam fazer tudo por aqui? O sotaque napolitano parece um amigvel tapo no
ouvido.  como percorrer uma cidade infestada de cozinheiros superatarefados, onde
todos berram ao mesmo tempo. Eles aqui ainda tm seu prprio dialeto, e um dicionrio
volvel e cambiante de grias locais, mas, no sei por qu, descubro que os napolitanos
so as pessoas que considero mais fceis de entender na Itlia. Por qu? Porque eles
querem que voc os entenda, ora bolas. Eles falam alto e com bastante nfase e, se voc
no consegue entender o que de fato est saindo de suas bocas, geralmente consegue
entender as linhas gerais pelos gestos. Como aquela estudante de primeiro grau muito
atrevida, na garupa da motocicleta do primo, que me exibiu o dedo do meio e um sorriso
simptico ao passar, s para me fazer entender; "Ei, no  nada pessoal. Mas eu s tenho
7 anos, e j posso ver que voc  uma idiota completa, mas tudo bem... eu acho voc
razovel, apesar de tudo, e at gosto da sua cara de boba. Ns duas sabemos que voc
adoraria ser eu, mas sinto muito... no vai dar. Mesmo assim, tome aqui o meu dedo do
meio, aproveite sua visita a Npoles, e ciao!"
Como em qualquer lugar pblico na Itlia, h sempre meninos, adolescentes e homens
feitos jogando futebol, mas aqui em Npoles h tambm outra coisa. Por exemplo, hoje
encontrei crianas - quero dizer, um grupo de meninos de 8 anos - que haviam juntado
uns caixotes velhos para improvisar cadeiras e uma mesa, e jogavam pquer na piazza
com tanta exaltao que tive medo de que um deles fosse levar um tiro.
Giovanni e Dario, meus gmeos do intercmbio, so de origem napolitana. No consigo
imaginar isso. No consigo visualizar meu tmido, estudioso e atencioso Giovanni como
um menino no meio desta - e no  por acaso que uso esta palavra - turba. Mas ele 
napolitano, no h dvida, porque, antes de eu sair de Roma, me deu o nome de uma
pizzaria em Npoles  qual tive de ir porque, segundo Giovanni, l se comia a melhor
pizza da cidade. Eu estava muito animada com a idia de ir at l, j que em Npoles se
comem as melhores pizzas da Itlia, e a melhor pizza do mundo  a italiana, o que
significa que essa pizzaria deve ter... sinto-me quase supersticiosa ao dizer isto... a
melhor pizza do mundo? Giovanni me passou o nome do lugar com tanta seriedade e
mpeto que quase tive a sensao de estar sendo aceita em uma sociedade secreta.
Apertou o endereo na palma da minha mo e disse, com o tom da mais sria das
confidencias:
- Por favor, v a esta pizzaria. Pea a margherita com mozzarella extra. Se no comer
essa pizza enquanto estiver em Npoles, por favor, minta para mim depois e me diga que
comeu.
Ento Sofie e eu viemos  Pizzeria da Michele, e as pizzas que acabamos de pedir - uma
para cada - esto nos fazendo perder a cabea. Eu amo tanto a minha pizza, na verdade,
que chego a pensar, no meu delrio, que a minha pizza pode, na verdade, me amar
tambm. Estou tendo um relacionamento com a pizza, quase um caso de amor. Enquanto
isso, Sofie est comendo a sua quase aos prantos, tomada por uma crise metafsica, e
lamentando-se:
- Por que ser que eles ainda se do ao trabalho de fazer pizza em Estocolmo? Por que
ser que a gente sequer se d ao trabalho de comer qualquer comida em Estocolmo?
A Pizzeria da Michele  um lugarzinho que s tem duas salas e um forno que est sempre
ligado. Fica a uns 15 minutos a p da estao de trem debaixo de chuva; nem pense duas
vezes, simplesmente v. Voc precisa chegar bastante cedo, porque algumas vezes a
massa acaba, o que vai partir seu corao.  uma da tarde, as ruas do lado de fora da
pizzaria j ficaram congestionadas com napolitanos tentando chegar ao restaurante,
empurrando os outros para entrar como se estivessem tentando achar um lugar em um
bote salva-vidas. No h cardpio. Eles aqui s tm dois tipos de pizza - normal e com
queijo extra. Nada daquelas invenes californianas meio Nova Era tipo pseudopizza
com azeitonas e tomates secos ao sol. Levo metade da refeio para perceber que o gosto
da massa se parece mais com um nan indiano do que qualquer outra massa de pizza que
eu j tenha provado.  macia, elstica e fofa, mas surpreendentemente fina. Sempre
pensei que, em se tratando de massa de pizza, tivssemos apenas duas escolhas na vida -
fina e crocante, ou grossa e consistente. Como eu poderia saber que era possvel existir
neste mundo uma massa ao mesmo tempo fina e consistente? Maravilha das maravilhas!
Ah, paraso das pizzas finas, consistentes, fortes, boas de morder, deliciosas, elsticas e
salgadas! Para completar, h um molho de tomate adocicado fervendo, borbulhante e
cremoso que faz derreter a mozzarella de bfala, e o ramo solitrio de manjerico no
meio do crculo de alguma forma d  pizza inteira um brilho de ervas mais ou menos da
mesma forma que uma estrela de cinema no meio de uma festa empresta um toque de
glamour a todos  sua volta. Voc tenta dar uma mordida na sua fatia e a borda macia se
dobra, e o queijo derretido escorre como um terreno que desliza, sujando voc e tudo que
est  sua volta, mas so os ossos do ofcio.
Os homens que fazem esse milagre acontecer passam o tempo inteiro colocando e tirando
as pizzas do forno a lenha, igualzinhos a foguistas nas entranhas de um grande navio,
lanando o carvo para dentro das fornalhas em chamas. Mangas arregaadas nos
antebraos suados, rostos corados por causa do esforo, um dos olhos apertado a vigiar o
fogo e um cigarro pendurado no canto da boca. Sofie e eu pedimos outra pizza - outra
pizza inteira para cada uma -, e Sofie tenta se recompor mas, na verdade, a pizza  to
boa que mal conseguimos nos agentar.
Uma palavrinha sobre o meu corpo. Estou engordando cada dia mais,  claro. Estou
maltratando meu corpo aqui na Itlia ao ingerir quantidades to abissais de queijo, massa,
po, vinho, chocolate e pizza. (Soube que, em outro lugar de Npoles, voc pode
encontrar um negcio chamado pizza de chocolate. Que loucura  essa? Quer dizer,
depois fui provar e  delicioso, mas francamente  pizza de chocolate?) No estou
fazendo nenhum exerccio. No estou comendo fibras o suficiente, no estou tomando
nenhuma vitamina. Na minha vida real, sou o tipo de pessoa que come iogurte de leite de
cabra orgnico salpicado de grmen de trigo no caf-da-manh. Meus dias de vida real j
ficaram para trs h muito tempo. L nos Estados Unidos, minha amiga Susan est
dizendo s pessoas que estou fazendo uma excurso chamada "Festival de Carboidratos".
Mas meu corpo est sendo muito camarada a esse respeito. No est ligando para os meus
passos em falso e para os meus acessos de gula, corno quem diz: "Tudo bem garota, v
fundo, sei que isso  s temporrio. Me avise quando a sua expennciazinha de puro
prazer terminar, e vou ver o que posso fazer para limitar os estragos."
Mesmo assim, quando me olho no espelho da melhor pizzaria de Npoles, vejo um rosto
de olhos brilhantes, pele imaculada, feliz e saudvel. Faz tempo que no vejo um rosto
assim em mim.
- Obrigada - murmuro. Ento Sofie e eu samos correndo pela chuva  procura de doces.

28

Suponho que seja essa felicidade (que na verdade agora j tem alguns meses) que me faz
pensar, ao voltar para Roma, que preciso fazer alguma coisa em relao a David. Que
talvez seja hora de ns dois terminarmos nossa histria de vez. J estvamos separados,
era oficial, mas ainda havia uma rstia de esperana de que talvez, um dia (talvez depois
das minhas viagens, talvez depois de um ano separados), pudssemos tentar de novo. Ns
nos amvamos. O problema nunca foi esse. S no conseguamos descobrir como parar
de tornar o outro desesperadamente, alucinadamente, desgraadamente infeliz.
Na primavera anterior, David havia proposto a seguinte louca soluo para os nossos
problemas, s meio brincando:
- E se a gente simplesmente reconhecesse que nosso relacionamento  ruim, e mesmo
assim ficasse junto? Se admitisse que a gente enlouquece um ao outro, que est sempre
brigando e quase nunca transa, mas no consegue viver um sem o outro, por isso agenta
tudo? Da a gente poderia passar a vida inteira junto... infelizes, mas felizes por no
estarmos separados.
Que o fato de eu ter passado os ltimos dez meses considerando seriamente essa proposta
seja um testemunho de como eu amo desesperadamente esse cara.
A outra alternativa que ainda no havamos descartado,  claro,  que um de ns pudesse
mudar. Ele poderia se tornar mais aberto e mais afetuoso, sem se afastar de qualquer
pessoa que o amasse por medo de que ela fosse lhe devorar a alma. Ou eu poderia
aprender a... parar de devorar a alma dele.
Com David, eu muitas vezes havia desejado conseguir me comportar mais como minha
me faz em seu casamento - independente, fone, auto-suficiente. Algum que se vira
sozinho. Algum capaz de existir sem doses regulares de romantismo ou elogios do
solitrio fazendeiro que  meu pai. Algum capaz de plantar alegremente jardins de
margaridas entre os inexplicveis muros de pedra do silncio que meu pai s vezes
constri ao redor de si mesmo. Meu pai  simplesmente a pessoa de quem mais gosto no
mundo, mas ele  meio esquisito. Um ex-namorado meu certa vez o descreveu assim:
- O seu pai s tem um p na Terra. E pernas muito, muito compridas. O que cresci vendo
acontecer na minha casa foi uma me que recebia o amor e o afeto do marido sempre que
ele se lembrava de lhe dar, mas que em seguida se afastava e ia cuidar da prpria vida,
enquanto ele mergulhava em seu universo particular, feito do pior tipo de negligncia
distrada. Pelo menos era assim que eu via as coisas, levando em conta que ningum (e
especialmente no as crianas) nunca conhece os segredos de um casamento. O que acho
que cresci vendo foi uma me que no pedia nada a ningum. Afinal de contas, ela era a
minha me -- uma mulher que havia aprendido a nadar, quando adolescente, sem a ajuda
de ningum, sozinha em um lago frio do Minnesota, com um livro que pegara emprestado
na biblioteca da regio chamado Como Nadar. Aos meus olhos, no havia nada que
aquela mulher no fosse capaz de fazer sozinha.
Mas ento tive uma conversa reveladora com minha me, pouco antes de viajar para
Roma. Ela fora a Nova York almoar comigo pela ltima vez e me perguntara
francamente - quebrando todas as regras de comunicao na histria da nossa famlia - o
que havia acontecido entre mim e David. Ignorando ainda mais o Guia Padronizado de
Regras de Comunicao da Famlia Gilbert, eu lhe disse a verdade, contei-lhe tudo.
Contei-lhe o quanto amava David, mas como me sentia sozinha e desiludida estando com
algum que no parava de sumir da sala, da cama, do planeta.
- Est parecendo que ele  meio igual ao seu pai - disse ela. Um reconhecimento corajoso
e generoso.
- O problema - disse eu -  que no sou igual  minha me. No sou to forte quanto
voc, me. Eu realmente preciso de um nvel constante de proximidade da pessoa que
amo. Queria conseguir ser mais parecida com voc, ento eu poderia viver esta histria
de amor com o David. Mas no poder contar com esse afeto quando preciso dele
simplesmente me destri.
Foi a que minha me me chocou. Ela disse:
- Sabe todas essas coisas que voc quer do seu relacionamento, Liz? Eu tambm sempre
quis essas coisas.
Nesse instante, foi como se a minha me to forte estendesse a mo por cima da mesa,
abrisse o punho fechado e finalmente me mostrasse a quantidade de sapos que tivera de
engolir ao longo de tantas dcadas para conseguir permanecer feliz no casamento com
meu pai (e, considerando todos os prs e os contras, ela  feliz no casamento). Nunca
tinha visto esse seu lado antes, nunca. Nunca havia imaginado o que ela poderia ter
querido, o que poderia lhe ter faltado, por que coisas ela poderia ter decidido no lutar
depois de considerar a situao de forma geral. Ao ver tudo isso, pude sentir minha
prpria viso de mundo comear a sofrer uma mudana radical.
Se at ela quer o que eu quero, ento...?
Dando prosseguimento a essa sucesso indita de intimidades, minha me falou:
- Voc precisa entender que fui criada esperando merecer muito pouca coisa da vida, meu
anjo. Lembre-se... sou de um tempo e de um lugar diferentes dos seus.
Fechei os olhos e vi minha me aos 10 anos de idade, na fazenda da famlia em
Minnesota, trabalhando como uma condenada, criando os irmos mais novos, usando as
roupas da irm mais velha, poupando centavos para conseguir sair de l...
- E voc precisa entender o quanto amo o seu pai - concluiu ela.
Minha me fez escolhas na vida, como todos ns precisamos fazer, e est em paz com
elas. Posso ver a sua paz. Ela no julgou a si mesma. Os benefcios das suas escolhas so
enormes - um casamento duradouro e estvel com um homem a quem ela ainda chama de
melhor amigo; uma famlia que agora inclui netos que a adoram; a certeza de sua prpria
fora. Talvez algumas coisas tenham sido sacrificadas, e meu pai tambm fez l os seus
sacrifcios - mas qual de ns vive sem sacrifcio?
E, agora, a pergunta para mim : Quais sero as minhas escolhas? O que eu acho que
mereo nesta vida? Onde posso aceitar fazer sacrifcios, e onde isso no ser possvel?
Tem sido muito difcil para mim imaginar a vida sem David. Tem sido difcil at
imaginar que nunca haver nenhuma outra viagem de carro com meu companheiro de
viagem preferido, que nunca mais vou encostar no meio-fio em frente  casa dele com as
janelas abertas e Bruce Springsteen tocando no rdio, um estoque imenso de papo-furado
e besteiras para comer em cima do banco, e infinitos destinos despontando na auto-
estrada. Mas como posso aceitar essa felicidade, quando ela vem acompanhada de um
lado to sombrio - um isolamento acachapante, uma insegurana corrosiva, um
ressentimento insidioso e,  claro, a completa desintegrao do meu ser que
inevitavelmente acontece quando David pra de dar e comea a levar embora. No
consigo mais fazer isso. Alguma coisa em minha recente felicidade napolitana me fez ter
certeza de que no apenas eu posso encontrar a felicidade sem David, mas que eu preciso
fazer isso. Por mais que eu o ame (e eu o amo de verdade, de forma estupidamente
excessiva), preciso dizer adeus a essa pessoa agora. E preciso me manter fiel a essa
deciso.
Ento escrevo um e-mail para ele.
Estamos em novembro. No nos falamos desde julho. Eu lhe pedira para no entrar em
contato comigo enquanto eu estivesse fora, sabendo que meu apego a ele era to forte que
seria impossvel me concentrar na viagem se tambm estivesse acompanhando o que ele
estava fazendo. Mas agora, com esse e-mail, estou entrando de novo na sua vida.
Eu lhe digo que espero que ele esteja bem e que estou bem. Fao algumas brincadeiras.
Sempre fomos bons de brincadeiras. Em seguida, explico que acho que precisamos pr
um ponto final nesse relacionamento. Que talvez seja hora de reconhecer que nunca vai
dar certo, que no  para dar certo. O tom no  excessivamente dramtico. Deus sabe
que j houve drama suficiente entre ns. A mensagem  curta e simples. Mas h mais
uma coisa que preciso acrescentar. Prendendo a respirao, escrevo: "Se voc quiser
procurar outra pessoa na sua vida,  claro que eu lhe desejo tudo de bom." Minhas mos
esto tremendo. Assino com "um beijo", tentando manter o tom mais descontrado
possvel.
Tenho a sensao de que algum acaba de golpear meu peito com um basto.
No durmo muito nessa noite, imaginando-o a ler minhas palavras. Durante o dia
seguinte, corro algumas vezes at o cybercaf  procura de uma resposta. Estou tentando
ignorar aquela parte de mim morta de vontade de que ele responda: "VOLTE! NO V
EMBORA! EU VOU MUDAR!" Estou tentando ignorar a menininha dentro de mim que
abriria mo alegremente de toda essa idia grandiosa de viajar pelo mundo em troca
apenas das chaves do apartamento de David. Mas, por volta das dez horas da noite,
finalmente recebo minha resposta. Um e-mail maravilhoso,  claro. David sempre
escreveu lindamente. Ele concorda que, sim,  hora de finalmente dizermos adeus para
sempre. Diz que ele prprio vem pensando mais ou menos a mesma coisa. No poderia
ter sido mais gentil em sua resposta, e compartilha seus prprios sentimentos de perda e
arrependimento com aquele imenso afeto que algumas vezes ele era to comoventemente
capaz de atingir. Ele espera que eu saiba o quanto ele me adora, e que no consegue
sequer encontrar palavras para expressar isso." Mas a gente no  o que o outro precisa",
diz ele. No entanto, ele tem certeza de que eu algum dia vou encontrar um grande amor
na minha vida. Ele tem certeza disso. Afinal, ele diz, beleza atrai beleza".
E isso, de fato,  uma coisa muito linda de se dizer. E  praticamente a melhor coisa que o
amor da sua vida poderia dizer, quando no est dizendo: "VOLTE! NO V
EMBORA! EU VOU MUDAR!"
Fico ali sentada encarando a tela do computador, sem dizer nada, durante um tempo
longo e triste.  melhor assim, eu sei que . Estou escolhendo a felicidade em lugar do
sofrimento, eu sei que estou. Estou criando espao para o futuro desconhecido encher
minha vida com surpresas que ainda esto por vir. Eu sei tudo isso. Mas mesmo assim...
 David. Eu agora o perdi.
Seguro o rosto com as mos durante um tempo ainda mais longo e ainda mais triste. Por
fim, ergo os olhos, e tudo que vejo  que uma das albanesas que trabalha no cybercaf
parou de esfregar o cho como faz todas as noites para se encostar na parede e me olhar.
Por um instante, encaramos uma  outra com nossos olhares cansados. Ento sacudo a
cabea para ela pesarosamente e digo em voz alta:
- Que dureza. - Ela balana a cabea de forma compreensiva. No entendeu o que eu
disse, mas  claro que,  sua maneira, entendeu totalmente.
Meu celular toca.
 Giovanni. Ele parece estar confuso. Diz que est me esperando h mais de uma hora na
Piazza Fiume, que  onde sempre nos encontramos nas noites de quinta-feira para nossas
conversas em duas lnguas. No est entendendo nada, porque normalmente  ele quem
chega atrasado ou se esquece de aparecer para os nossos encontros, mas nesta noite
excepcionalmente chegou na hora exata, e tinha quase certeza... ns no tnhamos
marcado de nos encontrar?
Eu tinha me esquecido. Digo-lhe onde estou. Ele diz que vai vir me buscar com seu carro.
No estou com vontade de encontrar ningum, mas e difcil demais explicar isso no
telefonino, dadas nossas habilidades lingsticas limitadas. Vou esper-lo do lado de fora,
no frio. Alguns minutos depois, seu carrinho vermelho aparece e eu entro. Ele me
pergunta, em um italiano cheio de gria, o que est acontecendo. Abro a boca para
responder e desato a chorar. Ou melhor - comeo a uivar. Ou melhor - aquele tipo de
choro terrvel, convulso, que minha amiga Sally chama de "soluo dobrado", quando
voc precisa puxar duas desesperadas golfadas de oxignio a cada soluo. Eu sequer
chegara a perceber que esse terremoto de tristeza estava chegando, fui pega totalmente de
surpresa.
Coitado de Giovanni! Em um ingls capenga, ele me pergunta se fez alguma coisa errada.
Ser que estou brava com ele? Ser que ele me magoou? No consigo responder, mas
fao que no com a cabea e continuo a uivar. Estou totalmente arrasada comigo mesma
e com muita pena do querido Giovanni, encurralado ali naquele carro com uma mulher
velha soluante e incoerente que est totalmente a pezzi -- destroada.
Finalmente, consigo balbuciar uma explicao de que o meu estado no tem nada a ver
com ele. Engasgando, peo desculpas por estar desse jeito. Giovanni assume o controle
da situao de um modo muito mais maduro do que a sua pouca idade. Ele diz:
-- No pea desculpas por estar chorando. Sem emoo, a gente no passa de robs. --
Ele me estende uns lenos de papel de uma caixa no banco de trs do carro. -- Vamos
dar uma volta -- diz.
Ele tem razo - a frente desse cybercaf  um lugar exposto e iluminado demais para se
ter um colapso nervoso. Ele dirige um pouco, depois entra com o carro no meio da Piazza
delia Repubblica, um dos espaos abertos mais nobres de Roma. Estaciona na frente
daquele magnfico chafariz onde ousadas ninfas nuas danam pornograficamente com seu
bando flico de cisnes gigantes de pescoo rijo. Esse chafariz foi construdo bastante
recentemente para os padres romanos. Segundo o meu guia, as mulheres que serviram
de modelos para as ninfas eram duas irms, danarinas burlescas populares da poca.
Ganharam uma fama razovel depois de o chafariz ficar pronto; a Igreja passou meses
tentando evitar que a obra fosse exposta, porque ela era sensual demais. As irms
viveram at uma idade bastante avanada e, na dcada de 1920, essas duas dignas
senhoras ainda podiam ser vistas caminhando juntas pela piazza todos os dias, para olhar
o "seu" chafariz. E, a cada ano, uma vez por ano, durante toda a vida, o escultor francs
que as havia retratado em mrmore no auge da beleza vinha a Roma e levava as irms
para almoar, e os trs ficavam relembrando juntos os dias em que eram todos to jovens,
bonitos e ousados. Ento Giovanni estaciona ali e espera eu me controlar. Tudo que
consigo fazer  pressionar os olhos com as palmas das mos para tentar empurrar as
lgrimas de volta para dentro. Eu e Giovanni nunca tivemos uma conversa pessoal.
Durante todos esses meses, todos esses jantares juntos, tudo sobre o que conversamos foi
filosofia, arte, cultura, poltica e comida. No sabemos nada sobre a vida particular um do
outro. Ele sequer sabe que eu sou divorciada ou que deixei um amor para trs nos Estados
Unidos. Eu no sei nada sobre ele, a no ser que ele quer ser escritor e que nasceu em
Npoles. O meu choro, porm, est prestes a criar um nvel inteiramente novo de
conversa entre essas duas pessoas. Eu gostaria que isso no acontecesse. No nessas
circunstncias terrveis.
Ele diz:
- Desculpe, mas no estou entendendo. Voc perdeu alguma coisa hoje? Mas ainda estou
com dificuldades para descobrir como falar. Giovanni sorri e, para me incentivar, diz:
-- Parla come mangi.
Ele sabe que esta  uma das minhas expresses preferidas do dialeto romano. Significa:
"Fale do mesmo jeito que voc come", ou, na minha traduo pessoal, "Diga como se
estivesse comendo".  um lembrete - quando voc est se esforando alm da conta para
explicar alguma coisa, quando est procurando as palavras certas - para manter sua
linguagem simples e direta como a culinria romana. No transforme isso em um bicho-
de-sete-cabeas. Simplesmente fale.
Respiro fundo e fao, em italiano, uma verso muito resumida (mas, de certa forma,
totalmente completa) da minha situao:
--  por causa de uma histria de amor, Giovanni. Tive de me despedir de uma pessoa
hoje.
Ento minhas mos tornam a se espalmar sobre meus olhos, e as lgrimas escorrem por
entre meus dedos tensos. Graas a Deus, Giovanni no tenta me dar um abrao
reconfortante, nem expressa qualquer desconforto em relao  minha exploso de
tristeza. Em vez disso, fica sentado enquanto choro, sem dizer nada. At eu me acalmar.
E ento, com uma empatia perfeita, escolhendo cuidadosamente cada palavra (como sua
professora de ingls, senti muito orgulho dele nessa noite!), ele diz de forma lenta, clara e
gentil:
- Eu entendo, Liz. J passei por isso.

29

A chegada da minha irm a Roma, alguns dias depois, ajudou a desviar minha ateno da
tristeza por causa de David, que no queria ir embora, e me fez voltar ao ritmo normal.
Minha irm faz tudo depressa, e a energia rodopia  sua volta em pequeninos ciclones.
Ela  trs anos mais velha e 8 centmetros mais alta do que eu.  atleta, estudiosa, me e
escritora. Durante o tempo todo que passou em Roma, treinou para uma maratona, o que
significa que acordava de madrugada e corria quase 30 quilmetros durante o tempo que
geralmente levo para ler um artigo de jornal e tomar dois cappuccinos. Na verdade, ela
parece uma gazela quando corre. Quando estava grvida do primeiro filho, certa vez
nadou de uma margem a outra de um lago, no escuro. No quis acompanh-la, e eu
sequer estava grvida. Estava era com um medo danado. Mas a minha irm no sabe o
que  ficar com medo. Quando estava grvida do segundo filho, uma parteira perguntou
se Catherine tinha algum medo que nunca houvesse revelado sobre qualquer coisa que
pudesse dar errado com o beb - por exemplo, defeitos genticos ou complicaes
durante o parto. Minha irm respondeu:
- Meu nico medo  que o beb vire republicano quando crescer.  esse o nome da minha
irm - Catherine. Ela  minha nica irm. Quando ramos crianas, na zona rural de
Connecticut, ramos s ns duas morando em uma fazenda com nossos pais. No havia
outras crianas por perto. Ela era forte e dominadora, a comandante da minha vida
inteira. Eu vivia em perptua admirao e medo dela; a opinio de mais ningum tinha
importncia, s a dela. Eu roubava quando jogava baralho com ela s para perder, para
ela no ficar brava comigo. Nem sempre ramos amigas. Eu a irritava, e tive medo dela,
acho, at fazer 28 anos e me cansar de ter medo. Esse foi o ano em que finalmente a
enfrentei, e a reao dela foi algo do tipo: "Por que demorou tanto?"
Mal estvamos comeando a estabelecer os novos termos do nosso relacionamento
quando meu casamento comeou a desandar. Teria sido to fcil para Catherine obter sua
vitria graas  minha derrota. Eu sempre fora a amada, a sortuda, a preferida tanto da
famlia quanto do destino. O mundo sempre fora um lugar mais confortvel e acolhedor
para mim do que para minha irm, que se esforou muito na vida, e algumas vezes tudo
que conseguiu foi ser ferida por ela com bastante fora. Teria sido to fcil para
Catherine ter reagido ao meu divrcio e  minha depresso com um "Ah! Olhe a
menininha perfeita agora!". Em vez disso, ela me apoiou totalmente. Atendia ao telefone
no meio da noite sempre que eu estava aflita e fazia rudos reconfortantes. E ia comigo
sempre que eu saa  procura dos motivos pelos quais estava to triste. Durante muito
tempo, ela praticamente me substituiu na minha terapia, tamanha a freqncia de sua
participao. Eu ligava para ela depois de cada sesso para relatar tudo que havia
compreendido no consultrio da minha terapeuta, e ela largava o que quer que estivesse
fazendo e dizia: "Ah... isso explica muita coisa." Ou seja, explica muita coisa sobre ns
duas.
Agora nos ralamos pelo telefone quase todos os dias - ou pelo menos, nos falvamos
antes de eu vir para Roma. Hoje em dia, antes de qualquer uma de ns duas entrar em um
avio, sempre liga para a outra para dizer: "Sei que isto  mrbido, mas eu s queria dizer
que te amo. Voc sabe... s para garantir..." E a outra sempre diz: "Eu sei... s para
garantir."
Ela chega a Roma preparada, como sempre. Traz cinco guias, todos os quais ela j leu, e
tem a cidade j mapeada mentalmente. J estava totalmente orientada antes mesmo de
sair da Filadlfia. E isso  um exemplo clssico da diferena entre ns duas. Sou aquela
que passou as primeiras semanas em Roma andando a esmo, 90% perdida e 100% feliz,
vendo tudo  minha volta como um lindo mistrio inexplicado. Mas  meio assim que o
mundo sempre me parece ser. Aos olhos da minha irm, no h nada que no possa ser
explicado se a pessoa tiver acesso a uma biblioteca bsica. Minha irm  uma mulher que
guarda a Enciclopdia Columbia na cozinha, ao lado dos livros de culinria -- e que de
fato a l, por prazer.
Existe um jogo que s vezes gosto de jogar com meus amigos, chamado "Olhe s!".
Sempre que algum est em dvida sobre algum fato obscuro (por exemplo: "Quem foi
So Lus?"), eu digo: "Olhe s!", pego o telefone e disco o nmero da minha irm.
Algumas vezes, ela est no carro, levando seus filhos de volta para casa depois da escola,
e diz pensativamente: "So Lus... bom, ele na verdade foi um rei francs asceta, o que 
interessante porque..."
Ento minha irm vem me visitar em Roma - na minha nova cidade -, e  ela quem vai
mostr-la a mim. Isto aqui  Roma,  la Catherine. Cheia de fatos, datas e de uma
arquitetura que no vejo, porque minha mente no funciona assim. A nica coisa que
quero saber sobre qualquer lugar ou qualquer pessoa  sua histria, e essa  a nica coisa
na qual presto ateno - nunca nos detalhes estticos. (Sofie veio ao meu apartamento um
ms depois de eu ter me mudado para l e disse: "Que banheiro cor-de-rosa lindo", e essa
foi a primeira vez que percebi que ele era, de fato, cor-de-rosa. Cor-de-rosa choque, de
cima a baixo, ladrilhos rosa choque por toda parte - eu sinceramente no tinha reparado
antes.) Mas o olho treinado da minha irm detecta os detalhes gticos, romanescos ou
bizantinos de um prdio, o desenho do cho de uma igreja, ou o apagado esboo do
afresco inacabado escondido atrs do altar. Ela percorre Roma com suas pernas
compridas (costumvamos cham-la de "Catherine das coxas de um metro"), e caminho
apressada atrs dela, como venho fazendo desde que aprendi a andar, dando dois
passinhos aflitos para cada passo seu.
- Est vendo, Liz? - diz ela. - Est vendo como eles simplesmente colaram esta fechada
novecentista por cima daqueles tijolos? Aposto que, se a gente virar a esquina, vai
encontrar... isso!... Est vendo, eles usaram mesmo os monolitos romanos originais como
vigas, provavelmente porque no tinham homens suficientes para tir-los do lugar... , eu
gosto bastante da cara de segunda mo desta baslica...
Catherine carrega seu mapa e seu guia verde Michelin, eu carrego nosso piquenique para
o almoo (dois daqueles pes redondinhos, uma lingia condimentada, sardinhas em
conserva enroladas em volta de suculentas azeitonas verdes, um pat de cogumelos que
tem gosto de floresta, bolas de mozzarella defumada, rcula com pimenta grelhada,
tomatinhos-cereja, queijo pecorino, gua mineral e meia garrafa de vinho branco gelado),
e, enquanto me pergunto onde vamos comer, ela pergunta em voz alta:
- Por que as pessoas no falam mais sobre o Concilio de Trento?
Ela me faz entrar em dzias de igrejas romanas, e eu as confundo todas - Santo Isso e
Santo Aquilo, e Santo Algum dos Penitentes Descalos da Divina Misericrdia... mas o
fato de eu no conseguir me lembrar nem dos nomes, nem dos detalhes de todos esses
contrafortes e cornijas no quer dizer que no adore entrar nesses lugares com minha
irm, cujos olhos cor de cobalto no deixam escapar nada. No me lembro do nome da
igreja que tinha os afrescos to parecidos com aqueles murais feitos pelos americanos em
homenagem ao New Deal, mas lembro-me de Catherine mostrando-os para mim e
dizendo:
- No d para no amar aqueles papas que so a cara do Franklin Roosevelt, ali em
cima... -Tambm me lembro da manh em que acordamos cedo e fomos assistir  missa
em Santa Susanna, e ficamos de mos dadas ouvindo as freiras entoarem seus cantos
gregorianos da alvorada, ambas aos prantos por causa da magia ressonante de suas
preces. Minha irm no  uma pessoa religiosa. Na verdade, ningum na minha famlia .
(Passei a gostar de me referir a mim mesma como a "ovelha branca" da famlia.) Minhas
experincias espirituais interessam a minha irm sobretudo pela curiosidade intelectual.
- Acho esse tipo de f to lindo - sussurra ela para mim na igreja -, mas no consigo,
simplesmente no consigo...
Vejam outro exemplo das diferenas em nossa forma de encarar o mundo. Uma famlia
que mora no bairro da minha irm recentemente viveu uma tragdia dupla, quando tanto
a jovem me quanto seu filho de 3 anos descobriram estar com cncer. Quando Catherine
me contou isso, s consegui dizer, chocada:
- Essa famlia precisa  de comida - e dedicou-se a organizar o bairro inteiro para levar o
jantar para aquela famlia, todas as noites, durante um ano inteiro. No sei se minha irm
tem plena conscincia de que isso  uma bno.
Samos de Santa Susanna e ela diz:
- Voc sabe por que os papas precisavam de planejamento urbano na Idade Mdia?
Porque a cidade recebia basicamente 2 milhes de peregrinos catlicos por ano de todo o
mundo ocidental, que vinham fazer a caminhada do Vaticano at So Joo Laterano, s
vezes de joelhos, e essa gente toda precisava de infra-estrutura.
A f da minha irm  no aprendizado. Seu texto sagrado  o Dicionrio Oxford da Lngua
Inglesa. Quando ela inclina a cabea para estudar, correndo os dedos pelas pginas, ela
est com seu Deus. Nesse mesmo dia, vejo minha irm rezando outra vez - quando ela se
ajoelha no meio do Frum Romano, limpa um pouco de sujeira do cho (como se
estivesse apagando um quadro-negro) e em seguida empunha uma pedrinha e desenha
para mim, na terra batida, a planta de uma baslica romanesca clssica. Aponta para o
desenho, e depois para a runa  sua frente, fazendo-me entender (at eu, que no presto
ateno em nada, consigo entender!) como aquele prdio deveria ter sido 18 sculos
antes. Com o dedo, esboa no ar vazio os arcos ausentes, a nave, as janelas h muito
desaparecidas. Como um menino pintando o cu, ela preenche o cosmo deserto com sua
imaginao e reconstri o que foi destrudo.
Em italiano, existe um tempo verbal raramente usado que se chama passato remoto, o
passado remoto. Usa-se esse tempo quando se est falando de coisas em um passado
muito, muito distante, coisas que aconteceram h tanto tempo atrs que no tm
absolutamente mais nenhum impacto pessoal sobre voc - por exemplo, a histria antiga.
Mas a minha irm, se falasse italiano, no usaria esse tempo verbal para falar de histria
antiga. No mundo dela, o Frum Romano no  remoto, nem tampouco  passado. 
exatamente to presente e prximo dela quanto eu.
Ela vai embora no dia seguinte.
- Escute - digo -, no deixe de me ligar quando seu avio aterrissar em
segurana, t? No quero ser mrbida, mas...
- Eu sei, querida - diz ela. - Eu tambm amo voc.

30

Algumas vezes, fico muito surpresa ao perceber que minha irm  esposa e me, e eu
no. De certa forma, sempre pensei que seria o contrrio. Pensei que seria eu quem
acabaria tendo uma casa cheia de botas sujas de lama e crianas aos berros, enquanto
Catherine viveria solteira, em carreira solo, lendo sozinha na cama todas as noites. Ns
crescemos e nos transformamos em adultas diferentes daquilo que qualquer um poderia
ter previsto quando ramos crianas. Mas acho que  melhor assim Contrariando todas as
previses, cada uma de ns criou a vida que combina consigo. A natureza solitria de
Catherine significa que ela precisa de uma famlia para mant-la afastada da solido; a
minha natureza gregria significa que eu nunca precisarei me preocupar com o fato de
estar sozinha, mesmo quando estiver solteira. Fico feliz por ela estar voltando para casa
para encontrar sua famlia, e tambm fico feliz por ter mais nove meses de viagem pela
frente, nos quais tudo o que preciso fazer  comer, ler, rezar e escrever.
Ainda no sei dizer se um dia vou querer ter filhos. Fiquei atnita ao descobrir que no
queria t-los aos 30 anos; a lembrana dessa surpresa me torna cautelosa antes de fazer
qualquer prognstico sobre como me sentirei aos 40. S posso dizer como me sinto agora
- grata por estar sozinha. Tambm sei que no vou ter filhos apenas para o caso de me
arrepender de no t-los tido mais tarde na vida; no acho que isso seja uma motivao
forte o suficiente para colocar mais bebs no mundo. Embora suspeite que haja pessoas
que de rato se reproduzem por esse motivo -- um seguro contra arrependimentos futuros.
Acho que as pessoas tm filhos pelos mais diversos motivos - s vezes por puro desejo de
cuidar e de testemunhar o surgimento da vida, s vezes por falta de escolha, s vezes para
segurar um parceiro ou criar um herdeiro, s vezes sem pensar no assunto de nenhuma
maneira especfica. Nem todos os motivos para se ter filhos so iguais, e nem todos eles
so necessariamente altrustas. Mas tampouco todos os motivos para no se ter filhos so
os mesmos. Nem todo esses motivos so necessariamente egostas.
Digo isso porque ainda estou digerindo essa acusao, que me foi feita muitas vezes por
meu marido enquanto nosso casamento estava vindo abaixo - egosmo. Toda vez que ele
dizia isso, eu concordava inteiramente, aceitava a culpa, vestia a carapua. Meu Deus, eu
sequer tivera os bebs e j os estava negligenciando, j estava escolhendo a mim mesma
em detrimento deles. Eu j era uma me ruim. Esses bebs - esses bebs-fantasmas -
apareciam muito em nossas discusses. Quem iria cuidar dos bebs? Quem ficaria em
casa com os bebs? Quem sustentaria os bebs financeiramente? Quem daria comida aos
bebs no meio da noite? Lembro-me de dizer certa vez para minha amiga Susan, quando
meu casamento estava se tornando intolervel:
- Eu no quero que os meus filhos cresam em uma casa assim.
- Por que voc no deixa essas "crianas" fora da conversa? - falou Susan. - Elas ainda
nem existem, Liz. Por que voc no consegue simplesmente admitir que no quer mais
viver infeliz? Que nenhum de vocs dois quer isso E  melhor perceber isso agora, alis,
do que na sala de pano, quando voc estiver com 5 centmetros de dilatao.
Lembro-me de ir a uma festa em Nova York mais ou menos nessa poca. Um casal, dois
artistas plsticos de sucesso, havia acabado de ter um beb, e a me estava comemorando
a inaugurao de uma exposio de seus trabalhos em uma galeria. Lembro-me de ficar
olhando essa mulher, a nova me, minha amiga, a artista plstica, enquanto ela tentava
ser a anfitri da festa (que estava acontecendo no loft dela) ao mesmo tempo em que
cuidava do filho e discutia seu trabalho profissionalmente. Nunca vi algum com mais
cara de quem no tem dormido o suficiente. Nunca vou conseguir me esquecer da
imagem dela em p na cozinha depois da meia-noite, com os braos mergulhados at os
cotovelos em uma pia de loua suja, tentando arrumar tudo depois da festa. Seu marido
(sinto muito por dizer isso e tenho plena conscincia de que isso no , de jeito nenhum,
representativo de todos os maridos) estava no outro cmodo, literalmente com os ps em
cima da mesa, vendo televiso. Ela finalmente perguntou se poderia ajudar a arrumar a
cozinha, e ele disse:
- Deixe, amor... ns limpamos isso amanh de manh. - O beb comeou a chorar de
novo. O leite da minha amiga vazava pelo seu vestido de festa.
Quase com certeza, as outras pessoas que foram a essa festa saram com imagens
diferentes das minhas. Muitos dos outros convidados podem ter sentido uma baita inveja
daquela linda mulher com seu bebezinho saudvel, inveja de sua bem-sucedida carreira
de artista, de seu casamento com um homem legal, de seu apartamento maravilhoso, de
seu vestido de festa. Havia pessoas naquela festa que provavelmente teriam trocado de
vida com ela em um instante, se tivessem a oportunidade. Essa mulher provavelmente se
lembra desse evento - se  que pensa nele - como uma noite cansativa, mas que valeu
totalmente a pena em sua vida globalmente prazerosa feita de maternidade, casamento e
carreira. Quanto a mim, porm, tudo que posso dizer  que passei a festa inteira tremendo
de pnico, pensando: Se voc no admitir que esse  o seu futuro, Liz, ento voc est
louca. No deixe isso acontecer.
Mas ser que eu tinha a responsabilidade de ter uma famlia? Ai, meu Deus 
responsabilidade. Essa palavra ficou martelando na minha cabea at eu prestar ateno
nela, observ-la com cuidado, e dela derivar duas palavras que compem sua verdadeira
definio: a habilidade, ou capacidade, de responder, ou de reagir. E aquilo a que eu, no
final das contas, precisava reagir era  realidade de que cada partcula do meu ser estava
me dizendo para sair do meu casamento. Em algum lugar dentro de mim, um sistema de
alerta antecipado estava prevendo que, se eu continuasse tentando sobreviver quela
tempestade na marra, acabaria ficando com cncer. E que, se eu pusesse crianas no
mundo mesmo assim, s porque no queria lidar com a chateao e com a vergonha de
revelar alguns fatos pouco prticos sobre mim mesma  isso sim seria um ato de
tremenda irresponsabilidade.
No final, porm, o que mais me guiou foi uma coisa que minha amiga Sheryl me disse
naquela mesma noite, naquela mesma festa, quando me descobriu escondida no banheiro
do elegante loft da nossa amiga, tremendo de medo, jogando gua no rosto. Naquela
poca, Sheryl no sabia o que estava acontecendo no meu casamento. Ningum sabia. E
eu no lhe contei naquela noite. Tudo que consegui dizer foi:
-- Eu no sei o que fazer. -- Lembro-me de ela me pegar pelos ombros e me olhar nos
olhos com um sorriso calmo, e dizer apenas:
- Diga a verdade, diga a verdade, diga a verdade.
Ento foi isso que tentei fazer.
S que sair de um casamento  difcil, e no s por causa das complicaes
jurdicas/financeiras da enorme mudana de estilo de vida. (Como me aconselhou
sabiamente certa vez minha amiga Deborah: "Ningum nunca morreu do fato de dividir
mveis.") E o impacto emocional que  de matar, o choque de sair do caminho conhecido
de um estilo de vida convencional e perder todos os agradveis confortos que mantm
tanta gente nesse caminho para sempre. Formar uma famlia com um cnjuge  uma das
maneiras mais fundamentais pelas quais uma pessoa pode encontrar continuidade e
significado na sociedade americana (ou em qualquer outra). Redescubro essa verdade
sempre que vou a uma grande reunio da famlia da minha me em Minnesota e vejo
como cada um  mantido na mesma posio, de forma to segura, durante anos a fio.
Primeiro voc  criana, depois  adolescente, depois  recm-casado, depois  pai,
depois  aposentado, depois  av - em cada estgio, voc sabe quem , sabe qual  o seu
dever e sabe onde se sentar na reunio. At que, finalmente, vai sentar-se com os
nonagenrios na sombra, para observar satisfeito a sua prole. Quem voc ? Fcil - voc 
a pessoa que criou tudo isso. A satisfao de saber isso  imediata e, alm do mais, 
internacionalmente reconhecida. Quanta gente j ouvi dizer que os filhos so a maior
realizao e o maior reconforto de suas vidas? So aqueles com quem eles sempre podem
contar durante uma crise metafsica, ou em um momento de dvida quanto a sua
relevncia  Se eu no tiver feito mais nada nesta vida, ento pelo menos terei criado
bem os meus filhos.
Mas e se, seja por escolha ou por uma relutante necessidade, voc acabar no
participando desse reconfortante ciclo de famlia e continuidade? E se voc sair dele?
Onde vai se sentar na reunio? Como vai marcar a passagem do tempo sem o medo de ter
simplesmente desperdiado seu tempo na Terra sem ser relevante? Voc vai precisar
encontrar outro propsito, outra medida pela qual avaliar se foi ou no um ser humano
bem-sucedido. Adoro crianas, mas e se eu no tiver filhos? Que tipo de pessoa isso me
torna?
Virginia Woolf escreveu: "Sobre o imenso continente da vida de uma mulher recai a
sombra de uma espada." De um lado dessa espada, disse ela, esto a conveno, a
tradio e a ordem, onde "tudo  correto". Mas, do outro lado dessa espada, se voc for
louca o suficiente para atravessar a sombra e escolher uma vida que no segue a
conveno, "tudo  confuso. Nada segue um curso regular". Seu argumento era que
atravessar a sombra dessa espada pode proporcionar  mulher uma existncia muito mais
interessante, mas podem apostar que ela tambm ser mais perigosa.
Tenho sorte de pelo menos ter a minha escrita. Isso  algo que as pessoas podem
entender. Ah, ela terminou seu casamento para preservar sua arte. Isso  meio verdade,
embora no completamente. Muitos escritores tm famlias. Toni Morrison, s para citar
um exemplo, no deixou a criao de seu filho impedi-la de ganhar um pequeno agrado
que chamamos de Prmio Nobel. Mas Toni Morrison fez o seu prprio caminho, e eu
devo fazer o meu. O Bhagavad Gita - aquele antigo texto iogue indiano - diz que 
melhor viver o seu prprio destino de forma imperfeita do que viver a imitao da vida de
outra pessoa com perfeio. Ento agora comecei a viver a minha prpria vida. Por mais
imperfeita e atabalhoada que ela possa parecer, ela combina comigo, de alto a baixo.
De toda forma, s estou falando isso tudo para reconhecer que - em comparao com a
existncia da minha irm, com sua casa, com seu bom casamento e com seus filhos -
quem me v hoje em dia me considera bastante instvel. No tenho sequer um endereo,
e isso  uma espcie de crime contra a normalidade nesta minha avanada idade de 34
anos. Neste exato momento inclusive, todos os meus pertences esto guardados na casa
de Catherine, e ela me deu um quarto temporrio no andar de cima de sua casa (que todos
chamamos de "Os Aposentos da Tia Solteirona", uma vez que de tem uma janelinha de
sto pela qual posso olhar as charnecas usando meu velho vestido de noiva, chorando
minha juventude perdida). Catherine parece aceitar bem esse arranjo, e ele sem dvida 
conveniente para mim, mas tenho conscincia do perigo de, se eu passar tempo demais 
deriva neste mundo, um dia poder me transformar na Maluca da Famlia. Ou talvez isso
j tenha acontecido. No vero passado, minha sobrinha de 5 anos convidou uma
amiguinha para ir brincar na casa da minha irm. Perguntei  menina quando era o
aniversrio dela. Ela me disse que era no dia 25 de janeiro.
- Ih! -- falei. - Voc  de Aqurio! Namorei aquarianos suficientes para saber que eles
so um problema.
As duas meninas de 5 anos me olharam com espanto e uma certa incerteza assustada.
Tive um sbito e horrorizante lampejo da mulher na qual posso me transformar se no
tomar cuidado: a Louca Tia Liz. A divorciada de vestido comprido, com os cabelos
pintados de laranja, que no come laticnios, mas fuma cigarros mentolados, est sempre
acabando de chegar de seu cruzeiro astrolgico ou terminando com seu namorado
aromaterapeuta, joga tar para crianas pequenas e diz coisas do tipo: "V buscar outra
bebida para a tia Liz, amoreco, e eu deixo voc usar o meu anel que muda de cor..."
Sei muito bem que daqui a algum tempo posso ter de me tomar novamente uma cidad
mais slida.
Mas ainda no... por favor. Ainda no.

31

Durante as seis semanas seguintes, visito Bolonha, Florena, Veneza, a Siclia, a
Sardenha, deso outra vez at Napoles e depois vou  Calbria. Em sua maioria, so
viagens curtas - uma semana aqui, um fim de semana acol -, a quantidade de tempo
exata para sentir o clima de um lugar, olhar em volta, perguntar s pessoas na rua onde se
come a melhor comida, e em seguida ir com-la. Desisto do meu curso de italiano, j que
tenho a sensao de que ele estava interferindo em meus esforos para aprender italiano,
uma vez que me obrigava a ficar confinada na sala de aula em vez de passear pela Itlia,
onde posso treinar com pessoas de verdade.
Essas semanas de viagens espontneas representam uma fase gloriosa, alguns dos dias
mais soltos da minha vida, correndo at a estao de trem para comprar passagens aqui e
ali, finalmente comeando a aproveitar para valer minha liberdade porque finalmente
percebi que posso ir aonde eu quiser. Passo algum tempo sem encontrar meus amigos
romanos. Giovanni me diz ao telefone: "Sei una trottola" ("Voc parece um pio"). Certa
noite, em uma cidade em algum lugar do Mediterrneo, em um quarto de hotel junto ao
mar, o som da minha prpria risada chega a me acordar no meio de um sono profundo.
Fico espantada. Quem  essa pessoa rindo na minha cama? Quando percebo que sou eu
mesma, isso me faz rir de novo. No consigo mais me lembrar do que estava sonhando.
Acho que talvez tivesse alguma coisa a ver com barcos.

32

Florena  s um fim de semana, uma viagem rpida de trem em uma manh de sexta-
feira para visitar meu tio Terry e minha tia Deb, que pegaram um avio de Connecticut
para visitar a Itlia pela primeira vez na vida, e para encontrar a sobrinha,  claro. J 
noite quando eles chegam, e eu os levo para um passeio para ver o Duomo, sempre uma
viso muito impressionante, conforme fica claro pela reao do meu tio:
- Oy vey! - diz ele, usando uma expresso de assombro emprestada ao idiche, em seguida
faz uma pausa e acrescenta: - Ou talvez essas sejam as palavras erradas para elogiar uma
igreja catlica...
Observamos as sabinas serem estupradas bem ali, no meio do jardim de esculturas, sem
que ningum faa absolutamente nada para impedir, e prestamos nossa homenagem a
Michelangelo, ao museu da cincia e as vistas das colinas em torno da cidade. Ento eu
deixo minha tia e meu tio aproveitarem o resto de sua viagem sem mim e vou sozinha at
a rica e espaosa Lucca, a pequena cidade toscana com seus famosos aougues, onde os
mais refinados cortes de carne que j vi na Itlia so exibidos com uma sensualidade que
parece dizer "voc sabe que me quer" em lojas espalhadas pela cidade. Embutidos de
todos os tamanhos, cores e tipos imaginveis, recheados como pernas de mulher dentro
de provocantes meias finas, balanam nos tetos dos aougues. Ndegas opulentas de
presunto esto penduradas nas janelas, acenando para os passantes como as prostitutas
mais chiques de Amsterd. Os frangos parecem to rolios e satisfeitos, mesmo mortos,
que voc imagina que eles se ofereceram orgulhosamente para o sacrifcio, depois de
competirem entre si em vida para ver quem se tornaria o mais suculento e o mais cevado.
Mas no  s a carne que  maravilhosa em Lucca; so as castanhas, os pssegos, os
generosos arranjos de figos, meu Deus, os figos...
O lugar tambm  famoso por ser a cidade natal de Puccini Sei que provavelmente
deveria me interessar por isso, mas estou muito mais interessada no segredo que um
verdureiro da cidade compartilhou comigo - que os melhores cogumelos da cidade so
servidos em um restaurante bem em frente ao lugar onde nasceu Puccini. Ento passeio
por Lucca, pedindo orientaes em italiano: "Pode me dizer onde fica a casa de
Puccini?", e um gentil habitante finalmente me conduz at l, e ento provavelmente fica
muito surpreso quando digo: "Grazie", e em seguida dou meia-volta, saio andando
exatamente na direo oposta da entrada do museu, e entro em um restaurante do outro
lado da rua para esperar a chuva passar com minha poro de risotto ai funghi.
No me lembro agora se foi antes ou depois de Lucca que fui a Bolonha - uma cidade to
linda que eu no conseguia parar de cantarolar a musiquinha de um famoso comercial
americano de mortadela (em ingls, bologna) durante todo o tempo que passei l.
Tradicionalmente, Bolonha - com sua linda arquitetura de tijolinhos e sua clebre riqueza
- era chamada de la grassa, la dotta, la rossa: gorda, douta e vermelha. (E, sim, esse era
um ttulo alternativo para este livro.) A comida  definitivamente melhor aqui do que em
Roma, ou talvez eles simplesmente usem mais manteiga. At o gelato em Bolonha 
melhor (e eu me sinto um pouco desleal dizendo isso, mas  verdade). Os cogumelos aqui
parecem grandes lnguas grossas e sensuais, e o prosciutto se dobra por cima das pizzas
como um delicado vu de renda recaindo sobre o chapu de uma senhora elegante. E, 
claro, h tambm o molho  bolonhesa, que ri desdenhosamente de qualquer outra coisa
que se meta a rag.
Ocorre-me em Bolonha que no existe nenhum equivalente em ingls para a expresso
buon appetito. Isso  uma pena, e tambm  muito revelador. Ocorre-me tambm que as
paradas de trem italianos so um tour pelos nomes dos pratos e vinhos mais famosos do
mundo: prxima parada, Parma... prxima parada, Bologna... prxima parada,
aproximando-se de Montepulciano... Dentro dos trens tambm h comida,  claro -
sanduichezinhos e um delicioso chocolate quente. Quando est chovendo do lado de fora,
 ainda melhor fazer um lanchinho enquanto o trem corre pelos trilhos. Em uma das
viagens, mais longa, divido a cabine do trem com um rapaz italiano atraente, que passa
horas dormindo em meio  chuva, enquanto eu como minha salada de polvo. O rapaz
acorda pouco antes de chegarmos a Veneza, esfrega os olhos, me olha cuidadosamente
dos ps  cabea e pontifica entre os dentes:
- Carina. - Traduo: bonitinha.
- Grazie Mille - respondo-lhe, com exagerada educao. Mil vezes obrigada.
Ele fica surpreso, pois no tinha percebido que eu falava italiano. Nem eu tinha
percebido, na verdade, mas ns passamos vinte minutos conversando e percebo, pela
primeira vez, que falo mesmo. Alguma fronteira foi ultrapassada, e eu de fato agora falo
italiano. No estou mais traduzindo: estou falando. H um erro em cada frase,  claro, e
s conheo trs tempos verbais, mas consigo me comunicar com esse cara sem muito
esforo. Me la cavo,  como se diria em italiano, o que significa basicamente "eu me
viro", mas emprega o mesmo verbo que se usa para quando se saca a rolha de uma
garrafa de vinho, ou seja: "Eu consigo usar esta lngua para me livrar de situaes
difceis."
Ele est me azarando, esse garoto! No  de todo desagradvel. Ele no  de todo feio.
Embora no seja nem de longe modesto, tampouco. Em determinado momento, ele me
diz em italiano, querendo ser elogioso,  claro:
- Voc no  gorda demais para uma americana.
Respondo, em ingls:
- E voc no  seboso demais para um italiano.
- Come?
Repito o que disse, em um italiano ligeiramente modificado:
- E voc  muito gracioso, igualzinho a todos os italianos.
Sei falar essa lngua! O garoto acha que gostei dele, mas estou flertando  com as
palavras. Meu Deus - eu decantei a mim mesma! Destravei minha lngua como quem
abre uma garrafa, e o italiano est fluindo! Ele quer que nos encontremos mais tarde em
Veneza, mas no estou nem um pouco interessada nele. Estou s apaixonada pela lngua,
ento o deixo ir embora. De toda forma, j tenho compromisso em Veneza. Vou me
encontrar com minha amiga Linda.
A louca Linda, como gosto de cham-la, muito embora ela no seja louca, est vindo para
Veneza de Seattle, outra cidade cinza e mida. Queria vir me visitar na Itlia, ento eu a
convidei para essa perna da viagem porque me recuso - absolutamente no quero - visitar
a cidade mais romntica da Terra sozinha, no, agora no, no este ano. Eu podia
perfeitamente me imaginar sozinha, no fundo de uma gdola, sendo arrastada em meio ao
nevoeiro por um gondoleiro cantarolante, enquanto eu... lia uma revista?  uma imagem
triste, mais ou menos como a idia de subir uma colina sozinho em uma bicicleta feita
para duas pessoas. Ento Linda vai me fazer companhia, e boa compainha, alis.
Conheci Linda (e seus dreads e seus piercings) em Bali, h quase dois anos, quando fui
fazer aquele retiro de ioga. Desde ento, ns tambm viajamos juntas para a Costa Rica.
Ela  uma das minhas companheiras de viagem preferidas uma fadinha inabalvel,
divertida e surpreendentemente organizada com suas calas justas de veludo vermelho.
Linda possui uma das psiques mais intactas do mundo, que absolutamente no entende o
que seja depresso, e com um auto-estima que nunca sequer cogitou ser qualquer outra
coisa que no alta. Ela certa vez me disse, enquanto se olhava no espelho:
- Reconheo que no fico bem com qualquer roupa, mas mesmo assim no consigo
deixar de me amar. - Ela  capaz de me fazer calar a boca quando comeo a ficar aflita
com questes metafsicas como: "Qual a natureza do universo?" (resposta de Linda:
"Minha nica pergunta : por que perguntar?") Linda gostaria de deixar seus dreads
crescerem tanto que ela pudesse tec-los para formar uma estrutura com suporte de metal
no alto da cabea, "como uma topiaria", e talvez guardar um passarinho l dentro. Os
balineses adoravam Linda. Os costa-riquenhos tambm. Quando ela no est cuidando de
seus lagartos e fures de estimao, coordena uma equipe de criao de software em
Seattle, e ganha mais dinheiro do que qualquer um de ns.
Ento nos encontramos em Veneza, e Linda franze o cenho diante do mapa da cidade,
vira-o de cabea para baixo, localiza nosso hotel, orienta-se e anuncia, com sua
humildade caracterstica:
- J est tudo dominado.
Sua alegria, seu otimismo - eles de forma alguma combinam com essa cidade fedorenta,
lenta, afundada, misteriosa, silenciosa, estranha. Veneza parece uma cidade maravilhosa
para se morrer lentamente de alcoolismo, ou para perder algum que se ama, ou para
perder a arma do crime que levou a pessoa amada. Ao ver Veneza, fico feliz por ter
decidido morar em Roma. No acho que eu teria parado de tomar os antidepressivos to
depressa aqui. Veneza  linda, mas  linda como um filme de Bergman; voc pode
admir-la, mas no a ponto de querer morar l.
A cidade inteira est descascarando e se apagando como aquelas alas inteiras de quartos
que famlias outrora ricas deixam fechados nos fundos de suas manses, quando a
manuteno fica cara demais e  mais fcil simplesmente fechar as portas com pregos e
esquecer dos tesouros que comeam a morrer do outr lado - isso  Veneza. Riachos
gordurosos da gua suja do Adritico se aninham junto aos alicerces malratados desses
prdios, testando a resistncia desse experimento de feira de cincias do sculo XIV  Ei,
e se a gente construsse uma cidade que fica na gua o tempo todo?
Veneza  assustadora sob os cus carregados de novembro. A cidade range e oscila como
um per de pesca. Apesar da segurana inicial de Linda de que a cidade estava dominada,
ns nos perdemos todos os dias e mais especialmente ainda  noite, dobrando para o lado
errado em direo a esquinas escuras que vo terminar perigosa e diretamente na gua do
canal Em uma noite enevoada, passamos por um prdio antigo que parece estar de fato
gemendo de dor.
- No se preocupe - diz Linda em tom alegre. -  s o ventre faminto de Sat.
Ensino a ela minha palavra preferida em italiano, attraversiamo ("vamos atravessar"), e
juntas nos afastamos dali, nervosas.
A linda moa veneziana dona do restaurante perto de onde estamos hospedadas est
muito infeliz com sua vida. Ela odeia Veneza. Jura que todos que moram em Veneza
consideram a cidade um tmulo. Ela certa vez se apaixonou por um artista sardo, que lhe
prometera um outro mundo de luz e sol, mas em vez disso a abandonara com trs filhos e
sem outra escolha que no voltar para Veneza e administrar o restaurante da famlia. Ela
tem a minha idade, mas parece ainda mais velha do que eu, e no consigo imaginar o tipo
de homem que faria isso com uma mulher to bonita. ("Ele era poderoso", diz ela, "e eu
morri de amor  sombra dele.") Veneza  conservadora. Essa mulher teve alguns casos na
cidade, talvez at com alguns homens casados, mas tudo sempre termina em tristeza. Os
vizinhos falam dela. As pessoas param de falar quando ela entra no aposento. Sua me
lhe implora para que use uma aliana de casamento, s para preservar as aparncias -
dizendo: Querida, isto aqui no  Roma, onde voc pode viver escandalosamente como
bem entender. Toda manh, quando Linda e eu vamos tomar o caf-da-manh e perguntar
a nossa triste jovem/velha proprietria veneziana sobre a previso do tempo para o dia,
ela dobra os dedos da mo direita como um revlver, leva-os  tmpora e diz: "Mais
chuva."
Apesar de tudo, no fico deprimida aqui. Por alguns dias, consigo suportar, e de certa
forma at gostar, dessa melancolia veneziana de cidade afundada. Em algum lugar de
mim mesma, sou capaz de reconhecer que essa no  a minha melancolia; essa  a
melancolia especfica da prpria cidade, e ando saudvel o suficiente ultimamente para
ser capaz de perceber a diferena entre mim e ela. No consigo evitar pensar que isso 
um sinal de cura, de que o sangramento do meu ser foi estancado. Houve alguns anos,
perdida em meu desespero sem tamanho, em que eu vivenciava toda a tristeza do mundo
como se ela fosse minha. Absorvia tudo que era triste e deixava para trs rastros midos.
De toda forma,  difcil ficar deprimida com Linda falando sem parar ao meu lado,
tentando me fazer comprar um chapu gigante de pelcia roxa, e perguntando a respeito
do jantar horrvel que comemos certa noite: "Isto aqui  congelado?" Linda  um vaga-
lume. Em Veneza, na Idade Mdia, existia uma profisso masculina chamada codega -
um sujeito que voc contratava para andar na sua frente  noite com uma lanterna acesa,
mostrando-lhe o caminho, espantando ladres e demnios, dando-lhe segurana e
proteo pelas ruas escuras. Linda  assim - minha codega veneziana temporria,
especialmente encomendada, em tamanho compacto para viagem.

33

Saio da chuva alguns dias depois e encontro uma Roma tomada por uma desordem
quente, ensolarada e eterna, onde -- assim que piso na rua -- posso ouvir os gritos de
uma manifestazione, outra passeata trabalhista ali perto, que parecem a torcida de algum
estdio de futebol. O taxista no sabe me dizer por que eles esto fazendo greve dessa
vez, sobretudo, ao que parece, porque no est nem a.
- 'Sti cazzi - diz ele sobre os grevistas. (Traduo literal: "Esses colhes", ou, como
poderamos dizer, "Estou pouco me lixando".)  bom estar de volta. Depois da rgida
sobriedade de Veneza,  bom estar de volta a um lugar onde posso ver um homem de
jaqueta de pele de ona passando por um casal de adolescentes se amassando bem no
meio da rua. A cidade parece to pulsante e viva, to bem produzida e sexy  luz do sol.
Lembro-me de uma coisa que o marido da minha amiga Maria, Giulio, me disse certa
vez. Estvamos sentados em um caf ao ar livre, treinando nossa conversao, e ele me
perguntou o que eu achava de Roma. Eu lhe disse que adorava a cidade, de verdade, mas
que de alguma forma sabia que no era a minha cidade, que no era o lugar onde eu
acabaria morando pelo resto da vida. Havia alguma coisa em Roma que no me pertencia,
e eu no conseguia muito bem descobrir o que era. Bem na hora em que estvamos
falando, um lembrete visual muito til passou pela calada. Era a tpica romana  uma
mulher de quarenta e poucos anos incrivelmenre bem conservada, coberta de jias,
calando saltos de 10 centmetros uma saia bem justa com uma fenda comprida como um
brao e um daqueles culos escuros que mais parecem carros de corrida (e que
provavelmente custam o mesmo preo). Ela passeava com seu cachorrinho de madame
preso por uma coleira cravejada de pedras, e a gola de pele de seu casaco justo parecia ter
sido feita da pelagem de seu cachorrinho de madame anterior. Ela exalava uma aura
inacreditavelmente glamorosa de: "Voc vai olhar para mim, mas eu me recuso a olhar
para voc." Era difcil imaginar que ela um dia, por dez minutos de sua vida que fosse,
houvesse deixado de usar rmel. Essa mulher era o completo oposto de mim, que me visto
em um estilo que minha irm chama de "bicho-grilo vai  aula de ioga de pijama".
Apontei aquela mulher para Giulio e falei:
- Est vendo, Giulio... aquilo  uma romana. Roma no pode ser a cidade dela e a minha
cidade tambm. S uma de ns realmente pertence a este lugar. E eu acho que ns dois
sabemos quem .
Giulio falou:
- Talvez voc e Roma s tenham palavras diferentes.
- Como assim?
Ele disse:
- Voc no sabe que o segredo para entender uma cidade e seus habitantes  aprender
qual a palavra da rua?
Ele prosseguiu explicando, em uma mistura de ingls, italiano e gestos, que toda cidade
tem uma nica palavra que a define, que identifica a maioria das pessoas que mora ali. Se
voc pudesse ler o pensamento das pessoas que passam por voc nas ruas de qualquer
cidade, descobriria que a maioria delas est tendo o mesmo pensamento. Qualquer que
seja esse pensamento da maioria - essa  a palavra da cidade. E, se a sua palavra pessoal
no combinar com a palavra da cidade, ento ali no  realmente o seu lugar.
- Qual  a palavra de Roma? - perguntei.
- SEXO - anunciou ele.
- Mas isso no  um esteretipo a respeito de Roma?
- No.
- Mas com certeza existem algumas pessoas em Roma que pensam emoutra coisa que no
sexo?
Giulio insistiu:
-- No. Todas elas, o dia inteiro, s pensam em SEXO.
-- At l no Vaticano?
-- A  outra coisa. O Vaticano no faz parte de Roma- Eles l tm um mundo diferente.
A palavra deles  PODER.
-- Eu chutaria F.
--  PODER - repetiu ele- - Acredite em mim. Mas a palavra de Roma...  SEXO.
Se formos acreditar em Giulio, essa palavrinha - SEXO - cala as ruas que voc pisa em
Roma, jorra dos chafarizes daqui, enche o ar como o barulho do trfego. Pensar nisso,
vestir-se para isso, aceitar isso, recusar isso, fazer disso um esporte e um jogo -  s o que
todo mundo est fazendo. O que faria um pouco de sentido para explicar por que, por
mais linda que seja a cidade, eu no sinto que Roma seja exatamente o meu lar. No neste
momento da minha vida. Porque SEXO no  a minha palavra agora. J foi, em outros
momentos da minha vida, mas agora no . Assim, a palavra de Roma, rodopiando pelas
ruas, s faz esbarrar em mim e seguir seu caminho, sem causar nenhum impacto. No
participo da palavra, portanto no estou morando aqui por completo.  uma teoria
maluca, impossvel de se provar, mas eu at que gosto dela.
- Qual a palavra de Nova York? -- perguntou Giulio. Pensei no assunto por um instante e
me decidi.
- E um verbo,  claro. Eu acho que  CONQUISTAR.
(O que  sutil mas significativamente diferente da palavra de Los Angeles, acho eu, que
tambm  um verbo: CONSEGUIR. Mais tarde, compartilharei essa teoria toda com
minha amiga sueca Sofie, e ela emitir a opinio de que a palavra das ruas de Estocolmo
 CONFORMAR, o que deixa ns duas deprimidas.)
- Qual a palavra de Npoles? - perguntei a Giulio. Ele conhece bem o sul da Itlia.
- BRIGAR - decide ele. - Qual era a palavra da sua famlia quando voc era pequena?
Essa era difcil. Eu estava tentando pensar em uma s palavra que, de alguma forma,
conjugasse FRUGAL e IRREVERENTE. Mas Giulio j havia passado  pergunta
seguinte e mais bvia:
- Qual  a sua palavra?
Eu definitivamente no soube responder isso.
No entanto, depois de algumas semanas pensando no assunto, ainda no consigo
responder. Conheo algumas palavras que com certeza no so. A minha palavra no 
CASAMENTO, isso  bvio. No  FAMLIA (embora essa seja a palavra da cidade na
qual vivi durante alguns anos com meu marido e, como no me encaixei nela, esse foi um
dos grandes motivos para o meu sofrimento). A minha palavra no  mais DEPRESSO,
graas a Deus. No tenho medo de compartilhar a palavra de Estocolmo, CONFORMAR.
Mas tampouco sinto que a palavra de Nova York, CONQUISTAR, seja mais to
condizente comigo, embora esse de fato tenha sido meu mundo dos 20 aos 30 anos.
Minha palavra pode ser BUSCAR. (Mas, vamos ser honestos: poderia com a mesma
facilidade ser ESCONDER-SE.) Durante os ltimos meses na Itlia, a minha palavrafoi
basicamente PRAZER, mas essa palavra no combina com todas as parte de mim, ou
ento eu no estaria to ansiosa para chegar  ndia. A minha palavra pode ser
DEVOO, embora isso me faa soar mais boazinha do que sou e no leve em conta a
quantidade de vinho que tenho bebido.
No sei a resposta, e imagino que seja essa a finalidade deste ano de viagem. Encontrar a
minha palavra. Mas uma coisa eu posso dizer com segurana - ela no  SEXO.
Ou, pelo menos,  isso que eu digo. Vocs poderiam me explicar, ento, por que hoje
meus ps me levaram quase por moto prprio at uma lojinha discreta perto da Via
Condotti, onde - guiada pelas mos experientes da sensual jovem vendedora italiana -
passei algumas horas de sonho (e gastei uma quantidade de dinheiro equivalente a uma
passagem area de longa distncia) comprando lingerie suficiente para vestir uma
concubina do sulto durante mil e uma noites. Comprei sutis de todos os formatos e
tamanhos. Comprei baby-dolls vaporosos, minsculos, calcinhas estilosas de todas as
cores do arco-ris, combinaes feitas de cetim sedoso e sedas quase transparentes,
fitinhas e outras coisas feitas a mo, e basicamente uma sucesso interminvel de mimos
aveludados, rendados e atrevidos dignos de uma comemorao de Dia dos Namorados.
Nunca tive peas assim na vida. Ento, por que agora? Enquanto saa da loja, carregando
embaixo do brao minha sacola de safadezas embrulhadas em papel de seda, subitamente
me lembrei da pergunta angustiada que ouvira um torcedor de futebol romano gritar na
outra noite, durante o jogo do Lazio, quando o craque do time, Albertini, havia passado a
bola para absolutamente ningum em um momento crtico, sem nenhum motivo,
arruinando totalmente a jogada.
- Per chi?- gritara o torcedor, quase ensandecido.  Per chi???
Para QUEM??? Para quem voc est fazendo esse passe, Albertini? No tem ningum
ali!
J na rua, depois de minhas horas delirantes comprando lingerie, lembrei-me dessa
pergunta e a repeti para mim mesma em um sussurro:
- Per chi?
Para quem, Liz? Para quem toda essa sensualidade decadente? No tem ningum ali. S
me restavam poucas semanas na Itlia e eu no tinha absolutamente nenhuma inteno de
transar com ningum. Ou ser que tinha? Ser que finalmente havia sido afetada pela
palavra das ruas de Roma? Seria aquilo um esforo final para me tornar italiana? Seria
aquilo um presente para mim mesma, ou um presente para algum amante que sequer
havia sido imaginado ainda? Seria uma tentativa de comear a curar minha libido depois
do desastre de confiana sexual do meu ltimo relacionamento?
-- Voc vai levar esses trecos todos para a ndia? - perguntei a mim
mesma.

34

Este ano, o aniversrio de Luca Spaghetti cai no dia de Ao de Graas americano, ento
ele quer preparar um peru para sua festa. Ele nunca sequer comeu um daqueles perus
enormes, gordos e assados que as pessoas comem nos Estados Unidos nesse feriado,
embora j os tenha visto em fotografias. Acha que seria fcil reproduzir um banquete
assim (especialmente com a ajuda de uma americana de verdade, eu). Diz que podemos
usar a cozinha de seus amigos Mario e Simona, que tm uma casa grande e agradvel nas
montanhas prximas a Roma, e sempre a oferecem para as festas de aniversrio de Luca.
Ento o plano de Luca para as festividades era o seguinte: ele iria me buscar por volta das
sete horas da noite, na sada do trabalho, e deixaramos Roma rumo ao norte para chegar
 casa dos seus amigos dali a mais ou menos uma hora (l encontraramos os outros
convidados da festa de aniversrio), onde beberamos um pouco de vinho e
conversaramos um pouco, e ento, provavelmente por volta das nove da noite,
comearamos a assar um peru de 10 quilos...
Precisei explicar um pouco para Luca o tempo que se leva para assar um peru de 10
quilos. Disse-lhe que o seu banquete de aniversrio estava pronto para ser comido
provavelmente quando o dia seguinte estivesse nascendo. Ele ficou arrasado.
- Mas, e se a gente comprasse um peru bem pequenininho? Um peru recm-nascido?
- Luca - falei -, vamos simplificar tudo isso e comer pizza, como metade de todas as boas
famlias disfuncionais americanas faz no dia de Ao de Graas.
Mas ele ainda est triste. H, porm, uma tristeza generalizada em Roma neste momento,
de toda forma. O tempo esfriou. Os funcionrios dos esgostos, dos trens e da companhia
area nacional todos fizeram greve no mesmo dia. Um estudo acaba de ser lanado
dizendo que 36% das crianas italianas so alrgicas ao glten usado para fazer macarro,
pizza e po, o que  um golpe violento para a cultura italiana. Pior ainda, li recentemente
um artigo com a chocante manchete: "Insoddisfatte 6 donne su 10!" O que significa que
seis em cada dez italianas esto sexualmente insatisfeitas. Alm disso, 35% dos homens
italianos relatam dificuldades para manter un'erezione, deixandos os pesquisadores de
fato muito perplessi, e fazendo-me pensar se, nofinal das contas, seria adequado permitir
que SEXO continue a ser a palavra especial de Roma.
Uma notcia ruim mais sria: 19 soldados italianos foram mortos recentemente na Guerra
dos Americanos (como  chamada aqui) no Iraque - o maior nmero de mortes militares
na Itlia desde a Segunda Guerra Mundial Os romanos ficaram chocados com essas
mortes, e a cidade parou no dia em que os rapazes foram enterrados. A grande maioria
dos italianos no quer ter nada a ver com a guerra de George Bush. O envolvimento foi
uma deciso de Silvio Berlusconi, primeiro-ministro italiano (mais comumente chamado
por aqui de l'idiota). Esse empresrio desprovido de intelecto, proprietrio de um clube
de futebol, mergulhado em maracutaias e sordidez, que regularmente envergonha seus
conterrneos fazendo gestos obscenos no Parlamento europeu, que dominou a arte de
falar l'aria fritta ("ar frito"), que manipula a mdia com astcia (o que no  muito difcil,
j que a mdia  sua), e que de modo geral no se comporta de forma alguma como um
verdadeiro lder mundial, mas sim como o prefeito corrupto de uma cidade do interior,
agora envolveu os italianos em uma guerra que eles consideram no ser absolutamente
problema seu.
- Eles morreram em nome da liberdade - disse Berlusconi no enterro dos 19 soldados
italianos, mas a maioria dos romanos tem uma opinio diferente: Eles morreram em nome
da vingana pessoal de George Bush. Nessa atmosfera poltica, seria possvel pensar que
a vida de uma visitante americana fosse ser difcil. De fato, quando cheguei  Itlia, eu
esperava encontrar algum ressentimento mas, em vez disso, tive direito  empatia da
maior parte dos italianos. Em qualquer referncia a George Bush, as pessoas
simplesmente fazem um movimento de cabea em direo a Berlusconi e dizem: "A
gente sabe como : aqui tambm tem um desse tipo."
Ns j passamos por isso.
Assim, dadas essas circunstncias,  estranho que Luca queira usar o seu aniversrio para
comemorar um dia de Ao de Graas  americana, mas eu bem que gosto da idia. Ao
de Graas  um feriado legal, do qual um americano pode sentir orgulho sem
constrangimento, nossa nica festa nacional que permanece relativamente livre da
explorao comercial.  um dia de gratido, de agradecimentos, de comunidade, e - isso
mesmo - de prazer. Poderia ser exatamente aquilo de que ns todos precisamos agora.
Minha amiga Deborah, da Filadlfia, veio passar o fim de semana em Roma para
comemorar o feriado comigo. Deborah  uma psicloga internacionalmente respeitada,
escritora e terica feminista, mas ainda penso nela como minha cliente regular preferida
na poca em que eu era garonete em um restaurantezinho da Filadlfia, e ela vinha
almoar, tomar Coca diet sem gelo e me dizer coisas inteligentes por cima do balco. Ela
realmente dava um toque de classe quele restaurante. J fazia mais de 15 anos que
ramos amigas. Sofie tambm ir  festa de Luca. Sofie e eu somos amigas h mais ou
menos 15 semanas. Todo mundo  sempre bem-vindo no dia de Ao de Graas.
Especialmente quando, por acaso, nesse dia tambm se comemora o aniversrio de Luca
Spaghetti.
No final da tarde, samos de carro de uma Roma cansada, estressada, em direo s
montanhas. Luca adora msica americana, ento escutamos The Eagles aos berros e
cantamos: "Take it... to the limit... one more time!!!!!!" (v at o limite mais uma vez!), o
que fornece uma estranha trilha sonora californiana a nosso trajeto entre bosques de
oliveiras e aquedutos antigos. Chegamos  casa dos velhos amigos de Luca, Mario e
Simona, pais das gmeas de 12 anos Giulia e Sara. Paolo - amigo de Luca, que eu j tinha
encontrado em jogos de futebol - tambm est l, com a namorada.  claro que a
namorada do prprio Luca, Giuliana, est l tambm, depois de ter feito a viagem mais
cedo. A casa  lindssima, escondida em meio a um bosque de oliveiras, tangerineiras e
limoeiros. A lareira est acesa. O azeite  feito em casa.
Evidentemente, no temos tempo para assar um peru de 10 quilos, mas Luca doura lindos
fils de peito de peru, e eu comando um esforo coletivo relmpago para preparar um
recheio de Ao de Graas com as migalhas de um delicioso po italiano, fazendo as
substituies culturais necessrias (tma-ras em vez de damascos; funcho em vez de
aipo). No sei bem como, mas fica delicioso. Luca estava preocupado com a forma como
a conversa iria evoluir durante a noite, j que metade dos convidados no fala ingls e a
outra metade no fala italiano (e s Sofie fala sueco), mas essa parece ser uma daquelas
noites milagrosas em que todo mundo consegue se entender perfeitamente ou, pelo
menos, o vizinho consegue traduzir quando alguma palavra se perde.
Perco a conta de quantas garrafas de vinho sardo bebemos antes de Deborah sugerir, 
mesa, que observemos um agradvel costume americano tpico dessa noite: darmos as
mos e - um de cada vez - falarmos sobre aquilo por que mais somos gratos. Essa
montagem de gratido, em trs idiomas diferentes, vai ento se desenhando, um
testemunho por vez.
Deborah comea dizendo que se sente grata pelo fato de que os Estados Unidos em breve
tero a oportunidade de escolher um novo presidente. Sofie diz (primeiro em sueco,
depois em italiano, depois em ingls) que  grata pelo corao generoso dos italianos, e
por aqueles quatro meses em que lhe foi permitido vivenciar tanto prazer nesse pas. As
lgrimas comeam quando Mario - nosso anfitrio - comea a chorar de pura gratido,
enquanto agradece a Deus pelo trabalho que teve na vida, e que lhe permitiu ter essa linda
casa para sua famlia e seus amigos desfrutarem. Paolo ri ao dizer que tambm se sente
grato pelo fato de que os Estados Unidos em breve tero a oportunidade de eleger um
novo presidente. Fazemos um silncio de respeito coletivo pela pequena Sara, uma das
gmeas de 12 anos, quando ela tem a coragem de compartilhar o fato de que se sente
grata por estar aqui essa noite com pessoas to legais, porque tem tido um perodo difcil
na escola ultimamente - alguns dos outros alunos a esto maltratando -, "ento obrigada
por serem simpticos comigo hoje e por no serem malvados comigo como eles so". A
namorada de Luca diz que  grata pelos anos de lealdade que Luca lhe demonstrou e pelo
calor com o qual ele cuidou da famlia dela em pocas difceis. Simona -- nossa anfitri
-- chora ainda mais copiosamente do que o marido ao expressar sua gratido pelo fato de
um novo costume de celebrao e agradecimento ter sido trazido para a sua casa por
aquelas desconhecidas dos Estados Unidos, que na verdade no so nada desconhecidas,
mas amigas de Luca, e, portanto, amigas da paz.
Quando chega a minha vez de falar, comeo: "Sono grata...", mas em seguida descubro
que sou incapaz de dizer o que realmente estou pensando. A saber, que sou muito grata
por, nessa noite, estar livre da depresso que vinha me roendo como um rato durante
tantos anos, uma depresso que havia corrodo a minha alma to fundo que, em
determinado momento, eu no teria sido capaz de desfrutar uma noite agradvel como
essa. No menciono nada disso, porque no quero assustar as crianas. Em vez disso,
digo uma verdade mais simples - que sou grata pelos amigos antigos e novos. Que, mais
especialmente nessa noite, sou grata por Luca Spaghetti. Que espero que ele tenha um
feliz aniversrio de 33 anos, e espero que viva uma vida longa, de modo a servir de
exemplo para outros homens de como ser uma pessoa generosa, leal e carinhosa. E que
ningum se importe de eu estar chorando ao dizer isso, embora eu no ache que eles vo
se importar, j que todos os outros esto chorando tambm.
Luca est to tomado pela emoo que no consegue encontrar palavras a no ser para
nos dizer:
-- As suas lgrimas so a minha prece.
O vinho sardo continua rolando. E, enquanto Paolo lava a loua, Mario leva as filhas
cansadas para a cama, Luca toca violo e todos cantam embriagados canes de Neil
Young com sotaques variados, Deborah, a psicloga americana feminista, me diz em voz
baixa:
- Olhe em volta para esses bons homens italianos. Olhe como eles so abertos a seus
sentimentos, e como participam com carinho da vida familiar. Olhe a considerao e o
respeito que demonstram pelas mulheres e crianas em suas vidas. No acredite no que
voc l no jornal, Liz. Este pas vai muito bem.
Nossa testa s termina quase com o dia raiando. No final das contas, poderamos ter
assado aquele peru de 10 quilos e comido no caf-da-manh. Luca Spaghetti nos leva de
volta para casa, eu, Deborah e Sofie. Tentamos ajud-lo a ficar acordado enquanto o sol
se levanta, cantando canes de Natal. Viajamos cantando "Noite Feliz" sem parar, em
todas as lnguas que conhecemos, enquanto voltamos todos juntos para Roma.

35

No dava para segurar. Depois de quase quatro meses na Itlia, nenhuma das minhas
calas cabe mais em mim. Nem mesmo as roupas novas que comprei no ms passado
(quando as calas do meu "Segundo Ms na Itlia" j no cabiam em mim) cabem em
mim. No tenho dinheiro para renovar meu guarda-roupa inteiro a cada trs semanas, e
tenho conscincia de que em breve estarei na ndia, onde os quilos simplesmente iro
derreter, mas mesmo assim - no posso andar mais com essas calas. No consigo
suportar.
Tudo isso faz sentido, j que recentemente subi na balana de um hotel italiano chique e
descobri que tinha engordado 10 quilos durante meus quatro meses na Itlia  uma
estatstica verdadeiramente admirvel. Sete desses quilos eu realmente precisava
engordar, j que havia ficado esqueltica durante aqueles ltimos anos difceis de
divrcio e depresso. Os outros 2 quios engordei s por diverso. E o ltimo quilo? S
para reforar a tendncia, imagino.
Mas o fato  que me vejo comprando uma roupa que sempre irei guardar em minha vida
como uma lembrana querida: "O Jeans do meu ltimo Ms na Itlia". A mocinha da loja
 simptica o suficiente para me trazer tamanhos cada vez maiores, entregando-os um
depois do outro para mim pela cortina sem fazer nenhum comentrio, apenas
perguntando, preocupada, se dessa vez esta est mais perto de servir. Vrias vezes
precisei botar a cabea para fora da cortina e perguntar:
- Desculpe... a senhorita teria outra um pouquinho maior? -- At a mocinha simptica
finalmente me entregar um jeans com uma medida de cintura que faz meus olhos doerem
s de olhar. Saio da cabine e me posto na frente da vendedora.
Ela nem pestaneja. Olha para mim como uma curadora de arte tentando estimar o valor
de um vaso. Um vaso bem grande.
- Carina -- decide ela, por fim. Bonitinha.
Pergunto-lhe, em italiano, se ela poderia por favor me dizer honestamente se aquele jeans
est me deixando parecida com uma vaca.
No, signorina,  a resposta. No est parecendo uma vaca.
- Estou parecendo uma leitoa, ento?
No, garante-me ela muito sria. Tambm no me pareo nada com uma leitoa.
- Talvez uma bfala?
Isto est virando um bom treino de vocabulrio. Tambm estou tentando arrancar um
sorriso da vendedora, mas ela est decidida a permanecer profissional.
Tento outra vez:
- Talvez eu esteja parecendo uma mozzarella de bfala?
Tudo bem, talvez, admite ela, sorrindo de leve. Talvez esteja um pouco parecida com
uma mozzarella de bfala...

36

S tenho mais uma semana aqui. Estou planejando voltar para os Estados Unidos para
passar o Natal antes de ir para a ndia, no apenas porque no consigo imaginar passar o
Natal longe da minha famlia, mas tambm porque os prximos oito meses da minha
viagem - ndia e Indonsia - exigem que eu refaa as malas inteiramente. Muito poucas
das coisas de que voc precisa quando est morando em Roma so as mesmas de que
voc precisa quando est viajando pela ndia.
E talvez seja como preparao para minha viagem  ndia que decido passar essa ultima
semana viajando pela Siclia - a parte mais terceiro-mundista da Itlia e, portanto, um
bom lugar aonde ir caso voc esteja precisando se preparar para vivenciar a pobreza
extrema. Ou talvez eu s queira ir  Siclia por causa do que disse Goethe: "Sem ver a
Siclia, no se pode ter uma idia clara do que  a Itlia."
Mas no  fcil chegar  Siclia ou movimentar-se por l. Precisei usar todo o meu talento
de detetive para encontrar um trem que circulasse aos domingos at o sul do pas pela
costa, e depois para encontrar um barco at Messina (cidade porturia siciliana
assustadora e de ar suspeito, que parece uivar por trs das portas fechadas: "No  culpa
minha ser to feia assim! Eu j passei por terremotos, bombardeios e tambm sofri nas
mos da Mfia!"). Quando chego a Messina, preciso descobrir uma rodoviria (encardida
como os pulmes de um fumante) e encontrar o homem cujo trabalho  ficar sentado na
bilheteria, maldizendo a prpria vida, para ver se ele por favor pode me vender uma
passagem para a cidade costeira de Taormina. Em seguida, chacoalho por entre as colinas
e praias do estupendo e acidentado litoral leste da Siclia at chegar a Taormina, e ento
preciso encontrar um txi, e em seguida preciso encontrar um hotel. Depois disso, preciso
encontrar a pessoa certa a quem fazer minha pergunta preferida em italiano: "Onde se
come a melhor comida desta cidade?" Em Taormina, essa pessoa acaba sendo um policial
sonolento. Ele me d uma das melhores coisas que qualquer pessoa pode me dar na vida -
um pedacinho minsculo de papel com o nome de um restaurante obscuro, e um mapa
feito  mo mostrando como chegar l.
Descubro que o restaurante  uma pequenina trattoria cuja simptica dona, j velhinha,
prepara-se para a chegada dos clientes da noite pondo-se em p em cima de uma mesa
com os ps calando meias finas, tentando no derrubar seu prespio de Natal enquanto
limpa as vidraas do restaurante. Digo a ela que no preciso ver o cardpio, mas peo-lhe
simplesmente para me trazer a melhor comida possvel, porque essa  minha primeira
noite na Siclia. Ela esfrega as mos de prazer e grita alguma coisa em dialeto siciliano
para sua me ainda mais vetusta, que est na cozinha, e vinte minutos depois estou
ocupada comendo aquela que , sem sombra de dvida, a refeio mais sensacional que
j comi na Itlia toda.  um prato de massa, mas de um formato que nunca vi antes -
grandes folhas de massa fresca dobradas ao estilo dos ravilis no formato (embora no do
mesmo tamanho) de chapus de papa, recheadas com um pur quente e aromtico feito
de crustceos, polvo e lula, servidas como uma salada quente misturadas a mexilhes
frescos e fatias de legumes variados, tudo nadando em um molho  base de azeite de
oliva e caldo de frutos do mar. Seguido por um coelho de panela com tomilho.
Mas Siracusa, no dia seguinte,  melhor ainda. O nibus me cospe em uma esquina de rua
bem no meio da chuva fria, com o dia j bem avanado. Apaixono-me imediatamente por
essa cidade. Em Siracusa, 3 mil anos de histria repousam sob meus ps.  um lugar de
civilizao to antiga que faz Roma parecer Dallas. O mito diz que Ddalo voou para c
vindo de Creta, e que Hrcules j passou a noite aqui. Siracusa era uma colnia grega que
Tucdides chamava de "uma cidade em nada inferior  prpria Atenas". Siracusa  o
vnculo entre a Grcia antiga e a Roma antiga. Muitos dramaturgos e cientistas famosos
da Antigidade viveram aqui. Plato pensou que a cidade seria o local ideal para um
experimento utpico onde talvez, "por alguma divina fatalidade", os governantes
pudessem se tornar filsofos, e os filsofos, governantes. Os historiadores dizem que a
retrica foi inventada em Siracusa, assim como (e isso  s um detalhe) a noo de trama.
Caminho pelos mercados dessa cidade em runas e meu corao se enche de um amor que
no consigo identificar ou explicar, enquanto observo o velho de boina de l preta limpar
um peixe para um cliente (ele enfiou o cigarro no canto da boca para segur-lo, do
mesmo jeito que uma costureira mantm a boca cheia de alfinetes enquanto costura; sua
faca trabalha nos fils do peixe com a perfeio de um devoto). Timidamente, pergunto
ao peixeiro onde deveria comer  noite, e termino a conversa segurando mais um
pedacinho de papel que me leva at um restaurante sem nome, onde - assim que me sento
- o garom me traz nuvens etreas de ricota salpicadas de pistaches, fatias de po
flutuando em azeites aromticos, pequeninos pratos de carnes e azeitonas fatiadas, uma
salada de gomos de laranja gelados com molho de cebolas cruas e salsa. Isso antes
mesmo de eu ouvir falar na especialidade da casa: lulas.
"Nenhuma cidade pode viver em paz, quaisquer que sejam suas leis", escreveu Plato,
"quando seus cidados... no fazem nada seno banquetear-se, beber e entregar-se at a
exausto s preocupaes do amor."
Mas seria to ruim assim viver desse jeito s por algum tempo? S por alguns meses da
vida de uma pessoa, seria to terrvel assim viajar pelo tempo sem outra ambio que no
encontrar a prxima refeio deliciosa? Ou aprender a falar um idioma sem nenhum
propsito maior do que o fato de que ele  agradvel aos seus ouvidos? Ou tirar um
cochilo em um jardim, em uma nesga de sol, no meio do dia, bem ao lado de seu chafariz
preferido? E depois fazer a mesma coisa no dia seguinte?
 claro que no se pode viver assim para sempre. A vida real, as guerras, os traumas e a
mortalidade acabaro por intervir. Aqui, na Sicilia, com sua pobreza assustadora, a vida
real nunca est muito distante do pensamento de ningum. H sculos a Mfia  o nico
negcio que d certo na Siclia (sua especialidade: proteger os cidados de si prpria), e
ela ainda tem influncias na vida de todos os habitantes. Palermo - cidade que Goethe
certa vez alegou possuir uma beleza impossvel de descrever - talvez seja hoje a nica
cidade da Europa ocidental onde voc ainda pode visitar destroos da Segunda Guerra
Mundial, isso s para dar uma idia do nvel de desenvolvimento do lugar. A cidade foi
sistematicamente enfeitada, alm de qualquer descrio possvel, pelos horrorosos e
pouco seguros prdios de apartamentos construdos pela Mfia durante os anos 1980 para
lavar dinheiro sujo. Perguntei a um siciliano se aqueles prdios eram feitos de concreto
barato, e ele respondeu:
- Ah, no... esse concreto  muito caro. Cada leva sua contm alguns corpos de pessoas
mortas pela Mfia, e isso custa dinheiro. Mas o concreto fica mesmo mais resistente ao
ser reforado com todos esses ossos e dentes.
Em um ambiente assim, ser talvez um pouco superficial pensar apenas em sua prxima
refeio maravilhosa? Ou ser que isso  o melhor que voc pode fazer, tendo em vista as
realidades mais duras? Luigi Barzini, em sua obra-prima de 1964, Os Italianos (escrita
depois de ele finalmente se cansar de estrangeiros escrevendo sobre a Itlia, amando-a ou
odiando-a demais), tentou colocar os pingos nos is em relao  sua prpria cultura.
Tentou explicar por que os italianos produziram as maiores mentes artsticas, polticas e
cientficas de todos os tempos, mas ainda assim no se tornaram uma potncia mundial.
Por que eles so os maiores mestres da diplomacia verbal do planeta, mas ainda so to
ineptos no governo de seu prprio pas? Por que so individualmente to corajosos e, no
entanto, coletivamente to malsucedidos em seu exrcito? Como podem ser comerciantes
to astutos no nvel pessoal e, no entanto, capitalistas to ineficientes como nao?
Suas respostas a essas perguntas so complexas demais para que eu as possa reproduzir
aqui, mas tm muito a ver com uma triste histria italiana de corrupo de lderes locais e
de explorao por potncias estrangeiras, que acabou levando os italianos, de forma
geral, a chegarem  concluso aparentemente certa de que ningum nem nada neste
mundo  digno de confiana. J que o mundo  to corrupto, mentiroso, instvel,
exagerado e injusto, s se deveria confiar naquilo que se puder provar com os prprios
sentidos, e isso torna os sentidos na Itlia mais fortes do que em qualquer lugar da
Europa.  por isso, diz Barzini, que os italianos toleram generais, presidentes, tiranos,
professores, burocratas, jornalistas e industriais de medonha incompetncia, mas jamais
iro tolerar a incompetncia de "cantores de pera, regentes, bailarinas, cortess, atores,
cineastas, cozinheiros, alfaiates...". Em um mundo de desordem, desastre e fraude,
algumas vezes s a beleza merece confiana. Somente a excelncia artstica 
incorruptvel. O prazer no pode ser sucateado. E, algumas vezes, a comida  a nica
moeda real.
Dedicar-se  criao e ao usufruto da beleza pode ser, portanto, um negcio srio - nem
sempre necessariamente uma forma de fugir da realidade mas, algumas vezes, uma forma
de ater-se  realidade, quando todo o resto est se desfazendo em... retrica e trama. No
muito tempo atrs, as autoridades prenderam uma confraria de monges catlicos na
Siclia que estava em estreito conluio com a Mfia, ento em quem se pode confiar? Em
que se pode acreditar? O mundo  duro e injusto. Erga a voz contra essa injustia e, pelo
menos na Siclia, voc vai acabar nos alicerces de um prdio novo e feio. Em um
ambiente assim, o que voc pode fazer para conservar uma noo de sua dignidade
humana individual? Talvez nada. Nada, talvez, a no ser orgulhar-se do fato de sempre
tirar fils perfeitos do seu peixe ou de fabricar a mais leve ricota da cidade inteira?
No quero ofender ningum fazendo uma comparao exagerada entre mim e o sofredor
povo siciliano. As tragdias da minha vida foram de uma natureza pessoal, e em grande
parte criadas por mim mesma, e no foram opressivas em propores picas. Enfrentei
um divrcio e uma depresso, no sculos de tirania assassina. Tive uma crise de
identidade, mas tambm tive recursos (financeiros, artsticos e emocionais) com os quais
tentei resolv-la. Mesmo assim, direi que a mesma coisa que ajudou geraes de
sicilianos a manter sua dignidade ajudou-me a recuperar a minha - a saber, a idia de que
apreciar o prazer pode ser a ncora de humanidade de uma pessoa. Acho que foi isso que
Goethe quis expressar quando disse que  preciso vir at aqui,  Siclia, para entender a
Itlia. E imagino que seja exatamente isso que senti quando precisei vir at aqui,  Itlia,
para entender a mim mesma.
Foi em uma banheira em Nova York, lendo em um dicionrio palavras em italiano em
voz alta, que comecei pela primeira vez a curar minha alma. Minha vida estava
despedaada, e eu estava to irreconhecvel para mim mesma que provavelmente no
teria reconhecido meu prprio rosto em uma identificao policial. No entanto, quando
comecei a aprender italiano, senti um vislumbre de felicidade, e, quando voc sente um
tnue potencial de felicidade depois de pocas to sombrias, precisa agarrar essa
felicidade com todas as suas foras, e no solt-la at ela arrastar voc para fora da lama -
no se trata de egosmo, mas sim de libertao. Voc recebeu a vida; e seu dever (e
tambm seu direito como ser humano) encontrar alguma coisa de belo nessa vida, por
mais nfima que seja.
Cheguei  Itlia abatida e magra. Ainda no sabia o que eu merecia. Talvez eu ainda no
saiba totalmente o que mereo. Porm, o que sei  que, ultimamente, eu me recuperei -
graas  alegria de prazeres inofensivos - e tornei-me algum muito mais intacto. A
maneira mais fcil, mais fundamentalmente humana de dizer isso  que eu engordei.
Existo mais agora do que h quatro meses atrs. Deixarei a Itlia perceptivelmente maior
do que quando cheguei aqui. E irei embora com a esperana de que a expanso de uma
pessoa - a ampliao de uma vida - seja realmente um ato de valor neste mundo. Mesmo
que essa vida, s dessa vezinha, por acaso seja apenas minha e de mais ningum.


ndia

ou

Parabns Por Conhec-la.

ou

Trinta E Seis Histrias Sobre A Busca da Devoo

37

Quando eu era pequena, minha famlia criava galinhas. Sempre tnhamos em casa mais
ou menos uma dzia dessas aves e, sempre que uma delas morria - levada por um gavio,
por uma raposa ou por alguma misteriosa doena que d em galinhas -, meu pai substitua
a galinha perdida. Ele ia at uma granja prxima e voltava com uma nova galinha dentro
de um saco. O problema  que voc precisa tomar muito cuidado ao introduzir uma nova
galinha no galinheiro. No pode simplesmente jog-la l dentro com as galinhas mais
velhas, ou estas a vero como uma invasora. O que voc precisa fazer, isso sim,  colocar
a nova ave dentro do galinheiro no meio da noite, enquanto as outras estiverem
dormindo. Ponha-a em um poleiro ao lado das outras e saia de fininho. Pela manh,
quando as galinhas acordam, elas no reparam na recm-chegada e pensam apenas: "Ela
j devia estar aqui, j que no a vi chegar." O melhor  que, ao acordar com as novas
companheiras, a prpria recm-chegada sequer se lembra de que  uma recm-chegada e
pensa apenas: "Eu j devia estar aqui antes..."
 exatamente assim que eu chego  ndia.
Meu avio aterrissa em Mumbai por volta da uma e meia da manh. Estamos no dia 30 de
dezembro. Recolho minha bagagem e em seguida encontro o txi que ir me levar at o
ashram localizado em um vilarejo rural distante, a horas e horas da cidade. Adormeo
durante essa viagem por uma ndia noturna, despertando algumas vezes para olhar pela
janela, onde posso ver estranhas formas fantasmagricas de mulheres magras de sri,
caminhando ao lado da estrada com feixes de lenha sobre as cabeas. A esta hora?
nibus sem faris nos ultrapassam, e cruzamos com carroas puxadas a boi. As figueiras-
de-bengala estendem suas razes elegantes pelas valas dos acostamentos.
Chegamos ao porto principal doashram, bem em frente ao templo, s trs e meia da
manh. Quando estou saindo do txi, um rapaz de roupas ocidentais e boina de l surge
das sombras e se apresenta -  Arturo, um jornalista mexicano de 24 anos, devoto da
minha Guru, e est ali para me dar as boas-vindas. Enquanto nos apresentamos em voz
sussurrada, posso ouvir os primeiros acordes conhecidos de meu hino preferido em
snscrito, vindos de dentro do templo.  o arati matinal, a primeira prece da manh,
entoada todos os dias s trs e meia, enquanto o ashram desperta. Aponto para o templo,
perguntando a Arturo:
- Posso...? - E ele faz um gesto dizendo que sim, por favor. Ento pago o taxista, encosto
minha mochila numa rvore, tiro os sapatos, ajoelho-me, toco o degrau do templo com a
testa e entro discretamente, juntando-me ao pequeno grupo de mulheres, em sua maioria
indianas, que esto entoando esse lindo hino.
Esse  o hino que chamo de "A Fabulosa Graa do Snscrito", cheio de melancolia
religiosa.  a nica cano de devoo que aprendi de cor, nem tanto por esforo, mas
por amor. Comeo a entoar as conhecidas palavras em snscrito, da simples introduo
sobre os ensinamentos sagrados do ioga s tonalidades mais agudas da adorao ("Adoro
a causa do universo... Adoro aquele cujos olhos so o sol, a lua e o fogo... voc  tudo
para mim,  deus dos deuses..."), at chegar  soma maior de toda a f, como uma pedra
preciosa ("Isto  perfeito, aquilo  perfeito, se voc tirar o perfeito do perfeito, resta o
perfeito.")
As mulheres terminam de cantar. Fazem uma reverncia silenciosa, e ento saem por uma
porta lateral e atravessam um ptio s escuras at um templo menor, debilmente
iluminado por uma lamparina a leo, e onde paira o perfume do incenso. Vou atrs delas.
O aposento est cheio de devotos - indianos e ocidentais -, envoltos em xales de l para se
proteger do frio da madrugada. Todos esto sentados em meditao, quase que
empoleirados ali, e eu me esgueiro at ao seu lado, a nova ave do galinheiro, sem que
ningum perceba a minha chegada. Sento-me de pernas cruzadas, ponho as mos sobre os
joelhos, fecho os olhos.
Faz quatro meses que no medito. Sequer pensei em meditar durante quatro meses. Fico
sentada ali. Minha respirao se acalma. Digo o mantra para mim mesma uma vez, muito
lenta e deliberadamente, slaba por slaba.
Om.
Na.
Mah.
Shi.
Va.
Ya.
Om Namah Shivaya.
Eu honro a divindade que reside em mim.
Ento torno a repeti-lo. Outra vez e mais outra. No estou exatamente meditando, mas
sim desembalando cuidadosamente o mantra, como se desembala a melhor loua da vov
depois de ela ter passado muito tempo fechada em uma caixa, sem uso. No sei se
adormeo ou caio em algum tipo de transe, e tampouco sei quanto tempo passa. Mas,
quando o sol finalmente nasce naquela manh indiana, e todo mundo abre os olhos e olha
em volta, a Itlia me parece estar a mais de 15 mil quilmetros de distncia, como se eu
sempre tivesse estado ali, uma parte daquele grupo.

38

Por que a gente pratica ioga?
Tive um professor em Nova York que fez essa pergunta certa vez, durante uma aula de
ioga particularmente difcil. Estvamos todos dobrados naquela exaustiva postura lateral
do tringulo, e o professor nos fazia manter a posio durante um tempo demasiado longo
para o gosto de qualquer um de ns.
- Por que a gente pratica ioga? -- ele tornou a perguntar. -- Ser que  para ficarmos um
pouco mais flexveis do que os outros? Ou ser que existe algum propsito maior?
Yoga, em snscrito, pode ser traduzido como "unio". A origem da palavra  o radical yuj
que significa "pr cangalha em", dedicar-se a uma tarefa com a disciplina de um boi. E a
tarefa do ioga  encontrar unio - entre mente e corpo, entre o indivduo e o seu Deus,
entre nossos pensamentos e a origem de nossos pensamentos, entre professor e aluno, e
at mesmo entre ns e nossos semelhantes s vezes to pouco flexveis. No Ocidente,
conhecemos o ioga sobretudo por meio de seus agora famosos exerccios para alongar o
corpo, mas isso  apenas o Hatha Yoga, um dos ramos dessa filosofia. Os antigos
desenvolveram esses alongamentos fsicos no para deixar o corpo em forma, mas sim
para soltar seus msculos e sua mente de modo a prepar-los para a meditao. Afinal de
contas,  difcil permanecer sentado durante muitas horas se o seu quadril di e impede
voc de contemplar a divindade que reside dentro de voc porque est ocupado demais
contemplando o seguinte pensamento: "Nossa, como o meu quadril est doendo."
Mas ioga tambm pode significar tentar encontrar Deus por meio da meditao, por meio
do estudo erudito, por meio da prtica do silncio, por meio do servio da devoo, ou
por meio de um mantra - a repetio de palavras sagradas em snscrito. Embora algumas
dessas prticas paream ter uma derivao bastante hindusta, ioga no  sinnimo de
hindusmo, nem todos os hindus so iogues. O verdadeiro ioga no compete com
nenhuma religio, nem a exclui. Voc pode usar o seu ioga - as suas prticas
disciplinadas de unio sagrada - para se aproximar de Krishna, Jesus, Maom, Buda ou
Jav. Durante o tempo que passei no ashram, conheci devotos que se identificavam como
praticantes do cristianismo, do judasmo, do budismo, do hindusmo e at do islamismo.
Conheci outros que preferiam no falar de sua filiao religiosa, algo pelo qual, neste
nosso mundo de disputas, no se pode culp-los.
O caminho do ioga consiste em desatar os ns inerentes  condio humana, algo que
definirei aqui, de forma extremamente simplificada, como a desoladora incapacidade de
sustentar o contentamento. Ao longo dos sculos, diferentes escolas de pensamento
encontraram explicaes diferentes para o estado de aparente falha inerente do ser
humano. Os taostas chamam-no de desequilbrio; o budismo, de ignorncia; o islamismo
pe a culpa de nosso pesar na rebelio contra Deus; e a tradio judaico-crist atribui
todo o nosso sofrimento ao pecado original. Os freudianos afirmam que a infelicidade  o
resultado inevitvel de um embate entre nossas pulses naturais e as necessidades da
civilizao. (Como explica minha amiga psicloga, Deborah: "O desejo  uma falha de
design") Os iogues, no entanto, dizem que o descontentamento humano  um simples
caso de identidade equivocada. Ns somos infelizes porque achamos que somos meros
indivduos, sozinhos com nossos medos e falhas, com nosso ressentimento e nossa
mortalidade. Acreditamos equivocadamente que nossos pequenos e limitados egos
constituem toda a nossa natureza. No conseguimos reconhecer nossa natureza divina
mais profunda. No percebemos que, em algum lugar dentro de todos ns, existe um Eu
supremo que est eternamente em paz. Esse Eu supremo  a nossa verdadeira identidade,
universal e divina. Se voc no perceber essa verdade, dizem os iogues, estar sempre
desesperado, idia expressa de forma inteligente na seguinte frase irritada do filsofo
estico grego Epteto: "Voc leva Deus dentro de si, seu pobre desgraado, e no sabe
disso."
Ioga  o esforo que uma pessoa faz para vivenciar pessoalmente a sua divindade, e em
seguida para sustentar essa experincia para sempre. Ioga  domnio de si e esforo
dedicado a desviar a ateno de reflexes interminveis sobre o passado e preocupaes
infindveis com o futuro para, em vez disso, conseguir buscar um lugar de eterna
presena, de onde se possa olhar com tranqilidade para si mesmo e para o mundo ao
redor. Somente dessa perspectiva de equilbrio da mente  que a verdadeira natureza do
mundo (e de voc prprio) lhe ser revelada. Os verdadeiros iogues, de sua posio de
equanimidade, vem este mundo todo como a mesma manifestao da energia criativa de
Deus - homens, mulheres, crianas, nabos, piolhos, corais: tudo isso  Deus disfarado.
Mas os iogues acreditam que a vida humana  uma oportunidade muito especial, pois
somente na forma humana, e somente com uma mente humana,  que a percepo de
Deus pode ocorrer. Os nabos, os piolhos, os corais - eles nunca tm a oportunidade de
descobrir quem realmente so. Mas ns temos essa oportunidade.
"Nosso propsito nesta vida, portanto", escreveu Santo Agostinho, ele prprio um pouco
iogue, " recuperar a sade do olho do corao atravs do qual se pode ver Deus."
Assim como todas as grandes idias filosficas, essa  simples de entender, mas
praticamente impossvel de absorver. Tudo bem - ento somos todos um, e a divindade
habita todos ns igualmente. Sem problemas. Entendido. Mas, agora, tente viver de
acordo com isso. Tente pr essa compreenso em prtica 24 horas por dia. No  to
fcil. E  por isso que, na ndia, parte-se do princpio de que voc precisa de um instrutor
para o seu ioga. A menos que voc tenha nascido um daqueles raros santos de brilho
incomum, que j vm ao mundo inteiramente despertos, vai precisar de um guia em sua
jornada rumo  iluminao. Se tiver sorte suficiente, encontrar um Guru vivo. E isso que
os peregrinos tm vindo buscar na ndia h sculos. Alexandre, o Grande, enviou um
embaixador  ndia no sculo IV a.C, com a incumbncia de encontrar um daqueles
clebres iogues e voltar com ele para a corte. (O embaixador de fato relatou ter
encontrado um iogue, mas no conseguiu convencer o cavalheiro a viajar.) No sculo I
d.C, Apolnio de Tirana, outro embaixador grego, escreveu sobre sua viagem pela ndia:
"Vi brmanes indianos vivendo sobre a Terra e ao mesmo tempo fora dela, e fortificados
sem fortificaes, e sem nada possuir, mas ainda assim donos da riqueza de todos os
homens. O prprio Gandhi sempre quis estudar com um Guru mas, para seu pesar, nunca
teve tempo ou oportunidade para encontrar um: "Acho que h muita verdade", escreveu
ele, "na doutrina segundo a qual o verdadeiro conhecimento  impossvel sem um Guru."
Um grande iogue  qualquer pessoa que tenha alcanado o estado permanente de jbilo
iluminado. Um Guru  um grande iogue capaz de transmitir esse estado para outras
pessoas. A palavra guru  composta por duas slabas em snscrito. A primeira significa
"escurido" e a segunda, "luz". Da escurido rumo  luz. O que  transmitido do amestre
para o discpulo  algo chamado de mantravirya: "O poder da conscincia iluminada."
Voc vai at seu Guru, portanto, no apenas para receber lies, como de qualquer
professor, mas para de fato receber o estado de graa do Guru.
Essas transferncias de graa podem ocorrer at mesmo no mais breve dos encontros com
um grande ser. Certa vez, fui assistir a uma palestra do grande monge, poeta e pacifista
vietnamita Thich Nhat Hanh em Nova York. Era uma noite de de semana catica na
cidade, como todas as outras, e,  medida que a multido se acotovelava para entrar no
auditrio, o prprio ar do lugar ia se enchendo da incmoda urgncia do estresse coletivo
de todas aquelas pessoas. Ento o monge subiu ao palco. Passou um bom tempo sentado,
imvel, antes de comear a falar, e a platia foi colonizada por essa imobilidade - dava
para sentir isso acontecer, fileira aps fileira de nova-iorquinos nervosos. Em cerca de
dez minutos, aquele vietnamita baixinho havia atrado cada um de ns para o seu silncio.
Ou talvez seja mais exato afirmar que ele atraiu cada um de ns para o nosso prprio
silncio, para aquela paz inerente que cada um de ns possua, mas ainda no havia
descoberto nem identificado. A capacidade daquele homem de provocar esse estado em
todos ns por meio de sua simples presena no aposento -- isso  poder divino. E  por
isso que se procura um Guru: com a esperana de que os mritos do seu mestre revelem a
voc sua prpria grandeza escondida.
Os sbios clssicos indianos escreveram que existem trs fatores que indicam se uma
alma foi abenoada com a maior e mais auspiciosa sorte do universo:
1. Ter nascido um ser humano, capaz de reflexo consciente.
2. Ter nascido com - ou ter desenvolvido - o desejo de entender a natureza do universo.
3. Ter encontrado um mestre espiritual vivo.
Existe uma teoria de que, se voc anseia sinceramente o bastante por um Guru,
encontrar um. O universo ir se mover, as molculas do destino iro se organizar e o seu
caminho em breve cruzar o caminho do mestre de que voc precisa. Foi apenas um ms
depois da minha primeira noite de prece desesperada no cho do meu banheiro  uma
noite passada em prantos, suplicando a Deus por respostas - que encontrei a minha,
depois de entrar no apartamento de David e me deparar com a fotografia de uma linda
mulher indiana.  claro que eu era mais do que ambivalente em relao  idia de ter uma
Guru. Como regra geral, os ocidentais no se sentem  vontade com essa palavra. Temos
uma histria recente suspeita relacionada a ela. Durante os anos 1970, vrios jovens
discpulos ocidentais ricos, ansiosos e suscetveis encontraram um punhado de Gurus
indianos carismticos, mas dbios. A maior parte desse caos hoje j se acalmou, mas a
desconfiana ainda perdura. Mesmo para mim, que depois de todo esse tempo, algumas
vezes ainda me vejo relutante diante da palavra guru. Isso no  um problema para os
meus amigos indianos; eles cresceram com o princpio do Guru e sentem-se  vontade
com ele. Como me disse uma moa indiana: "Todo mundo na ndia quase tem um Guru!"
Sei o que ela quis dizer (que quase todo mundo na ndia tem um Guru), mas gostei mais
de sua frase involuntria, porque  assim que me sinto, s vezes - como se eu quase
tivesse uma Guru. Algumas vezes, simplesmente parece que no consigo admitir isso
porque, como boa nativa da Nova Inglaterra, o ceticismo e o pragmatismo so a minha
herana intelectual. De toda forma, no sa conscientemente batendo perna para encontrar
uma Guru. Ela simplesmente apareceu. E, na primeira vez em que a vi, foi como se ela
tivesse olhado para mim de sua fotografia -- com aqueles olhos escuros brilhando de
compaixo inteligente -- e dito: "Voc me chamou e eu agora estou aqui. Ento, quer
mesmo fazer isso ou no?"
Deixando de lado todas as piadas nervosas e todos os desconfortos intraculturais, preciso
sempre me lembrar do que respondi naquela noite: um direto e retumbante SIM.

39

Uma das minhas primeiras companheiras de quarto no ashram foi uma batista praticante
e instrutora de meditao afro-americana de meia-idade da Carolina do Sul. Minhas
outras companheiras de quarto, com o tempo, incluiriam uma danarina argentina, uma
homeopata sua, uma secretria mexicana, uma australiana me de cinco filhos, uma
jovem programadora de informtica de Bangladesh, uma pediatra do Maine e uma
contadora filipina. Outras viriam e iriam embora, tambm,  medida que os devotos
comeavam e terminavam seus estgios.
O ashram no  um lugar em que se possa dar uma passadinha casual para fazer uma
visita. Em primeiro lugar, no  muito acessvel. Fica bem longe de Mumbai, em uma
estrada de terra em um vale rural perto de um vilarejo bonito e humilde (composto de
uma rua, um templo, um punhado de lojas e uma populao de vacas que passeia
livremente, s vezes entrando na alfaiataria e deitando-se bem no meio da loja). Certa
noite, notei que havia uma lmpada de 60 watts suspensa em uma rvore por um fio no
meio da cidade;  o nico poste de luz do lugar. A economia local, na verdade, gira
basicamente em torno do ashram, e ele  tambm o orgulho da cidade. Do lado de fora de
seus muros, tudo  poeira e pobreza. Do lado de dentro, h jardins irrigados, canteiros de
flores, orqudeas escondidas, canto de pssaros, mangueiras, jaqueiras, cajueiros,
palmeiras, magnlias, figueiras-de-bengala. As construes so agradveis, embora no
sejam extravagantes. H um refeitrio simples, no estilo de uma cafeteria. H uma
biblioteca completa que armazena os escritos espirituais de todas as tradies religiosas
do mundo. H alguns templos para diferentes tipos de reunies. H duas "cavernas" de
meditao - subsolos escuros e silenciosos, com almofadas confortveis, abertos dia e
noite, para serem usados durante a prtica da meditao. H um pavilho externo,
coberto, onde pela manh acontecem aulas de ioga, e uma espcie de parque rodeado por
uma pista oval para caminhadas, onde os alunos podem correr para se exercitarem.
Durmo em um alojamento de concreto.
Durante minha estadia no ashram, em nenhum momento houve mais de cem residentes
ali. Se a Guru estivesse presente, esse nmero teria aumentado consideravelmente, mas
ela no foi  ndia enquanto eu estava l. De algum modo eu j esperava isso;
ultimamente, ela vinha passando boa parte de seu tempo nos Estados Unidos, mas nunca
se sabe quando pode aparecer em algum lugar de surpresa. No  considerado essencial
estar literalmente na sua presena para poder prosseguir os estudos com ela. Existe, 
claro, a insubstituvel "viagem" de se estar na presena de um mestre iogue vivo, e eu j
tive essa experincia. Mas muitos devotos antigos concordam que, s vezes, isso tambm
pode constituir uma distrao - se voc no tomar cuidado, pode se perder no redemoinho
frentico causado pela celebridade que  a Guru, e perder o foco de sua verdadeira
inteno. Enquanto que, se voc simplesmente for para um de seus ashrams e se
disciplinar para acompanhar a austera rotina de prticas, algumas vezes ir descobrir que
 mais fcil se comunicar com sua mestra de dentro dessas meditaes particulares do
que ficar se acotovelando no meio de uma multido de alunos ansiosos para dizer-lhe
uma palavra pessoalmente.
Existem alguns funcionrios pagos que trabalham por temporadas mais longas no
ashram, mas a maioria do trabalho aqui  feito pelos prprios alunos. Alguns dos aldees
locais tambm so assalariados aqui. Outros habitantes da regio so devotos da Guru e
vivem aqui como alunos. Um adolescente indiano do ashram de alguma forma realmente
despertou meu fascnio. Havia algo em sua (perdoem-me a palavra, mas...) aura que me
atraa muito. Para comear, ele era incrivelmente magro (embora isso seja uma coisa
relativamente normal por aqui; se existe alguma coisa neste mundo mais magra do que
um adolescente indiano, eu teria medo de ver). Vestia-se do mesmo jeito que os meninos
interessados em informtica da minha escola de ensino fundamental costumavam se
vestir para shows de bandas - calas escuras e camisas de boto brancas compridas
demais, que faziam seu pescoo fino, mais parecendo um caule, esticar-se para fora do
colarinho como uma nica margarida espichada para fora de um vaso gigante. Seus
cabelos estavam sempre bem penteados e molhados. Ele usava um cinto de homem mais
velho, que dava quase duas voltas no que devia ser uma cintura de 40 centmetros. Vestia
as mesmas roupas todos os dias. Percebi que aquilo era o seu uniforme. Ele devia lavar a
camisa  mo todas as noites e pass-la pela manh. (Embora essa ateno com o
vesturio tambm seja tpica daqui; os adolescentes indianos, com suas roupas
engomadas, rapidamente me fizeram sentir vergonha dos meus vestidos amassados de
camponesa, e fizeram-me adotar roupas mais limpas, mais modestas.) Mas o que esse
garoto tinha que me causava tanto impacto? Por que eu ficava to comovida sempre que
via seu rosto -- um rosto to cheio de luminosidade que parecia que ele havia acabado de
chegar de longas frias na Via Lctea? Finalmente perguntei a outra adolescente indiana
quem ele era. Ela respondeu com naturalidade:
-  filho de um dos comerciantes daqui. A famlia dele  muito pobre, e a Guru convidou-
o para ficar aqui. Quando ele toca tambor, voc escuta a voz de Deus.
Um dos templos do ashram fica aberto ao pblico em gerai, e muitos indianos o
freqentam durante o dia para prestar homenagem a uma esttua de Siddha Yogi (ou
"mestre aperfeioado"), que estabeleceu sua linha de ensinamentos nos anos 1920 e ainda
 reverenciado ndia afora como um grande santo. Mas o restante do ashram  s para
alunos. No  um hotel ou um ponto turstico. Parece mais uma universidade.  preciso
candidatar-se para vir para c e, para ser aceito para um estgio, voc precisa mostrar que
vem estudando ioga seriamente h um bom tempo. Exige-se uma permanncia mnima de
um ms. (Decidi ficar aqui por seis semanas, e depois viajar sozinha pela ndia, para
explorar outros templos, ashrams e locais de devoo).
A proporo de alunos aqui  mais ou menos a mesma entre indianos e ocidentais (e os
ocidentais dividem-se de forma mais ou menos equilibrada entre americanos e europeus).
As aulas so ministradas em hndi e ingls. Quando voc se candidata, precisa escrever
um ensaio, apresentar cartas de referncia e responder a perguntas sobre sua sade mental
e fsica, sobre qualquer histrico possvel de abuso de drogas ou lcool e tambm sobre
sua estabilidade financeira. A Guru no quer que as pessoas usem o seu ashram para
fugir de qualquer confuso em que possam ter se metido em suas vidas reais; isso no
ajudar ningum. Ela tambm tem uma poltica segundo a qual, se a sua famlia ou as
pessoas prximas a voc, por algum motivo, opuserem-se terminantemente  idia de
voc seguir os ensinamentos de uma Guru e morar em um ashram, ento voc no deve
fazer isso, no vale a pena. Simplesmente fique em casa, em sua vida normal, e seja uma
boa pessoa. No h por que transformar isso em um drama mexicano.
O nvel da sensibilidade prtica dessa mulher sempre me reconforta.
Para vir para c, portanto, voc precisa demonstrar que tambm  um ser humano
sensvel e prtico. Precisa demonstrar que  capaz de trabalhar, porque se espera que voc
contribua para o funcionamento global da instituio com cerca de cinco horas por dia de
seva, ou "servio altrusta''. Se voc tiver passado por um grande trauma emocional nos
ltimos seis meses (divrcio; morte na famlia), a administrao do ashram tambm pede
que voc, por favor, adie sua visita para outra ocasio, porque a probabilidade de voc
no se concentrar nos estudos  grande e, se voc tiver algum tipo de crise, s trar
distrao para os seus colegas. Acabo de sair desse perodo ps-divrcio. E, quando
penso na angstia mental que estava atravessando logo depois de sair do meu casamento,
no tenho dvida de que teria sido um enorme peso emocional para todo mundo neste
ashram se eu tivesse vindo para c naquele momento. Foi muito melhor descansar
primeiro na Itlia, recuperar a fora e a sade, e vir depois. Porque vou precisar dessa
fora agora.
Eles querem que voc venha para c forte, porque a vida no ashram  rigorosa. No
apenas do ponto de vista fsico, com dias que comeam s trs da manh e terminam s
nove da noite, mas tambm sob um vis psicolgico. Voc precisa passar horas e horas
por dia em meditao e contemplao silenciosa, sem muita distrao ou trgua do
aparato de sua prpria mente. Viver com desconhecidos em uma rea rural da ndia. Ha
insetos, cobras e roedores. O clima pode ser extremo - s vezes, chuvas torrenciais
durante semanas a fio; outras vezes, 38C  sombra antes do caf-da-manh. A realidade
pode se tornar muito difcil de agentar por aqui, muito depressa.
Minha Guru sempre diz que s uma coisa vai acontecer quando voc vier ao ashram -
voc ir descobrir quem realmente . Ento, se j estiver  beira da loucura, ela de fato
preferiria que voc no viesse. Porque, francamente, ningum quer ter de levar voc
embora deste lugar com uma colher de pau presa entre os dentes.

40

Minha chegada coincide agradavelmente com a chegada de um novo ano. Mal tenho um
dia para conseguir me orientar no ashram e j  vspera de ano-novo. Depois do jantar, o
pequeno ptio comea a se encher de gente. Ns todos nos sentamos no cho -- alguns
sobre o frio cho de mrmore, outros sobre esteiras de palha. Todas as indianas se
arrumaram como se fossem a um casamento. Seus cabelos esto reluzentes de leo,
escuros, tranados at as costas. Elas vestem seus mais elegantes sris de seda e pulseiras
de ouro, e cada mulher tem um bindi feito com uma pedra brilhante colado no meio da
testa, como um tnue reflexo da luz das estrelas acima de ns. O plano  entoarmos
cnticos nesse ptio ao ar livre at a meia-noite, at o ano mudar.
Cntico  uma palavra de que no gosto para uma prtica de que gosto muito. Para mim,
a palavra cntico denota um tipo de monotonia hipntica e assustadora, como algo que
druidas fariam em volta de uma fogueira sacrificial. No entanto, quando entoamos
cnticos aqui no ashram,  como se fosse um canto angelical. De modo geral, os cnticos
so entoados no formato de chamado e resposta. Um grupo de rapazes e mulheres com as
vozes mais bonitas comea cantando uma frase harmnica, e o restante de ns repete. E
uma prtica meditativa - o difcil  manter a ateno presa  progresso da msica e
misturar a sua voz  voz do seu vizinho de forma que, depois de algum tempo, todos
estejam cantando em unssono. Estou cansada por causa da viagem e tenho medo de no
conseguir ficar acordada at a meia-noite, quem dir encontrar energia para entoar um
cntico durante todo esse tempo. Mas ento a noite de msica comea, com um nico
violino escondido nas sombras tocando uma longa nota melanclica. Em seguida, vem o
harmnio, sucedido pelos tambores lentos e, finalmente, pelas vozes...
Estou sentada na parte de trs do ptio junto com todas as mes, indianas muito  vontade
na posio de pernas cruzadas, com os filhos adormecidos em seu colo como pequenas
mantas humanas. O cntico nessa noite  uma cano de ninar, um lamento, uma
tentativa de demonstrar gratido, escrita na forma de uma raga (uma melodia) cujo
objetivo  sugerir compaixo e devoo. Cantamos em snscrito, como sempre (uma
lngua antiga hoje extinta na ndia, exceto para a orao e o estudo religioso), e tento me
transformar no espelho vocal das vozes dos cantores principais, dedilhando suas inflexes
como pequenos fios de luz azul. Eles me passam as palavras sagradas, eu carrego as
palavras durante algum tempo, e depois as devolvo, e  assim que conseguimos cantar
por quilmetros e mais quilmetros de tempo sem nos cansarmos. Todos oscilamos como
algas na escura corrente do mar da noite. As crianas  minha volta esto envoltas em
sedas, como presentes.
Estou muito cansada, mas no largo meu pequeno fio azul de cano, e flutuo para um
estado tal, que penso que talvez esteja chamando o nome de Deus enquanto durmo, ou
talvez esteja apenas caindo no poo deste universo. s onze e meia, porm, a orquestra j
acelerou o ritmo do cntico at transform-lo em pura alegria. Mulheres lindamente
vestidas, com pulseiras chacoalhantes, batem palmas e danam, tentando transformar os
prprios corpos em instrumentos musicais. As percusses ressoam, rtmicas,
entusiasmadas. Conforme os minutos passam, parece-me que estamos puxando
coletivamente o ano de 2004 em nossa direo. Como se o houvssemos laado com
nossa msica, e agora o estivssemos arrastando pelo cu noturno como se ele fosse uma
imensa rede de pesca, repleta de todos os nossos destinos desconhecidos. E que rede
pesada  essa, de fato, uma vez que carrega todos os nascimentos, mortes, tragdias,
guerras, histrias de amor, invenes, transformaes e calamidades que esto reservados
para todos ns no ano que se inicia. Continuamos a cantar e a arrastar, mo por cima de
mo, minuto aps minuto, voz aps voz, cada vez mais para perto. Os segundos se
aproximam da meia-noite, e cantamos com nosso flego mximo at ento e, nesse
ltimo e corajoso esforo, finalmente puxamos a rede do ano-novo por cima de ns,
cobrindo com ela tanto o cu quanto ns mesmos. S Deus sabe o que o novo ano pode
conter, mas agora ele chegou e estamos todos debaixo dele.
Em toda a minha vida, essa  a primeira noite de ano-novo de que me lembro na qual eu
no conhecia nenhuma das pessoas com quem estava comemorando. Em meio a toda essa
dana e canto, no tenho ningum para abraar  meia-noite. Mas eu no diria que algo
nessa noite foi solitrio.
No, eu no diria isso de jeito nenhum.

41

Ns todos aqui recebemos um trabalho para fazer, e minha tarefa acaba sendo lavar o
cho do templo. Ento,  l que posso ser encontrada agora durante vrias horas do meu
dia  ajoelhada sobre o mrmore frio, com uma escova e um balde, esfalfando-me como a
irm adotada de algum conto de fadas. (Falando nisso, estou consciente da metfora - a
limpeza do templo que  meu corao, o polimento da minha alma, o esforo concreto e
cotidiano que se deve dedicar  prtica espiritual de forma a purificar o eu etc.)
Meus colegas esfregadores de cho so, em sua maioria, um bando de adolescentes
indianos. Eles sempre do esse trabalho a adolescentes, porque requer muita energia
fsica, mas no exige enormes reservas de responsabilidade; mesmo que voc faa tudo
errado, os estragos sero limitados. Gosto dos meus colegas. As meninas so pequenas
borboletas esvoaantes, que parecem muito mais novas do que meninas americanas de 18
anos de idade, e os meninos so pequenos autocratas sisudos que parecem muitssimo
mais velhos do que meninos americanos de 18 anos de idade. A ordem  no falar nos
templos, mas trata-se de adolescentes, ento a falao enquanto trabalhamos  constante.
Nem tudo  fofoca sem importncia. Um dos meninos passa o dia inteiro esfregando ao
meu lado, fazendo-me prelees animadas sobre a melhor maneira de fazer meu trabalho
aqui:
- Leve a srio. Seja pontual. Seja fria e dcil. Lembre-se... tudo que voc faz, faz por
Deus. E tudo que Deus faz, Ele faz por voc.
 um trabalho fisicamente exaustivo, mas minhas horas dirias de atividade so
consideravelmente mais fceis do que minhas horas dirias de meditao. A verdade 
que no acho que seja boa em meditao. Sei que estou fora de forma, mas sinceramente
nunca fui boa nisso. No consigo fazer minha mente se aquietar. Certa vez, disse isso a
um monge indiano, e ele falou: " uma pena que voc seja a nica pessoa da histria do
mundo que j teve esse problema." Ento o monge me citou um trecho do Bhagavad Gita,
o mais sagrado dos textos antigos de ioga: " Krishna, a mente  inquieta, turbulenta,
fone e irredutvel. Eu a considero to difcil de domar quanto o vento.
A meditao representa, ao mesmo tempo, a ncora e as asas do ioga. A meditao  o
caminho. Existe uma diferena entre meditao e orao, embora ambas as prticas
busquem uma comunho com o divino. Ouvi dizer que a orao  o ato de falar com
Deus, enquanto a meditao  o ato de escutar. Adivinhem qual dos dois  mais fcil para
mim. Posso passar o dia inteiro tagarelando com Deus sobre os meus sentimentos e os
meus problemas mas, quando o negcio  entrar no silncio e escutar... bom, a a histria
 outra. Quando peo  minha mente para descansar e ficar imvel,  surpreendente a
rapidez com que ela se torna (1) entediada, (2) irritada, (3) deprimida, (4) ansiosa ou (5)
todas as respostas acima.
Como a maior parte dos humanides, carrego o fardo daquilo que os budistas chamam de
"mente de macaco" - pensamentos que pulam de galho em galho, parando apenas para se
coar, cuspir e guinchar. Desde passado remoto at o futuro desconhecido, minha mente
fica pulando a esmo pelo tempo, tendo dzias de idias por minuto, descontrolada e sem
disciplina. Isso, em si, no  necessariamente um problema; o problema  o apego
emocional que acompanha o pensamento. Pensamentos felizes me tornam feliz, mas -
vupt! - com que rapidez torno a me prender a preocupaes obsessivas, estragando a
felicidade; e ento basta a lembrana de um momento de raiva para eu comear a ficar
exaltada e brava de novo; e ento minha mente decide que aquela pode ser uma boa hora
para comear a sentir pena de si mesma, e a solido no demora a chegar. Afinal de
contas, voc  o que voc pensa. As suas emoes so escravas dos seus pensamentos, e
voc  escravo de suas emoes.
O outro problema de toda essa pulao pelos galhos do pensamento  que voc nunca
est onde est. Voc est sempre remoendo o passado ou especulando sobre o futuro, mas
raramente pra no momento presente.  um pouco como o hbito da minha querida
amiga Susan, que - sempre que v um lugar bonito - exclama, quase em pnico, "Que
lindo isto aqui! Quero voltar aqui algum dia!", e preciso lanar mo de todo o meu poder
de persuaso para tentar convenc-la de que ela j est l. Se voc estiver buscando a
unio com o divino, esse tipo de oscilao para frente/para trs  um problema. Existe um
motivo pelo qual Deus  chamado de presena - porque Deus est bem aqui, agora. O
presente  o nico lugar onde se pode encontr-lo, e o agora  o nico momento.
No entanto, permanecer no presente exige que a pessoa se concentre inteiramente em um
s ponto. Diferentes tcnicas de meditao ensinam a concentrao de diferentes formas -
por exemplo, fixar os olhos em um nico ponto de luz ou observar o ir-e-vir da
respirao. Minha Guru ensina meditao com o auxlio de um mantra, palavra ou slabas
sagradas que devem ser repetidas de maneira concentrada. O mantra tem uma dupla
funo. Por um lado, ele proporciona  mente algo para fazer.  como se voc desse uma
pilha de 10 mil botes para o macaco e dissesse: "Mova esses botes, um de cada vez,
para formar uma nova pilha." Essa  uma tarefa consideravelmente mais fcil para o
macaco do que se voc simplesmente o pusesse em um canto e lhe pedisse para no se
mexer. A outra funo do mantra  transportar voc para outro estado, como um barco a
remo que atravessa as correntes agitadas da mente. Sempre que a sua ateno for atrada
por uma contracorrente de pensamento, simplesmente volte ao mantra, torne a subir no
barco e siga em frente. Dizem que os grandes mantras em snscrito possuem poderes
inimaginveis e, se voc conseguir se ater a um deles, eles tm a capacidade de conduzi-
lo at as margens da divindade.
Entre os meus inmeros problemas com a meditao est o fato de que o mantra que
recebi  Om Namah Shivaya - no se encaixa confortavelmente em minha mente. Adoro
seu som e adoro seu significado, mas ele no me faz deslizar rumo  meditao. Nunca o
fez, no durante os dois anos em que venho praticando esse ioga. Quando tento repetir o
Om Namah Shivaya em minha mente, ele na verdade entala em minha garganta, fazendo
meu peito se contrair com fora, deixando-me nervosa. Nunca consigo fazer as slabas se
encaixarem com a minha respirao.
Certa noite, acabo comentando isso com minha companheira de quarto, Corella. Tenho
vergonha de confessar a ela o quanto estou achando difcil manter a mente concentrada
na repetio do mantra, mas ela  professora de meditao. Talvez possa me ajudar. Ela
me diz que a sua mente tambm costumava se dispersar durante a meditao, mas que
agora sua prtica  alegria de sua vida: excelente, fcil, transformadora.
- Parece que eu simplesmente me sento e fecho os olhos - diz ela -, e tudo que preciso
fazer  pensar no mantra, e imediatamente me materializo no paraso.
Ao ouvir isso, tenho nuseas de tanta inveja. Corella pratica ioga h praticamente o
mesmo nmero de anos que tenho de vida. Pergunto-lhe se ela poderia me mostrar como
exatamente ela usa o Om Namah Shivaya em sua prtica de meditao. Ela inspira uma
vez para cada slaba? (Quando fao isto, a sensao  de que o mantra  interminvel e
incmodo.) Ou seria uma palavra para cada respirao? (Mas as palavras tm tamanhos
diferentes! Como fazer para igual-las?) Ou ser que ela diz o mantra inteiro uma vez ao
inspirar, e depois outra vez ao expirar? (Porque, quando tento fazer isso, o processo todo
se acelera e fico ansiosa.)
- No sei - responde Corella. - Eu s, tipo... repito.
- Mas voc repete cantando? - insisto, j desesperada. - Voc impe um ritmo?
- Eu simplesmente repito.
- Ser que voc pode repetir em voz alta do jeito que repete mentalmente quando est
meditando?
Com boa vontade, minha companheira de quarto fecha os olhos e comea a repetir o
mantra em voz alta, do modo como ele vai surgindo em sua mente. E, de fato, ela est
apenas... repetindo. Pronuncia-o com tranqilidade, de maneira normal, com um leve
sorriso nos lbios. Ela o repete algumas vezes, na verdade, antes de eu ficar ansiosa e
interromp-la.
- Mas voc no fica entediada? - pergunto.
- Ah - responde Corella, abrindo os olhos e sorrindo. Ela olha para o relgio. - , Liz, j
passaram dez segundos. Voc j est entediada?

42

Na manh seguinte, chego bem na hora para a sesso de meditao das quatro da manh,
que sempre inicia o dia aqui. A idia  passarmos uma hora sentados em silncio, mas
fico contando os minutos como se fossem quilmetros -- 60 cruciantes quilmetros que
preciso agentar. Por volta do quilmetro/minuto 14, meus nervos comearam a sofrer,
meus joelhos j doem e sou tomada pela irritao. O que  compreensvel, j que a
conversa entre mim e minha mente durante a meditao, em geral,  mais ou menos
assim:

Eu: Tudo bem, vamos meditar agora. Vamos levar a ateno para a respirao e nos
concentrar no mantra. Om Namah Shivaya. Om Namah Shiv...

Mente: Posso ajudar voc a fazer isso, sabe?

Eu: Tudo bem, timo, porque preciso da sua ajuda. Vamos l. Om Namah Shivaya. Om
Namah Shi...

Mente: Posso ajudar voc a pensar em imagens legais para meditao. Como, por
exemplo... ei, essa aqui  boa. Imagine que voc est em um templo. Um templo em uma
ilha! E a ilha est no oceano!

Eu: Ah, essa imagem  legal mesmo.

Mente: Obrigada. Fui eu mesma que inventei.

Eu: Mas qual  esse oceano que a gente est imaginando?

Mente: O Mediterrneo. Imagine que voc est em uma daquelas ilhas gregas, com um
antigo templo grego. No, esquea isso,  turstico demais. Sabe o que mais? Esquea o
oceano. Oceanos so perigosos demais. Tenho uma idia melhor: em vez disso, imagine
que voc est em uma ilha em um lago.

Eu: Ser que a gente pode meditar agora, por favor? Om Namah Shiv...

Mente: Isso mesmo! timo! Mas tente no imaginar que o lago est coalhado de... como
 que se chamam aqueles negcios...

Eu: Jet-skis?

Mente: Isso! Jet-skis! Como esses troos consomem gasolina! Eles so mesmo uma
ameaa para o meio ambiente. Voc sabe o que mais usa muito combustvel? Sopradores
de folhas. , no d nem pra imaginar, mas...

Eu: Certo, mas agora vamos MEDITAR, por favor? Om Namah...

Mente: Isso! Quero mesmo ajudar voc a meditar! E  por isso que a gente vai desistir da
imagem da ilha no lago ou no oceano, porque  bvio que no est funcionando. Ento
vamos imaginar que voc est em uma ilha em... um rio!

Eu: Ah, voc quer dizer tipo a Ilha Bannerman, no rio Hudson?

Mente: Isso! Exatamente! Perfeito! Portanto, para concluir, vamos meditar sobre essa
imagem... imagine que voc est em uma ilha no meio de um rio. Todos os pensamentos
que passam flutuando enquanto voc medita so s as correntes naturais do rio, que voc
pode ignorar, porque voc  uma ilha.

Eu: Espere a, pensei que voc tivesse dito que eu era um templo.

Mente: ,  isso, desculpe. Voc  um templo sobre uma ilha. Na verdade, voc  ao
mesmo tempo o templo e a ilha.

Eu: Eu sou o rio tambm?

Mente: No. O rio so apenas os pensamentos.

Eu: Chega! Por favor, pare! VOC ESTA ME DEIXANDO LOUCA!!!

Mente (magoada): Desculpe. Eu s estava tentando ajudar.

Eu: Om Namah Shivaya... Om Namah Shivaya... Om Namah Shivaya...

H uma pausa promissora nos pensamentos que dura oito segundos. Mas ento...

Mente: Voc agora est brava comigo?

... e ento, com um grande arquejo, subo  superfcie para tomar ar, minha mente vence,
meus olhos se abrem de repente e eu desisto. Aos prantos. Um ashram  supostamente
um lugar aonde voc vai para aprofundar a sua meditao, mas isto aqui  um desastre. A
presso  demais para mim. No consigo. Mas o que eu deveria fazer? Sair correndo do
templo chorando depois de 14 minutos, todos os dias?
Esta manh, porm, em vez de lutar, simplesmente parei. Desisti. Deixei-me desabar
junto  parede atrs de mim. Minhas costas doam. Eu no tinha foras, minha mente
fraquejava. Minha postura despencou como uma ponte que desmorona. Tirei o mantra de
cima da minha cabea (onde ele estava me empurrando para baixo como uma bigorna
invisvel), e coloquei-o no cho ao meu lado. E ento disse a Deus: "Mil desculpas, mas
isso foi o mais perto que consegui chegar do senhor hoje."
Os ndios sioux lalcota dizem que uma criana incapaz de permanecer sentada  uma
criana que s se desenvolveu pela metade. E um antigo texto em snscrito diz: "Por
meio de determinados sinais,  possvel dizer se a meditao est sendo executada
corretamente. Um deles  se um pssaro vier se sentar sobre a sua cabea, pensando que
voc  uma coisa inerte." Isso ainda no aconteceu exatamente comigo. Porm, durante
os quarenta minutos seguintes, ou por a, tentei ficar o mais imvel possvel, presa
naquela sala de meditao e enrolada em minha prpria vergonha e inadequao,
observando os devotos  minha volta sentados em suas posturas perfeitas, com os olhos
perfeitamente fechados, os rostos superiores emanando calma enquanto eles, sem dvida,
se transportavam em direo a algum paraso perfeito. Eu estava tomada por uma tristeza
quente, poderosa, e adoraria ter me entregado ao reconforto das lgrimas, mas tentei com
fora no faz-lo, lembrando-me de algo que minha Guru dissera cena vez: que voc
nunca deveria dar a si mesmo a oportunidade de se entregar porque, quando o faz, isso se
torna uma tendncia, e nunca mais pra de acontecer. Em vez disso, voc precisa treinar
ficar forte.
Mas eu no me sentia forte. Meu corpo estava dolorido em sua reles inutilidade.
Perguntei-me quem seria o "eu" com quem eu conversava na minha mente, e quem era a
"mente". Pensei no incessante processador de idias, na mquina devoradora de alma que
 o meu crebro, e perguntei-me como era possvel eu um dia conseguir domin-la. Ento
lembrei-me do dilogo do filme Tubaro e no pude evitar sorrir:
"Vamos precisar de um barco maior."

43

Hora do jantar. Estou sentada sozinha, tentando comer devagar. Minha Guru sempre nos
incentiva a praticar a disciplina quando se trata de comer. Ela nos incentiva a comer com
moderao e sem bocadas desesperadas, de forma a no extinguir os fogos sagrados de
nossos corpos jogando comida demais em nosso tubo digestivo depressa demais. (Tenho
quase certeza de que a minha Guru nunca foi a Npoles.) Quando os alunos a procuram
para reclamar que esto tendo dificuldade para meditar, ela sempre pergunta como tem
andado a sua digesto ultimamente.  evidente que voc ter dificuldade para deslizar
com leveza rumo  transcendncia se as suas entranhas estiverem lutando para processar
um calzone de lingia, meio quilo de asinhas de frango fritas e meia torta de creme de
coco.  por isso que aqui eles no servem esse tipo de comida. A comida no ashram 
vegetariana, leve e saudvel. Ainda assim,  deliciosa. E  por isso que  difcil para mim
no devor-la como uma rf faminta. Alm disso, as refeies so servidas no sistema
de buf, e para mim nunca foi fcil resistir a repetir uma ou duas vezes, quando uma linda
comida est simplesmente ali exposta, cheirando bem e sem custar nada.
Ento estou ali sentada na mesa de jantar completamente sozinha, fazendo fora para
conter meu garfo, quando vejo um homem se aproximando com sua bandeja,  procura de
uma cadeira livre. Com um gesto de cabea, indico-lhe que ele pode se sentar ao meu
lado. Ainda no vi esse cara no aqui. Ele deve ter acabado de chegar. O desconhecido
tem um andar calmo, de algum que no est com pressa, e move-se com a autoridade de
um xerife de alguma cidade de fronteira, ou talvez de um veterano jogador de pquer
profissional. Parece ter cinqenta e poucos anos, mas caminha como se houvesse vivido
alguns sculos a mais do que isso. Ele tem cabelos brancos e uma barba branca, e usa
uma camisa de flanela quadriculada. Tem ombros largos e mos gigantes que parecem
capazes de causar estragos razoveis, mas um rosto totalmente relaxado.
Senta-se bem na minha frente e diz em ingls, com um sotaque arrastado:
- Cara, aqui tem uns mosquitos com tamanho suficiente para currar uma galinha.
Senhoras e senhores, Richard do Texas chegou.

44

Entre muitos empregos que Richard do Texas j teve na vida  e sei que estou deixando
muitos deles de fora  esto: petroleiro; caminhoneiro; o primeiro revendedor autorizado
de Bickenstock dos estados de Dakota do Sul e do Norte; assentador de sacos em um
aterro do meio-oeste (desculpe, mas realmente no tenho tempo para explicar o que  um
assentador de sacos); operrio na construo de rodovias; vendedor de carros usados;
soldado do Vietn; revendedor de mercadorias (sendo as mercadorias, em geral, drogas
oriundas do Mxico); drogado e alcolatra (se  que se pode chamar isso de profisso);
seguido por drogado e alcolatra reabilitado (profisso bem mais respeitvel); fazendeiro
hippie em uma comunidade; anunciante de rdio em voice-over, e, por fim, comerciante
bem-sucedido de equipamento mdico de ponta (at seu casamento desmoronar e ele
deixar o negcio todo para a ex-mulher, e ficar mais uma vez sem grana e chupando o
dedo). Ele hoje reforma casas antigas em Austin.
- Nunca tive muito uma trajetria de carreira - diz ele. - Nunca consegui fazer nada
direito, s coisa ilegal.
Richard do Texas no  um cara que se preocupa com muita coisa. Eu no diria que de 
uma pessoa neurtica, no. Mas sou um pouco neurtica, e  por isso que passei a ador-
lo. A presena de Richard no ashram se transforma em meu grande e divertido porto
seguro. Sua imensa autoconfiana de gigante aplaca todo o meu nervosismo e lembra-me
que tudo realmente vai acabar bom. (E, se no acabar bem, pelo menos vai ser
engraado.) Lembram daquele personagem de desenho animado que era um galo, o
Frangolino? Bom, Richard  mais ou menos assim, e me transformo em sua pequena
comparsa que fala sem parar. Nas palavras do prprio Richard:
-- Eu e a Sacolo, a gente est sempre rindo.
Sacolo.
Foi esse o apelido que Richard me deu. Ele o inventou na noite em que nos conhecemos,
quando percebeu o quanto eu era capaz de comer. Tentei me defender ("Eu estava
comendo com disciplina e inteno de propsito!"), mas o apelido pegou.
Talvez Richard do Texas no parea um iogue tpico. Embora meu tempo na ndia tenha
me alertado para no tentar definir o que  um iogue tpico, (Nem me peam para falar
sobre o criador de gado leiteiro da Irlanda que encontrei aqui outro dia, ou sobre a ex-
freira sul-africana). Richard descobriu este ioga graas a uma ex-namorada, que o levou
do Texas at um ashram em Nova York para escutar uma palestra da Guru. Richard diz:
-- Pensei que o ashram fosse ser a coisa mais esquisita que j vi, e ficava me
perguntando cad a sala onde voc teria de entregar todo o seu dinheiro a eles, sem falar
na sua casa e no seu carro, mas isso nunca aconteceu...
Depois dessa experincia, que ocorreu h mais ou menos dez anos, Richard do Texas
comeou a rezar o tempo todo, para sua prpria surpresa. Sua prece era sempre a mesma.
He no parava de suplicar a Deus: "Por favor, por favor, abra o meu corao." Era s isso
que ele queria -- um corao aberto. E sempre terminava a prece na qual pedia um
corao aberto perguntando a Deus: "E, por favor, me mande um sinal quando isso
acontecer." Hoje, lem-brando-se dessa poca, ele diz:
-- Cuidado com o que voc pedir quando estiver rezando, Sacolo, porque voc pode
conseguir. - Depois de alguns meses rezando constantemente por um corao aberto, o
que vocs acham que Richard conseguiu? Isso mesmo: uma cirurgia cardaca de
emergncia. O peito dele foi literalmente aberto, as costelas afastadas uma da outra para
fazer com que um pouco da luz do dia finalmente penetrasse no seu corao, como se
Deus estivesse dizendo: "Que tal esse sinal?" Ento agora Richard sempre toma cuidado
com suas preces, segundo ele.
- Quando rezo por qualquer coisa hoje em dia, sempre termino dizendo: "Ah, e Deus? Por
favor, me trate com delicadeza, t?"
- O que eu deveria fazer em relao  minha prtica de meditao? - pergunto a Richard
certo dia, enquanto ele me observa esfregar o cho do templo. (Ele tem sorte - trabalha na
cozinha, e sequer precisa aparecer por l at uma hora antes do jantar. Mas ele gosta de
me ver esfregar o cho do templo. Acha isso engraado.)
- Por que voc precisa fazer alguma coisa em relao a isso, Sacolo?
- Porque est horrvel.
- Quem disse?
- No consigo aquietar a minha mente.
- Lembre-se do que a Guru ensina para a gente: se voc se sentar com a pura inteno de
meditar, o que quer que acontea depois  problema seu. Ento, por que voc est
julgando a sua experincia?
- Porque o que est acontecendo na minha meditao no pode ser o objetivo deste ioga.
- Sacolo, meu amor: voc no faz idia do que est acontecendo l.
- Eu nunca tenho vises, nunca tenho experincias transcendentes...
- Voc quer ver cores bonitas? Ou quer descobrir a verdade sobre voc mesma? Qual  a
sua inteno?
- Quando tento meditar, parece que s estou discutindo comigo mesma.
- Isso  s o seu ego tentando garantir que vai sempre estar no controle.  para isso que o
seu ego serve. Ele faz voc se sentir afastada, faz voc ter uma sensao de dualidade,
tenta te convencer de que voc  uma pessoa falha, imperfeita e sozinha, em vez de
inteira.
- Mas como  que isso pode me ajudar?
- Isso no te ajuda. A funo do seu ego no  te ajudar. A nica funo dele e se manter
no poder. E, neste momento, o seu ego est morrendo de medo, porque as asas dele esto
prestes a serem cortadas. Se voc continuar neste caminho espiritual, baby, os dias desse
menino mau esto contados. Muito em breve, o seu ego vai estar desempregado, e o seu
corao vai estar tomando todas as decises. Ento o seu ego est lutando pela prpria
sobrevivncia, jogando com a sua mente, tentando mostrar a autoridade dele, tentando te
manter encurralada em um cubculo, afastada do resto do universo. No d ouvidos a ele.
- Como  que se faz para no dar ouvidos?
- J tentou tirar um brinquedo de uma criana pequena? Eles no gostam, no ?
Comeam a espernear e berrar. A melhor maneira de tirar um brinquedo de uma criana 
distrair o moleque, dar a ele alguma outra coisa para brincar. Mudar o foco da sua
ateno. Em vez de tentar tirar os pensamentos da sua mente na marra, arrume alguma
coisa melhor para sua mente brincar. Alguma coisa mais saudvel.
- Tipo o qu?
- Tipo amor, Sacolo. Puro e divino amor.

45

Supostamente, entrar naquela caverna de meditao todos os dias  um momento de
comunho divina, mas ultimamente tenho entrado l resistindo, como minha cadela
costumava resistir ao entrar no consultrio do veterinrio (pois sabia que, por mais
simptico que todo mundo estivesse sendo naquele momento, tudo iria terminar com a
picada pontiaguda de algum instrumento mdico). Porm, depois da minha ltima
conversa com Richard do Texas, esta manh estou tentando uma nova abordagem. Sento-
me para meditar e digo  minha mente:
-- Escute: entendo que voc esteja um pouco assustada. Mas prometo que no estou
tentando te aniquilar. Estou s tentando te dar um lugar para descansar. Eu te amo.
Outro dia, um monge me disse:
- O local de descanso da mente  o corao. A nica coisa que a mente escuta o dia
inteiro so sinos dobrando, barulho e discusso, e tudo que ela quer  tranqilidade. O
nico lugar em que a mente vai encontrar paz  dentro do silncio do corao.  para l
que voc tem de ir.
Tambm estou tentando um mantra diferente. E um mantra com o qual tive sorte no
passado.  simples, formado por duas slabas apenas:
Ham-sa.
Em snscrito, significa: "Eu sou Isso."
Segundo os iogues, Ham-sa  o mais natural dos mantras, aquele que ns todos
recebemos de Deus antes do nascimento. Ele  o som da nossa Prpria respirao. Ham
na inspirao, sa na expirao. (Ham, por sinal, deve ser pronunciado de forma suave,
sem que o h seja transformado em r, assim: hahhm. E sa rima com "ahhhh...".) Enquanto
vivemos, sempre que inspiramos e expiramos, estamos repetindo esse mantra. Eu sou
Isso. Eu sou divino, eu estou com Deus, eu sou uma expresso de Deus, no estou
afastado, no estou sozinho, no sou essa iluso limitada de um indivduo. Sempre achei
Ham-sa fcil e reinante.  mais fcil meditar com ele do que com Om Namah Shivaya, o
- como dizer - mantra "oficial" deste ioga. Mas eu estava conversando com um monge no
outro dia, e ele me disse para ficar  vontade para usar Ham-sa se isso fosse me ajudar a
meditar.
- Medite com qualquer coisa que cause uma revoluo na sua mente -- disse ele.
Ento vou me sentar com ele aqui hoje.
Ham-sa.
Eu sou Isso.
Os pensamentos vm, mas no presto muita ateno neles, a no ser para lhes dizer, de
forma quase maternal:
- Ah, conheo vocs, seus danadinhos... vo brincar l fora agora... Mame est
escutando Deus.
Ham-sa.
Eu sou Isso.
Adormeo durante algum tempo. (Ou algo assim. Na meditao, voc nunca consegue ter
certeza se o que voc pensa que  sono  de fato sono; algumas vezes,  s um outro nvel
de conscincia.) Quando acordo, ou algo assim, posso sentir uma energia suave, azul e
eltrica pulsando pelo meu corpo, em ondas. E um pouco assustador, mas tambm
incrvel. No sei o que fazer, ento simplesmente converso internamente com essa
energia. Digo a ela: "Eu acredito em voc", e sua reao  aumentar, ganhar volume. Ela
est assustadoramente intensa agora, como se estivesse tomando conta dos meus sentidos.
Sua vibrao vem da base da minha coluna. Meu pescoo parece querer se esticar e se
torcer, portanto deixo que faa isso, e vejo ento que estou sentada na mais estranha das
posies - com as costas retas como uma boa jogue, mas com a orelha esquerda
encostada no ombro esquerdo. No por que minha cabea e meu pescoo querem fazer
isso, mas no vou discutir com eles; eles so insistentes. A energia azul pulsante continua
a percorrer meu corpo, e posso ouvir uma espcie de zumbido cadenciado em meus
ouvidos, agora to alto que, na verdade, no consigo mais suportar- Ele me assusta tanto
que eu lhe digo: "Ainda no estou pronta!", e abro os olhos de supeto. Tudo desaparece.
Estou de volta a uma sala, de volta a meu ambiente conhecido. Olho para o meu relgio.
Estou aqui - ou em algum lugar - h quase uma hora.
Estou ofegando, literalmente ofegando.

46

Para entender o que foi essa experincia, o que aconteceu ali (com "ali" estou me
referindo tanto  "caverna de meditao" quanto a "dentro de mim"),  preciso abordar
um tema um tanto esotrico e pouco compreendido -- a saber, o tema da kundalini
shakti.
Toda religio do mundo tem um ramo de devotos que busca uma experincia direta e
transcendente de Deus, afastando-se dos estudos escriturais ou dogmticos
fundamentalistas para ter uma experincia pessoal do divino. O interessante a respeito
desses msticos  que, quando eles descrevem suas experincias, todos acabam
descrevendo exatamente a mesma coisa. Em geral, sua unio com Deus acontece em um
estado de meditao, e  possibilitada graas a uma fonte de energia que inunda o corpo
inteiro com uma luz eufrica, eltrica. Os japoneses chamam essa energia de ki; os
budistas chineses chamam-na de chi; os balineses chamam-na de taksu; os cristos
chamam-na de Esprito Santo; os habitantes originais do deserto do Kalahari chamam-na
de n/um (seus homens santos a descrevem como um poder semelhante a uma cobra, que
sobe pela coluna vertebral e abre um furo na cabea, atravs do qual os deuses ento
entram). Os poetas sufistas islmicos chamam essa energia-Deus de "A Bem-Amada", e
escreveram poemas devocionais em sua homenagem. Os aborgenes australianos
descrevem uma serpente no cu que desce e toma conta do xam, atribuindo-lhe poderes
intensos, de outro mundo. Na tradio judaica da cabala, dizem que essa unio com o
divino ocorre por meio de estgios de ascenso espiritual, com uma energia que sobe pela
coluna vertebral ao longo de uma srie de meridianos invisveis.
Santa Teresa d'vila, a mais mstica de todas as figuras do catolicismo, descreveu sua
unio com Deus como uma ascenso fsica de luz atravs de sete "manses" interiores de
seu ser, depois da qual ela irrompeu diante da presena de Deus. Ela costumava entrar em
transes de meditao to profundos que as outras religiosas no conseguiam sentir sua
pulsao. Implorava a suas companheiras para no contarem a ningum o que haviam
presenciado, j que aquilo era "uma coisa muito extraordinria, e que poderia dar origem
a boatos considerveis." (Sem falar em um possvel encontro com a Inquisio.) O
desafio mais difcil, escreveu a santa em suas memrias, era no despertar o intelecto
durante a meditao, pois quaisquer pensamentos da mente - mesmo as mais fervorosas
preces - extinguem o fogo de Deus. Quando a mente irrequieta "comea a construir
discursos e sonhar argumentos, especialmente quando estes so astutos, ela logo ir
imaginar que est fazendo um trabalho importante." Mas, se voc conseguir superar esses
pensamentos, explicava Teresa, e acender rumo a Deus, " um assombro glorioso, uma
loucura celestial, onde a verdadeira sabedoria  adquirida". Lembrando sem saber os
poemas do mstico sufista persa Hafiz, que perguntava por que, com um Deus que ama
com tamanho abandono, no somos todos bbados descontrolados, Teresa exclamava em
sua biografia que, se essas experincias divinas fossem apenas loucura, ento "eu lhe
suplico, Pai, permita que sejamos todos loucos!".
Depois disso, nas frases seguintes de seu livro,  como se ela tomasse flego. Ao ler
Santa Teresa hoje,  quase possvel senti-la saindo dessa experincia delirante, e em
seguida olhando em volta para o ambiente poltico da Espanha medieval (onde ela viveu
sob uma das mais opressivas tiranias religiosas da histria) e, com sobriedade e senso de
dever, pedir desculpas por seu arrebatamento. Ela escreve: "Perdoem-me se me
comportei de forma demasiado ousada", e repete que todos os seus clamores idiotas
deveriam ser ignorados, porque, evidentemente, ela no passa de uma mulher, um verme,
uma escria desprezvel etc. E quase possvel v-la alisar o hbito de freira para tornar a
coloc-lo no lugar, e prender os ltimos fios soltos dos cabelos -- enquanto seu segredo
divino permanece uma fogueira flamejante e oculta.
Na tradio iogue indiana, esse segredo divino se chama kundalini shak-ti, e  retratado
como uma cobra que jaz enrolada na base da coluna at ser libertada pelo toque de um
mestre ou por um milagre, ento subindo pelos sete chacras ou rodas (que tambm se
pode chamar "as sete manses da alma"), e finalmente saindo pela cabea, explodindo na
unio com Deus. Esses chacras segundo os iogues, no existem no corpo fsico, ento no
adianta procura- os ; eles s existem no corpo sutil, no corpo ao qual os professores de
budismo esto se referindo quando incentivam seus alunos a retirar de dentro de sua
bainha. Meu amigo Bob, que  ao mesmo tempo estudante de ioga e neurocientista, me
disse que sempre ficou mexido com essa idia dos chacras, que sempre quis v-los de
verdade, em um corpo humano dissecado, para acreditar que existiam. No entanto, depois
de uma experincia de meditao particularmente transcendente, ele acabou adquirindo
uma compreenso do que so os chacras. Ele disse:
- Assim como existe na escrita uma verdade literal e uma verdade potica, tambm no ser
humano existe uma anatomia literal e uma anatomia potica. Uma delas voc pode ver; a
outra, no. Uma  feita de ossos, dentes e carne; a outra  feita de energia, memria e f.
Mas ambas so igualmente verdadeiras.
 como quando a cincia e a devoo tm pontos de interseo. Descobri recentemente
um artigo no New York Times sobre uma equipe de neurologistas que havia colocado
eletrodos em um monge tibetano durante uma experincia voluntria de scanner cerebral.
Eles queriam ver o que acontece com uma mente transcendente, cientificamente falando,
durante momentos de iluminao. Quando uma pessoa normal pensa, sua mente 
constantemente percorrida pelos rodamoinhos dos pensamentos e impulsos, como uma
tempestade eltrica, que so registrados no scanner cerebral como lampejos amarelos e
vermelhos. Quanto mais zangada ou exaltada a pessoa fica, mais intensos e profundos so
esses lampejos vermelhos, Mas os msticos, independentemente de sua poca ou cultura,
mencionam uma imobilidade do crebro durante a meditao, e dizem que a derradeira
unio com Deus  uma luz azul que eles podem sentir irradiando a partir do centro de
seus crnios. Na tradio iogue, isso se chama "a prola azul", e o objetivo de todo
discpulo  encontr-la. De fato, durante a meditao monitorada, o monge tibetano foi
capaz de tranqilizar sua mente de forma to completa que nenhum lampejo vermelho ou
amarelo pde ser visto. Na verdade, toda a energia neurolgica desse cavalheiro juntou-se
e reuniu-se, por fim, no centro de seu crebro - foi possvel ver isso acontecer bem ali, no
monitor -, formando uma pequena prola de luz fria e azul. Exatamente como os iogues
sempre descreveram.
 esse o objetivo da kundalini shakti.
Na ndia mstica, como em muitas tradies xamnicas, a kundalini shakti  considerada
uma fora perigosa de se brincar sem superviso; o iogue inexperiente poderia
literalmente destruir sua mente com ela. Voc precisa de um professor - um Guru - para
gui-lo nesse caminho, e idealmente de um lugar seguro - um ashram - onde praticar.
Dizem que  o toque do Guru (seja seu toque literal, em pessoa, ou por meio de um
encontro mais sobrenatural, como um sonho) que liberta a energia kundalini enrascada na
base da coluna, e permite que voc comece sua viagem rumo a Deus. Esse momento de
liberao  chamado de shaktipat, iniciao divina, e  o maior presente que um mestre
iluminado pode lhe dar. Depois desse toque, um discpulo ainda pode passar anos se
esforando para encontrar a iluminao, mas pelo menos a viagem comeou. A energia
foi libertada.
Recebi a iniciao shaktipat dois anos atrs, quando encontrei minha Guru pela primeira
vez, em Nova York. Foi durante um retiro de fim de semana em seu ashram montanhas
Catskills. Para ser honesta, no senti nada de especial depois. Eu acho que esperava um
encontro esfuziante com Deus talvez algum relmpago azul ou uma viso proftica, mas
vasculhei meu corpo  procura de efeitos especiais e senti apenas um pouco de fome,
corno de hbito. Lembro-me de pensar que eu provavelmente no tinha f suficiente para
vivenciar algo de realmente intenso como a liberao da kundalini shakti. Lembro-me de
pensar que eu era racional demais, no era intuitiva o suficiente, e que o meu caminho da
devoo provavelmente seria mais intelectual do que esotrico. Eu rezaria, leria livros,
teria pensamentos interessantes, mas provavelmente jamais alcanaria o tipo de xtase
meditativo divino descrito por Santa Teresa. Mas tudo bem. Mesmo assim, eu adorava a
prtica de devoo. S que a kundalini shakti no era para mim.
No dia seguinte, porm, aconteceu uma coisa interessante. Estvamos todos novamente
reunidos com a Guru. Ela nos conduziu  meditao e, no meio de tudo, adormeci (ou
qualquer que fosse aquele estado) e tive um sonho. Nesse sonho, eu estava em uma praia,
perto do mar. As ondas eram imensas e aterrorizantes, e cresciam rapidamente. De
repente, um homem surgiu ao meu lado. Era o mestre da minha Guru -- um grande iogue
carismtico a quem vou me referir aqui apenas como "Swamiji" (que, em snscrito, quer
dizer "monge adorado"). Swamiji havia morrido em 1982. Eu s o conhecia por causa das
fotografias espalhadas pelo ashram. Mesmo nessas fotos - preciso confessar -, sempre
achei o cara um pouco assustador demais, um pouco poderoso demais, um pouco ardente
demais para o meu gosto. J havia algum tempo que eu evitava pensar nele e, de modo
geral, evitava seu olhar que pairava sobre mim vindo das paredes. Ele parecia
massacrante. No era o meu tipo de Guru. Sempre preferi minha mestre viva, bonita,
compassiva e feminina quele personagem falecido (mas ainda cheio de energia).
Agora , porm, ali estava Swamiji no meu sonho, em p ao meu lado na praia, em todo
seu poderio. Fiquei aterrorizada. Ele apontou para as ondas que se aproximavam e disse,
grave: "Quero que voc descubra uma forma de impedir isso de acontecer." Em pnico,
saquei um bloquinho de anotaes e tentei desenhar inventos que pudessem impedir as
ondas do mar de avanar. Desenhei imensos muros para conter o mar, canais, represas.
Mas todos os meus desenhos eram estpidos e inteis. Eu sabia que aquilo estava alm
das minhas capacidades (eu no sou engenheira!), mas podia sentir Swamiji a me
observar, impaciente e julgador. Por fim, desisti. Nenhuma das minhas invenes era
inteligente ou forte o bastante para impedir aquelas ondas de estourarem.
Foi ento que ouvi Swamiji rir. Ergui os olhos para aquele indiano mirrando, com suas
vestes cor de laranja, e ele estava literalmente estourando de tanto dar risada, curvado
para a frente em um frouxo de riso, enxugando lgrimas de gargalhada dos olhos.
- Diga-me, querida - falou ele, e apontou para o oceano colossal, poderoso, infinito,
balouante. - Diga-me, se tem a bondade, como exatamente voc estava planejando deter
isso?

47

Por duas noites seguidas, eu havia sonhado que uma cobra entrava no meu quarto. J li
que isso  espiritualmente auspicioso (e no apenas nas religies orientais; Santo Incio
teve vises de serpentes durante todas as suas experincias msticas), o que, no entanto,
no torna as cobras menos reais nem menos assustadoras. Tenho acordado suando. Pior
ainda, depois que acordo, minha mente tem se descontrolado de novo, traindo-me e
levando-me a um estado de pnico que eu no sentia desde o pior perodo dos meus anos
de divrcio. Meus pensamentos voltam sem parar a meu casamento falido, e toda a
vergonha e a raiva que acompanharam esse acontecimento. Pior ainda, voltei a pensar em
David. Em minha mente, discuto com ele, zangada e sentindo-me sozinha, e lembro-me
de cada coisa que ele disse ou fez para me magoar. Alm disso, no consigo parar de
pensar em nossa felicidade juntos, no delrio emocionante de quando as coisas iam bem.
 o mximo que posso fazer para no pular da cama e ligar para ele da ndia, no meio da
noite, e simplesmente - no sei bem o qu - simplesmente desligar na cara dele, imagino.
Ou implorar-lhe para que volte a me amar. Ou desfiar para ele uma lista acusadora de
todas as suas falhas de carter.
Por que tudo isso est voltando  tona agora?
Eu sei o que eles diriam, aqueles que esto nisso h mais tempo. Diriam que isso 
perfeitamente normal, que todo mundo passa por isso, que a meditao intensa traz tudo
 tona, que voc s est exorcizando o que sobrou dos seus demnios... mas, mesmo
assim, meu estado de fragilidade emocional  tamanho que no consigo suportar, e no
quero escutar nenhuma teoria hippie de ningum. Estou vendo que tudo est vindo 
tona, muito obrigada. Est tudo vindo  tona como se fosse vmito.
De alguma forma, consigo voltar a dormir, por sorte, e tenho outro sonho. Dessa vez no
h cobras, mas um cachorro magro, mau, que me persegue e diz: "Eu vou te matar. Eu
vou te matar e te comer!"
Acordo chorando e tremendo. No quero incomodar minhas companheiras de quarto,
ento vou me esconder no banheiro. O banheiro, sempre o banheiro! Que Deus me ajude,
mas aqui estou eu novamente dentro de um banheiro, novamente no meio da noite,
desabada no cho, aos prantos e sozinha. Ah, mundo frio - estou to cansada de voc e de
seus horrveis banheiros.
Quando o choro no pra, vou pegar um bloquinho de anotaes e uma caneta (o ltimo
refgio dos covardes), e torno a me sentar ao lado da privada. Abro em uma pgina em
branco e rabisco minha j conhecida splica desesperada:
"PRECISO DA SUA AJUDA."
E ento vem uma longa expirao de alvio quando, em minha prpria caligrafia, minha
amiga fiel (quem ser ela?) comea fielmente a me salvar:
"Estou bem aqui. Est tudo bem. Eu te amo. Eu nunca vou abandonar voc..

48

A meditao da manh seguinte  um desastre. Desesperada, imploro  minha mente
para, por favor, se afastar e me deixar encontrar Deus, mas minha mente s faz me olhar
com seu poder frio e dizer: "Eu nunca vou deixar voc se libertar de mim."
Durante esse dia inteiro, na verdade, fico to ressentida e zangada que temo pela vida de
qualquer pessoa que cruze o meu caminho. Dou um fora em uma pobre alem porque ela
no fala bem ingls, e no consegue entender quando lhe digo onde fica a livraria. Fico
com tanta vergonha da minha raiva que vou me esconder em um banheiro (mais um!)
para chorar, e em seguida fico morrendo de raiva de mim mesma por ter chorado, porque
me lembro do conselho da minha Guru para no desmoronar o tempo todo ou ento isso
se torna um hbito... mas o que ela sabe sobre isso? Ela  iluminada. Ela no pode me
ajudar. Ela no me entende.
No quero que ningum converse comigo. No consigo suportar ver o rosto de ningum
neste momento. Consigo at me desvencilhar de Richard do Texas durante algum tempo,
mas ele acaba me encontrando no jantar e, homem corajoso, senta-se bem no meio da
fumaa preta do meu dio por mim mesma.
- O que voc tem que est toda ensimesmada? - pergunta ele com seu sotaque arrastado,
com um palito na boca, como de hbito.
- No pergunte - respondo, mas em seguida comeo a falar e lhe conto tudinho,
concluindo com: - E o pior de tudo  que no consigo deixar de pensar obsessivamente no
David. Pensei que tivesse esquecido ele, mas est tudo voltando.
- Espere mais seis meses, vai se sentir melhor - diz ele.
- Eu j esperei 12 meses, Richard.
- Ento espere mais seis. V somando mais seis meses at esquecer. Essas coisas levam
tempo.
Solto o ar pelo nariz com fora, como um touro.
- Escute aqui, Sacolo -- diz Richard. -- Algum dia voc vai olhar para trs, para este
momento da sua vida, e pensar que poca deliciosa de luto ele foi. Vai ver que estava
lamentando a sua perda, e que o seu corao estava despedaado, mas que a sua vida
estava mudando, e que voc estava no melhor lugar possvel do mundo para fazer isso:
em um lindo lugar de adorao, cercada de graa. Aproveite esse tempo, aproveite cada
minuto. Deixe as coisas se resolverem aqui na ndia.
- Mas eu amava ele de verdade.
- Grande coisa. Voc se apaixonou por uma pessoa, e da? No entende o que aconteceu?
Esse cara tocou um lugar do seu corao mais profundo do que voc pensava que era
capaz de alcanar. Em outras palavras, voc foi fisgada, menina. Mas esse amor que voc
sentiu foi s o comeo. Isso  s o amor mortal, limitado, caf com leite. Espere para ver
como voc  capaz de amar mais profundamente do que isso. Nossa, Sacolo... voc tem
a capacidade de um dia amar o mundo inteiro.  o seu destino. No ria.
- No estou rindo. - Na verdade, eu estava chorando. - E, por favor, no v voc rir de
mim agora, mas acho que o motivo pelo qual  to difcil para mim esquecer esse cara 
que eu realmente achava que o David fosse a minha alma gmea.
- Provavelmente era. O problema  que voc no entende o que essa expresso significa.
As pessoas acham que a alma gmea  o encaixe perfeito, e  isso que todo mundo quer.
Mas a verdadeira alma gmea  um espelho, a pessoa que mostra tudo que est prendendo
voc, a pessoa que chama a sua ateno para voc mesmo para que voc possa mudar a
sua vida. Uma verdadeira alma gmea  provavelmente a pessoa mais importante que
voc vai conhecer, porque elas derrubam as suas paredes e te acordam com um tapa. Mas
viver com uma alma gmea para sempre? No. Di demais. As almas gmeas s entram
na sua vida para revelar a voc uma outra camada de voc mesmo, e depois vo embora.
Acabou, Sacolo. A misso do David era acordar voc, tirar voc daquele casamento do
qual voc precisava sair, destroar um pouquinho o seu ego, mostrar para voc os seus
obstculos e vcios, despedaar o seu corao para uma nova luz poder entrar, deixar
voc to desesperada e fora de controle que voc fosse obrigada a transformar a sua vida,
e depois apresentar voc  sua mestra espiritual e sair fora. Essa era a funo dele, e ele
foi timo, mas agora acabou. O problema  que voc no consegue aceitar isso, que esse
relacionamento tinha um prazo de validade bem curto. Voc parece um cachorro
cheirando lixo, baby... fica lambendo uma lata vazia, tentando tirar mais comida l de
dentro. E, se voc no tomar cuidado, essa lata vai ficar presa no seu focinho para sempre
e tornar sua vida infeliz. Ento largue isso.
- Mas eu amo ele.
- Ento ame ele.
- Mas eu sinto saudade dele.
- Ento sinta saudade. Mande um pouco de amor e de luz sempre que pensar nele, depois
esquea. Voc s est com medo de largar os ltimos pedacinhos do David porque a vai
estar sozinha de verdade, e Liz Gilbert morre de medo do que vai acontecer se ficar
realmente sozinha. Mas o que voc precisa entender  o seguinte, Sacolo. Se voc
liberar todo esse espao na sua mente que est usando agora na sua obsesso por esse
cara, vai descobrir um vazio ali, um espao aberto... uma entrada. E adivinhe o que o
universo vai fazer com essa entrada? Ele vai entrar... Deus vai entrar... e vai encher voc
com mais amor do que voc jamais sonhou. Ento pare de usar o David para fechar essa
porta. Esquea isso.
- Mas eu queria que eu e o David...
Ele me interrompe.
- Est vendo,  esse o seu problema. Voc quer coisas demais, baby. Parece uma galinha
tentando quebrar o prprio ossinho da sorte.
Essa frase me arranca a primeira risada do dia.
Ento pergunto a Richard:
- Ento, quanto tempo este luto vai demorar a passar?
- Voc quer saber a data exata?
-.
- Uma data que voc possa marcar no seu calendrio?
-.
- Deixe eu te dizer uma coisa, Sacolo... voc precisa parar com essa mania de querer
controlar tudo.
Ao ouvir isso, minha raiva me consome como um fogo. Mania de querer controlar tudo?
EU? Penso at em dar um tapa em Richard por causa desse insulto. E ento, bem l do
fundo da intensidade da minha indignao ofendida, vem a verdade. A verdade imediata,
evidente, risvel.
Ele tem toda razo.
O fogo sai de mim to depressa quanto entrou.
- Voc tem toda razo -- digo.
- Eu sei que tenho razo, baby. Escute, voc  uma mulher poderosa e est acostumada a
conseguir o que quer da vida, e no conseguiu o que queria da vida nos seus ltimos
relacionamentos, e isso te deixou toda travada. O seu marido no se comportou como
voc queria que ele se comportasse, e o David tambm no. Dessa vez, a vida no fez o
que voc queria. E nada deixa uma controladora mais puta da vida do que a vida no
fazer o que ela quer.
- Por favor, no me chame de controladora.
- Mas voc  controladora, Sacolo. Fale a verdade. Ningum nunca disse isso para voc
antes?
(Bom... j. Mas, quando voc se divorcia de uma pessoa, depois de algum tempo pra de
escutar as coisas ruins que ela diz a seu respeito.)
Ento tomo coragem e digo:
- Tudo bem, acho que provavelmente voc tem razo. Talvez eu tenha mesmo mania de
querer controlar tudo. S acho estranho voc ter reparado. Porque eu no acho que isso
seja bvio para quem v de fora. Quero dizer... Aposto que a maioria das pessoas no
consegue ver esse meu problema na primeira vez em que olha para mim.
Richard do Texas ri tanto que quase deixa cair o palito da boca.
- No consegue ver? Benzinho... O Ray Charles conseguiria ver a sua mania de querer
controlar tudo!
-Tudo bem, acho que para mim chega deste papo, obrigada.
- Voc precisa aprender a se soltar, Sacolo. Seno vai ficar doente. Nunca mais vai
conseguir ter uma boa noite de sono. Vai passar a vida inteira rolando de um lado para o
outro, se culpando por ter sido tamanho fiasco na vida. Qual  o meu problema? Como 
possvel eu estragar todos os meus relacionamentos? Por que eu sou um fracasso to
total? Deixe eu adivinhar... foi provavelmente isso que voc passou horas acordada
fazendo ontem  noite, de novo.
-T bom, Richard, chega - digo. - No quero mais voc escararunchando a minha mente.
- Ento feche a porta - diz meu grande iogue do Texas.

49

Eu tinha 9 anos, quase 10, quando passei por uma verdadeira crise metafsica. Talvez
essa parea uma idade tenra para algo assim, mas sempre fui uma criana precoce. Tudo
aconteceu durante o vero entre a terceira e a quarta sries. Eu faria 10 anos em julho, e
alguma coisa na transio dos 9 para os 10 - de um dgito para dois dgitos - me fez entrar
em um verdadeiro pnico existencial, geralmente reservado para pessoas que fazem 50
anos. Lembro-me de pensar que a vida estava passando muito depressa. Parecia que, na
vspera, eu ainda estava no jardim-de-infncia, e ali estava eu agora, prestes a completar
10 anos. Eu logo seria uma adolescente, em seguida uma mulher de meia-idade, em
seguida uma idosa e depois iria morrer. E todas as outras pessoas tambm estavam
envelhecendo em velocidade acelerada. Todo mundo morreria dali a pouco tempo. Meus
pais morreriam. Meus amigos morreriam. Meu gato morreria. Minha irm mais velha j
estava quase no ensino mdio; eu parecia capaz de me lembrar dela entrando no C.A.
segundos antes, com suas meinhas trs-quartos, e agora ela estava no ensino mdio? Era
evidente que no demoraria muito para ela morrer. Qual era o sentido daquilo tudo?
O mais estranho dessa crise foi que ela no havia sido provocada por nada em especial.
Nenhum amigo nem parente havia morrido, fazendo-me sentir pela primeira vez o gosto
da mortalidade, nem tampouco eu lera ou vira nada de especfico sobre a morte; sequer
havia lido A Teia de Charlotte ainda- Esse pnico que eu estava sentindo aos 10 anos no
era nada menos do que uma conscincia espontnea e total da inevitvel marcha da
mortalidade, e eu no tinha nenhum vocabulrio espiritual para me ajudar a lidar com ela.
ramos protestantes e, ainda por cima, no-praticantes. S agradecamos antes da ceia de
Natal e do dia de Ao de Graas, e freqentvamos a igreja esporadicamente. Meu pai
preferia passar as manhs de domingo em casa, e sua prtica de devoo consistia em
cuidar da fazenda. Eu cantava no coral porque gostava de cantar; minha bonita irm era o
anjo da procisso de Natal. Minha me usava a igreja como quartel-general para
organizar trabalhos beneficentes voluntrios para a comunidade. Porm, mesmo naquela
igreja, no me lembro de as pessoas falarem muito em Deus. Afinal de contas, aquilo era
a Nova Inglaterra, e a palavra Deus costuma deixar os ianques nervosos.
Minha sensao de impotncia era acachapante. O que eu queria fazer era puxar algum
gigantesco freio de emergncia do universo, como os freios que eu vira no metr em
nossa excurso escolar para Nova York. Queria pedir um tempo, pedir para todo mundo
PARAR at eu conseguir entender tudo. Imagino que essa nsia de forar o universo
inteiro a deter sua marcha at eu conseguir me acalmar tenha sido o incio daquilo que
meu querido amigo Richard do Texas chama de minha "mania de querer controlar tudo".
Minhas tentativas e minha preocupao,  claro, foram fteis. Quanto mais eu prestava
ateno no tempo, mais depressa ele corria, e aquele vero passou to rpido que me deu
dor de cabea e ao final de cada dia lembro-me de pensar: "L se vai mais um", e desatar
a chorar.
Tenho um amigo do ensino mdio que hoje trabalha com deficientes mentais, e ele diz
que os pacientes autistas tm uma conscincia particularmente dolorosa de se ver em
relao  passagem do tempo, como se nunca houvessem desenvolvido o filtro mental
que permite ao restante de ns se esquecer da mortalidade de vez em quando e
simplesmente viver. Um dos pacientes de Rob sempre lhe pergunta a data no incio de
cada dia e, quando o dia termina, ele pergunta: "Bob, quando  que vai ser dia 4 de
fevereiro de novo?" E, antes de Rob conseguir responder, o cara sacode a cabea de
tristeza e diz: Eu sei, eu sei, deixe para l... s no ano que vem, no ?"
Conheo muito bem essa sensao. Conheo o triste desejo de ser capaz de retardar o
final de mais um dia 4 de fevereiro. Essa tristeza  um dos grandes desafios da
experincia humana. At onde sabemos, somos a nica espcie do planeta a quem foi
dado o presente - ou talvez a maldio - de ter conscincia de nossa prpria mortalidade.
Tudo sobre a Terra um dia morre; ns simplesmente somos os sortudos capazes de pensar
nesse fato todos os dias. Como voc vai lidar com essa informao? Quando eu tinha 9
anos, no conseguia fazer nada a no ser chorar. Mais tarde, com o passar dos anos,
minha conscincia subdesenvolvida da velocidade do tempo levou-me a me forar a viver
em ritmo mximo. J que eu teria uma estada to curta assim na Terra, precisava fazer
tudo que fosse possvel para vivenci-la agora. Da todas as viagens, todas as histrias de
amor, toda a ambio, todo o macarro. Minha irm tinha uma amiga que costumava
pensar que Catherine tinha duas ou trs irms caulas, porque estava sempre ouvindo
histrias sobre a irm que estava na frica, a irm que estava trabalhando em um rancho
no Wyoming, a irm que era barwoman em Nova York, a irm que estava escrevendo um
livro, a irm que ia se casar - certamente no podiam ser todas a mesma pessoa. De fato,
se eu pudesse ter me dividido em vrias Liz Gilberts, teria feito isso de bom grado, de
modo a no perder um s instante da vida. O que estou dizendo? Eu de fato me dividi em
vrias Liz Gilberts, e todas elas, certa noite, desabaram simultaneamente de exausto no
cho de um banheiro de subrbio, por volta da idade de 30 anos.
Eu deveria dizer aqui que sei que nem todo mundo passa por esse tipo de crise metafsica.
Alguns de ns so programados para ficarem ansiosos em relao  mortalidade,
enquanto outros simplesmente parecem encarar o assunto todo com mais naturalidade.
Voc conhece um monte de pessoas apticas neste mundo,  claro, mas tambm conhece
outras capazes de aceitar com elegncia a forma como o universo funciona, e que
realmente parecem no se importar com seus paradoxos e injustias. Tenho um amigo
cuja av costumava me dizer: "No h nenhum problema to srio neste mundo que no
possa ser curado com um banho quente, um copo de usque e um livro de preces." Para
algumas pessoas, isso  mesmo verdade. Para outras,  preciso tomar medidas mais
drsticas.
E agora vou falar sobre o meu amigo irlands criador de gado leiteiro -  primeira vista,
algum altamente improvvel de se encontrar em um ashram indiano. Mas Sean  uma
daquelas pessoas que, assim como eu, nasceram com aquela ansiedade, com aquele af
louco e incansvel de entender como funciona a existncia. Sua pequena parquia de
County Cork no parecia ter nenhuma dessas respostas, ento ele deixou a fazenda nos
anos 1980 para viajar pela ndia  procura da paz interior por meio do ioga. Alguns anos
depois, voltou para casa, para sua fazenda de gado leiteiro na Irlanda. Estava sentado na
cozinha da antiga sede de pedra junto com seu pai - que fora fazendeiro a vida toda e era
um homem de poucas palavras -, e Sean estava lhe contando tudo sobre suas descobertas
espirituais no extico Oriente. O pai de Sean escutava com interesse moderado,
observando o fogo na lareira, fumando seu cachimbo. No falou nada at Sean dizer:
"Pai... essa histria de meditao  fundamental para ensinar a serenidade. Isso pode
realmente salvar a sua vida. Ensina voc a aquietar a mente."
Seu pai virou-se para ele e disse, gentil: "Eu j tenho a mente aquietada, meu filho", e em
seguida voltou a fitar o fogo.
Mas eu no tenho. Nem Sean. Muitos de ns no tm. Muitos de ns olham para o fogo e
vem apenas o inferno. Preciso muito aprender a fazer o que o pai de Sean parece ter
nascido sabendo fazer - aprender, como escreveu Walt Whitman certa vez, a "afastar-se
da azfama... bem-humorado, complacente, compassivo, ocioso, ntegro... ao mesmo
tempo dentro e fora do jogo, observando e questionando tudo". Em vez de ficar bem-
humorada, porm, fico apenas ansiosa. Em vez de observar, estou sempre testando e
interferindo. No outro dia, durante a prece, falei para Deus: "Olhe... eu entendo que uma
vida sem questionamento no vale a pena ser vivida, mas voc acha que algum dia vou
poder almoar sem questionamentos?"
A tradio budista tem uma histria sobre os momentos que se seguiram  transcendncia
de Buda rumo  iluminao. Quando - depois de 39 dias meditando -- o vu da iluso
finalmente foi retirado, e o verdadeiro funcionamento do universo foi revelado ao grande
mestre, dizem que ele abriu os olhos e disse, no mesmo instante: "Isso no pode ser
ensinado." Em seguida, porm, mudou de idia, e decidiu que sairia pelo mundo, sim, e
tentaria ensinar a prtica da meditao a um pequeno grupo de discpulos. Ele sabia que
seus ensinamentos s poderiam ajudar (e interessar) a uma nfima porcentagem de
pessoas. A maior parte da humanidade, disse ele, tem os olhos to fechados pela poeira
da iluso que jamais ver a verdade, por mais que se tente ajud-la. Alguns outros (como
o pai de Sean, talvez) tm os olhos j to naturalmente claros, e so to tranqilos, que
no precisam de nenhum tipo de instruo ou ajuda. Mas existem tambm aqueles cujos
olhos esto s ligeiramente fechados pela poeira e que, com a ajuda do mestre certo,
poderiam aprender um dia a ver com mais clareza. O Buda decidiu que se tornaria o
professor dessa minoria - "aqueles com pouca poeira".
Espero sinceramente que eu seja uma dessas pessoas que tm uma quantidade mediana de
poeira na frente dos olhos, mas no sei. Tudo que sei  que fui levada a encontrar a paz
interior por mtodos que podem parecer um pouco drsticos para a populao em geral.
(Por exemplo, quando contei a um amigo de Nova York que ia para a ndia morar em um
ashram e buscar a divindade, ele suspirou e disse: "Ah, tem uma parte de mim que queria
tanto que eu quisesse fazer isso... mas eu realmente no sinto a menor vontade.") Mas
no sei se tenho muita escolha. Procurei freneticamente o contentamento durante tantos
anos, de tantas maneiras, e todas essas aquisies e realizaes - elas no fim acabam com
a sua energia. Se voc correr atrs da vida com sofreguido demais, ela leva  morte. O
tempo - quando perseguido como um bandido - se comporta como um bandido; est
sempre uma fronteira ou uma sala na sua frente, mudando de nome e de cor de cabelo
para enganar voc, saindo pela porta dos fundos do hotel no mesmo instante em que voc
chega ao lobby com seu mais recente mandado de busca, deixando apenas um cigarro
aceso no cinzeiro como provocao. Em determinado momento, voc precisa parar,
porque ele no vai parar. Voc precisa reconhecer que no vai peg-lo. Que a idia no 
peg-lo. Em determinado momento, como Richard no pra de me repetir, voc precisa
relaxar, ficar sentado e deixar o contentamento vir at voc.
Relaxar, obviamente,  uma empreitada assustadora para aqueles de ns que acreditam
que o mundo s gira porque tem uma alavanca em cima que ns mesmos giramos e que,
se largssemos essa alavanca por um instante que fosse, bem -- seria o fim do universo.
Mas tente largar, Sacolo. Essa  a mensagem que estou recebendo. Fique sentada bem
quietinha agora e ponha um fim  sua participao incessante. Veja o que acontece. No
final das contas, os pssaros no despencam mortos do cu no meio do vo. As rvores
no murcham nem morrem, os rios no se enchem de sangue rubro. A vida continua. At
mesmo o servio de correio italiano prossegue na sua marcha trpega, tocando sua vida
sem voc -- o que lhe d tanta certeza de que o seu microgerenciamento de cada instante
deste mundo  to essencial? Por que voc no esquece isso?
Ouo essa argumentao e ela me atrai. Intelectualmente, acredito nela. Acredito mesmo.
Mas, em seguida, eu me pergunto - com todo meu af incansvel, com todo meu fervor
exaltado e com toda essa minha natureza estupidamente faminta: o que devo fazer com
minha energia, ento?
A resposta tambm chega:
Procure Deus, sugere minha Guru. Procure Deus corno um homem com a cabea em
chamas procura por gua.

50

Na manh seguinte, durante a meditao, todos os meus antigos pensamentos de dio
voltam  tona. Estou comeando a pensar neles como irritantes operadores de
telemarketing, sempre telefonando nos momentos mais inoportunos. O que fico alarmada
ao descobrir na meditao  que minha mente, no final das contas, no  um lugar to
interessante assim. Na verdade, s penso em poucas coisas, e penso nelas
constantemente. Acho que a palavra certa para descrever isso  "obsesso". Penso
obsessivamente sobre o meu divrcio, e sobre toda a dor do meu casamento, e sobre os
erros que cometi, e sobre todos os erros que o meu marido cometeu, e ento (e no h
como fugir desse assunto sombrio) comeo a pensar obsessivamente em David...
O que, para ser sincera, est comeando a ficar embaraoso. Quero dizer - aqui estou eu,
neste lugar sagrado de estudo no meio da ndia, e tudo em que consigo pensar  no meu
ex-namorado? Em que srie eu estou, stima?
E ento me lembro de uma histria que minha amiga Deborah, a psicloga, me contou
certa vez. Durante os anos 1980, a cidade da Filadlfia perguntou-lhe se ela poderia ser
voluntria para ministrar aconselhamento psicolgico a um grupo de refugiados do
Camboja - os chamados boat people- recm-chegados  cidade. Deborah  uma psicloga
excepcional, mas ficou terrivelmente intimidada por essa tarefa. Aqueles cambojanos
haviam sofrido o pior que os seres humanos so capazes de infligir a outros seres
humanos - genocdio, estupro, tortura, fome, assassinato de parentes diante de seus olhos,
tudo isso seguido por longos anos em campos de refugiados e perigosas viagens de navio
para o Ocidente, durante as quais pessoas morriam e cadveres eram lanados aos
tubares -, ento que tipo de ajuda Deborah poderia oferecer a essas pessoas? Como era
possvel para ela entender a extenso do seu sofrimento?
- Mas voc sabe sobre o que essa gente toda queria falar quando conseguia encontrar
psiclogos? - perguntou-me Deborah.
Era s: Conheci um cara, quando estava morando no campo de refugiados, e a gente se
apaixonou. Achei que ele me amasse de verdade, mas depois a gente foi separado em
navios diferentes e ele ficou com a minha prima. Agora est casado com ela, mas diz que
me ama de verdade, e fica me ligando o tempo todo, e sei que deveria dizer para ele ir
embora, mas ainda o amo e no consigo parar de pensar nele. E eu no sei o que fazer...
 assim que a gente . Coletivamente, como espcie,  essa a nossa paisagem emocional.
Certa vez, conheci uma velha senhora que tinha quase 100 anos de idade, e ela me disse:
"S existem dois assuntos pelos quais os seres humanos brigaram em toda a histria:
Quanto voc me ama? e Quem  o chefe?" Todo o resto , de alguma forma,
administrvel. Mas essas duas questes, o amor e o contro, so a perdio de todos ns,
fazem-nos tropear e provocam guerras, tristeza e sofrimento. E  com essas duas
questes, infelizmente (ou talvez obviamente), que estou lidando aqui neste ashram.
Quando estou sentada em meu silncio, fitando minha prpria mente, tudo que surge para
me deixar agitada so questes sobre saudade e controle, e  essa agitao que me impede
de evoluir.
Quando tentei, esta manh, depois de mais ou menos uma hora de pensamentos infelizes,
voltar a mergulhar em minha meditao, levei comigo uma idia nova: compaixo.
Perguntei a meu corao se ele poderia, por favor, insuflar minha alma com uma opinio
mais generosa em relao ao funcionamento da minha mente- Em vez de pensar que eu
era um fracasso, ser que eu poderia talvez aceitar que sou apenas um ser humano -- um
ser humano normal, inclusive? Os pensamentos vieram como de hbito - tudo bem, 
assim ento --, e em seguida as emoes que os acompanham tambm surgiram.
Comecei a me sentir frustrada e crtica em relao a mim mesma, solitria e zangada-
Mas ento uma violenta resposta surgiu de algum lugar nas profundezas mais remotas do
meu corao e eu disse a mim mesma: "Eu no vou julgar voc por esses pensamentos."
Minha mente tentou protestar dizendo: "T, mas voc  um fracasso to grande, voc 
uma intil to completa, nunca vai conseguir ser nada..."
De repente, porm, foi como se um leo rugisse de dentro do meu peito, sufocando toda
essa bobagem. Uma voz se ergueu dentro de mim, diferente de tudo que eu jamais havia
escutado antes. Era to interna e eternamente alta, que cheguei a apertar a mo em cima
da boca, porque tive medo de que, se abrisse a boca e deixasse aquele som sair, ele
sacudiria os alicerces dos prdios dali at Detroit.
E o que o rugido dizia era o seguinte:

VOC NO FAZ IDIA DE COMO  FORTE O MEU AMOR!!!!!!!!!

Os pensamentos insistentes e negativos da minha mente espalharam-se aos quatro ventos
diante dessa afirmao, como pssaros, lebres ou antlopes - saram correndo dali,
aterrorizados. Seguiu-se o silncio. Um silncio intenso, vibrante, admirado. O leo da
savana gigante do meu corao observou satisfeito seu reino recm-silenciado. Lambeu
as presas pontiagudas uma vez, fechou os olhos amarelos e voltou a dormir.
E ento, naquele silncio rgio, enfim comecei a meditar sobre (e com) Deus.

51

Richard do Texas tem alguns hbitos fofinhos. Sempre que passa por mim no ashram e
percebe, pela minha expresso distrada, que meus pensamentos esto a um milho de
quilmetros dali, ele pergunta:
- Como vai o David?
- Cuide da sua vida - respondo sempre. - Voc no sabe em que estou pensando, seu
moo.
Ele sempre tem razo,  claro.
Outro hbito que ele tem  me esperar quando saio da sala de meditao, porque gosta de
ver a minha cara de chapada e de exausta quando me arrasto l de dentro. Como se
tivesse acabado de lutar com jacars e fantasmas. Ele diz que nunca viu ningum brigar
tanto consigo mesmo. No sei se isso  verdade, mas  verdade que o que acontece
comigo naquela sala de meditao pode ser bastante intenso. As experincias mais
violentas acontecem quando me livro de alguma derradeira reserva temerosa e permito
que uma verdadeira turbina de energia se liberte e comece a subir por minha coluna. Hoje
eu rio por um dia ter desdenhado a idia da kundalini shakti, considerando-a um simples
mito. Quando essa energia me percorre, ela resfolega como um motor a diesel em marcha
lenta, e tudo que me pede  uma coisa simples - Ser que voc poderia, por favor, se
virar do avesso, para que seus pulmes, seu corao e suas entranhas fiquem do lado de
fora, e o universo inteiro fique do lado de dentro? E, emocionalmente, ser que poderia
fazer a mesma coisa? O tempo fica meio maluco nesse espao ruidoso, e sou levada -
anestesiada, atnita e sem ao - para todo tipo de mundo, e vivencio todas as
intensidades possveis das sensaes: fogo, frio, dio, desejo, medo... Quando tudo
termina, eu me levanto, trpega, e saio cambaleando rumo  luz do dia em um estado
lamentvel - esfaimada, morrendo de sede, mais excitada do que um marinheiro em uma
licena de trs dias em terra firme. Richard geralmente est ali me esperando, pronto para
comear a rir. Ao ver meu rosto confuso e exausto, ele sempre me provoca com a mesma
frase:
- Voc acha que algum dia vai valer alguma coisa, Sacolo?
Esta manh, no entanto, na meditao, depois de ter ouvido o leo rugir VOC NO
FAZ IDIA DE COMO  FORTE o MEU AMOR, sa da caverna de meditao
Parecendo uma rainha guerreira. Richard sequer teve tempo de perguntar se eu achava
que algum dia iria valer alguma coisa antes de eu o olhar nos olhos e dizer:
-- Eu j valho, seu moo.
-- Olhe s para ela -- falou Richard. -- Isso merece uma comemorao. Venha, garota...
vou te levar at a cidade e te pagar um Thumbs-Up.
Thumbs-Up  um refrigerante indiano, parecido com Coca-Cola, mas com mais ou menos
nove vezes a quantidade de xarope de milho e o triplo de cafena. Desconfio que tambm
contenha metanfetaminas. Ele me faz ver tudo dobrado. Algumas vezes por semana,
Richard e eu vamos  cidade e dividimos uma garrafa pequena de Thumbs-Up -- uma
experincia radical, depois da pureza da comida vegetariana do ashram --, tomando
sempre cuidado para no tocar a garrafa com a boca. A regra de Richard para viajar pela
ndia parece boa: "No toque em nada a no ser em si mesmo." (E, sim, tambm pensei
nessa frase como ttulo para este livro.)
Temos os nossos lugares preferidos na cidade, e paramos sempre para prestar nossa
homenagem ao templo, e para cumprimentar o sr. Panicar, o alfaiate, que aperta nossa
mo e diz: "Parabns em conhec-los!". Ficamos olhando as vacas perambularem de um
lado para o outro, aproveitando seu status sagrado (na verdade, acho que elas abusam
desse privilgio, e s ficam deitadas no meio da rua para que todo mundo veja bem o
quanto so sagradas), e vemos os ces se cocarem como se estivessem se perguntando
como diabos foram parar ali. Olhamos as mulheres consertando a estrada, quebrando
pedras debaixo do sol inclemente, brandindo marretas, descalas, parecendo
estranhamente lindas com seus sris de cores brilhantes e seus colares e pulseiras. Elas
nos lanam sorrisos radiosos que no consigo entender de jeito nenhum -- como podem
ser felizes fazendo esse trabalho rduo em condies to terrveis? Por que elas todas no
desmaiam e morrem depois de 15 minutos no calor trrido com essas marretas? Pergunto
isso ao sr. Panicar, e ele diz que com os aldees  assim, que as pessoas nesta parte do
mundo nasceram para esse tipo de trabalho pesado, e que tudo com que esto
acostumadas  trabalhar.
- Alm disso - acrescenta ele, casual --, a gente por aqui no vive muito.
 um vilarejo pobre,  claro, mas no pauprrimo pelos padres indianos; a presena (e a
caridade) do ashram e um pouco de dinheiro ocidental circulando fazem uma diferena
significativa. No que haja muita coisa para comprar ali, embora Richard e eu gostemos
de dar uma olhada em todas as lojas que vendem contas e estatuetazinhas. Alguns
homens da Cachemira  vendedores muito astutos, realmente  esto sempre tentando
nos vender suas mercadorias. Um deles chegou a vir atrs de mim hoje, perguntando se
madame, por acaso, gostaria de comprar um belo tapete de Cachemira para sua casa?
Isso fez Richard rir. Entre outros esportes, ele gosta de gozar da minha cara pelo fato de
eu no ter casa.
- Nem adianta tentar, irmo - disse ele ao vendedor de tapetes. - Esta moa aqui no tem
cho para colocar nenhum tapete.
Sem se deixar abater, o vendedor da Cachemira sugeriu:
- Ento madame gostaria, talvez, de pendurar um tapete na sua parede?
- Olhe - disse Richard -, o problema  justamente esse... ela tambm no tem muitas
paredes ultimamente.
- Mas tenho um corao valente! - exclamei em minha prpria defesa.
- E outras qualidades de valor - acrescentou Richard, fazendo-me um elogio por uma vez
na vida.

52

Na verdade, o maior de todos os obstculos em minha experincia no ashram no  a
meditao. Meditar  difcil,  claro, mas no  impossvel. Existe algo aqui que  ainda
mais difcil para mim. Impossvel  o que fazemos toda manh depois da meditao e
antes do caf-da-manh (meu Deus, como so compridas essas manhs) - um cntico
chamado Gurugita. Richard o chama de O Gita. Tenho uma dificuldade enorme com o
Gita. No gosto nem um pouco dele, nunca gostei, desde a primeira vez em que o ouvi
ser cantado no ashram no interior do estado de Nova York. Adoro todos os outros
cnticos e hinos desta tradio iogue, mas o Gurugita me parece longo, tedioso,
barulhento e insuportvel. Isso  s minha opinio,  claro; outras pessoas dizem que o
adoram, embora eu no consiga imaginar por qu.
O Gurugita tem 182 versos de comprimento, para serem gritados bem forte (e algumas
vezes eu grito mesmo), e cada um dos versos  um pargrafo em um snscrito
incompreensvel. Junto com o cntico do prembulo e com o coro final, o ritual todo leva
cerca de uma hora e meia para ser realizado. Isso tudo antes do caf-da-manh, lembrem-
se, e depois de j termos feito uma hora de meditao e de termos passado vinte minutos
cantando o primeiro hino da manh. O Gurugita  basicamente a razo pela qual se tem
de acordar s trs horas da manh aqui.
No gosto da melodia e no gosto das palavras. Sempre que digo isso a algum do
ashram, eles falam: "Ah, mas  to sagrado!" Sim, mas o Livro de J tambm  sagrado,
e nem por isso resolvo cant-lo em voz alta toda manh antes do caf.
O Gurugita, de fato, tem uma linhagem espiritual de respeito;  um trecho de uma antiga
escritura sagrada do ioga chamada Skanda Purana, a maior parte da qual foi perdida,
tendo apenas uma pequena parte sido traduzida do snscrito. Como a maioria das
escrituras iogues, est escrita sob a forma de uma conversa, um dilogo quase socrtico.
A conversa  entre a deusa Parvati e o poderoso, onipresente deus Shiva. Parvati e Shiva
so a personificao divina da criatividade (o feminino) e da conscincia (o masculino).
Ela  a energia geradora do universo; ele  sua sabedoria sem forma. O que quer que
Shiva imagine, Parvati traz  vida. Ele sonha; ela materializa. Sua dana, sua unio (seu
Ioga) , ao mesmo tempo, a causa do universo e sua manifestao.
No Gurugita, a deusa pede ao deus os segredos da realizao terrena, e ele lhe diz. Esse
hino me incomoda. Eu esperava que os meus sentimentos em relao ao Gurugita
mudassem durante minha estada no ashram. Esperava que inseri-lo em um contexto
indiano fosse me fazer aprender a gostar dele. Na verdade, o contrrio aconteceu. Durante
as poucas semanas desde que cheguei aqui, meus sentimentos em relao ao Gurugita
mudaram de uma simples implicncia para um desgosto declarado. Comecei a deixar de
comparecer e a dedicar minhas manhs a outras coisas que considero muito melhores
para o meu crescimento espiritual, como escrever no meu dirio, ou tomar uma
chuveirada, ou telefonar para minha irm l na Pensilvnia e perguntar como vo as
crianas.
Richard do Texas sempre me pega no flagra quando falto ao Gurugita. "Notei que voc
no estava no Gita hoje de manh", diz ele, e eu respondo: "Estou me comunicando com
Deus de outras formas", e ele diz: "Dormindo at mais tarde, voc quer dizer?"
Mas, quando tento comparecer ao cntico, tudo que ele consegue  me deixar agitada.
Fisicamente, quero dizer. No tenho a sensao de estar cantando, e sim de estar sendo
arrastada por ele. Ele me faz transpirar. Isso  muito estranho, porque tenho tendncia a
ser uma daquelas pessoas que est sempre com frio, e aqui nesta regio da ndia faz frio
em janeiro antes do amanhecer. Todas as outras pessoas ficam sentadas entoando o
cntico enroladas em mantas de l e usando chapus para se manterem aquecidas,
enquanto eu,  medida que o hino prossegue devagar, vou tirando uma camada de roupa
atrs da outra, espumando como um cavalo de fazenda que trabalhou demais. Saio do
templo depois do Gurugita, e o suor se ergue da minha pele ao ar frio da manh como
uma bruma - uma bruma horrvel, verde, malcheirosa A reao fsica  moderada, se
comparada s ondas quentes de emoo que me percorrem quando tento cantar o negcio.
E no consigo sequer cantar. S consigo grasnar. Ressentidamente.
Eu j disse que o hino tem 182 versos?
Assim, algumas semanas atrs, depois de uma sesso particularmente penosa do cntico,
decidi buscar conselho com meu professor preferido por aqui - um monge com um nome
em snscrito maravilhosamente comprido que pode ser traduzido como "Ele que Mora no
Corao do Senhor que Mora Dentro de Seu Prprio Corao". Esse monge  norte-
americano, tem sessenta e poucos anos,  inteligente e educado. Ele era professor de
teatro clssico na Universidade de Nova York, e sua postura ainda conserva uma
dignidade um tanto venervel. Ele fez seus votos monsticos quase trinta anos atrs.
Gosto dele porque vai direto ao assunto e  engraado. Em um momento sombrio de
confuso em relao a David, certa vez confidenciei minha tristeza a esse monge. Ele
escutou respeitosamente, ofereceu o conselho mais compassivo que foi capaz de
encontrar e em seguida falou:
- E agora vou beijar minhas vestes. -- Ergueu um cantinho de suas vestes cor de aafro
e deu um beijo estalado. Pensando que aquilo provavelmente era algum costume religioso
ultramisterioso, perguntei o que ele estava fazendo. Ele falou:
- A mesma coisa que sempre fao toda vez em que algum vem me pedir conselhos sobre
relacionamentos. S estou agradecendo a Deus por ser monge e no precisar mais me
preocupar com essas coisas.
Ento eu sabia que podia confiar nele para me deixar falar abertamente sobre meus
problemas com o Gurugita. Fomos dar um passeio juntos no jardim certa noite depois do
jantar, e eu lhe disse o quanto implicava com o cntico e perguntei-lhe se ele poderia, por
favor, me dispensar de ter que cant-lo. Ele comeou a rir no mesmo instante:
- Voc no precisa cantar se no quiser. Ningum aqui nunca vai obrigar voc a fazer
nada que no queira fazer.
- Mas as pessoas dizem que ele  uma prtica espiritual importante.
- E . Mas no vou te dizer que voc vai para o inferno se no cantar. A nica coisa que
vou te dizer  que a sua Guru foi muito clara em relao a isso: o Gurugita  o nico texto
essencial deste ioga, e talvez seja a prtica mais importante que voc pode fazer, junto 
meditao. Se voc est passando uma temporada no ashram, ela espera que voc acorde
para o cntico todo dia de manh.
- No  que eu me importe de acordar cedo de manh...
- O que  ento?
Expliquei ao monge por que eu passara a detestar o Gurugita e como ele me parecia
tortuoso.
- Nossa, olhe s para voc - disse ele. - S de falar nele voc j est se contorcendo toda.
Era verdade. Eu podia sentir um suor frio, pegajoso se acumular em minhas axilas.
- No posso usar esse tempo para outras prticas? - perguntei. - s vezes percebo que,
quando vou para a caverna de meditao durante o Gurugita, consigo uma vibrao boa
para meditar.
- Ah... Swamiji teria gritado com voc por causa disso. Teria chamado voc de ladra de
cntico por se aproveitar da energia do trabalho duro de todos os outros. Olhe, o Gurugita
no  para ser uma cano divertida de se cantar. Ele tem uma funo diferente.  um
texto com poderes incalculveis.  uma prtica poderosa e purificadora. Ele queima todo
o seu lixo, todas as suas emoes negativas. E eu acho que ele provavelmente est tendo
um efeito benfico sobre voc, se voc est sentindo emoes e reaes fsicas to fortes
enquanto canta. Esse tipo de coisa pode ser doloroso, mas  muito benfico.
- Como fao para continuar motivada e seguir cantando?
- Qual a alternativa? Desistir sempre que alguma coisa fica difcil? Passar a vida inteira
zoando, infeliz e incompleta?
- Voc acabou mesmo de dizer "zoando"?
- Acabei, sim.
- O que devo fazer?
- Voc precisa decidir sozinha. Mas o meu conselho, j que voc perguntou, e que insista
em cantar o Gurugita enquanto estiver aqui, especialmente por estar tendo uma reao to
extremada a ele. Se alguma coisa est te afetando tanto assim, pode ter certeza de que
est funcionando para voc.  isso que o Gurugita faz. Ele queima o ego, transforma voc
em cinza pura.  para ser difcil mesmo, Liz. Ele tem um poder alm do que pode ser
racionalmente compreendido. Voc s vai ficar no ashram mais uma semana, no ? E
depois est livre para viajar e se divertir. Ento s cante o Gurugita mais sete vezes, e
depois nunca mais precisa cantar. Lembre-se do que diz nossa Guru: seja a cientista da
sua prpria experincia espiritual. Voc no est aqui como turista nem como jornalista;
est aqui para buscar. Ento explore.
- Ento no vai me liberar?
- Voc pode liberar a si mesma na hora em que quiser, Liz. Esse  o contrato divino de
uma coisinha que a gente chama de livre-arbtrio.

53

Assim, compareci ao cntico na manh seguinte, toda decidida, e o Gurugita me chutou
por uma escadaria de vinte lances de degraus de cimento - ou, pelo menos, foi essa a
sensao que tive. O dia seguinte foi ainda pior. Acordei em fria e antes mesmo de
chegar ao templo j estava suando, fervendo, fumegando. No parava de pensar: " s
uma hora e meia... voc pode fazer qualquer coisa por uma hora e meia. Pelo amor de
Deus, voc tem amigas que ficaram em trabalho de parto durante 14 horas..." Mesmo
assim, eu no poderia ter me sentido menos  vontade naquela cadeira se houvesse sido
grampeada ao assento. No parava de sentir bolas de fogo de um calor digno da
menopausa pulsando sobre mim e pensei que pudesse desmaiar ou morder algum em
minha fria.
Minha raiva era gigante. Abarcava todas as pessoas deste mundo, mas era mais
especificamente dirigida a Swamiji - o mestre da Guru, que fora o primeiro a instituir
aquele cntico ritual do Gurugita. Esse no era meu primeiro encontro difcil com o
falecido iogue. Fora ele quem aparecera no meu sonho da praia, exigindo saber como eu
iria deter a mar, e eu sempre tinha a sensao de que ele estava por perto, pressionando-
me.
Durante a vida inteira, Swamiji havia sido incansvel, um revoltado espiritual. Como So
Francisco de Assis, Swamiji nascera em uma famlia rica e fora criado para herdar os
negcios da famlia. Porm, quando era apenas um menino, conheceu um homem santo
em um pequeno vilarejo prximo ao seu e foi profundamente afetado por essa
experincia. Ainda adolescente, Swamiji saiu de casa usando apenas um tapa-sexo e
passou anos em peregrinao a todos os locais sagrados da ndia, em busca de um
verdadeiro mestre espiritual. Dizem que ele conheceu mais de sessenta santos e Gurus,
sem nunca encontrar o mestre que queria Passou fome, andou descalo, dormiu ao relento
durante tempestades de neve no Himalaia, contraiu malria e disenteria - e chamou esses
anos de os melhores de sua vida, simplesmente  procura de algum que lhe mostrasse
Deus. Durante esses anos, Swamiji se tornou um hatha iogue, especialista em medicina e
culinria ayurvdica, arquiteto, jardineiro, msico e espadachim (adoro essa parte). Ao
atingir a meia-idade, ainda no havia encontrado um Guru, at certo dia conhecer um
sbio nu e louco que lhe disse para voltar para casa, para o vilarejo onde havia conhecido
o sbio quando criana e estudar com aquele grande santo.
Swamiji obedeceu, voltou para casa e tornou-se o mais dedicado dos discpulos do
homem santo, alcanando, por fim, a iluminao, graas  orientao de seu mestre.
Swamiji acabou se transformando ele prprio em Guru. Com o tempo, seu ashram na
ndia passou de trs cmodos em uma fazenda modesta ao luxuoso jardim que  hoje.
Ento ele teve a inspirao de sair viajando e incitar uma revoluo mundial pela
meditao. Chegou aos Estados Unidos em 1970 e pirou a cabea de todo mundo.
Concedia iniciao divina - shaktipat - a centenas, milhares de pessoas por dia. Possua
um poder imediato, transformador. O reverendo Eugene Callender (respeitado lder de
direitos civis, colega de Martin Luther King Jr. e ainda hoje pastor de uma igreja batista
no Harlem) se lembra de conhecer Swamiji durante os anos 1970 e cair de joelhos diante
do homem santo, chocado, pensando consigo: "No tem mais tempo para besteira, o
negcio  este aqui... Este homem sabe tudo que h para saber sobre voc."
Swamiji exigia entusiasmo, compromisso, autocontrole. Estava sempre repreendendo as
pessoas por serem jad, palavra em hndi que significa "inerte". Trouxe antigos conceitos
de disciplina para as vidas de seus muitas vezes rebeldes seguidores ocidentais, instando-
os a parar de desperdiar seu prprio tempo e energia (e os de todos os outros) com toda
aquela baboseira hippie. Em um minuto, ele batia em voc com a bengala e, no minuto
seguinte, lhe dava um abrao. Era complicado, muitas vezes controverso, mas realmente
possua o poder de mudar o mundo. O motivo pelo qual hoje, no Ocidente, temos acesso
a muitas antigas escrituras iogues  porque Swamiji organizou a traduo e a
revitalizao de textos filosficos esquecidos havia muito tempo at mesmo na maior
parte da ndia.
Minha Guru foi a aluna mais dedicada de Swamiji. Ela literalmente nasceu para ser sua
discpula: seus pais indianos foram um de seus primeiros seguidores. Quando ela era
apenas uma criana, muitas vezes passava 18 horas por dia entoando cnticos, incansvel
em sua devoo. Swamiji identificou seu potencial e adotou-a como sua tradutora,
quando ela ainda era adolescente. Ela viajou o mundo inteiro com ele, prestando tanta
ateno em seu Guru, conforme afirmou depois, que podia at senti-lo falando com ela
com os joelhos. Ela se tornou sua sucessora em 1982, ainda com vinte e poucos anos.
Todos os verdadeiros Gurus so parecidos no fato de existirem em um estado constante
de auto-realizao, mas suas caractersticas externas so diferentes. As aparentes
diferenas entre a minha Guru e seu mestre so imensas - ela  uma mulher feminina,
poliglota, com formao universitria, uma profissional sagaz; ele  por vezes um
caprichoso, por vezes um rgio leo aguerrido do sul da ndia. Para uma boa moa da
Nova Inglaterra como eu,  fcil seguir um mestre vivo, algum reconfortante em seu
decoro - exatamente o tipo de Guru que se poderia levar para casa para conhecer mame
e papai. Mas Swamiji... ele era totalmente imprevisvel. E, desde a primeira vez em que
entrei no caminho de seu ioga e vi fotografias suas, e ouvi histrias a seu respeito, pensei:
"Vou ficar bem longe desse sujeito. Ele  grande demais. Ele me deixa nervosa."
Mas agora que estou aqui na ndia, aqui no ashram que era a casa dele, estou descobrindo
que tudo que quero  Swamiji. Tudo que sinto  Swamiji. A nica pessoa com quem
converso durante minhas preces e minha meditao  Swamiji. E a rede Swamiji de
televiso, 24 horas no ar. Aqui estou dentro da fornalha de Swamiji, e posso senti-lo
operando dentro de mim. Mesmo ele estando morto, h algo de muito terreno e presente
nele. Ele  o mestre de que preciso quando estou realmente em dificuldades, porque
posso amaldio-lo e mostrar-lhe todos os meus fracassos e falhas, e tudo que ele faz 
rir. Rir e me amar. O seu riso me deixa com mais raiva, e a raiva me motiva a agir. E
nunca o sinto mais prximo de mim do que quando estou lutando com o Gurugita, com
seus incompreensveis versos em snscrito. Na minha mente, discuto com Swamiji o
tempo inteiro, fazendo todo tipo de afirmao pesada como: " melhor voc estar
fazendo alguma coisa por mim, porque estou fazendo isto por voc!  melhor eu ver
algum resultado aqui!  melhor que isso seja purificador!" Ontem me exaltei tanto ao
baixar os olhos para meu livro de cnticos e perceber que ainda estvamos no Verso 25 e
eu j estava queimando de tanto desconforto, j suada (e no suada como uma pessoa
normal fica suada, mas como um queijo fica suado), que cheguei a exclamar bem alto:
- Vocs devem estar de brincadeira - e algumas mulheres se viraram e olharam para mim
alarmadas, esperando, sem dvida, ver minha cabea comear a girar em torno do meu
pescoo como um demnio.
De vez em quando, eu me lembro que j morei em Roma e costumava passar minhas
manhs descontradas comendo doces, tomando cappuccino e lendo jornal.
Isso era mesmo agradvel.
Mas parece muito distante agora.

54

Hoje de manh, dormi demais. Quero dizer - preguiosa que sou, fiquei remanchando na
cama at o avanado horrio de 4hl5 da manh. S acordei minutos antes de o Gurugita
comear, motivei-me relutantemente para sair da cama, joguei um pouco de gua no
rosto, me vesti, e - sentindo-me enrijecida, dolorida, ressentida - fui abrir a porta do
quarto em meio ao breu de antes do amanhecer... e descobri que minha companheira de
quarto havia sado antes de mim e me trancado l dentro.
Era algo muito difcil para ela ter feito. O quarto no  to grande assim, e  difcil no
perceber que a sua companheira ainda est dormindo na cama ao lado. E ela  uma
mulher muito responsvel, prtica - uma australiana me de cinco filhos. Isso no  o
estilo dela. Mas aconteceu. Ela literalmente me trancou no quarto.
Meu primeiro pensamento foi: Se algum dia houve uma boa desculpa para faltar ao
Gurugita,  esta. Mas qual foi meu segundo pensamento? Bom -- no foi nem um
pensamento. Foi uma ao.
Pulei pela janela.
Para ser mais exata, rastejei para fora do quarto por cima da grade, agarrando-a com as
mos suadas, e fiquei pendurada ali por um instante, a uma altura de dois andares, no
escuro, e s ento fiz a mim mesma a razovel pergunta: "Por que voc est pulando
deste edifcio?" Minha resposta chegou com uma determinao violenta, impessoal:
Tenho de ir ao Gurugita. Ento soltei a grade e ca de costas pelo ar escuro de uma altura
de talvez 4 ou 5 metros, at a calada de concreto l embaixo, batendo no meio do
caminho em alguma coisa que arrancou um comprido pedao de pele da minha canela,
mas no me importei. Levantei-me e corri descala at o templo, com as batidas do
corao pulsando nos meus ouvidos, encontrei um lugar para sentar, abri meu livro de
preces bem na hora em que o cntico comeava e - com a perna sangrando o tempo todo -
comecei a cantar o Gurugita.
Foi somente depois de alguns versos que respirei fundo e consegui ter meu pensamento
normal e instintivo de todas as manhs: Eu no quero estar aqui. E, em seguida, ouvi
Swamiji soltar uma gargalhada dentro da minha cabea, dizendo: Que engraado - voc
est agindo como algum que quer estar aqui.
E eu lhe respondi: Tudo bem ento, voc venceu.
Fiquei ali sentada, cantando e sangrando, pensando que talvez fosse hora de mudar meu
relacionamento com aquela prtica espiritual especfica. O objetivo do Gurugita  ser um
hino de amor puro, mas alguma coisa estava me impedindo de oferecer esse amor com
sinceridade. Ento, conforme cantava cada verso, eu ia percebendo que precisava
encontrar alguma coisa - ou algum - a quem pudesse dedicar aquele hino, de modo a
encontrar um lugar de puro amor dentro de mim. Quando cheguei ao Verso 20, descobri
quem era: Nick.
Nick, meu sobrinho,  um menino de 8 anos, magrelo para sua idade, assustadoramente
inteligente, terrivelmente esperto, sensvel e complexo. Minutos depois de nascer, entre
todos os recm-nascidos que se esgoelavam no berrio, ele era o nico que no chorava,
mas olhava em volta com olhos adultos, experientes e preocupados, com uma cara de
quem j havia feito aquilo tantas vezes antes que no tinha certeza de estar muito
animado por ter que fazer tudo de novo. Nick  uma criana para quem a vida nunca 
simples, uma criana que escuta, v e sente tudo com intensidade, uma criana que s
vezes pode ser dominada pela emoo to depressa que deixa todos ns assustados. Amo
esse menino profundamente e quero proteg-lo. Fazendo as contas da diferena de fuso
horrio entre a ndia e a Pensilvnia, percebi que estava quase na hora de ele ir para a
cama. Ento cantei o Gurugita para meu sobrinho Nick, para ajud-lo a dormir. Ele s
vezes tem dificuldade para dormir, porque no consegue aquietar a mente. Ento dediquei
cada palavra daquele hino de devoo a Nick. Enchi a cano com todas as coisas que
gostaria de lhe ensinar sobre a vida. Tentei reconfort-lo com cada estrofe, dizendo que o
mundo s vezes  difcil e injusto, mas que est tudo bem, porque ele  muito amado.
Est cercado por almas que fariam qualquer coisa para ajud-lo. E no apenas isso - ele
tem uma sabedoria e uma pacincia prprias, escondidas bem l no fundo do seu ser, que
s se revelaro com o tempo, e que sempre o ajudaro a atravessar os momentos difceis.
Ele  uma ddiva de Deus para todos ns. Eu disse isso a ele por meio da antiga escritura
em snscrito, e logo percebi que estava chorando lgrimas frias. Porm, antes que eu
conseguisse enxugar as lgrimas, o Gurugita terminou. A hora e meia havia passado. Eu
tinha a sensao de que s haviam passado dez minutos. Percebi o que acontecera - Nicky
me ajudara a entoar o cntico. A pequena alma que eu queria ajudar na verdade havia me
ajudado.
Andei at a parte da frente do templo e fiz uma reverncia, levando rosto at o cho em
gratido a Deus, ao poder revolucionrio do amor, a mim mesma,  minha Guru e ao meu
sobrinho - compreendendo por um breve instante, em um nvel molecular (no em um
nvel intelectual), que no havia nenhuma diferena entre qualquer uma daquelas palavras
ou qualquer uma daquelas idias ou qualquer uma daquelas pessoas. Ento entrei na
caverna de meditao, onde pulei o caf-da-manh e passei quase duas horas sentada,
vibrando de silncio.
Nem  preciso dizer que nunca mais faltei ao Gurugita, e ele se tornou a mais sagrada das
minhas prticas no ashram.  claro que Richard do Texas fez de tudo para zombar de
mim por eu ter pulado do alojamento, e fazia questo de me dizer toda noite, antes do
jantar: "Te vejo no Gita amanh de manh, Sacolo. E, ah... tente usar a escada desta vez,
t?" E,  claro, liguei para minha irm na semana seguinte, e ela disse que - por motivos
que ningum conseguia entender - Nick de repente no estava mais tendo dificuldade
para dormir. E, naturalmente, eu estava na biblioteca alguns dias depois, lendo um livro
sobre o santo indiano Sri Ramakrishna, quando me deparei com uma histria sobre uma
discpula que certo dia foi encontrar o grande mestre e reconheceu que temia no ser uma
devota boa o suficiente, temia no amar Deus o bastante. E o santo disse: "No existe
nada que voc ame?" A mulher admitiu que amava seu pequeno sobrinho mais do que
qualquer outra coisa na vida. O santo disse: "Ento, pronto. Ele  o seu Krishna, o seu
bem-amado. Quando voc serve ao seu sobrinho, est servindo a Deus."
Mas nada disso tem importncia. A coisa realmente incrvel aconteceu no mesmo dia em
que pulei do prdio. Nessa tarde, esbarrei em Delia, minha companheira de quarto. Disse-
lhe que ela havia me trancado l dentro. Ela ficou boquiaberta.
- No consigo imaginar por que eu teria feito isso! - disse ela. - Especialmente porque
passei a manh inteira pensando em voc. Tive um sonho muito real com voc na noite
passada. No consegui parar de pensar nele o dia inteiro.
- Conte -- pedi.
- Sonhei que voc estava pegando fogo - disse Delia -, e que a sua cama estava pegando
fogo tambm. Eu pulava para tentar ajudar voc mas, quando chegava l, voc j tinha
virado s um monte de cinza branca.

55

Foi nesse momento que decidi que eu precisava ficar ali, no ashram. Isso estava longe de
ser o meu plano original. Meu plano original era ficar ali por apenas seis semanas, ter
uma experienciazinha transcendental e depois continuar a viajar por toda a ndia... hum...
procurando por Deus. Eu tinha mapas guias, botas de caminhada, tudo! Planejara
conhecer templos, mesquitas e homens santos especficos. Quero dizer - isto  a ndia! H
tanto para ver e vivenciar aqui. Tenho muito cho para percorrer, templos para explorar,
elefantes e camelos para montar. E ficaria arrasada se no visse o Ganges, o grande
deserto do Rajasto, as salas de cinema malucas de Mumbai, as montanhas do Himalaia,
as velhas plantaes de ch, os riquixs de Calcut apostando corrida uns com os outros
como na cena das carruagens de Ben-Hur. E eu estava at planejando encontrar o Dalai
Lama em maro, em Daramsala. Tinha esperanas de que ele pudesse me ensinar algo
sobre Deus.
Mas ficar ali, imobilizar-me em um pequeno ashram em um diminuto vilarejo no meio
do nada - no, esse no era o meu plano.
Por outro lado, os mestres zen sempre dizem que  impossvel ver o prprio reflexo em
guas movimentadas, que isso s  possvel em guas paradas. Ento, algo estava me
dizendo que seria espiritualmente negligente sair correndo agora, quando tanta coisa
estava acontecendo naquele lugar pequeno, resguardado, onde cada minuto do dia 
organizado para facilitar a auto-explorao e a prtica da devoo. Ser que, a essa altura,
eu realmente precisava pegar um monte de trens, contrair parasitas intestinais e arrumar
uns amigos mochileiros? No poderia fazer isso mais tarde? No poderia encontrar o
Dalai Lama em algum outro momento? O Dalai Lama no estaria sempre ali? (E, se ele
morresse, que os cus no permitam, eles simplesmente no encontrariam outro?) J no
tenho um passaporte que mais parece uma artista de circo toda tatuada? Ser que viajar
mais vai de fato me deixar mais perto de um contato revelador com a divindade?
Eu no sabia o que fazer. Passei um dia sem conseguir tomar uma deciso. Como de
hbito, Richard do Texas resolveu a questo.
- Fique aqui, Sacolo - disse ele. - Esquea isso de viajar... voc tem o resto da vida
inteira para fazer isso. Voc est em uma viagem espiritual, meu bem. No escolha o
caminho mais fcil e pare na metade do seu potencial.
Aqui voc est recebendo um convite pessoal de Deus... vai mesmo deixar isso passar?
- Mas e todas as coisas lindas que tem para ver na ndia? - perguntei. - No  uma pena
viajar metade do mundo para s passar o tempo inteiro em um pequeno ashram?
- Sacolo, meu bem, escute o seu amigo Richard. V sentar essa sua bundinha branca
naquela caverna de meditao durante os prximos trs meses e eu te prometo uma coisa:
voc vai comear a ver uns troos to lindos, mas to lindos, que eles vo te dar vontade
de apedrejar o Taj Mahal.

56

Eis o que me peguei pensando durante a meditao hoje de manh. Eu estava me
perguntando onde deveria morar depois que terminasse esse ano de viagem. No quero
me mudar de volta para Nova York s por reflexo. Talvez escolha uma nova cidade.
Dizem que Austin  legal. E Chicago tem toda aquela bela arquitetura. Mas os invernos
so horrveis. Ou talvez eu v morar no exterior. Ouvi falarem bem de Sydney... Se eu
morasse em algum lugar mais barato do que Nova York, talvez pudesse ter um quarto a
mais, e poderia ter uma sala especial para meditar! Isso seria legal. Poderia pint-la de
dourado. Ou talvez de um azul vivo. No, dourado. No, azul...
Quando finalmente percebi esse meu raciocnio, fiquei pasma. Pensei: Aqui est voc, na
ndia, em um ashram em um dos lugares de peregrinao mais sagrados da Terra. E, em
vez de comungar do divino, est tentando planejar onde vai estar meditando daqui a um
ano, em uma casa que ainda no existe, em uma cidade que ainda no foi escolhida. Que
tal, sua idiota compulsiva -- que tal se voc tentasse meditar aqui, agora, bem aqui onde
voc de fato est?
Voltei minha ateno novamente para a repetio silenciosa do mantra.
Alguns instantes depois, parei para retirar aquele comentrio mesquinho chamando a
mim mesma de idiota compulsiva. Decidi que talvez isso no fosse muito carinhoso.
Mas, pensei no instante seguinte, uma sala de meditao dourada seria legal.
Assim, naquela noite, tentei algo novo. Havia conhecido recentemente uma mulher no
ashram que vinha estudando meditao Vipassana. A Vipassana  uma tcnica de
meditao budista ultra-ortodoxa, simples e muito intensiva. Basicamente, consiste
apenas em ficar sentado. Um curso de introduo  Vipassana dura dez dias, e durante
esse tempo voc passa dez horas por dia sentado em perodos de silncio que duram de
duas a trs horas por dia.  a verso esportes radicais da transcendncia. Seu instrutor de
Vipassana sequer lhe d um mantra; isso  considerado uma espcie de tapeao. A
meditao Vipassana  a prtica da observao pura,  testemunhar o funcionamento da
prpria mente e oferecer sua total contemplao a seus padres de pensamento, mas sem
deixar que nada tire voc do lugar onde est sentado.
Essa meditao  tambm fisicamente exaustiva. No  permitido mover o corpo de
forma alguma depois de se sentar, por maior que seja o desconforto. Voc simplesmente
fica sentado ali dizendo a si mesmo: "No h nenhum motivo pelo qual eu precise me
mexer durante as prximas duas horas." Se voc estiver sentindo algum desconforto,
ento deve meditar sobre esse desconforto, observando o efeito que a dor fsica exerce
sobre voc. Nas nossas vidas reais, estamos constantemente pulando de um lugar para
outro para nos ajustar ao desconforto -- fsico, emocional e psicolgico - de modo a
evitar a realidade da dor e do incmodo. A meditao Vipassana ensina que a dor e o
incmodo so inevitveis nesta vida mas, se voc conseguir enraizar-se na imobilidade
por tempo suficiente, com o tempo ir vivenciar a verdade de que tudo (tanto o que 
desconfortvel quanto o que  delicioso) um dia ir passar.
"O mundo  afligido pela morte e pela decadncia, portanto os sbios no lamentam, pois
sabem como o mundo funciona", diz um velho ensinamento budista. Em outras palavras:
v se acostumando.
No acho que a Vipassana seja necessariamente o meu caminho. Ela  austera demais
para minhas definies de prtica de devoo, que geralmente giram em torno da
compaixo, do amor, das borboletas, da alegria e de um Deus amigo (o que minha amiga
Darcey chama de "Teologia Festiva Adolescente"). Na Vipassana sequer se faz meno a
"Deus", j que a noo de Deus  considerada, por alguns budistas, o derradeiro objeto da
dependncia, o ltimo cobertor de segurana, a ltima coisa a ser abandonada no
caminho rumo ao puro desapego. O fato  que tenho alguns problemas pessoais com a
prpria palavra desapego, uma vez que conheci lderes espirituais que j parecem estar
vivendo em um estado de desconexo emocional completa em relao aos outros seres
humanos e que, quando falam na busca sagrada do desapego, me do vontade de sacudi-
los e berrar: "Meu amigo, esta  a ltima coisa que voc precisa praticar!"
Mesmo assim, posso entender de que forma cultivar um pouco de desapego inteligente
em sua vida pode ser um valioso instrumento de paz. E, depois de ler sobre meditao
Vipassana na biblioteca certa tarde, comecei a pensar em quanto tempo da minha vida eu
gasto me debatendo de um lado para o outro como um peixo procurando ar, ou
desvencilhando-me de alguma preocupao desconfortvel, ou ento saltitando
alegremente em direo de mais prazer ainda. E me perguntei se poderia ser til para
mim (e para aqueles que carregam o fardo de me amar) se eu conseguisse aprender a ficar
parada e suportar um pouco mais, sem me deixar sempre arrastar pela estrada esburacada
das circunstncias.
Todas essas perguntas tornaram a surgir em minha mente esta tarde, quando descobri um
banco tranqilo em um dos jardins do ashram e decidi ficar sentada meditando durante
uma hora - ao estilo Vipassana. Nenhum movimento, nenhuma agitao, nem sequer um
mantra - apenas a pura contemplao. Vamos ver o que pinta. Infelizmente, eu havia me
esquecido do que "pinta" na ndia ao entardecer: mosquitos. Assim que me sentei naquele
banco em meio ao lindo crepsculo, pude ouvir os mosquitos voando em minha direo,
roando em meu rosto e aterrissando - em um ataque coletivo - na minha cabea,
tornozelos, braos. E, em seguida, senti suas picadas pequenas e vorazes. No gostei
daquilo. Pensei: "Esta  uma hora ruim do dia para praticar meditao Vipassana."
Por outro lado -- quando seria uma boa hora do dia, ou da vida, para ficar sentada em
alheia imobilidade? Quando  que no existe nada zumbindo em volta, tentando distrair
voc e provocar alguma reao? Ento tomei uma deciso (inspirada, mais uma vez, pela
instruo da minha Guru, segundo quem devemos nos tornar os cientistas da nossa
experincia interior). Propus uma experincia a mim mesma - e se eu agentasse isto,
para variar? Em vez de tapas e belisces, e se eu agentasse o desconforto sentada
durante apenas uma hora de minha longa vida?
Ento foi o que fiz. Imvel, observei meu prprio corpo ser devorado pelos mosquitos.
Para ser sincera, parte de mim se perguntava o que exatamente aquela experincia
machista deveria provar, mas outra parte de mim sabia muito bem - era uma tentativa
amadora de autocontrole. Se eu conseguisse agentar sentada aquele desconforto no-
letal, ento que outros desconfortos poderia um dia vir a agentar sentada? E quanto aos
desconfortos emocionais, que considero ainda mais difceis de suportar? E o que dizer de
cime, raiva, medo, decepo, solido, vergonha, tdio?
A coceira no incio foi enlouquecedora, mas depois de algum tempo tudo se tornou
difuso, uma sensao genrica de ardncia, e cavalguei esse calor rumo a uma tnue
euforia. Permiti que a dor perdesse suas associaes especficas e se tornasse puramente
sensorial - nem boa nem ruim, apenas intensa -, e essa intensidade me retirou de mim
mesma rumo  meditao. Passei duas horas sentada ali. Um passarinho poderia muito
bem ter pousado na minha cabea; eu nem teria percebido.
Deixem-me esclarecer bem uma coisa. Reconheo que esta experincia no foi o mais
estico ato de bravura da histria da humanidade e no estou pedindo que me dem
nenhuma medalha. Mas houve algo de levemente emocionante para mim ao perceber que,
durante meus 34 anos na Terra, nunca deixei de dar um tapa em um mosquito que
estivesse me picando. Fiz isso automaticamente, assim como reagi a milhes de outros
sinais ao longo da vida, grandes e pequenos, de dor ou prazer. Sempre que alguma coisa
acontece, eu reajo. Mas ali estava eu - ignorando o reflexo. Eu estava fazendo uma coisa
que nunca tinha feito antes. Uma coisa pequena, tudo bem, mas quando foi que eu pude
dizer isso? E o que serei capaz de fazer amanh que ainda no sou capaz de fazer hoje?
Quando tudo terminou, levantei-me, andei at meu quarto e avaliei o estrago. Contei
cerca de vinte picadas de mosquitos. Meia hora depois, porm, todas as picadas haviam
diminudo de tamanho. Tudo passa. Depois de algum tempo, tudo acaba passando.

57

A busca por Deus  uma reverso da ordem mundial normal, mundana. Na busca por
Deus, voc se afasta do que atrai e nada em direo quilo que  difcil. Abandona seus
hbitos reconfortantes e conhecidos com a esperana (a mera esperana!) de que alguma
coisa melhor lhe vai ser oferecida em troca daquilo de que voc abriu mo. Toda religio
do mundo opera sobre o mesmo conceito do que significa ser um bom discpulo - acordar
cedo e rezar a Deus, aprimorar suas virtudes, ser um bom vizinho, respeitar a si mesmo e
os outros, dominar seus anseios. Todos concordamos que seria mais fcil dormir at
tarde, e muitos de ns fazem isso mas, durante milnios, houve outros que decidiram se
levantar antes do sol, lavar o rosto e fazer suas oraes. E, em seguida, tentar bravamente
se manter fiel a suas convices devocionais durante a loucura de mais um dia.
Os devotos deste mundo executam seus rituais sem garantia de que algo de bom ir deles.
 claro que existem vrias escrituras e vrios sacerdotes que fazem vrias promessas
sobre o que suas boas obras iro produzir (ou ameaas em relao s punies que o
aguardam, caso voc caia em tentao), mas o simples ato de acreditar  um ato de f,
porque nenhum de ns conhece o desfecho. Devoo  diligncia sem segurana. A f 
uma forma de dizer: "Sim, aceito previamente a maneira como o universo funciona, e
acredito previamente naquilo que hoje sou incapaz de entender." H um motivo pelo qual
usamos a expresso "salto de f" - porque a deciso de aceitar qualquer idia de
divindade  um salto tremendo do racional em direo ao desconhecido, e pouco me
importa com quanto afinco os estudiosos de qualquer religio tentem fazer voc se sentar
junto a suas pilhas de livros e lhe provar, pela escritura, que sua f na verdade  racional;
no . Se a f fosse racional, no seria - por definio - f. A f  a crena naquilo que
no se pode ver, provar ou tocar. F  mergulhar de cabea e em velocidade total rumo 
escurido. Se de fato conhecssemos previamente as respostas sobre o sentido da vida, a
natureza de Deus e o destino de nossas almas, nossa crena no seria um salto de f e no
seria um corajoso ato de humanidade; seria apenas... uma prudente aplice de seguros.
No estou interessada na indstria dos seguros. Estou cansada de ser ctica, a prudncia
espiritual me irrita e fico entediada e exaurida com o debate emprico. No quero mais
ouvir isso. Estou pouco me lixando para provas, demonstraes e seguranas. Tudo que
eu quero  Deus. Quero Deus dentro de mim. Quero Deus brincando na minha corrente
sangnea da mesma forma que a luz se diverte sobre a gua.

58

Minhas preces esto se tornando mais deliberadas e mais especficas. Ocorreu-me que
no adianta muito enviar preces preguiosas para o universo. Toda manh, antes da
meditao, eu me ajoelho no templo e converso com Deus durante alguns minutos.
Durante o incio da minha estada aqui no ashram, descobri que, durante essas conversas
divinas, eu muitas vezes estava meio distrada. Cansadas, confusas e entediadas, minhas
preces soavam iguais. Lembro-me de me ajoelhar certa manh, de encostar a testa no
cho e de murmurar para meu criador:
- Ah, eu no sei do que preciso... mas voc deve ter algumas idias... ento cuide disso,
t?
Do mesmo jeito que tantas vezes falei com a minha cabeleireira.
E, desculpe-me, mas isso  meio fraco.  possvel imaginar Deus considerando essa prece
com a sobrancelha arqueada, e devolvendo o seguinte recado: "procure-me de novo
quando resolver levar isto a srio."
 claro que Deus sabe do que eu preciso. A pergunta  - ser que eu sei? Atirar-se aos
ps de Deus em desespero impotente  uma atitude de grande valor - o cu  testemunha
de que eu mesma fiz isso inmeras vezes - mas, no final das contas,  provvel que voc
ganhe mais com a experincia se houver alguma ao da sua parte. Existe uma piada
italiana maravilhosa sobre um homem pobre que vai  igreja todos os dias e reza diante
da esttua de um grande santo, dizendo: "Querido santo, por favor, por favor, por favor...
conceda-me a graa de ganhar na loteria." Esse lamento dura meses. Por fim, irritada, a
esttua ganha vida, baixa os olhos para o suplicante e diz, com uma repulsa cansada:
"Meu filho, por favor, por favor, por favor... compre um bilhete."
A prece  um relacionamento; metade do trabalho  meu. Se eu quiser transformao,
mas sequer for capaz de articular qual exatamente  o meu objetivo, como ela poder
ocorrer? Metade do que se ganha com a prece est no prprio ato de pedir, de oferecer
uma inteno claramente articulada e refletida. Se voc no tiver isso, todas as suas
splicas e desejos no tm sustento, so desconjuntados, inertes; rodopiam a seus ps em
uma bruma fria, mas nunca se erguem. Ento, eu agora paro todas as manhs para buscar
dentro de mim mesma a especificidade daquilo que estou realmente pedindo. Ajoelho-me
ali no templo com o rosto naquele mrmore frio durante o tempo que for necessrio para
formular uma prece autntica. Se no me sinto sincera, fico ali no cho at isso acontecer.
O que funcionou ontem nem sempre funciona hoje. Caso voc deixe sua ateno
estagnar, as preces podem se tornar ranosas e transformarem-se em algo tedioso e
conhecido. Ao me esforar para me manter alerta, estou assumindo uma responsabilidade
integral pela manuteno da minha prpria alma.
Sinto que o destino tambm  um relacionamento - uma interao entre a graa divina e o
esforo pessoal direcionado. Sobre metade dele voc no tem o menor controle; a outra
metade est completamente nas suas mos, e as suas aes tero conseqncias
perceptveis. O homem no  nem uma marionete dos deuses, nem tampouco  senhor do
seu prprio destino; ele  um pouco de ambos. Galopamos pela vida como artistas de
circo, equilibrados em dois cavalos que correm lado a lado a toda velocidade - com um
p sobre o cavalo chamado "destino", e o outro sobre o cavalo chamado "livre-arbtrio".
E a pergunta que voc precisa fazer todos os dias : qual dos cavalos  qual? Com qual
cavalo devo parar de me preocupar, porque ele no est sob meu controle, e qual deles
preciso guiar com esforo concentrado?
H tanta coisa no meu destino que no posso controlar, mas outras coisas esto, sim, sob
a minha jurisdio. Existem determinados bilhetes de loteria que posso comprar,
aumentando, assim, minhas chances de encontrar satisfao. Posso decidir como gasto
meu tempo, com quem interajo, com quem compartilho meu corpo, minha vida, meu
dinheiro e minha energia. Posso decidir o que como, o que leio e o que estudo. Posso
escolher como vou encarar as circunstncias desafortunadas da minha vida - se as verei
como maldies ou como oportunidades (e, quando no tiver foras para adotar o ponto
de vista mais otimista, porque estou sentindo pena demais de mim mesma, posso decidir
continuar tentando mudar minha atitude). Posso escolher minhas palavras e o tom de voz
com que falo com os outros. E, acima de tudo, posso escolher meus pensamentos.
Esse ltimo conceito  uma idia radicalmente nova para mim. Richard do Texas chamou
minha ateno a seu respeito recentemente, quando eu estava reclamando da minha
incapacidade de me livrar dos pensamentos obsessivos. Ele disse:
- Sacolo, voc precisa aprender a escolher os seus pensamentos do mesmo jeito que
escolhe as roupas que vai usar a cada dia. Isso  uma capacidade que voc pode
aprimorar. Se voc quiser tanto assim controlar as coisas da sua vida, trabalhe com a
mente. Ela  a nica coisa que voc deveria estar tentando controlar. Largue todo o resto,
menos isso. Porque, se voc no conseguir dominar seu pensamento, vai ter muitos
problemas para sempre.
A primeira vista, isso parece uma tarefa quase impossvel. Controlar seus pensamentos?
Em vez de o contrrio? Mas imaginem: e se fosse possvel? No se trata de represso
nem de negao. A represso e a negao inventam jogos complicados para fingir que os
pensamentos e sentimentos negativos no esto acontecendo. Mas Richard est falando
de reconhecer a existncia dos pensamentos negativos, entender de onde vieram e por que
apareceram, e ento - com grande capacidade de perdoar e com grande coragem - mand-
los embora. Essa  uma prtica que se encaixa feito uma luva em qualquer trabalho
psicolgico que voc possa fazer durante uma terapia. Voc pode usar o consultrio do
analista para entender primeiro por que tem esses pensamentos destrutivos; e pode usar
exerccios espirituais para super-los. Deix-los ir embora  um sacrifcio, claro.  uma
perda de antigos hbitos, de velhas implicncias reconfortantes e de padres conhecidos.
 claro que tudo isso requer prtica e esforo. No  um ensinamento que voc possa
escutar uma vez e esperar dominar imediatamente.  uma vigilncia constante, e eu quero
isso. Preciso disso para ficar forte. Devo farmi le ossa,  o que dizem em italiano.
"Preciso fazer meus ossos."
Assim, comecei a me forar a prestar ateno em meus pensamentos o dia inteiro, e a
monitor-los. Repito essa deciso cerca de setecentas vezes por dia: "No vou mais
abrigar pensamentos que no forem saudveis." Sempre que um pensamento desprezvel
surge, repito a deciso. No vou mais abrigar pensamentos que no forem saudveis. Na
primeira vez em que me ouvi dizer isso, meu ouvido interior se espantou com a palavra
"abrigar" e com seu substantivo correspondente, "abrigo". Um abrigo,  claro,  um local
de refugio, um porto seguro. Visualizei o porto seguro da minha mente - um pouco
surrado, talvez, um pouco maltratado pelo tempo, mas bem situado e com boa
profundidade. O porto seguro da minha mente  uma baa aberta, o nico acesso  ilha do
meu Eu (uma ilha jovem e vulcnica, sim, mas frtil e promissora). Essa ilha j passou
por algumas guerras,  verdade, mas agora est comprometida com a paz, sob a batuta de
um novo lder (eu) que instaurou novas polticas para proteger o lugar. E agora -- que a
boa-nova seja espalhada pelos sete mares - h nos autos leis muito, muito mais rgidas
quanto a quem pode adentrar esse porto seguro.
Voc no pode mais vir aqui com seus pensamentos duros e abusivos, com seus navios de
pensamentos assolados pela peste, com seus navios negreiros de pensamentos, com seus
navios de guerra de pensamentos -- todos eles sero rechaados. Da mesma forma,
quaisquer pensamentos cheios de exilados zangados ou famintos, de descontentes e de
panfleteiros, de amotinados e de assassinos violentos, de prostitutas desesperadas, de
cafetes e de passageiros clandestinos - vocs tambm no podem mais vir aqui.
Pensamentos canibais, por motivos bvios, no sero mais recebidos. At mesmo os
missionrios sero cuidadosamente revistados para avaliar sua sinceridade. Este  um
porto pacfico, entrada para uma ilha bonita e orgulhosa que est apenas comeando a
cultivar a tranqilidade. Se vocs respeitarem essas novas leis, meus caros pensamentos,
ento sero bem-vindos na minha mente - seno, eu os devolverei novamente ao mar de
onde vieram.
Essa  a minha misso, e ela nunca vai terminar.

59

Fiquei bastante amiga de uma garota indiana de 17 anos chamada Tulsi. Ela trabalha
comigo esfregando o cho do templo diariamente. Todas as tardes, passeamos juntas
pelos jardins do ashram e conversamos sobre Deus e sobre hip-hop, dois assuntos aos
quais Tulsi dedica igual devoo. Tulsi  provavelmente a rata de livros indiana mais fofa
que voc j viu na vida, mais fofa ainda desde que uma das lentes dos seus culos
quebrou na semana passada, formando um desenho de teia de aranha parecido com o de
um desenho animado, o que no a impediu de us-los. Tulsi  para mim muitas coisas
interessantes e desconhecidas ao mesmo tempo - adolescente, moleca, indiana, a rebelde
da famlia, uma menina to louca por Deus que  quase como se nutrisse por Ele uma
paixo de adolescente. Ela tambm fala um ingls delicioso, cadenciado - o tipo de ingls
que voc s encontra na ndia - que inclui expresses coloniais como "splendid!"
(esplndido) e "nonsense!" (bobagem) e, algumas vezes, produz frases eloqentes do
tipo: " benfico caminhar sobre a grama pela manh quando o orvalho j se acumulou,
pois isso diminui natural e agradavelmente a temperatura do corpo." Quando eu lhe disse
certa vez que iria passar o dia em Mumbai, Tulsi falou:
- Por favor, fique em p com cuidado, pois voc vai ver que h muitos nibus correndo
por toda parte.
Ela tem exatamente metade da minha idade e praticamente metade da minha altura.
Ultimamente, durante nossos passeios, Tulsi e eu temos conversado bastante sobre
casamento. Ela logo ir completar 18 anos, e essa  a idade em que passar a ser vista
como uma legtima noiva em potencial. Vai acontecer assim: depois de seu 18
aniversrio, ela dever comparecer aos casamentos da famlia vestindo um sri, um sinal
de sua maturidade. Alguma bondosa amma ("titia") vir sentar-se ao seu lado e comear
a fazer perguntas e a conhec-la melhor. "Quantos anos voc tem? De onde  a sua
famlia? O que o seu pai faz? A quais universidades voc vai se candidatar? Quais so os
seus interesses? Em que dia voc faz aniversrio?" Dali a pouqussimo tempo, o pai de
Tulsi receber pelo correio um imenso envelope com uma foto do neto dessa mulher, que
estuda cincia da computao em Dlhi, junto com o mapa astral do garoto, suas notas na
universidade e a inevitvel pergunta: "Sua filha gosta-ria de se casar com ele?"
Segundo Tulsi: " um porre."
Mas ver os filhos bem casados significa muito para a famlia Tulsi tem uma tia que acaba
de raspar a cabea em sinal de agradecimento porque sua filha mais velha - com a idade
jurssica de 28 anos - finalmente se casou. E, alm disso, ela era uma moa difcil de
casar. Perguntei a Tulsi o que torna uma moa indiana difcil de casar, e ela disse que
existem muitos motivos.
- Se ela tiver um mapa astral ruim. Se for velha demais. Se tiver a pele escura demais. Se
for instruda demais, e voc no conseguir encontrar um homem mais instrudo do que
ela, e isso  um problema freqente hoje em dia, porque uma mulher no pode ser mais
instruda do que o marido. Ou se ela teve um caso e a comunidade inteira sabe, ah, seria
muito difcil arrumar um marido depois disso...
Repassei a lista rapidamente, tentando avaliar quais seriam as minhas chances de
casamento na sociedade indiana. No sei se o meu mapa astral  bom ou ruim, mas sem
dvida sou velha demais e certamente instruda demais, e j foi demonstrado
publicamente que minha moral  bastante relapsa... No sou um partido muito bom. Pelo
menos minha pele  clara.  a nica coisa que tenho a meu favor.
Tulsi precisou ir ao casamento de mais uma prima na semana passada e estava dizendo
(ao contrrio da maioria dos indianos) o quanto detesta casamentos. Todas aquelas
danas e fofocas. Todas aquelas roupas. Ela preferiria estar no ashram esfregando o cho
e meditando. Ningum mais na sua famlia consegue entender isso; sua devoo a Deus
vai alm de qualquer coisa que eles considerem normal. Tulsi disse:
- Na minha famlia, eles j desistiram de mim e me classificaram como diferente demais.
Criei a reputao de ser uma pessoa que, se algum diz a ela para fazer alguma coisa,
quase certamente far o contrrio. Tambm sou muito esquentada. E no sou dedicada
aos estudos, s que agora vou comear a ser, porque vou para a universidade e posso
decidir eu mesma pelo que vou querer me interessar. Quero estudar psicologia,
igualzinho ao que a nossa Guru estudou na universidade. As pessoas me consideram uma
garota difcil. Tenho a reputao de precisar ouvir um bom motivo para fazer alguma
coisa antes de fazer. Minha me entende isso em mim e sempre tenta me dar boas razes,
mas meu pai no entende. Ele me d razoes, mas razes que eu no considero boas o
suficiente. s vezes me pergunto o que estou fazendo na minha famlia, porque no me
pareo em nada com eles.
A prima de Tulsi que se casou na semana passada tem s 21 anos, e a mais velha de suas
irms  a prxima na lista de casamento, aos 20 anos, o que significa que, depois disso,
haver uma forte presso para Tulsi arranjar um marido. Perguntei se ela queria se casar
um dia, e ela disse:
- Noooooooooo...
... e a palavra durou mais do que o poente que admirvamos acima do jardins.
- Eu quero correr o mundo - disse ela. - Como voc.
- Sabe, Tulsi, eu nem sempre pude viajar assim. J fui casada.
Ela me olhou com o cenho franzido atravs dos culos rachados, estudando-me com um
ar intrigado, quase como se eu houvesse acabado de lhe dizer que um dia havia sido
morena e ela estivesse tentando imaginar como teria sido. Ao final, ela falou:
- Voc, casada? No consigo imaginar isso.
- Mas  verdade... eu fui.
- Foi voc quem terminou o casamento?
- Foi.
- Acho muito louvvel que voc tenha terminado o seu casamento - disse ela. - Voc
parece muito feliz agora. Mas eu... como vim parar aqui? Por que nasci indiana? 
incompreensvel! Por que nasci nesta famlia? Por que preciso ir a tantos casamentos?
E ento Tulsi comeou a correr em crculos, frustrada, gritando (um tanto alto para os
padres do ashram):
- Eu quero morar no Hava!

60

Richard do Texas tambm j foi casado. Teve dois filhos, ambos hoje homens-feitos e
prximos do pai. Algumas vezes, Richard menciona a ex-mulher em alguma anedota e
sempre parece falar tela com carinho. Fico com um pouco de inveja sempre que ouo
isso, imaginando a sorte que Richard tem de ainda ser amigo da ex-mulher, mesmo
depois de se separar. Esse  um efeito colateral estranho do meu terrvel divrcio; sempre
que ouo falar em casais que se separam amigavelmente, fico com inveja.  pior do que
isso - eu de fato passei a considerar romntico quando um casamento termina de forma
civilizada. Tipo: "Ah... que fofo... eles devem ter sido mesmo apaixonados..."
Ento, certo dia, perguntei sobre isso a Richard.
- Parece que voc tem carinho pela sua ex-mulher - falei. - Vocs ainda so prximos?
- Que nada - respondeu ele, casual. - Ela acha que eu mudei meu nome para filho-da-
puta.
A falta de preocupao de Richard com esse fato me impressionou. No caso, o meu ex-
marido tambm acha que eu mudei de nome, e isso me parte o corao. Uma das coisas
mais difceis em relao a esse divrcio foi o fato de que o meu ex-marido nunca me
perdoou por t-lo deixado, que pouco importaram as toneladas de desculpas e explicaes
que eu tenha depositado aos seus ps, o quanto de culpa eu assumi, ou quantos bens ou
atos de contrio me dispus a lhe oferecer em troca da minha partida - ele certamente
nunca iria me dar os parabns e dizer: "Olhe, fiquei muito impressionado com a sua
generosidade e com a sua honestidade, e s quero te dizer que foi um enorme prazer me
divorciar de voc." No. Eu era imperdovel. E esse buraco negro imperdovel ainda
estava aberto dentro de mim. At mesmo em momentos de felicidade e entusiasmo
(especialmente em momentos de felicidade e entusiasmo), eu nunca conseguia esquec-lo
por muito tempo. Ele ainda me odeia. E eu tinha a sensao de que isso nunca iria mudar,
de que eu nunca me libertaria.
Certo dia, eu estava conversando sobre isso com meus amigos do ashram - grupo onde o
mais novo membro  um bombeiro hidrulico da Nova Zelndia, um cara que conheci
porque ele ouvira falar que eu era escritora e me procurou para me dizer que ele tambm
era. Ele  um poeta que acabou de publicar na Nova Zelndia um incrvel livro de
memrias chamado Evoluo de um Bombeiro, sobre sua prpria viagem espiritual. O
bombeiro/poeta da Nova Zelndia, Richard do Texas, o criador de gado leiteiro irlands,
a moleca adolescente indiana Tulsi e Vivian, a mulher mais velha de cabelos brancos
crespos e olhos incandescentes de bom humor (que j foi freira na frica do Sul) - era
esse o meu crculo de amigos ntimos ali, um elenco vibrante de personagens que eu
nunca teria esperado conhecer em um ashram na ndia.
Ento, certo dia, durante o almoo, estvamos todos conversando sobre casamento, e o
bombeiro/poeta da Nova Zelndia disse:
- Vejo o casamento como uma operao que costura duas pessoas uma na outra, e o
divrcio  um tipo de amputao que pode levar muito tempo para sarar. Quanto mais
tempo se fica casado, ou quanto mais violenta a amputao, mais difcil  se recuperar.
Isso explica as sensaes ps-divrcio, ps-amputao que venho tendo h alguns anos, a
impresso de ainda estar balanando esse membro inexistente, sempre a derrubar coisas
das prateleiras.
Richard do Texas perguntava-se se eu estaria planejando permitir a meu ex-marido ditar
pelo resto da vida a maneira como eu me sentia em relao a mim mesma, e eu disse que,
na verdade, no tinha muita certeza quanto a isso - at ali, meu ex-marido parecia ter um
voto bem forte e, para ser sincera, eu ainda estava um pouco esperando que aquele
homem me perdoasse, me libertasse e me permitisse seguir em paz.
O criador de gado leiteiro da Irlanda observou:
- Esperar esse dia chegar no  exatamente um uso racional do seu tempo.
- O que eu posso dizer, gente? A culpa me cai muito bem. Mais ou menos da mesma
maneira que o bege cai bem em outras mulheres.
A ex-freira catlica (que, afinal de contas, devia saber alguma coisa sobre culpa) no quis
nem ouvir falar no assunto.
- A culpa  s a maneira que o seu ego encontrou para fazer voc pensar que est fazendo
algum progresso moral. No caia nessa, querida.
- O que eu detesto no jeito como meu casamento terminou  que ficou tudo muito mal
resolvido - falei. - E uma ferida aberta que no some.
- Se voc faz questo de pensar assim -- disse Richard. -- Se foi assim que voc decidiu
pensar no assunto, no me deixe estragar a sua festa.
- Um dia desses isso tem de acabar -- falei. -- Eu s queria saber como.
Quando o almoo terminou, o bombeiro/poeta da Nova Zelndia me passou um recado.
Dizia para encontr-lo depois do jantar; ele queria me mostrar uma coisa. Assim, depois
do jantar daquele dia, fui encontr-lo perto das cavernas de meditao, e ele me disse
para segui-lo, porque ele tinha um presente para mim. Pediu-me para acompanh-lo at o
outro lado do ashram, e em seguida me conduziu at um prdio no qual eu nunca havia
entrado, destrancou uma porta e me fez subir um lance de escadas nos fundos. Imaginei
que ele conhecesse aquele lugar, porque  ele quem conserta os aparelhos de ar-
condicionado, e alguns deles ficam l em cima. No alto da escada havia uma porta, que
ele precisou destrancar com um segredo; fez isso depressa, pois sabia a combinao de
cor. Ento samos para uma linda laje revestida de cacos de cermica que reluziam ao
crepsculo como o fundo de um espelho d'gua. Ele me fez atravessar a laje at uma
pequena torre, na verdade um minarete, e mostrou-me outro estreito lance de escadas, que
conduziam ao topo da torre. Apontou para a torre e disse:
- Agora vou deixar voc sozinha. Voc vai subir at ali. Fique l at terminar.
- At o que terminar? - perguntei.
O bombeiro apenas sorriu e estendeu-me uma lanterna, "para descer direitinho quando
terminar", e entregou-me tambm um pedao de papel dobrado. Ento foi embora.
Subi at o alto da torre. Eu agora estava no lugar mais alto do ashram, com uma vista que
abarcava todo o vale daquele rio indiano. Montanhas e terras arveis estendiam-se at
onde a minha vista alcanava. Tive a sensao de que no era um lugar onde
normalmente se permitisse aos alunos ficar, mas era lindo demais ali no alto. Talvez fosse
ali que a minha Guru admirasse o pr-do-sol enquanto estava no ashram. E o sol estava
se pondo naquele exato instante. A brisa estava morna. Desdobrei o pedao de papel que
o bombeiro/poeta havia me entregado.
Ele havia digitado:

INSTRUES PARA A LIBERDADE

1. As metforas da vida so as instrues de Deus.
2. Voc acaba de subir at o topo do telhado. No h nada entre voc e o Infinito. Agora,
liberte-se.
3. O dia est terminando. E hora de alguma coisa que foi bonita se transformar em outra
coisa que tambm seja bonita. Agora, liberte-se.
4. O seu desejo de resoluo foi uma prece. O fato de voc estar aqui  a resposta de
Deus. Liberte-se e veja as estrelas surgirem -- do lado de fora e do lado de dentro.
5. Com todo seu corao, pea a graa e liberte-se.
6. Com todo seu corao, perdoe-o, PERDOE A SI MESMA e liberte-o.
7. Permita que sua inteno seja a liberdade do sofrimento intil. Ento, liberte-se.
8. Veja o calor do dia se transformar em noite fresca. Liberte-se.
9. Quando o carma de um relacionamento termina, resta apenas o amor. E seguro.
Liberte-se.
10. Quando o passado finalmente tiver sado de voc, liberte-se. Depois desa e comece
o resto da sua vida. Com grande alegria.

Durante os primeiros minutos, no consegui parar de rir. Eu podia ver o vale inteiro, por
cima das copas das mangueiras, e o vento soprava em meus cabelos, enfunando-os como
uma bandeira. Vi o sol se pr e, em seguida, deitei-me de costas e vi as estrelas surgirem.
Entoei uma curta prece em snscrito, repetindo-a sempre que via uma nova estrela surgir
no cu cada vez mais escuro, quase como se estivesse chamando as estrelas, mas ento
elas comearam a pipocar depressa demais, e no consegui mais acompanh-las. Logo o
cu inteiro era um espetculo cintilante de estrelas. A nica coisa entre mim e Deus era...
nada.
Ento fechei os olhos e disse:
- Querido Deus, por favor, me mostre tudo que preciso entender sobre o perdo e a
entrega.
O que eu vinha querendo h muito tempo era ter uma conversa de verdade com meu ex-
marido, mas obviamente isso jamais iria acontecer. Eu ansiava por uma soluo, por uma
cpula de paz da qual pudssemos emergir com uma compreenso unificada do que havia
acontecido em nosso casamento e com um perdo mtuo pela feira de nosso divrcio.
Porm, meses de advogados e mediadores s haviam nos separado ainda mais e tornado
nossas posies solidificadas, transformando-nos em duas pessoas absolutamente
incapazes de libertar o outro. No entanto, eu tinha certeza de que era disso que ns dois
precisvamos. E tambm tinha certeza do seguinte - de que as regras da transcendncia
insistem que voc no chegar nenhum centmetro mais perto da divindade, enquanto se
prender a qualquer sedutora lasquinha de culpa. O ressentimento faz com a alma a mesma
coisa que o fumo faz com os pulmes; at uma nica tragada faz mal. Quero dizer, como
seria repetir a seguinte prece: "A mgoa nossa de cada dia nos dai hoje"? Se voc de fato
precisa continuar a culpar alguma outra pessoa pelas limitaes da sua prpria vida, seria
melhor desistir e despedir-se de Deus. Assim, o que pedi a Deus naquela noite no telhado
do ashram foi - dada a realidade de que eu provavelmente nunca mais falaria com meu
ex-marido - ser que poderia haver algum nvel em que consegussemos nos comunicar?
Algum nvel no qual consegussemos perdoar?
Fiquei deitada ali em cima, bem no topo do mundo, e estava completamente sozinha.
Comecei a meditar e esperei que me dissessem o que fazer. No sei quantos minutos ou
quantas horas passaram antes de eu saber o que fazer. Percebi que vinha pensando
naquilo tudo de forma demasiado literal. Eu estava querendo falar com meu ex-marido?
Ento fale com ele. Eu vinha esperando que ele me oferecesse o perdo? Oferea-o
pessoalmente, ento. Agora. Pensei em quantas pessoas deixaram irmos, amigos, filhos
ou amantes desaparecerem de suas vidas antes de trocarem palavras preciosas de
clemncia ou de absolvio. Como os sobreviventes de relacionamentos terminados
conseguem suportar a dor dos assuntos mal resolvidos? Ali, naquele lugar de meditao
encontrei a resposta - voc pode terminar o assunto voc mesmo, de dentro de voc
mesmo. Isso no  apenas possvel,  essencial.
E ento, para minha surpresa, ainda na meditao, fiz uma coisa esquisita. Convidei meu
ex-marido a, por favor, juntar-se a mim ali naquele telhado na ndia. Perguntei-lhe se ele
teria a bondade de me encontrar ali para aquela despedida. Ento esperei at senti-lo
chegar. E ele de fato chegou. Sua presena subitamente tornou-se absoluta e tangvel. Eu
praticamente pude sentir seu cheiro.
- Oi, meu bem - falei.
Quase comecei a chorar ali mesmo, mas logo percebi que no precisava fazer isso.
Lgrimas fazem parte desta vida corprea, e o lugar onde aquelas duas almas estavam se
encontrando naquela noite na ndia no tinha nada a ver com o corpo. As duas pessoas
que precisavam conversar uma com a outra ali no telhado sequer eram mais pessoas. Elas
sequer iriam conversar. No eram nem mesmo ex-cnjuges, no eram uma mulher
teimosa do meio-oeste e um ianque nervosinho, no eram um cara de quarenta e poucos
anos e uma mulher de trinta e poucos, no eram duas pessoas limitadas que haviam
batido boca durante anos sobre sexo, dinheiro e mveis -- nada disso era relevante. No
que dizia respeito quele encontro, no mbito daquela reunio, eram apenas duas almas
de um azul frio que j compreendiam tudo. Sem estarem presas a seus corpos, sem
estarem presas  complexa histria de seu relacionamento, elas se uniram acima daquele
telhado (acima de mim, at) em infinita sabedoria. Ainda meditando, vi aquelas duas frias
almas azuis rodearem uma  outra, fundirem-se, tornarem a se dividir e observar a
perfeio e a semelhana uma da outra. Elas sabiam tudo. Sabiam tudo havia muito
tempo e sempre sabero tudo. No precisavam perdoar uma  outra; elas haviam nascido
perdoando uma  outra.
A lio que elas me ensinaram com seu lindo bal foi: "Fique fora disso, Liz. Sua
participao neste relacionamento terminou. Deixe a gente resolver as coisas de agora em
diante. V tocar a sua vida."
Muito tempo depois, abri os olhos e soube que havia terminado. No apenas o meu
casamento e no apenas o meu divrcio, mas toda aquela tristeza inacabada e oca... tudo
estava terminado. Eu podia sentir que estava livre. Deixem-me ser clara - no  que eu
nunca mais fosse pensar no meu ex-marido, nem nunca mais ter quaisquer emoes
ligadas  lembrana dele. S que aquele ritual no telhado finalmente havia me
proporcionado um lugar onde eu pudesse guardar esses pensamentos e sentimentos
sempre que eles surgissem no futuro - e eles sempre surgiro. Porm, da prxima vez em
que surgirem, posso simplesmente mand-los de volta para c, de volta a essa lembrana
do telhado, de volta ao cuidado daquelas duas almas azuis e frias que j e sempre haviam
entendido tudo.
 para isso que servem os rituais. Realizamos cerimnias espirituais como seres humanos
de forma a criar um lugar seguro onde os nossos sentimentos mais complicados de alegria
ou de trauma possam descansar, para no precisarmos carregar esses sentimentos conosco
para sempre, como um peso a nos atrapalhar. Ns todos precisamos desses esconderijos
rituais. E eu acredito que, se a sua cultura ou a sua tradio no tiverem os rituais
especficos pelos quais voc anseia, ento decididamente voc tem permisso para
elaborar a sua prpria cerimnia usando a prpria imaginao, consertando seus sistemas
emocionais escangalhados com todos os recursos do tipo faa-voc-mesmo de um
generoso bombeiro/poeta. Se voc se dedicar realmente  sua cerimnia feita em casa,
Deus ir trazer a graa. E  por isso que precisamos de Deus.
Levantei-me e plantei bananeira no telhado da minha Guru, para comemorar a idia da
liberao. Senti as telhas empoeiradas sob minhas mos. Senti a suave brisa da noite nas
solas dos meus ps descalos. Esse tipo de coisa - de repente plantar uma bananeira --
no  algo que uma alma azul e fria, desprovida de corpo, possa fazer, mas um ser
humano pode. Ns temos mos; podemos nos apoiar nelas se quisermos. E o nosso
privilgio. E essa a alegria de um corpo mortal, E  por isso que Deus precisa de ns.
Porque Deus ama sentir as coisas por intermdio de nossas mos.

61

Richard do Texas foi embora hoje. Pegou um avio de volta para Austin. Fui com ele de
carro at o aeroporto, e ns dois estvamos tristes. Ficamos parados um tempo na
calada em frente ao aeroporto antes de entrarmos.
- O que vou fazer quando a Liz Gilbert no estiver mais por perto para eu poder encher o
saco dela? - Ele suspirou. Ento disse: - Voc teve uma experincia boa no ashram, no
teve? Est muito diferente de poucos meses atrs, como se talvez tivesse jogado fora um
pouco daquela tristeza que vinha carregando.
- Tenho me sentido muito feliz estes dias, Richard.
- Bom, mas lembre-se de uma coisa: toda a sua infelicidade vai estar esperando por voc
na porta quando sair, se quiser peg-la de novo, quando for embora.
- No vou peg-la de novo.
- Boa menina.
- Voc me ajudou muito. Penso em voc como um anjo de mos peludas e unhas dos ps
cascudas.
- , minhas unhas nunca se recuperaram totalmente do Vietn, coitadinhas.
- Poderia ter sido pior.
- E foi pior para um monte de caras. Pelo menos fiquei com as pernas. No, tive uma
encarnao bem confortvel nesta vida, garota. Voc tambm... no se esquea nunca
disso. Na sua prxima vida, voc pode voltar como uma daquelas pobres mulheres
indianas que ficam quebrando pedras na beira da estrada, e descobrir que a vida no  to
divertida assim. Ento valorize o que voc tem, t? Continue a cultivar a gratido. Voc
vai viver mais. E, Sacolo? Me faz um favor? Toque a sua vida para a frente, t bom?
- Eu estou tocando.
- O que eu quero dizer ... encontre algum novo para amar um dia. Leve o tempo que
precisar para sarar, mas no se esquea de um dia compartilhar o seu corao com outra
pessoa. No transforme a sua vida em um monumento ao David ou ao seu ex-marido.
- No vou transformar, no -- falei.
E subitamente soube que isso era verdade -- eu no transformaria. Podia sentir toda
aquela dor antiga de amor perdido e erros passados se atenuando diante dos meus olhos,
finalmente diminuindo graas aos famosos poderes de cura do tempo, da pacincia e da
graa de Deus.
E ento Richard tornou a falar, fazendo meus pensamentos voltarem em um estalo para as
realidades mais bsicas do mundo:
- Afinal, meu benzinho, lembre-se do que dizem... algumas vezes, a melhor maneira de
deixar algum para trs  subir em cima de outro algum.
Eu ri.
- T bom, Richard, chega. Pode voltar para o Texas agora.
-  bom mesmo - disse ele, olhando em volta para o desolado estacionamento do
aeroporto indiano. - Porque no estou ficando mais bonito parado aqui em p.

62

Na viagem de volta at o ashram, depois de ter levado Richard ao aeroporto, chego 
concluso de que tenho falado demais. Para ser honesta, tenho falado demais minha vida
inteira, mas realmente tenho falado demais durante minha estada no ashram. Ainda tenho
mais dois meses aqui e no quero desperdiar a maior oportunidade espiritual da minha
vida passando o tempo inteiro sendo socivel e falastrona. Tem sido fantstico para mim
descobrir que, mesmo aqui, mesmo em um ambiente sagrado de retiro espiritual do outro
lado do mundo, consegui criar ao meu redor um ambiente parecido com o de uma festa.
No  s com Richard que venho falando sem parar - embora tenha sido com ele que
mais tagarelei -, estou sempre falando com algum. At j me peguei - em um ashram,
vejam vocs! - marcando encontros com conhecidos e precisando dizer para algum:
"Desculpe, no vou poder ficar com voc hoje na hora do almoo, porque prometi para a
Sakshi que comeria com ela... quem sabe a gente poderia marcar para tera-feira que
vem?"
Essa tem sido a histria da minha vida.  assim que eu sou. Mas tenho pensado
ultimamente que talvez isso seja um defeito espiritual. O silncio e a solido so prticas
espirituais universalmente reconhecidas e existem bons motivos para isso. Aprender a
disciplinar sua fala  uma forma de evitar que suas energias se esvaiam de voc pelo
buraco da sua boca, exaurindo voc e enchendo o mundo de palavras, palavras, palavras,
em vez de serenidade, paz e contentamento. Swamiji, o mestre da minha Guru, fazia
questo do silncio no ashram, mantendo-o com rigor, por ser uma prtica de devoo.
Ele dizia que o silncio era a nica religio verdadeira.  ridculo o quanto tenho falado
neste ashram, o nico lugar do mundo onde o silncio deveria - e pode - reinar.
Ento no vou ser mais a socialitezinha do ashram. Resolvi isso. No vou mais correr de
um lado para o outro, no vou mais fofocar nem fazer piadas. No vou mais virar o
centro das atenes nem dominar as conversas. No vou mais fazer aquele sapateado
verbal em troca de migalhas de afirmao. Chegou a hora de mudar. Agora que Richard
foi embora, vou transformar o resto da minha estada em uma experincia completamente
tranqila. Isso vai ser difcil, mas no impossvel, porque o silncio  universalmente
respeitado no ashram. A comunidade inteira apoiar isso, reconhecendo a deciso como
um ato disciplinado de devoo. Na livraria, eles at vendem uns brochezinhos para voc
usar que dizem: "Estou em Silncio."
Vou comprar quatro brochezinhos desses.
No caminho de volta ao ashram, realmente deixo-me mergulhar em uma fantasia sobre o
quo silenciosa vou me tornar agora. Serei to silenciosa que ficarei famosa por isso.
Imagino a mim mesma tornando-me conhecida como Aquela Moa Quietinha.
Simplesmente irei respeitar os horrios do ashram, fazer minhas refeies sozinha,
meditar durante incontveis horas por dia e esfregar o cho do templo sem dar um pio.
Minha nica interao com os outros ser sorrir-lhes extaticamente do meu mundo
protegido de imobilidade e f. As pessoas iro falar sobre mim. Elas perguntaro: "Mas
quem  Aquela Moa Quietinha no Fundo do Templo, sempre ajoelhada a esfregar o
cho? Ela no fala nunca. E to discreta.  to mstica. Sequer consigo imaginar como
seria o som da sua voz. No d nem para ouvir quando ela chega por trs de voc na
trilha do jardim, quando est caminhando... seu andar  silencioso como a brisa. Ela deve
viver em um estado constante de comunho meditativa com Deus. Ela  a moa mais
silenciosa que eu j vi."

63

Na manh seguinte, eu estava ajoelhada no templo, esfregando mais uma vez o cho de
mrmore, irradiando (supunha eu) uma aura sagrada de silncio, quando um adolescente
indiano veio me procurar com um recado - dizendo que eu deveria me apresentar
imediatamente no Escritrio da Seva. Seva  uma palavra em snscrito que significa a
prtica espiritual do servio altrusta (por exemplo, esfregar o cho de um templo). O
Escritrio da Seva administra todas as tarefas executadas no ashram. Ento fui at l,
muito curiosa quanto ao motivo de ter sido convocada, e a simptica senhora atrs da
mesa me perguntou:
- Voc  Elizabeth Gilbert?
Sorri para ela com a mais calorosa das devoes e aquiesci. Em silncio.
Ela ento me disse que minha tarefa fora mudada. Devido a um pedido especial da
direo, eu no faria mais parte da equipe que esfregava o cho. Eles estavam pensando
em um novo cargo para mim no ashram.
E o ttulo do meu novo trabalho era - escutem s - "Recepcionista-Chefe".
64

bvio que isso era mais uma das brincadeiras de Swamiji.
Voc queria ser a Moa Quietinha do Fundo do Templo? Bom, adivinhe s...
Mas  isso que sempre acontece no ashram. Voc toma alguma deciso grandiosa sobre o
que precisa fazer, ou sobre quem precisa ser, e ento as circunstncias mudam e
imediatamente lhe revelam o quo pouco voc sabe sobre si mesmo. No sei quantas
vezes Swamiji disse isso durante a vida, e no sei quantas outras vezes minha Guru o
repetiu desde a morte dele, mas parece que ainda no entendi muito bem a verdade de sua
frase mais insistente:
"Deus vive dentro de voc, como voc."
COMO voc.
Se existe uma nica verdade nesse ioga, essa frase a resume. Deus vive dentro de voc
como voc mesmo, exatamente da maneira que voc . Deus no est interessado em ver
voc executar uma pantomima de personalidade, de forma a corresponder a alguma idia
maluca que tenha sobre a aparncia ou o comportamento de algum espiritualizado. Ns
todos parecemos ter uma idia de que, para sermos sagrados, precisamos operar alguma
mudana imensa e dramtica em nosso carter, precisamos renunciar a nossa
individualidade. Esse  um exemplo clssico do que, no Oriente,  chamado de
pensamento errado". Swamiji costumava dizer que, a cada dia, as pessoas que renunciam
encontram algo novo a que renunciar, mas que, em geral, o que elas conseguem  uma
depresso, no a paz. Ele ensinava constantemente que a austeridade e a renncia - por si
ss - no so aquilo de que voc precisa. Para conhecer Deus, voc s precisa renunciar a
uma coisa -  noo de que  algo distinto de Deus. Fora isso, simplesmente permanea
como foi criado, dentro do seu carter natural.
Ento, qual  o meu carter natural? Adoro estudar neste ashram, mas o meu sonho de
encontrar a divindade passeando silenciosamente por aqui com um sorriso delicado e
etreo - quem  essa pessoa? Provavelmente algum que vi em um programa de TV. A
realidade  que  um pouco triste para mim reconhecer que nunca serei essa pessoa.
Sempre fui to fascinada por essas almas etreas, delicadas. Sempre quis ser a moa
silenciosa. Provavelmente, justamente porque no sou.  o mesmo motivo que me leva a
achar to bonitos cabelos grossos, escuros - justamente porque no os tenho, porque no
posso t-los. Em algum momento, porm,  preciso se contentar com aquilo que se
recebeu e, se Deus quisesse que eu fosse uma moa tmida de cabelos grossos e escuros,
Ele teria me criado assim, mas no criou. Talvez, ento, seja til aceitar como fui criada e
assumir plenamente a mim mesma desse jeito.
Ou ento, como dizia Sexto, o antigo filsofo pitagoriano: "O homem sbio  sempre
semelhante a si mesmo."
Isso no significa que eu no possa ser devota. No significa que eu no possa ser
inteiramente derrubada e soterrada pelo amor de Deus. No significa que eu no possa
servir  humanidade. No significa que no possa melhorar a mim mesma como ser
humano, aprimorando minhas virtudes e trabalhando diariamente para minimizar meus
vcios. Por exemplo, nunca serei uma pessoa calada, mas isso no significa que eu no
possa dar uma boa olhada nos meus hbitos de fala e alterar alguns aspectos,
melhorando-os - trabalhar dentro da minha personalidade. Sim, eu gosto de falar, mas
talvez no precise dizer tantos palavres, e talvez nem sempre precise despertar o riso
fcil, e talvez no precise falar sobre mim mesma de forma to constante. Ou ento, um
conceito mais radical - talvez eu possa parar de interromper os outros quando eles
estiverem falando. Porque, por mais que eu seja criativa no meu hbito de interromper,
no consigo encontrar outra maneira de v-lo que no: "Acho que o que estou dizendo 
mais importante do que o que voc est dizendo." E no consigo encontrar outra maneira
de ver isso que no: "Acho que sou mais importante do que voc." E isso precisa parar.
Todas essas mudanas seriam teis. Mas mesmo assim, mesmo com modificaes
significativas nos meus hbitos de fala, provavelmente jamais serei conhecida como
Aquela Moa Quietinha. Por mais que essa imagem seja atraente, e por mais fora que eu
faa, Porque precisamos ser totalmente honestos em relao a com quem estamos lidando
aqui. Quando a mulher do Centro Seva do ashram me deu minha nova tarefa de
Recepcionista-Chefe, ela disse:
- A gente tem um apelido especial para esse cargo, sabe. Ele  chamado de "A Menininha
dos Doces", porque quem ocupa esse cargo precisa ser socivel, simptico e sorridente o
tempo inteiro.
O que eu poderia dizer?
Simplesmente estendi a mo para apertar a dela, dei um adeus silencioso a todas as
minhas antigas iluses sonhadoras e anunciei:
- Minha senhora, sou a pessoa certa.

65

Para ser exata, o que irei recepcionar  uma srie de retiros que sero realizados no
ashram nesta primavera. Durante cada retiro, cerca de cem devotos do mundo inteiro
viro para c por um perodo de uma semana a dez dias, para aprofundar sua prtica de
meditao. Meu papel  cuidar dessas pessoas durante sua estadia aqui. Na maior parte do
retiro, os participantes ficaro em silncio. Para alguns deles, ser a primeira vez que
usaro o silncio como prtica espiritual, e essa experincia pode ser intensa. No entanto,
serei a nica pessoa no ashram com quem eles tero permisso para falar caso alguma
coisa d errado.
 isso mesmo - o meu trabalho exige oficialmente que eu seja o ponto focal das
conversas.
Escutarei os problemas dos participantes do retiro e, em seguida, tentarei encontrar
solues para eles. Talvez eles precisem trocar de companheiros de quarto por causa de
algum problema de ronco, ou talvez precisem falar com o mdico por causa de algum
problema digestivo relacionado  ndia - eu tentarei resolver. Precisarei saber o nome de
todo mundo e de onde vem cada um. Andarei de um lado para o outro com uma
prancheta, anotando e acompanhando coisas. Eu sou a tia Stella da sua excurso de ioga.
E sim, o cargo inclui um bip.
Quando o retiro comea, fica logo evidente que fui feita para essa tarefa. Estou sentada 
Mesa de Boas-Vindas com meu broche que diz Oi, meu nome , e as pessoas esto
chegando de trinta pases diferentes, algumas delas veteranas, mas muitas nunca
estiveram na ndia antes. So dez da manh e j faz mais de 37C, e a maioria dessas
pessoas passou a noite inteira viajando de nibus. Algumas delas chegam ao ashram
parecendo ter acabado de acordar dentro do porta-malas de um carro - como se no
tivessem a menor idia do que esto fazendo aqui. Qualquer que tenha sido o desejo de
transcendncia que as fez se inscreverem no retiro espiritual, elas j o esqueceram h
muito tempo, provavelmente por volta do momento em que sua bagagem foi extraviada
em Kuala Lumpur. Esto com sede, mas ainda no sabem se podem beber a gua. Esto
com fome, mas no sabem a que horas sai o almoo ou onde fica a cafeteria. Esto
vestidos de forma totalmente errada, com tecidos sintticos e botas pesadas sob o calor
tropical. No sabem se tem algum ali que fale russo.
Eu falo um pouquinho de russo...
Eu posso ajud-los. Tenho tudo que  preciso para ajud-los. Todas as antenas que j
desenvolvi durante a vida e que me ensinaram a ler o que as pessoas esto sentindo, toda
a intuio que desenvolvi enquanto crescia como a ultra-sensvel caula da famlia, todas
as habilidades de escuta que aprendi como barwoman interessada e jornalista curiosa,
toda a cuidadosa ateno que aperfeioei depois de anos sendo a mulher ou a namorada
de algum - tudo isso foi acumulado de modo que eu pudesse ajudar essas pobres pessoas
na difcil tarefa a que elas se propuseram. Vejo-as chegarem do Mxico, das Filipinas, da
frica, da Dinamarca, de Detroit, e parece aquela cena em Contatos Imediatos do
Terceiro Grau em que Richard Dreyfuss e todas aquelas outras pessoas em busca de
extraterrestres so levados at o meio do Wyoming por motivos que no entendem,
atrados pela chegada da nave espacial. Fico maravilhada com a coragem dessas pessoas.
Elas deixaram suas famlias e suas vidas para trs durante algumas semanas para fazer
um retiro silencioso na companhia de completos desconhecidos na ndia. Nem todo
mundo faz isso ao longo da vida.
Eu amo todas essas pessoas, de forma automtica e incondicional. Amo at mesmo os
chatos. Posso desvendar suas neuroses e reconhecer que tudo que eles sentem  um medo
terrvel do que vo encontrar quando iniciarem os sete dias de silncio e meditao. Amo
o indiano que vem ao meu encontro indignado, dizendo que no seu quarto h uma esttua
do deus Ganesh de mais de um metro de altura  qual falta um p. Ele est furioso, acha
que isso  um mau pressgio horrvel e quer que retirem a esttua - idealmente quer que
isso seja feito por um sacerdote brmane durante uma cerimnia de purificao
"tradicionalmente adequada". Eu o reconforto e escuto sua raiva, e em seguida mando
minha amiga adolescente moleca, Tulsi, ir at o quarto do cara livrar-se da esttua
enquanto ele estiver almoando. No dia seguinte, passo um recado para o homem,
dizendo-lhe que espero que ele esteja se sentindo melhor agora que a esttua quebrada se
foi e lembrando-lhe que estou aqui caso ele precise de qualquer outra coisa; ele me
retribui com um sorriso gigantesco e aliviado. Est apenas com medo. A francesa que
quase tem um ataque de pnico por causa de suas alergias ao glten - ela tambm est
com medo. O argentino que quer uma reunio especial com a equipe inteira do
departamento de hatha ioga para que lhe dem conselhos sobre como se sentar
adequadamente durante a meditao de modo que seu tornozelo no doa; ele s est com
medo. Todos eles esto com medo. Eles vo adentrar o silncio, vo mergulhar
profundamente em suas mentes e almas. Mesmo para um meditador experiente, nada 
mais desconhecido do que esse territrio. Qualquer coisa pode acontecer a. Durante esse
retiro, eles sero guiados por uma mulher maravilhosa, uma monja de cinqenta e poucos
anos, de quem cada gesto e cada palavra so a personificao da compaixo, mas mesmo
assim eles tm medo, porque - por mais amorosa que seja essa monja - ela no pode
acompanh-los ao lugar aonde esto indo. Ningum pode.
Quando o retiro estava comeando, por acaso recebi pelo correio uma carta de um amigo
americano que filma animais selvagens para a National Geographic. Ele me disse que
acabava de ir a um jantar elegante no hotel Waldorf-Astoria, em Nova York, em
homenagem aos membros do Clube dos Exploradores. Disse que era fantstico estar
diante de pessoas to corajosas, todas as quais haviam arriscado as vidas tantas vezes
para descobrir as mais distantes e perigosas cordilheiras, desfiladeiros, rios, oceanos,
falhas ocenicas, geleiras e vulces. Disse que muitos deles haviam perdido pedacinhos
de si mesmos - artelhos, narizes e dedos sacrificados ao longo dos anos a tubares,
gangrena e outros perigos.
"Nunca se viu tantas pessoas corajosas reunidas no mesmo lugar ao mesmo tempo",
escrevia ele.
Pensei comigo mesma: Voc no viu nada, Mike.

66

O tema do retiro, e seu objetivo,  o estado de turiya - o fugidio quarto nvel da
conscincia humana. Segundo os iogues, durante a experincia humana tpica, a maioria
de ns est sempre transitando entre trs nveis diferentes de conscincia - acordado,
sonhando ou imerso em um sono profundo e sem sonhos. Mas existe tambm um quarto
nvel. Esse quarto nvel  a testemunha de todos os outros trs estados, a conscincia
integral que liga os trs outros estados entre si. Trata-se da conscincia pura, uma
conscincia inteligente que pode - por exemplo - relatar-lhe seus prprios sonhos pela
manh, quando voc acorda. Voc estava apagado, estava dormindo, mas algum
observava seus sonhos enquanto voc dormia - quem era essa testemunha? E quem 
aquela que est sempre em p afastada da atividade da mente, observando seus
pensamentos?  simplesmente Deus, dizem os iogues. E, se voc conseguir atingir esse
estado de testemunha-conscincia, ento poder estar presente com Deus o tempo todo.
Essa conscincia e experincia constante da presena-Deus dentro de voc s pode
ocorrer no quarto nvel da conscincia humana, chamado turiya.
Eis como voc pode saber se atingiu o estado de turiya - se estiver em um estado
constante de contentamento. Algum que vive em turiya no  afetado pelos humores
inconstantes da mente, tampouco teme o tempo ou  prejudicado pela perda. "Puro,
limpo, vazio, tranqilo, sem ar, sem eu, sem fim, sem corrupo, constante, eterno, que
nunca nasceu, independente, ele reside em sua prpria grandeza", dizem os Upanishads,
as antigas escrituras iogues, descrevendo qualquer um que tenha atingido o estado de
turiya. Os grandes santos, os grandes Gurus, os grandes profetas da histria - todos eles
viviam o tempo inteiro no estado de turiya. Quanto ao restante de ns, a maioria tambm
j esteve l, mesmo que apenas por breves e efmeros instantes. A maioria de ns,
mesmo que apenas por dois minutos de nossas vidas, vivenciou em algum momento uma
sensao inexplicvel e completa de total contentamento, em nada relacionada ao que
acontecia no mundo externo. Em um instante, voc  apenas uma pessoa normal,
arrastando-se por sua vida mundana, e ento, de repente -- o que  isso? -- nada mudou,
e, no entanto, voc se sente tocado pela graa, inflado de assombro, transbordante de
felicidade. Tudo - absolutamente sem nenhum motivo -- est perfeito.
 claro que, para a maioria de ns, esse estado passa com a mesma rapidez com que
chegou.  quase como se lhe mostrassem sua perfeio interior para provoc-lo, e em
seguida voc cai de volta na "realidade" muito depressa, desabando encolhido outra vez
por cima de todas as suas antigas preocupaes e desejos. Ao longo dos sculos, as
pessoas tentaram se agarrar a esse estado de perfeio e contentamento por meio de todo
tipo de recurso externo - drogas, sexo, poder, adrenalina, acmulo de coisas sem
importncia -, mas ele no se mantm. Ns buscamos a felicidade por toda parte, mas
somos como o mendigo da fbula de Tolstoi, que passou a vida sentado em cima de um
pote de dinheiro, mendigando centavos de todos os passantes, sem saber que sua fortuna
estava bem debaixo dele o tempo todo. O seu tesouro - a sua perfeio - j est dentro de
voc. Porm, para acess-lo, voc precisa deixar para trs o frenesi da mente e abandonar
os desejos do ego, e adentrar o silncio do corao. A kundalini shakti - a energia
suprema do divino - levar voc at isso.
Foi por esse motivo que toda essa gente veio para c.
Quando escrevi essa frase pela primeira vez, o que quis dizer com ela foi: "Foi por esse
motivo que esses cem participantes do retiro, vindos do mundo inteiro, vieram parar neste
ashram na ndia." Na verdade, porm, os santos e filsofos iogues teriam concordado
com o escopo da minha primeira afirmao: "Foi por esse motivo que toda essa gente
veio para c." Segundo os msticos, essa busca pelo contentamento divino  o propsito
da vida humana.  por isso que todos ns escolhemos nascer, e  por isso que todo o
sofrimento e toda a dor da vida sobre a Terra valem a pena - somente pela oportunidade
de vivenciar esse amor infinito. E, depois de encontrar essa divindade interior, voc ser
capaz de conserv-la? Porque, se for... contentamento.
Passo o retiro inteiro no fundo do templo, observando os participantes, enquanto eles
meditam  meia-luz e em completo silncio. Minha tarefa  zelar por seu conforto,
prestando muita ateno para ver se algum est com problemas ou precisa de ajuda.
Todos eles fizeram votos de silncio enquanto durar o retiro, e a cada dia posso senti-los
mergulhar mais fundo nesse silncio, at o ashram inteiro embeber-se de sua
imobilidade. Por respeito aos participantes do retiro, ns todos agora passamos nossos
dias andando na ponta dos ps e fazemos at as refeies em silncio. Todos os vestgios
de carter desapareceram. At eu estou calada. Agora reina por aqui um silncio digno da
alta madrugada, aquela ausncia de tempo silenciosa que voc geralmente s vivncia por
volta das trs horas da manh, quando est totalmente sozinho - e, no entanto, essa
ausncia perdura sob a luz do dia e  abraada por todo o ashram.
Enquanto essas cem almas meditam, no fao idia do que esto pensando ou sentindo,
mas sei o que querem vivenciar, e vejo-me em estado constante de prece a Deus em seu
nome, fazendo para eles acordos estranhos como: Por favor, d a essas pessoas
maravilhosas todas as bnos que voc tiver guardado para mim. Minha inteno no 
entrar em meditao ao mesmo tempo que os participantes do retiro esto meditando.
Minha tarefa  ficar de olho neles, sem me preocupar com minha prpria jornada
espiritual. A cada dia, porm, vejo-me carregada pelas ondas de sua inteno coletiva de
devoo, mais ou menos como determinadas aves de rapina so capazes de cavalgar as
correntes trmicas que sobem da terra e que as elevam muito mais alto no ar do que elas
jamais poderiam ter voado com a fora de suas asas. Ento, provavelmente no  de
espantar que seja esse o momento em que acontece. Em uma tarde de quinta-feira, no
fundo do templo, bem no meio de minhas tarefas como Recepcionista-Chefe, de crach e
tudo - sou repentinamente transportada pelo portal do universo e levada ao centro da
palma da mo de Deus.
67

Como leitora e discpula, sempre fico frustrada nesse ponto das memrias espirituais de
outra pessoa - o momento em que a alma pede licena do tempo e do espao e se funde
ao infinito. De Buda a Santa Teresa, aos msticos sufistas,  minha prpria Guru - muitas
grandes almas, ao longo dos sculos, tentaram expressar em palavras a sensao de unir-
se ao divino, mas nunca fico totalmente satisfeita com essas descries. Muitas vezes,
voc ver o enlouquecedor adjetivo indescritvel usado para descrever esse
acontecimento. Mas at mesmo os mais eloqentes reprteres da experincia de devoo
- como Rumi, que escreveu sobre ter abandonado todo esforo e se amarrado  manga de
Deus, ou Hafiz, que disse que ele e Deus haviam se transformado em dois homens gordos
em um barquinho - "estamos sempre esbarrando um no outro e rindo" -, nem mesmo
esses poetas me satisfazem. No quero ler sobre isso; quero sentir tambm. Sri Ramana
Maharshi, um guru indiano muito querido, costumava dar longas palestras para seus
alunos sobre a experincia transcendental, e sempre terminava com a instruo: "Agora
vo descobrir."
Ento, agora, eu descobri. E no quero dizer que o que senti naquela tarde de quinta-feira
na ndia foi indescritvel, embora tenha sido. Mesmo assim, vou tentar explicar. Para
dizer de uma forma simples, fui sugada pelo buraco negro do absoluto e, nesse turbilho,
subitamente entendi por completo o funcionamento do universo. Sa do meu corpo, sa do
aposento, sa do planeta, passei atravs do tempo e entrei no vcuo. Eu estava dentro do
vcuo, mas tambm era o vcuo, e estava olhando o vcuo, tudo ao mesmo tempo. O
vcuo era um lugar de paz e sabedoria ilimitadas. O vcuo era consciente e inteligente. O
vcuo era Deus, o que significa que eu estava dentro de Deus. Mas no de uma forma
grosseira e fsica - no como se eu fosse Liz Gilbert cravada dentro do msculo da coxa
de Deus. Eu simplesmente fazia parte de Deus. Alm de ser Deus. Eu era, ao mesmo
tempo, um pedacinho do universo e exatamente do mesmo tamanho que o universo.
("Todos sabem que a gota se mistura ao oceano, mas poucos sabem que o oceano se
mistura  gota , escreveu o sbio Kabir - e hoje posso afirmar, por experincia prpria,
que isso  verdade.)
O que eu estava sentindo no era alucingeno. Era o mais bsico dos acontecimentos. Era
o paraso, sim. Era o amor mais profundo que eu j havia vivenciado, alm de qualquer
coisa que eu poderia ter imaginado antes, mas eu no estava eufrica. Aquilo no era
emocionante. No havia em mim ego ou paixo suficiente para criar euforia e excitao.
Era apenas bvio. Como quando se est olhando para uma iluso de ptica h muito
tempo, forando os olhos para desvendar o truque, e de repente sua cognio muda, e
pronto - agora voc est vendo claramente! -, os dois vasos, na verdade, so dois rostos.
E, depois de desvendar a iluso de ptica, voc nunca mais consegue deixar de v-la.
"Ento isto  Deus", pensei. "Parabns em conhec-lo."
O lugar onde eu estava no poderia ser descrito como algum local terreno. No era nem
escuro nem claro, nem pequeno nem grande. Tampouco era um lugar, nem eu estava
tecnicamente l, nem eu era mais exatamente "eu". Ainda tinha meus pensamentos, mas
estes eram muito modestos, silenciosos e observadores. No apenas eu sentia uma
compaixo e uma unidade infinita com tudo e todos, mas era vaga e curiosamente
estranho para mim perguntar-me como algum podia, algum dia, sentir outra coisa que
no aquilo. Eu tambm me sentia levemente seduzida por minhas antigas idias sobre
quem sou e como sou. Sou mulher, sou americana, sou falastrona, sou escritora - tudo
isso parecia to engraadinho e obsoleto. Imaginem contorcer-se para caber em uma
caixinha bem pequenininha de identidade, quando voc pode, em vez disso, vivenciar a
sua infinitude.
Perguntei-me: "Por que passei toda a minha vida correndo atrs da felicidade, quando o
contentamento estava aqui o tempo todo?"
No sei por quanto tempo fiquei pairando nesse esplndido ter de unio antes de ter um
pensamento sbito e urgente: "Eu quero manter essa experincia para sempre!" E foi
ento que comecei a sair dela. Bastaram duas palavrinhas - Eu quero! -, e comecei a
escorregar de volta para a Terra. Ento minha mente comeou a protestar de verdade -
No!Eu no quero sair daqui! -, e eu escorreguei ainda mais.
Eu quero!
Eu no quero!
Eu quero!
Eu no quero!
A cada repetio desses pensamentos desesperados, eu podia me sentir despencar atravs
de sucessivas camadas de iluso, como um protagonista de um filme de comdia
despencando por uma dzia de toldos de lona ao cair de um prdio. Essa volta do desejo
intil estava me trazendo outra vez de volta a minhas prprias pequenas fronteiras, meus
prprios confins mortais, meu mundo limitado de histria em quadrinhos. Vi meu ego
voltar da mesma forma que se v uma fotografia Polaroid surgir, mais definida a cada
instante que passa - primeiro um rosto, depois as linhas ao redor da boca, depois as
sobrancelhas - sim, agora est completa: eis um retrato do meu antigo eu normal. Senti
um estremecimento de pnico, levemente arrasada por ter perdido aquela experincia
divina. Mas, exatamente em paralelo a esse pnico, pude sentir uma testemunha, um eu
mais sbio e mais velho, que simplesmente sacudiu a cabea e sorriu, sabendo o seguinte:
se eu acreditava que aquele estado de contentamento fosse algo que pudesse ser tirado de
mim, ento era bvio que eu ainda no o compreendia. E, portanto, ainda no estava
pronta para habit-lo completamente. Precisaria praticar mais. Foi nesse instante de
compreenso que Deus me soltou, e deixou-me deslizar por entre os Seus dedos com esta
derradeira mensagem de compaixo, transmitida sem palavras:
Voc poder voltar para c quando tiver compreendido totalmente que sempre est aqui.

68

O retiro terminou dois dias depois, e todos saram do silncio. Recebi muitos abraos de
pessoas me agradecendo por t-las ajudado.
"Ah, no! Sou eu quem agradeo!", eu no parava de dizer, frustrada ao ver como essas
palavras soavam inadequadas, como era impossvel expressar uma gratido irrestrita por
eles terem me elevado a uma altura to colossal.
Outros cem discpulos chegaram uma semana depois para mais um retiro, e os
ensinamentos, as corajosas tentativas de penetrar em si mesmos e o silncio que a tudo
encobria se repetiram com a prtica dessas novas almas. Cuidei delas tambm e tentei
ajud-las de todas as maneiras possveis, e tambm tornei a deslizar para a turiya algumas
vezes em sua companhia. Depois, todo que conseguia fazer era rir, quando muitos deles
saam de suas meditaes e me diziam que eu havia representado para eles, durante o
retiro, uma "presena silenciosa, deslizante, etrea". Ento seria essa a ltima brincadeira
que o ashram estava fazendo comigo? Depois de eu aprender a aceitar minha natureza
social exuberante e falastrona, e de assumir sem restries minha Recepcionista-Chefe
interna - s ento, afinal,  que eu poderia me tornar a Moa Quietinha do Fundo do
Templo?
Durante minhas ltimas semanas aqui, o ashram impregnou-se de uma sensao de certa
forma melanclica, como nos ltimos dias de um acampamento de vero. Parecia que, a
cada manh, mais pessoas e mais bagagem subiam em algum nibus e iam embora.
Estvamos quase em maio, o incio da estao mais quente na ndia, e o ritmo do lugar
ficaria mais lento durante algum tempo. No haveria mais retiros, de forma que fui
novamente realocada, e passei a trabalhar no Escritrio de Inscries, onde tinha a tarefa
um pouco triste de "despedir" oficialmente todos os meus amigos no computador depois
de eles terem ido embora do ashram.
Eu dividia a sala com uma ex-cabeleireira nova-iorquina de Madison Avenue, muito
divertida. Fazamos as preces matutinas juntas, somente as duas entoando nosso cntico a
Deus.
- Voc acha que hoje a gente consegue acelerar o ritmo deste hino? - perguntou a
cabeleireira certa manh. - E talvez subir uma oitava? Para eu no ficar parecendo uma
verso espiritual do Count Basie?
Agora tenho passado bastante tempo sozinha aqui. Passo de quatro a cinco horas por dia
nas cavernas de meditao. J consigo ficar sentada na minha prpria companhia durante
horas a fio,  vontade na presena de mim mesma. Sem me deixar perturbar por minha
prpria existncia no planeta. Algumas vezes, minhas meditaes so experincias
surreais e fsicas de shakti -- cheias de tores de coluna e de um frenesi de ferver o
sangue. Tento ceder a isso com o mnimo de resistncia possvel. Outras vezes, sinto um
contentamento agradvel, tranqilo, e tudo bem tambm. As frases ainda se formam na
minha mente, e os pensamentos ainda fazem sua dancinha exibicionista, mas agora
conheo to bem meus padres de pensamento que eles no me incomodam mais. Meus
pensamentos se transformaram em algo como velhos vizinhos, um pouco chatos mas, no
fim das contas, fofinhos at - o Sr. e a Sra. Papap-pepe-p e seus trs filhos bobes, Bl,
Bl e Bl. Mas eles no bagunam a minha casa. H lugar para todos ns neste bairro.
Quanto a quaisquer outras mudanas que possam ter ocorrido dentro de mim durante os
ltimos meses, talvez eu ainda sequer consiga senti-las. Meus amigos que estudam ioga
h muito tempo dizem que voc no percebe o impacto que um ashram teve em voc at
sair de l e voltar para sua vida normal. " s ento , disse a ex-freira sul-africana, "que
voc comea a perceber que os seus armrios internos foram todos rearrumados."  claro
que, neste exato momento, no tenho muita certeza de qual seja minha vida normal.
Quero dizer, eu talvez esteja prestes a ir morar com um velho xam indonsio - ser que 
essa a minha vida normal? Pode ser, quem sabe? De toda forma, porm, meus amigos
dizem que a mudana s aparece depois. Voc pode constatar que obsesses de uma vida
toda desapareceram, ou que padres ruins, indissolveis enfim se modificaram. Irritaes
mesquinhas que costumavam enlouquec-lo no representam mais um problema,
enquanto antigas infelicidades colossais, que voc outrora suportava por hbito, agora
no sero mais toleradas sequer durante cinco minutos. Relacionamentos venenosos so
arejados ou descartados, e pessoas mais solares, mais benficas, comeam a entrar no seu
mundo.
Na noite passada, no consegui dormir. No por ansiedade, mas por causa de um intenso
prazer antecipado. Vesti-me e sa para caminhar pelos jardins. A lua estava cheia,
esplendorosa, e pairava bem acima de mim, espalhando uma luz prateada por toda parte.
O ar estava perfumado com jasmim e tambm com o aroma estonteante do arbusto
cheiroso e florido que existe por aqui e que s floresce  noite. O dia havia sido mido e
quente, e agora estava apenas levemente menos mido e quente. O ar morno se movia 
minha volta, e eu percebi: "Estou na ndia!"
Estou de sandlia e estou na ndia!
Comecei a correr, galopando para longe da trilha e descendo at a campina, simplesmente
varando aquele mar de grama iluminado pelo luar. Sentia meu corpo muito vivo, muito
saudvel depois daqueles meses todos de ioga, comida vegetariana e noites indo dormir
cedo. Minhas sandlias sobre a grama macia e molhada de orvalho faziam o seguinte
barulho: ship-ship-ship, e esse era o nico som em todo o vale. Fiquei to exultante que
corri direto para o bosque de eucaliptos no meio do terreno (onde diziam que ficava um
antigo templo em homenagem ao deus Ganesh - o removedor de obstculos), e lancei os
braos em volta de uma daquelas rvores, ainda morna do calor do dia, e beijei-a com
paixo. Quero dizer, beijei aquela rvore com todo meu corao, sem sequer pensar, na
hora, que esse  o grande pesadelo de todos os pais americanos cujos filhos jamais
fugiram para a ndia para encontrar a si mesmos - que eles acabem fazendo orgias com
rvores ao luar.
Mas aquele amor que eu sentia era puro. Era divino. Olhei em volta para o vale escuro e
no consegui ver nada que no fosse Deus. Sentia-me profunda, incrivelmente feliz.
Pensei comigo mesma: "O que quer que seja este sentimento -  por isso que tenho
rezado. E tambm  para isso que tenho rezado."

69

Falando nisso, encontrei minha palavra.
Encontrei-a na biblioteca,  claro, como boa rata de livros que sou. Eu vinha pensando
em qual seria minha palavra desde aquela tarde l em Roma, quando meu amigo italiano
Giulio me dissera que a palavra de Roma  SEXO e perguntara qual era a minha. Na
poca eu no sabia a resposta, mas j imaginei que minha palavra acabaria aparecendo, e
que eu a reconheceria quando a visse.
Ento eu a vi durante minha ltima semana no ashram. Estava lendo um texto antigo
sobre ioga quando encontrei uma descrio de antigos discpulos espirituais. Uma palavra
em snscrito aparecia no pargrafo: ANTEVASIN. Significa "aquele que mora na
fronteira". Antigamente, essa era uma descrio literal. Significava algum que havia
abandonado o centro agitado da vida mundana para ir morar no limite da floresta, onde
viviam os mestres espirituais. O antevasin deixava de ser um aldeo - no era uma pessoa
com uma vida convencional. Mas ele tambm no era um transcendente - no era um
daqueles sbios que vivem bem l no fundo das matas intocadas, plenamente realizados.
O antevasin era algum que vivia no meio. Era um habitante da fronteira. Vivia em um
lugar de onde podia ver os dois mundos, mas olhava rumo ao desconhecido. E era um
estudioso.
Quando li essa descrio do antevasin, fiquei to entusiasmada que soltei um pequeno
grunhido de reconhecimento. Essa  a minha palavra, cara! Na poca moderna,  claro,
essa floresta virgem teria de ser em sentido figurado, e a fronteira tambm. Mas ainda 
possvel viver a. Ainda  possvel viver nessa linha tremeluzente entre seus velhos
pensamentos e sua nova compreenso, em um eterno estado de aprendizagem. No sentido
figurado, trata-se de uma fronteira que est sempre em movimento - conforme voc
avana em seus estudos e em suas realizaes, essa floresta misteriosa do desconhecido
est sempre alguns metros  sua frente, de modo que voc precisa viajar com pouca
bagagem para conseguir acompanh-la. Precisa manter-se mvel, malevel, flexvel.
Escorregadio, at. O que  engraado, pois, no dia anterior, meu amigo, o poeta/bombeiro
da Zelndia, havia ido embora do ashram e, quando estava passando pela porta,
entregara-me um simptico poema de despedida sobre a minha viagem. Lembro-me da
seguinte estrofe:

Elizabeth, nem isso nem aquilo
Ditos da Itlia e sonhos de Bali,
Elizabeth, nem aquilo nem isso
s vezes como um peixe arisco...

Durante estes ltimos anos, passei muito tempo perguntando-me o que devo ser. Esposa?
Me? Amante? Celibatria? Italiana? Glutona? Viajante? Artista? Iogue? Mas no sou
nenhuma dessas coisas, pelo menos no completamente. E tambm no sou a Maluca da
Tia Liz. Sou apenas uma arisca antevasin - nem isso nem aquilo - uma aprendiz da
fronteira em eterna mutao, prxima  floresta maravilhosa e assustadora do novo.

70

Eu acredito que todas as religies do mundo compartilham, em seu mago, um desejo de
encontrar uma metfora para se transportar. Quando voc quer alcanar a comunho com
Deus, o que voc est tentando fazer, na verdade,  afastar-se do mundano rumo ao
eterno (do vilarejo rumo  floresta, pode-se dizer, para continuar na temtica do
antevasin), e precisa de algum tipo de idia magnfica para transport-lo at l. Essa
metfora precisa ser grande - realmente grande, mgica e poderosa, porque precisa
carregar voc por uma distncia enorme. Ela tem de ser o maior barco que se possa
imaginar.
Os rituais religiosos muitas vezes nascem da experimentao mstica. Algum corajoso
explorador sai  procura de um novo caminho rumo ao divino, tem uma experincia
transcendente e volta para casa profeta. Ele ou ela traz de volta para a comunidade
histrias do paraso e um mapa que ensina a chegar l. Os outros repetem as palavras, as
aes, as preces e os atos desse profeta, de forma a passarem, eles tambm, para o outro
lado. Algumas vezes conseguem - algumas vezes, a mesma conhecida combinao de
slabas e prticas de devoo, repetida ao longo das geraes, pode levar muitas pessoas
para o outro lado. Algumas vezes, porm, isso no funciona. Inevitavelmente, at mesmo
as idias mais originais acabaro endurecendo e se transformando em dogma, ou pararo
de funcionar para todo mundo.
Os indianos desta regio repetem uma fbula de alerta sobre um grande santo que estava
sempre cercado, em seu ashram, por devotos leais. Durante horas por dia, o santo e seus
seguidores meditavam sobre Deus. O nico problema era que o santo tinha um gato
jovem, uma criatura irritante, que costumava atravessar o templo miando, ronronando e
incomodando todo mundo durante a meditao. Ento o santo, com toda sua sabedoria
prtica, ordenou que o gato fosse amarrado a um poste do lado de fora durante algumas
horas por dia, apenas enquanto durasse a meditao, para no incomodar ningum. Isso
se tornou um hbito - amarrar o gato ao poste e, em seguida, meditar sobre Deus - mas,
com o passar dos anos, o hbito se consolidou, transformando-se em um ritual religioso.
Ningum conseguia meditar a menos que o gato fosse amarrado ao poste primeiro. Ento,
um dia, o gato morreu. Os discpulos do santo entraram em pnico. Foi uma enorme crise
religiosa - como poderiam meditar agora sem um gato para amarrar no poste? Como
conseguiriam alcanar Deus? Em suas mentes, o gato tornara-se o meio.
Tomem muito cuidado, alerta essa histria, para no se tornarem obcecados demais com
o ritual religioso por si s. Sobretudo neste mundo dividido, onde o talib e a coalizo
crist seguem travando sua guerra internacional de patentes para resolver quem detm os
direitos em relao  palavra Deus, e quem tem os rituais adequados para alcanar esse
Deus, pode ser til lembrar que amarrar o gato ao poste nunca levou ningum 
transcendncia, mas sim o desejo individual constante de um discpulo de vivenciar a
eterna compaixo do divino. A flexibilidade  to essencial para a divindade quanto a
disciplina.
A sua tarefa, portanto, se voc decidir aceit-la,  prosseguir em sua busca pelas
metforas, rituais e mestres que o ajudem a se aproximar ainda mais da divindade. As
escrituras iogues dizem que Deus reage s preces sagradas e aos esforos dos seres
humanos, qualquer que seja a maneira como os mortais decidirem vener-lo - contanto
que as preces sejam sinceras. Como sugere uma linha dos Upanishads: "As pessoas
seguem caminhos diferentes, retos ou tortuosos, de acordo com seu temperamento,
dependendo daquilo que julgam ser melhor, ou mais apropriado - e todas alcanam Voc,
da mesma forma que os rios desaguam no oceano."
O outro objetivo da religio,  claro,  tentar compreender o sentido de nosso mundo
catico e explicar as coisas inexplicveis que vemos espalhadas pela Terra todos os dias:
o sofrimento dos inocentes, a recompensa dos malvados - que sentido tem tudo isso? A
tradio ocidental diz: "Tudo ir se resolver aps a morte, no cu e no inferno." (E a
justia ser distribuda,  claro, por aquilo que James Joyce costumava chamar de "Deus
Carrasco" - uma figura paterna que fica sentada em Seu severo trono de justia, punindo
o mal e recompensando o bem.) No Oriente, porm, os Upanishads rejeitam qualquer
tentativa de dar sentido ao caos do mundo. Eles sequer tm certeza de que o mundo 
catico, mas sugerem que ele talvez s nos parea assim por causa de nossa viso
limitada. Esses textos no prometem justia nem vingana para ningum, embora de fato
digam que toda ao gera conseqncias - portanto, escolha seu comportamento segundo
essa afirmao. Mas talvez voc s veja essas conseqncias bem mais tarde. O ioga
pensa sempre a longo prazo. Alm do mais, os Upanishads sugerem que o suposto caos
pode, na verdade, ter uma funo divina, mesmo que voc pessoalmente no consiga
reconhec-la agora: "Os deuses gostam do crtico e desdenham o evidente." O melhor que
podemos fazer em relao a nosso mundo incompreensvel e perigoso, portanto, 
praticar o equilbrio interno - por maior que seja a insanidade que exista do lado de fora.
Sean, meu iogue irlands criador de gado leiteiro, explicou-me isso da seguinte maneira:
"Imagine que o universo  uma imensa mquina giratria", disse ele. "Voc quer ficar
perto do centro da mquina -- bem no eixo da roda -, e no nas extremidades, onde os
giros so mais violentos, onde voc pode se assustar e enlouquecer. O eixo da calma fica
no seu corao.  a que Deus reside dentro de voc. Ento, pare de procurar respostas no
mundo. Simplesmente retorne sempre a esse centro, e sempre vai encontrar a paz."
Nada nunca fez mais sentido para mim, espiritualmente falando, do que essa idia. Ela
funciona para mim. E, se eu algum dia encontrar alguma coisa que funcione melhor,
garanto a vocs que vou us-la.
Tenho muitos amigos em Nova York que no so religiosos. A maioria deles, eu diria.
Ou afastaram-se dos ensinamentos espirituais de sua juventude, ou ento j foram criados
sem nenhum Deus. Naturalmente, alguns deles ficaram assustadssimos com meus
recentes esforos para alcanar a santidade. Houve piadas,  claro. Como brincou meu
amigo Bobby, enquanto tentava consertar meu computador: "No quero ofender a sua
aura, mas voc continua sem saber porra nenhuma sobre baixar programas." Levo as
piadas na esportiva. Tambm acho isso engraado.  claro que .
O que vejo em alguns dos meus amigos, porm,  medida que envelhecem,  um desejo
de ter alguma coisa em que acreditar. Mas esse desejo se depara com um sem-nmero de
obstculos, incluindo seu intelecto e seu bom-senso. Apesar de todo seu intelecto, porm,
essas pessoas ainda vivem em um mundo frentico, dominado por uma srie de espasmos
violentos, devastadores e inteiramente desprovidos de sentido. A vida de todas essas
pessoas inclui experincias grandiosas e terrveis, sejam elas de sofrimento ou alegria,
assim como a vida do restante de ns, e mas megaexperincias tendem a nos fazer ansiar
por um contexto espiritual onde expressar lamento ou gratido, ou buscar entendimento.
O problema  - o que venerar, para quem orar?
Tenho um amigo querido cujo primeiro filho nasceu logo depois da morte de sua amada
me. Depois dessa confluncia de milagre e perda, meu amigo sentiu o desejo de ter
algum tipo de lugar sagrado para ir, algum ritual para executar, de modo a lidar com toda
aquela emoo. Meu amigo era catlico de criao, mas no suportava a idia de voltar a
essa igreja depois de adulto. ("No consigo mais acreditar nela", dizia ele, "sabendo o que
sei.") Ele ficaria envergonhado,  claro, de se tornar hindusta ou budista, ou algo
esquisito assim. Ento, o que poderia fazer? Conforme me disse, "No d para sair por a
catando qualquer religio".
Respeito inteiramente esse sentimento, a no ser pelo fato de discordar totalmente dele.
Acho que voc tem todo o direito de sair por a catando aquilo que ir comover seu
esprito e lhe permitir encontrar a paz em Deus. Acho que voc  livre para procurar
qualquer metfora que o faa ir alm das fronteiras do mundo at o lugar onde voc
precisa chegar para ser transportado ou reconfortado. No h nada de que se envergonhar.
Essa  a histria da busca da humanidade por santidade. Caso a humanidade nunca
houvesse avanado nessa explorao do divino, muitos de ns ainda estariam venerando
esttuas douradas egpcias de gatos. E essa evoluo do pensamento religioso supe uma
grande quantidade de escolha. Voc escolhe o que quer que funcione para voc, onde
puder encontr-lo, e segue andando na direo da luz.
Os ndios hopi acreditavam que cada uma das religies do mundo continha um fio
espiritual, e que esses fios estavam sempre  procura uns dos outros, buscando unir-se.
Quando todos os fios finalmente se entrelaarem, iro formar uma corda que nos iar
para fora deste sombrio crculo de histria, rumo ao outro mundo. Mais
contemporaneamente, o Dalai Lama repetiu essa mesma idia, assegurando
repetidamente aos discpulos ocidentais que eles no precisavam se tornar budistas
tibetanos para serem seus discpulos. Ele os deixa  vontade para pegar quaisquer idias
do budismo tibetano e integrar essas idias a suas prprias prticas religiosas. Mesmo nos
lugares mais improvveis e conservadores possveis, voc s vezes consegue encontrar
essa idia cintilante de que Deus talvez seja maior do que nos ensinaram nossas doutrinas
religiosas limitadas. Em 1954, o papa Pio XI, logo ele, enviou uma delegao do
Vaticano  Lbia com as seguintes instrues escritas: "NO pensem que esto indo
encontrar infiis. Os muulmanos tambm alcanam a salvao. Os caminhos da
Providncia so infinitos."
Mas ser que isso no faz sentido? O infinito poder ser, de fato... infinito? E at mesmo o
mais sagrado entre ns ser capaz de ver apenas pedaos dispersos do quadro inteiro, a
qualquer momento que se considere? E talvez se conseguirmos reunir esses pedaos e
compar-los, possamos comear a ver surgir uma histria sobre Deus que se parea com
todos e que inclua a todos? E ser que a nossa busca individual por transcendncia no 
apenas parte dessa busca humana maior pela divindade? Ser que cada um de ns no
tem o direito de no parar de procurar at chegar o mais perto possvel da origem do
assombro? Mesmo que isso signifique ir  ndia e passar algum tempo beijando rvores
ao luar?
Em outras palavras, essa sou eu. Sou eu quem est em cena. Escolhendo minha religio.

71

Meu vo sai s quatro da manh, algo tpico da maneira como a ndia funciona. Decido
no dormir e passar a noite inteira em uma das cavernas de meditao, orando. No sou
algum que goste de ficar acordado at tarde, mas alguma coisa em mim quer passar
essas ltimas horas no ashram acordada. Muitas coisas na vida j me fizeram passar a
noite sem dormir - fazer amor, discutir com algum, dirigir por longas distncias, danar,
chorar, preocupar-me (e algumas vezes, na verdade, todas essas coisas ao longo de uma
mesma noite) -, mas nunca sacrifiquei meu sono por uma noite exclusivamente dedicada
 prece. Por que no agora?
Fao minha mala e a deixo prxima ao porto do templo, de modo a poder peg-la com
facilidade e sair quando o txi chegar, antes do amanhecer. Em seguida, subo a colina,
entro na caverna de meditao e sento-me. Estou sozinha l dentro, mas sento-me em um
lugar de onde posso ver a grande fotografia de Swamiji, o mestre da minha Guru,
fundador deste ashram, o leo que h muito j partiu mas que, de alguma forma, ainda
est aqui. Fecho os olhos e deixo o mantra vir. Vou descendo rumo a meu prprio eixo de
silncio. Ao chegar l, posso sentir o mundo parar, do modo como eu sempre quis que
parasse, quando tinha 9 anos de idade e estava em pnico com a incessante passagem do
tempo. Em meu corao, o relgio pra, e as pginas do calendrio param de sair voando.
Fico sentada em silncio, assombrada com tudo que compreendo. No estou orando
ativamente. Eu me tornei uma prece.
Posso passar a noite inteira sentada ali.
Na verdade,  isso que fao.
No sei o que me avisa quando  hora de ir pegar meu txi, mas, depois de vrias horas
de imobilidade, alguma coisa me d um cutuco e, quando olho para o relgio, est bem
na hora de ir. Agora preciso voar para a Indonsia. Como isso  engraado e estranho.
Ento me levanto e fao uma mesura diante da fotografia de Swamiji - o mando, o
maravilhoso, o terrvel. Em seguida, deslizo um pedao de papel sob o tapete, bem
embaixo de sua imagem. No papel esto dois poemas que escrevi durante meus quatro
meses na ndia. So os primeiros poemas de verdade que escrevi. Um bombeiro da Nova
Zelndia me incentivou a tentar a poesia - foi por isso que o fiz. Escrevi um desses
poemas quando fazia apenas um ms que estava aqui. O outro foi escrito hoje de manh
mesmo.
No espao entre os dois poemas, encontrei hectares e mais hectares de graa.

72

Dois Poemas de um Ashram na ndia

Primeiro

Todo esse papo de nctar e contentamento est comeando a me irritar.
No sei quanto a voc, amigo,
mas o meu caminho at Deus no  uma nuvem aromtica de incenso.
 um gato solto em uma gaiola de pombos,
e eu sou o gato - mas tambm sou os pombos a se esgoelarem quando so pegos.

Meu caminho para Deus  uma revolta operria,
no haver paz at que se crie um sindicato.
Seu piquete  to feroz,
que nenhuma polcia chega perto.
Meu caminho foi aberto inconscientemente  minha frente
por um homenzinho de pele escura que nunca cheguei a ver,
que perseguiu Deus pela ndia, chapinhando na lama,
descalo e faminto, com malria no sangue,
dormindo em vos de porta, debaixo de pontes - um errante.
(Mas que, ao mesmo tempo, estava a caminho de casa.)
E ele agora me persegue, perguntando: "Entendeu agora, Liz?
O que significa CASA? O que  de fato A CAMINHO?"

Segundo

Porm.
Se me deixassem usar calas feitas com a
grama recm-cortada deste lugar,
eu o faria.

Se me deixassem agarrar
cada um dos eucaliptos do Bosque de Ganesh,
eu juro que o faria.

Passei estes dias suando orvalho,
chapinhando a borra,
esfregando o queixo na casca das rvores,
pensando serem as pernas do meu mestre.

No consigo entrar o suficiente.

Se me deixassem comer o cho deste lugar
servido em um leito de ninhos de pssaros,
eu comeria s metade do prato,
e depois passaria a noite inteira dormindo no resto.

Indonsia

ou

At De Roupa De Baixo Eu Me Sinto Diferente.

ou

Trinta E Seis Histrias Sobre A Busca Do Equilbrio

73

Nunca tive menos planos na vida do que quando cheguei a Bali. Em toda a minha histria
de viagens despreocupadas, essa foi a vez em que aterrissei mais despreocupada em um
lugar. No sei onde vou morar, no sei o que vou fazer, no sei qual a taxa de cmbio,
no sei como pegar um txi no aeroporto - nem sequer sei para onde pedir que o txi me
leve. Ningum est me esperando chegar. No tenho amigos na Indonsia. No tenho
sequer amigos-de-amigos. E eis o problema de se viajar com um guia antigo, e em
seguida de no l-lo: no percebi que, na verdade, no posso passar quatro meses na
Indonsia, mesmo que queira. S descubro isso ao entrar no pas. Descubro que s tenho
direito a um visto de turista de um ms. No havia me ocorrido que o governo indonsio
ficaria outra coisa que no encantado em me receber em seu pas pelo tempo que eu
quisesse ficar.
Enquanto o simptico funcionrio da imigrao carimba meu passaporte com a permisso
para ficar em Bali durante apenas e exatos trinta dias, pergunto-lhe, no meu tom mais
agradvel, se seria possvel ficar mais tempo.
- No -- responde ele, no seu tom mais agradvel. Os balineses so famosos por sua
simpatia.
-  que eu pretendia passar trs ou quatro meses aqui, entende? - digo.
No menciono que isso  uma profecia - que o fato de eu passar trs ou quatro meses aqui
foi previsto dois anos atrs por um xam balins idoso e possivelmente perturbado,
durante uma leitura de mo que durou dez minutos. No tenho certeza de como explicar
isso.
Mas o que exatamente o xam me disse, agora que penso no assunto? Ele disse mesmo
que eu voltaria a Bali e passaria trs ou quatro meses morando com ele? Disse mesmo
"morando com ele"? Ou ser que simplesmente queria que eu tornasse a aparecer algum
dia, se estivesse por perto, e lhe desse mais dez dlares por outra sesso de quiromancia?
Ele disse que eu voltaria ou que eu deveria voltar? Ele disse mesmo: "A gente se v"? Ou
ser que foi "A gente se v por a"?
Desde aquela nica noite, eu no havia me comunicado com o xam nenhuma vez sequer.
De toda forma, no saberia como entrar em contato com ele. Qual poderia ser seu
endereo? "Xam, em frente  casa dele, Bali, Indonsia"? No sei se ele est vivo ou
morto. Lembro-me que, h dois anos, quando nos conhecemos, ele parecia incrivelmente
velho; desde ento, qualquer coisa poderia ter acontecido com ele. Tudo que sei ao certo
 o seu nome - Ketut Liyer -, e lembro-me que ele mora em um vilarejo prximo  cidade
de Ubud. Mas no me lembro do nome do vilarejo. Talvez eu devesse ter planejado isto
tudo melhor.

74

Mas Bali  um lugar bem simples para uma pessoa se locomover. No  como se eu
tivesse aterrissado no meio do Sudo sem a mnima idia do que fazer em seguida. Isto
aqui  uma ilha mais ou menos do mesmo tamanho do estado americano do Delaware,
pouco mais de 5 mil quilmetros quadrados e  um destino turstico popular. O lugar
inteiro  organizado para ajudar o visitante, o ocidental com seu carto de crdito, a
movimentar-se com facilidade. Fala-se ingls por toda parte e com boa vontade. (O que
me deixa, no sem culpa, aliviada. Minhas sinapses cerebrais esto to sobrecarregadas
com meu esforo para aprender italiano moderno e snscrito antigo durante estes ltimos
meses que sou simplesmente incapaz de assumir a tarefa de tentar aprender indonsio ou,
mais difcil ainda, balins -- uma lngua mais complexa do que o marciano.) Na verdade,
estar aqui no  nenhum problema. Pode-se trocar dinheiro no aeroporto, encontrar um
txi com um motorista simptico que ir sugerir um hotel bacana - nada disso  difcil de
se conseguir. E, j que a indstria turstica sofreu um colapso depois do bombardeio
terrorista de dois anos atrs (que ocorreu logo depois da minha primeira visita a Bali),
agora  mais fcil se locomover; todo mundo est desesperado para ajudar voc,
desesperado para trabalhar.
Assim, pego um txi at a cidade de Ubud, que parece um bom lugar para comear minha
viagem. Encontro um hotel pequeno e gracioso, em uma rua de nome maravilhoso: rua da
Floresta do Macaco. O hotel tem uma bonita piscina c um jardim coalhado de flores
tropicais com botes maiores do que bolas de vlei (cercados por uma organizada equipe
de beija-flores e borboletas). O pessoal do hotel  balins, o que significa que, assim que
voc entra, eles automaticamente comeam a adorar voc e a lhe fazer elogios por sua
beleza. O quarto tem vista para as copas das rvores tropicais, e o caf-da-manh est
includo na diria, com pilhas de frutas tropicais frescas. Para resumir,  um dos lugares
mais agradveis onde j fiquei hospedada, e est me custando menos de dez dlares por
dia.  bom estar de volta.
Ubud fica no centro de Bali, nas montanhas, cercada por terraos de arrozais em nvel e
incontveis templos hindustas, com rios a correr velozes por entre profundos
desfiladeiros de florestas e vulces visveis no horizonte. H muito tempo, Ubud 
considerada o centro cultural da ilha, lugar onde florescem a pintura, a dana, a escultura
e as cerimnias religiosas balinesas tradicionais. Como no fica perto de nenhuma praia,
os turistas que vm a Ubud formam um grupo seleto e bastante refinado; prefeririam
assistir a uma antiga cerimnia em um templo a beber pias coladas  beira-mar.
Independente do que acontecer com a profecia do meu xam, este poderia ser um lugar
maravilhoso para passar algum tempo. A cidade parece uma pequena verso de Santa F
no Pacfico, s que com macacos passeando soltos e famlias balinesas de roupas tpicas
por toda parte. H bons restaurantes e livrarias legais. Seria possvel passar o meu tempo
inteiro aqui em Ubud fazendo o que as americanas divorciadas comportadas vm fazendo
com seu tempo desde a inveno da Associao Crist de Moas -- inscrevendo-se em
uma srie interminvel de cursos: batik. percusso, joalheria, cermica, dana e culinria
indonsias tpicas... Do outro lado da rua, bem em frente ao meu hotel, fica um lugar
chamado "Loja da Meditao" -- uma lojinha com um cartaz anunciando sesses dirias
e abertas de meditao, das seis s sete da noite. "Que a paz prevalea sobre a Terra", diz
o cartaz. Concordo em gnero, nmero e grau.
Quando termino de desfazer as malas j passa do meio-dia, ento decido ir dar um
passeio e me reorientar nesta cidade que no visito h dois anos. Em seguida, tento
decidir como comear a procurar meu xam. Imagino que ser uma tarefa difcil, que
pode levar dias, ou at mesmo semanas. No tenho certeza de onde comear a procurar,
ento paro na recepo do hotel antes de sair e pergunto a Mario se ele pode me ajudar.
Mario  um dos caras que trabalha no hotel. J fiquei sua amiga, quando fiz o check-in,
em grande parte por causa de seu nome. No muito tempo atrs, eu estava viajando por
um pas onde muitos homens se chamavam Mario, mas nenhum deles era um balins
baixinho, musculoso e cheio de energia, vestindo um sarongue de seda e com uma flor
atrs da orelha. Ento tive de perguntar:
- O seu nome  mesmo Mario? No parece muito indonsio.
- No meu nome de verdade - respondeu ele. - Meu nome de verdade  Nyoman.
Ah - eu deveria ter adivinhado. Deveria saber que tinha uma chance de 25% de adivinhar
o verdadeiro nome de Mario. Em Bali, se me permitem mudar de assunto, s existem
quatro nomes com os quais a maioria da populao batiza seus filhos, independente de o
beb ser menino ou menina. Os nomes so Wayan (pronuncia-se "uai-n"), Made ("ma-
di"), Nyoman e Ketut. Traduzidos, esses nomes significam simplesmente Primeiro (a),
Segundo(a), Terceiro(a) e Quarto(a) e informam a ordem de nascimento. Se voc tiver
um quinto filho, recomea o ciclo dos nomes, de modo que o quinto filho, na verdade,
passa a ser conhecido como algo assim: "Wayan do Segundo Poder". E assim por diante.
Caso tenha gmeos, voc os batiza na ordem em que nasceram. Como praticamente s
existem quatro nomes em Bali (as elites mais abastadas tm seus prprios nomes), 
totalmente possvel (na verdade,  bastante comum) que dois Wayans formem um casal.
E o seu primeiro filho ir se chamar Wayan tambm.
Isso d uma leve idia da importncia da famlia em Bali e da importncia da sua posio
dentro dessa famlia. Seria de se pensar que esse sistema pudesse se complicar mas, de
alguma forma, os balineses do um jeito. De forma compreensvel e necessria, os
apelidos so muito comuns. Por exemplo, uma das profissionais mais bem-sucedidas de
Ubud  uma mulher chamada Wayan que tem um restaurante movimentado chamado
Caf Wayan e, portanto,  conhecida como "Wayan Caf" -- ou seja, "Wayan dona do
Caf Wayan". Outra pessoa poderia ser conhecida como "Made gordo", ou "Nyoman que
aluga carros", ou "Ketut-idiota-que-ps-fogo-na-casa-do-tio". Meu novo amigo balins,
Mario, resolveu o problema simplesmente fazendo-se chamar Mario.
-- Por que Mario?
-- Porque adoro tudo que  italiano -- disse ele.
Quando eu lhe disse que havia passado quatro meses na Itlia recentemente, ele
considerou esse fato to incrivelmente espantoso que saiu de trs de sua escrivaninha e
disse:
- Venha, sente aqui, vamos conversar.
Fui, sentei-me e conversamos. E foi assim que nos tornamos amigos.
Ento, nesta tarde, decido comear minha busca pelo xam perguntando a meu amigo
Mario se ele, por acaso, conhece um homem chamado Ketut Lyier.
Mario franze o cenho, pensativo.
Imagino que ele v me responder alguma coisa como: "Ah, sim! Ketut Liyer! Um velho
xam que morreu na semana passada...  to triste quando um velho xam venervel
morre..."
Mario me pede para repetir o nome e, dessa vez, eu o escrevo em um papel, imaginando
que esteja pronunciando alguma coisa errada. De fato: o rosto de Mario se ilumina ao
reconhecer o nome.
- Ketut Liyer!
Ento imagino que ele v dizer alguma coisa como: "Ah, sim! Ketut Liyer! O louco! Ele
foi preso na semana passada por ser maluco..."
Mas, em vez disso, ele diz:
- Ketut Liyer  xam famoso.
- Isso!  ele mesmo!
- Conheo ele. Fui casa dele. Semana passada levei minha prima, ela precisa cura para
beb chorando a noite inteira. Ketut Liyer resolve. Uma vez levei moa americana feito
voc  casa do Ketut Liyer. Moa queria mgica para ficar mais bonita para os homens.
Ketut Liyer fez pintura mgica para ajudar ela a ficar mais bonita. Depois disso
provoquei ela. Todo dia digo a ela: "Pintura est funcionando! Olhe como voc est
bonita! Pintura funcionando!"
Lembrando-me da imagem que Ketut Liyer havia desenhado para mim alguns anos antes,
digo a Mario que eu tambm j havia recebido uma pintura mgica do xam.
Mario ri.
- Pintura funcionando para voc, tambm!
- O meu desenho foi para me ajudar a encontrar Deus -- explico.
- Voc no quer ficar mais bonita para os homens? - pergunta ele, compreensivelmente
confuso.
- Ei, Mario - digo -, voc acha que poderia me levar para visitar Ketut Liyer algum dia?
Se no estiver ocupado demais?
- Agora, no -- diz ele.
Bem quando estou comeando a me sentir decepcionada, ele acrescenta:
- Mas talvez daqui a cinco minutos?

75

Ento  assim que - na mesma tarde em que chego a Bali - vejo-me subitamente na
garupa de uma motocicleta, agarrada a meu novo amigo Mario, o talo-indonsio, que
dispara comigo pelos arrozais em direo  casa de Ketut liyer. Apesar de ter pensado
muito nesse reencon-tro com o xam ao longo dos dois ltimos anos, na verdade no
tenho a menor idia do que vou lhe dizer quando chegar. E  claro que ns no marcamos
hora. Aparecemos sem avisar. Reconheo a placa do lado de fora da porta dele, a mesma
da ltima vez, que diz: "Ketut Liyer - pintor".  uma tpica e tradicional propriedade
familiar balinesa. Um muro alto de pedra marca o permetro, no meio h um quintal e,
nos fundos, um templo. Vrias geraes moram juntas nas diversas casinhas interligadas
dentro desses muros. Entramos sem bater (no h porta, mesmo), somos recebidos pela
magreza ruidosa de tpicos ces de guarda baiineses (esquelticos, irados) e, bem ali no
quintal, est Ketut Liyer, o velho xam, vestido com seu sarongue e sua camisa de golfe,
exatamente com a mesma aparncia de dois anos antes, quando o encontrei pela primeira
vez. Mario diz alguma coisa para Ketut, e meu balins no  exatamente fluente, mas o
que ele diz parece ser uma apresentao genrica, algo como: "Esta  uma moa dos
Estados Unidos... v fundo."
Ketut volta para mim seu sorriso modesto, banguela, com a fora de um extintor de
incndio de compaixo, e sua expresso  profundamente reconfortante: minha
lembrana estava correta, ele  mesmo extraordinrio. Seu rosto  uma complexa
enciclopdia de gentileza. Ele me cumprimenta com um aperto de mo animado e firme.
-- Estou muito feliz em conhecer voc -- diz.
Ele no faz idia de quem eu seja.
-- Venha, venha -- diz ele, e sou conduzida at a varanda de sua casinha, onde esteiras
de bambu fazem as vezes de mveis.
O lugar est exatamente igual a dois anos atrs. Ns dois nos sentamos. Sem hesitar, ele
segura minha mo com a sua -- imaginando que, como a maioria de seus visitantes
ocidentais, eu tenha vindo visit-lo para que lesse a minha mo, Ele faz uma leitura
rpida e reconforta-me constatar que se trata de uma verso resumida exatamente do que
me disse da ltima vez. (Ele pode no se lembrar do meu rosto mas, a seus olhos
experientes, o meu destino no mudou.) Seu ingls  melhor do que eu me lembrava, e
tambm  melhor do que o de Mario. Ketut fala como o velho sbio chins dos filmes
clssicos de kung fu, uma forma de ingls que se poderia chamar de "gafanhots", porque
seria possvel inserir o tratamento carinhoso "gafanhoto" no meio de qualquer frase e
faz-la soar muito sbia- "Ah... voc tem destino de muita sorte, gafanhoto..."
Espero uma pausa nas previses de Ketut, e ento o interrompo para lembrar-lhe que j
estive ali para visit-lo, dois anos atrs.
Ele fez cara de intrigado.
- No  primeira vez em Bali?
- No, senhor
Ele faz um esforo, pensando.
- Voc moa da Califrnia?
- No - respondo, ficando ainda mais desanimada. - Sou a moa de Nova York.
Ketut me diz (e no tenho certeza do que isso tem a ver com qualquer coisa):
- No sou mais to bonito, perdi muitos dentes. Talvez eu v a dentista um dia, pr dentes
novos. Mas tenho medo demais de dentista.
Ele abre a boca sem dentes e me mostra o estrago. De fato, faltam-lhe quase todos os
dentes do lado esquerdo da boca, e do lado direito esto todos quebrados, tocos
amarelados que parecem doer muito. Ele me conta que caiu. Foi assim que perdeu os
dentes.
Digo-lhe que sinto muito por ouvir isso e, em seguida, tento novamente, falando devagar.
- No acho que voc se lembre de mim, Ketut. Eu vim aqui dois anos atrs com uma
professora de ioga americana, uma mulher que morou muitos anos em Bali.
Ele sorri, enlevado.
- Eu conheo Ann Barros!
- Isso. A professora se chama Ann Barros. Mas eu me chamo Liz. Vim aqui daquela vez
pedir a sua ajuda, porque eu queria chegar mais perto de Deus. Voc me fez um desenho
mgico.
Ele d de ombros, dcil, sem parecer se preocupar nem um pouco.
- No lembro -- diz.
Isso  to ruim que chega a ser engraado. O que vou fazer em Bali agora? No sei ao
certo como imaginei que seria encontrar Ketut de novo, mas esperava que fssemos ter
algum tipo de reencontro supercrmico regado a lgrimas. E, embora eu de fato tivesse
medo de que ele estivesse morto, no me ocorrera que -- caso ainda estivesse vivo -- ele
pudesse no se lembrar de mim. Apesar de agora parecer o auge da estupidez eu um dia
ter imaginado que nosso primeiro encontro tivesse sido to memorvel para ele quanto
para mim. Talvez eu devesse ter planejado isto tudo melhor, mesmo.
Ento descrevo-lhe o desenho que ele fez para mim, a figura com quatro
pernas ("plantadas com muita firmeza"), sem cabea ("sem ver o mundo atravs do
intelecto"), e com o corao no lugar do rosto ("olhando para o mundo atravs do
corao"), e ele me escuta com educao, com leve interesse, como se estivssemos
falando da vida de outra pessoa totalmente diferente.
Detesto fazer isso, porque no quero pression-lo, mas  algo que precisa ser dito, ento
simplesmente ponho para fora. Digo:
-- Voc me disse que eu deveria voltar aqui para Bali. Me disse para passar trs ou
quatro meses aqui. Disse que eu poderia ajudar voc a aprender ingls e voc poderia me
ensinar as coisas que sabe. - No gosto do som da minha voz: estou soando um tiquinho
desesperada. No digo nada sobre o convite que de fizera para que eu fosse morar com
sua famlia. Parece-me que isso seria. um exagero, dadas as circunstncias.
Ele me escuta com educao, sorrindo e sacudindo a cabea, como quem diz: No 
engraado o que as pessoas dizem?
Nesse momento, quase desisto. Mas j cheguei to longe que preciso fazer um ltimo
esforo. Digo:
-- Eu sou a escritora, Ketut. Sou a escritora de Nova York.
E, por algum motivo, isso funciona. De repente, seu rosto fica translcido de alegria,
tornando-se brilhante, puro e transparente. Uma intensa luz de reconhecimento ganha
vida em sua mente.
-- VOC! - diz ele. - VOC! EU lembrar de VOC! - Ele se inclina para a frente, segura
meus ombros com as mos e comea a me sacudir amigavelmente, do mesmo jeito que
uma criana sacode um presente de Natal que ainda no abriu para tentar adivinhar o que
h l dentro. -- Voc voltou! Voc VOLTOU!
-- Eu voltei! Eu voltei! -- digo.
-- Voc, voc, voc!
-- Eu, eu, eu!
Agora estou com os olhos marejados de lgrimas, mas tento no mostrar isso. E difcil
explicar a intensidade do meu alvio. Ela surpreende at a mim. E o seguinte:  como se
eu estivesse em um acidente de carro, e meu carro tivesse voado por cima de uma ponte e
ido parar no fundo de um rio, e eu, de alguma forma, tivesse conseguido sair do carro
afundado nadando atravs de uma janela aberta, e em seguida batendo as pernas e os
braos para tentar nadar at a luz do dia l em cima atravs da gua fria e verde, e
estivesse quase sem oxignio, com as artrias explodindo no pescoo e as bochechas
infladas com meu ltimo suspiro, e ento - AHHHH! - irrompesse  superfcie e sorvesse
o ar com sofreguido. E sobrevivesse. Essa inspirao, esse irromper  superfcie -  essa
a sensao que tenho quando o xam indonsio diz: "Voc voltou!" Meu alvio  grande
assim.
No consigo acreditar que deu certo.
- , eu voltei - digo. -  claro que voltei.
- Eu to feliz! - diz ele. Estamos de mos dadas, e ele agora est muito animado. - No
me lembrar de voc no comeo! Faz tanto tempo a gente se ver! Voc estar diferente
agora! To diferente de dois anos atrs! Da ltima vez, voc mulher com ar muito triste.
Agora... to feliz! Parece outra pessoa!
Essa idia - a idia de algum ter uma aparncia to diferente assim depois de apenas dois
anos - parece provocar nele um acesso de risadinhas.
Desisto de tentar esconder minhas lagrimas e simplesmente deixo tudo sair.
- , Ketut. Eu antes estava muito triste. Mas a vida agora est melhor.
- Da ltima vez, voc em divrcio ruim. Nada bom.
- Nada bom -- confirmo.
- Da ltima vez, voc ter preocupaes demais, tristeza demais. Da ltima vez, parecer
velha triste. Agora parecer menininha nova. Da ltima vez, voc feia! Agora, voc
bonita!
Mario comea a aplaudir entusiasticamente e pronuncia, vitorioso:
- Viu! Pintura funcionando!
- Voc ainda quer que eu ajude voc com seu ingls, Ketut? -- pergunto.
Ele me diz que posso comear a ajud-lo ali mesmo, e se levanta com agilidade, como
um gnomo. Saltita para dentro da casinha e sai com uma pilha de cartas que recebeu do
exterior ao longo dos ltimos anos (ento ele tem mesmo um endereo!). Pede-me para
ler-lhe as cartas em voz alta; ele compreende bem o ingls, mas no sabe ler muito bem.
Eu j sou a sua secretria. Sou secretria de um xam. Isso  fantstico. As cartas so de
colecionadores de arte estrangeiros, pessoas que, de alguma forma, conseguiram comprar
seus famosos desenhos e pinturas mgicos. Uma das cartas  de um colecionador
australiano, que parabeniza Ketut por suas habilidades de pintor, dizendo: "Como voc
pode ser to esperto a ponto de pintar com tamanho detalhe?" Ketut responde a mim,
como se estivesse ditando:
- Porque eu treinar muitos, muitos anos.
Quando as carta, terminam, ele me conta o que aconteceu em sua vida nos ltimos dois
anos. Algumas mudanas ocorreram. Por exemplo, ele agora tem uma mulher. Aponta
para o quintal indicando uma mulher corpulenta, em p junto  sombra da porta de sua
cozinha, olhando para mim com raiva, como se no tivesse certeza se deveria me dar um
tiro, ou envenenar-me primeiro e, em seguida, me dar um tiro. Da ltima vez em que
estive aqui, Ketut me mostrou com pesar fotografias de sua mulher que morrera recente-
mente - uma bela balinesa de idade avanada, que parecia inteligente e jovial mesmo com
seus muitos anos de vida. Aceno em direo ao quintal para a nova mulher, que
desaparece cozinha adentro.
- Boa mulher - proclama Ketut olhando na direo das sombras da cozinha, - Muito boa
mulher.
Ele prossegue dizendo que tem andado muito ocupado com seus pacientes balineses, que
h sempre muito a fazer, que ele precisa fazer muitas mgicas para recm-nascidos,
cerimnias para os mortos, curas para os doentes, cerimnias de casamento. Na prxima
vez em que for a um casamento balins, diz ele:
-- A gente pode ir junto! Eu levar voc! - O nico problema  que ele no recebe mais
muitas visitas de ocidentais. Ningum mais vem visitar Bali desde o bombardeio
terrorista. Isso o faz se sentir "muito confuso na cabea". Tambm o faz se sentir "muito
vazio no banco".
-- Voc vir  minha casa todos os dias treinar ingls comigo agora? - pergunta ele.
Aquieso alegremente, e ele diz: -- Eu ensinar voc meditao balinesa, t bom?
-- T bom -- respondo.
-- Acho que trs meses tempo suficiente para ensinar voc meditao bali-nesa,
encontrar Deus para voc assim -- diz ele. -- Talvez quatro meses. Voc gostar de Bali?
- Adoro Bali.
-- Voc casar em Bali?
- Ainda no.
- Acho que talvez em breve. Voc voltar amanh?
Prometo voltar. Ele no diz nada sobre eu vir morar com sua famlia, ento no menciono
o assunto, lanando uma ltima olhadela para a assustadora mulher na cozinha. Talvez,
em vez disso, eu simplesmente passe o tempo todo na gracinha do meu hotel. De toda
forma,  mais confortvel. gua encanada, essas coisas. Vou precisar de uma bicicleta,
porm, para vir visit-lo todos os dias...
Ento chega a hora de ir embora.
- Estou muito feliz em conhecer voc - diz ele, apertando minha mo. Ofereo-lhe minha
primeira lio de ingls. Explico-lhe a diferena entre happy to meet you, "prazer em
conhec-lo", e happy to see you, "prazer em v-lo". Explico que s se diz "prazer em
conhec-lo" na primeira vez em que se encontra algum. Depois disso, diz-se "prazer em
v-lo" todas as vezes. Porque s se conhece algum uma vez. Mas agora vamos nos
encontrar muitas vezes, todos os dias.
Ele gosta disso. D uma treinada rpida.
- Prazer em ver voc! Estou muito feliz em ver voc! Posso ver voc! No sou surdo!
Isso faz todos ns rirmos, inclusive Mario. Ns nos despedimos e combinamos que virei
novamente na tarde do dia seguinte. At l, ele diz:
- A gente se v.
- Por a - completo.
- Deixar sua conscincia ser seu guia. Se voc ter algum amiga ocidental vir a Bali,
mandar eles aqui para eu ler a mo deles... estou muito vazio no meu banco agora desde a
bomba. Eu sou autodidata. Estou muito feliz em ver voc, Liss!
- Tambm estou muito feliz em ver voc, Ketut!

76
Bali  uma pequena ilha localizada no centro do arquiplago indonsio, que tem 3.200
quilmetros de comprimento e constitui a nao muulmana mais populosa da Terra. Bali
, portanto, algo estranho e maravilhoso; no deveria sequer existir, mas existe. O
hindusmo da ilha foi importado da ndia via Java. Comerciantes indianos levaram a
religio para o leste durante o sculo IV d.C. Os reis javaneses fundaram uma poderosa
dinastia hindusta, da qual pouco resta hoje em dia a no ser pelas impressionantes runas
dos templos de Borobudur. No sculo XVI, uma violenta rebelio islmica varreu a
regio, e a realeza hindusta adoradora de Shiva fugiu de Java, partindo em grandes
grupos para ir se refugiar em Bali durante o que seria lembrado como o xodo de
Majapahit. Os javaneses abastados, de alta casta, trouxeram consigo para Bali apenas
suas famlias reais, seus artesos e seus sacerdotes - portanto, no  um exagero quando
se diz que todo mundo em Bali  descendente de rei, sacerdote ou artista, e que  por isso
que os balineses so to orgulhosos e inteligentes.
Os colonos javaneses tambm trouxeram para Bali o sistema hindusta de castas, embora
as divises de casta nunca tenha sido aplicadas aqui com tanta brutalidade quanto um dia
o foram na ndia. Mesmo assim, os balineses respeitam uma complexa hierarquia social
(existem cinco divises s de brmanes), e eu pessoalmente teria mais chances de
decodificar o genoma humano do que de tentar entender o complicado e emaranhado
sistema de cls que ainda vigora aqui. (Os muito bons ensaios escritos por Fred B.
Eiseman sobre a cultura balinesa vo muito mais a fundo nos detalhes que explicam essas
sutilezas, e foi de sua pesquisa que tirei a maior parte de minhas informaes genricas,
no apenas aqui, mais ao longo de todo este livro.) Basta dizer que, para os nossos
padres, todo mundo em Bali pertence a um cl, todo mundo sabe a que cl pertence, e
todo mundo sabe a que cl pertecem todos os outros. E, caso voc seja expulso do seu cl
devido a alguma desobedincia grave, isso realmente seria igual a se atirar dentro de um
vulco porque, sinceramente, voc est praticamente morto.
A cultura balinesa  um dos sistemas de organizao social e religiosa mais metdicos da
Terra, uma maravilhosa colmeia de tarefas, papis e cerimnias. Os balineses esto
inseridos, e completamente presos, a uma elaborada trama de costumes. Essa rede foi
criada por uma combinao de diversos fatores, mas, basicamente, podemos dizer que
Bali  o que ocorre quando os luxuriantes rituais do hindusmo tradicional so
superimpostos a uma grande sociedade agrria onde se cultiva arroz e que, por
necessidade, funciona na base de uma elaborada cooperao comunitria. O cultivo do
arroz em terraos de nvel exige uma incrvel quantidade de trabalho, manuteno e
engenharia coletivos para poder prosperar e, portanto, cada vilarejo balins tem o seu
banjar - uma organizao unida de habitantes que administra, por meio de um consenso,
as decises polticas, econmicas, religiosas e agrcolas do vilarejo. Em Bali, o coletivo 
totalmente mais importante do que o individual, seno ningum come.
As cerimnias religiosas tm uma importncia crucial aqui em Bali (que, no se
esqueam,  uma ilha onde existem sete vulces imprevisveis  voc tambm estaria
rezando). Segundo estimativas, um balins tpico passa um tero de suas horas de vida
acordado preparando-se para uma cerimnia, ou purificando-se depois de uma cerimnia.
A vida aqui  um ciclo constante de oferendas e rituais.  preciso execut-los todos, na
ordem correta e com a inteno correta, ou ento o universo inteiro ir se desequilibrar.
Margaret Mead escreveu sobre "a incrvel energia" dos balineses, e  verdade - raramente
se v um momento de cio em um complexo residencial familiar balins. Existem
cerimnias que precisam ser executadas cinco vezes por dia, e outras que precisam ser
executadas uma vez por dia, uma vez por semana, uma vez por ms, uma vez por ano,
uma vez a cada dez anos, uma vez a cada cem anos, uma vez a cada mil anos. Os
sacerdotes e homens santos mantm o controle de todas essas datas e rituais, graas a um
incompreensvel sistema composto de trs calendrios distintos.
So 13 os principais ritos de passagem de qualquer ser humano em Bali, cada qual
marcado por uma cerimnia altamente organizada. Cerimnias elaboradas de
apaziguamento espiritual so conduzidas ao longo de toda a vida, de forma a proteger a
alma dos 108 vcios (108 - olhem este nmero a de novo!), que incluem mazelas como
violncia, roubo, preguia e mentira. Toda criana balinesa passa por uma momentosa
cerimnia de puberdade durante a qual os dentes caninos, ou "presas", so lixados at
ficarem da altura dos outros, para melhorar o aspecto esttico. A pior coisa que se pode
ser em Bali  rude e animalesco, e essas presas so consideradas remanescentes de nossa
natureza mais brutal e, portanto, precisam ser eliminadas. Em uma cultura to coesa, 
perigoso ser brutal. Toda a rede de cooperao de um vilarejo poderia ser destruda pela
tendncia assassina de uma s pessoa. Portanto, a melhor coisa que se pode ser em Bali 
alus, que significa "refinado" ou mesmo "embelezado". A beleza em Bali  algo bom,
tanto para homens quanto para mulheres. A beleza  reverenciada. Beleza representa
segurana. As crianas aprendem a enfrentar qualquer dificuldade e desconforto com "um
rosto brilhante", com um gigantesco sorriso.
Bali  inteiramente estruturada em torno da noo de uma matriz, de uma imensa e
invisvel grade de espritos, diretrizes, caminhos e costumes. Orientados por esse mapa
intangvel, cada balins ou balinesa conhece exatamente o seu lugar certo. Basta olhar
para os quatro nomes de quase todos os cidados balineses - Primeiro (a), Segundo(a),
Terceiro (a), Quarto(a) -, lembrando a todos de quando nasceram na famlia e de qual o
seu lugar. No seria possvel ter um sistema de mapeamento mais claro se os seus filhos
se chamassem Norte, Sul, Leste e Oeste. Mario, meu novo amigo talo-indonsio, disse-
me que s  feliz quando consegue se manter - mental e espiritualmente - na interseo de
uma linha vertical com outra horizontal, em um estado de equilbrio perfeito. Para isso,
precisa saber exatamente onde est a cada instante, tanto em seu relacionamento com o
divino quanto com sua famlia aqui na Terra. Se ele perder o equilbrio, perde seu poder.
No se trata de uma hiptese absurda dizer que os balineses so os especialistas mundiais
do equilbrio, gente para quem a manuteno do equilbrio Perfeito  uma arte, uma
cincia e uma religio. Como estou em uma busca pessoal pelo equilbrio, eu esperava
aprender muito com os balineses sobre manter-me equilibrada neste mundo catico. No
entanto, quanto mais leio e vejo sobre essa cultura, mais percebo como me afastei da
grade de equilbrio, pelo menos de uma perspectiva balinesa. Meu hbito de passear pelo
mundo sem dar a mnima para minha orientao fsica, somado  minha deciso de sair
da rede protetora do casamento e da famlia, fez de mim - pelos padres balineses - algo
como um fantasma. Gosto de viver assim mas, segundo os padres de qualquer balins
que se d ao respeito, trata-se de uma vida de pesadelo. Se voc no sabe onde est ou o
cl a que pertence, ento como poder encontrar o equilbrio?
Visto tudo isso, no tenho tanta certeza de quanto da viso de mundo balinesa
incorporarei  minha prpria viso de mundo, j que, no momento, pareo estar adotando
uma definio mais moderna e ocidental da palavra equilbrio. (Atualmente a estou
traduzindo como "liberdade igual" ou a possibilidade igual de pender para qualquer
direo a qualquer momento, dependendo de... vocs sabem... como as coisas
acontecerem.) Os balineses no esperam para ver "como as coisas acontecem". Isso seria
aterrorizante. Eles organizam a maneira como as coisas acontecem, de modo a evitar que
elas desmoronem.
Quando voc est andando pela rua em Bali e cruza com um desconhecido, a primeira
pergunta que ele ou ela ir lhe fazer : "Para onde voc est indo?" A segunda pergunta :
"De onde voc est vindo?" Para um ocidental, essas podem parecer perguntas bastante
invasivas vindas de um total desconhecido, mas eles esto apenas tentando se orientar em
relao a voc, tentando inserir voc na grade em nome da segurana e do conforto. Se
voc lhes disser que no sabe aonde est indo, ou que est apenas andando a esmo, pode
provocar uma certa angstia no corao de seu novo amigo balins. E bem melhor
escolher algum tipo de direo especfica -- para qualquer lugar -- e todo mundo ir se
sentir melhor.
A terceira pergunta que um balins quase com certeza lhe far : "Voc  casado(a)?"
Aqui tambm, trata-se de uma pergunta de posicionamento e orientao. Eles precisam
saber isso para se certificarem de que voc est completamente em ordem na sua vida.
Realmente querem que voc responda sim. Ficam imensamente aliviados quando voc
responde que sim. Se voc for solteiro(a),  melhor no dizer isso diretamente. E
realmente recomendo que voc no faa nenhuma meno a seu divrcio, caso tenha se
divorciado. Isso s faz preocupar os balineses. A nica coisa que a sua solido lhes prova
 sua perigosa distncia da grade. Se voc for uma mulher solteira viajando por Bali, e
algum lhe perguntar: "Voc  casada?", a melhor resposta possvel : "Ainda no." Isso
 uma maneira educada de dizer "no", e ao mesmo tempo sinalizar suas intenes
otimistas de resolver esse problema assim que possvel.
Mesmo que voc tenha 80 anos de idade, seja lsbica, feminista convicta ou freira, ou
seja uma freira lsbica feminista convicta de 80 anos de idade que jamais se casou e
jamais pretende se casar, mesmo assim a resposta mais educada possvel : "Ainda no."

77

Pela manh, Mario me ajuda a comprar uma bicicleta. Como um perfeito quase-italiano,
ele diz:
- Eu conheo um cara -, e me leva at a loja do primo, onde compro uma bela mountain
bike, um capacete, uma tranca e uma cestinha por pouco menos de cinqenta dlares
norte-americanos. Agora tenho mobilidade na minha nova cidade de Ubud ou, pelo
menos, a maior mobilidade que posso ter com segurana nestas estradas estreitas,
sinuosas e malconservadas, cheias de motocicletas, caminhes e nibus de turismo.
 tarde, vou de bicicleta at o vilarejo de Ketut, para passar algumas horas com o meu
xam em nosso primeiro dia de... o que quer que seja que faamos juntos. Para ser
honesta, no tenho certeza. Aulas de ingls? Aulas de meditao? O bom e velho costume
de ficar sentados em frente  porta de casa? No sei o que Ketut tem em mente para mim,
mas estou simplesmente feliz por ter sido convidada para entrar em sua vida.
Quando chego, ele est com visitas.  uma pequena famlia de balineses da zona rural,
que trouxe a filha de um ano para Ketut ajud-la. Os dentes da pobre bebezinha esto
nascendo e ela vem chorando h vrias noites. Papai  um belo rapaz de sarongue; tem as
panturrilhas musculosas de uma esttua de heri de guerra sovitico. Mame  bonita e
tmida, e me olha escondido debaixo das plpebras timidamente abaixadas. Eles
trouxeram uma pequena oferenda para Ketut em troca de seus servios: 2 mil rupias, o
equivalente a mais ou menos 25 centavos de dlar, arrumadas dentro de uma cesta feita 
mo com folhas de palmeira, pouco maior do que um cinzeiro de bar de hotel. Dentro da
cesta h um boto de flor, junto com o dinheiro e alguns gros de arroz. (Sua pobreza os
coloca em uma posio de total contraste com a famlia mais rica da capital, Denpesar,
que vem visitar Ketut mais para o final da tarde, cuja me equilibra sobre a cabea uma
cesta de trs nveis cheia de frutas, flores e um pato assado - um esplendor to magnfico
e impressionante que Carmen Miranda teria se curvado humildemente  sua frente.)
Ketut se mostra relaxado e gracioso na companhia de seus visitantes Ouve os pais
explicarem os problemas de seu beb. Ento vasculha dentro de um pequeno ba na
varanda em frente  sua casa e tira l de dentro um antigo registro escrito em snscrito
balins em caligrafia mida. Consulta esse livro como um estudioso, procurando alguma
combinao de palavras que lhe convenha, sem nunca deixar de conversar e rir com os
pais. Ele ento tira uma pgina em branco de um bloco de anotaes em cuja capa h o
desenho do sapo dos Muppets e escreve o que me diz ser uma receita para a menininha. A
criana est sendo atormentada por um pequeno demnio, diagnostica ele, alm do
desconforto fsico dos dentes nascendo. Para os dentes, ele recomenda aos pais
simplesmente esfregar as gengivas do beb com suco de cebola roxa. Para acalmar o
demnio, eles precisam fazer uma oferenda de um frango pequeno morto e um porco
pequeno, junto com um pedao de bolo, misturados a ervas especiais que sua av
certamente encontraria em seu prprio herbrio. (Essa comida no ser desperdiada;
depois da cerimnia da oferenda, sempre  permitido s famlias balinesas comer suas
prprias oferendas aos deuses, j que a oferenda  mais metafsica do que literal. Segundo
a viso dos balineses, Deus pega o que pertence a Deus - o gesto --, enquanto o homem
pega o que pertence ao homem -- a comida em si.)
Depois de escrever a receita, Ketut vira-se de costas para ns, enche uma tigela de gua e
entoa acima dela um mantra espetacular, silenciosamente assustador. Ketut ento abenoa
o beb com a gua que acaba de impregnar com poder sagrado. Mesmo com apenas um
ano de idade, a criana j sabe como receber uma bno sagrada  maneira tradicional
balinesa. A me a segura e o beb estica as mozinhas rechonchudas para receber a gua,
d um golinho, d outro golinho e derrama o resto em cima da prpria cabea - um ritual
perfeitamente executado. Ela no tem medo algum desse velhote desdentado a entoar-lhe
cnticos. Ento Ketut pega o resto da gua benta e a despeja dentro de um pequeno saco
plstico, daqueles feitos para carregar lanches, amarra o saco na ponta e entrega a gua 
famlia para que seja usada depois. Ao sair, a me leva consigo esse saco plstico cheio
d'gua; parece que ela acaba de ganhar um peixe dourado na feira, s que se esqueceu de
levar o peixe.
Ketut Liyer deu a essa famlia cerca de quarenta minutos de total ateno, pela tarifa de
aproximadamente 25 centavos de dlar. Sc eles no tivessem dinheiro nenhum, ele teria
feito a mesma coisa; esse  seu dever de xam. Ele no pode se recusar a atender
ningum, seno os deuses levaro embora seu talento para a cura. Ketut recebe mais ou
menos dez visitantes desses por dia, balineses que precisam de sua ajuda ou de seu
conselho sobre alguma questo sagrada ou mdica. Em dias altamente auspiciosos,
quando todos querem uma bno especial, ele pode chegar a receber mais de cem
visitantes.
- Voc no fica cansado?
-- Mas isto  minha profisso - responde-me ele. - Isto  meu hobby... xam.
Alguns outros pacientes se sucedem ao longo da tarde, mas Ketut e eu tambm
conseguimos passar algum tempo sozinhos na varanda. Sinto-me muito  vontade com
esse xam, to relaxada quanto se estivesse com meu prprio av. Ele me d minha
primeira aula de meditao balinesa. Diz que existem muitas maneiras de encontrar Deus,
mas que a maioria delas  complicada demais para os ocidentais, ento ele vai me ensinar
uma meditao simples. Meditao essa que consiste essencialmente no seguinte: fique
sentada em silncio e sorria. Eu adoro. Enquanto me ensina, ele j comea a rir. Sente-se
e sorria. Perfeito.
-- Voc estudar ioga na ndia, Liss?
-- Estudei sim, Ketut,
-- Voc saber fazer ioga -- diz ele --, mas ioga difcil demais. -- Dizendo isso, ele se
contorce at ficar numa desconfortvel postura de ltus, e estica o rosto para cima,
fingindo o esforo cmico de algum que parece estar sofrendo de priso de ventre.
Ento sai da postura e ri, perguntando: - Por que as pessoas sempre cara to sria quando
fazer ioga? Fazer cara sria assim, voc assustar energia boa. Para meditar, s precisar
sorrir. Sorrir com rosto, sorrir com mente, e boa energia vem at voc, e limpa energia
suja. Sorrir at no seu fgado. Treinar hoje no hotel. Sem pressa, sem se esforar demais.
Sria demais, fica doente. Voc poder chamar energia boa com sorriso. Por hoje,
terminado. A gente se v. Voltar amanh. Estou muito feliz em ver voc, Liss. Deixe sua
conscincia ser sua guia. Se amigos ocidentais seus vir visitar Bali, trazer eles para eu ler
a mo. Estou muito vazio no meu banco desde a bomba.

78

Esta  a histria de vida de Ketut Liyer, mais ou menos da maneira que ele conta: "Faz
nove geraes que minha famlia  xam. Meu pai, meu av, meu bisav, todos eles
xam. Todos querem eu xam porque vem eu ter luz. Vem que eu ter bonito e ter
inteligente. Mas eu no quero ser xam. Estudo demais! Informao demais! E eu no
acredito em xam! Querer ser pintor! Querer ser artista! Ter bom talento para isso.
"Quando eu moo ainda, conhecer homem americano, muito rico, talvez at a pessoa de
Nova York, como voc. Ele gosta da minha pintura. Quer comprar pintura grande minha,
talvez um metro de grande, por muito dinheiro. Dinheiro suficiente para ser rico. Ento
eu comear a pintar quadro para ele. Todo dia eu pintar, pintar, pintar. At  noite eu
pintar. Nessa poca, muito tempo atrs, no ter lmpada feito hoje, ento eu ter
lamparina. Lamparina a leo, sabe? Bombear lamparina, precisa bombear para fazer leo
subir. E eu sempre pintar toda noite com lamparina a leo.
"Uma noite, lamparina a leo escura, ento eu bombear, bombear, bombear, e ela
explodir! Fazer meu brao pegar fogo! Eu passar um ms no hospital com brao
queimado, ele infeccionar. Infeco chegar at meu corao. Mdico me dizer para ir a
Cingapura cortar o brao, amputar. No gosto disso. Mas mdico diz eu ter de ir a
Cingapura, fazer operao para cortar brao. Eu digo ao mdico: primeiro vou para casa,
para minha aldeia.
"Nessa noite na aldeia, tenho sonho. Pai, av, bisav - todos eles vm no sonho juntos 
minha casa, e me dizem como curar meu brao queimado. Me dizem para fazer suco de
aafro e sndalo. Colocar esse suco na queimadura. Depois fazer p de aafro e
sndalo. Esfregar esse p na queimadura. Eles me dizem que eu tenho de fazer isso, ento
no perder o brao. Esse sonho to real, como se eles em casa comigo, todos juntos.
"Eu acordo. No sei o que fazer, porque algumas vezes os sonhos esto s brincando,
sabe? Mas volto para minha casa e pr esse suco de aafro e sndalo no brao. Depois
passar p de aafro e sndalo no brao. Meu brao muito infeccionado, dor muita,
deformado, inchado. Mas depois do suco e do p ficar muito fresco. Ficar muito frio.
Comear melhorar. Dez dias depois, meu brao est bom. Todo curado.
Por isso, eu comear a acreditar. Ento tenho sonho de novo, com pai, av, bisav.
Dizem que agora tenho de ser xam. Minha alma, tenho de dar para Deus. Para fazer isso,
preciso jejuar por seis dias, sabe? Sem comida, sem gua. Sem bebida. Sem caf-da-
manh. Nada fcil. Eu com tanta sede do jejum, vou para os arrozais de manh, antes de
o sol nascer. Fico sentado no arrozal com a boca aberta pegando a gua do ar. Como se
chama isso, a gua que tem no ar do arrozal de manh? Orvalho? Isso. Orvalho. Passo
seis dias comendo s esse orvalho. Nenhuma outra comida, s esse orvalho. No dia
nmero cinco, desmaio. Vejo tudo da cor amarela em todo lugar. No, no da cor amarela
- DOURADA. Vejo a cor dourada em todo lugar, at dentro de mim. Muito feliz. Agora
entender. Essa cor dourada  Deus tambm dentro de mim. Mesma coisa que  Deus 
mesma coisa dentro de mim. Mesma-mesma.
"Ento agora tenho de ser xam. Agora tenho de aprender livros mdicos do meu av.
Esses livros no feitos de papel, feitos de folhas de palmeira. Chamadas lontars.  a
enciclopdia mdica balinesa. Preciso aprender todas as plantas diferences de Bali. Nada
fcil. Uma por uma, aprendendo tudo. Aprendo a cuidar das pessoas com muitos
problemas. Um problema  quando algum est doente do fsico. Eu ajudo essa doena
fsica com ervas. Outro problema  quando a famlia est doente, quando a famlia est
sempre brigando. Eu ajudo isso com harmonia, com desenho mgico especial, tambm
com conversa para ajudar. Ponho desenho mgico na casa, nada mais de brigas. Algumas
vezes pessoas doentes de amor, no encontram par certo. Eu conserto problema de amor
com mantra e desenho mgico, traz amor para voc. Tambm aprendo magia negra, para
ajudar pessoas com feitios ruins de magia negra nelas. Meu desenho mgico, voc ps
na sua casa, trazer energia boa para voc.
"Ainda gosto de ser artista, gosto de fazer pintura quando tenho tempo, vender para
galeria. Meu quadro, sempre mesmo quadro - quando Bali era paraso, talvez mil anos
atrs. Quadro de selva, animais, mulheres com - qual  a palavra? Peito. Mulheres com
peito. Difcil para mim encontrar tempo para fazer quadro por causa do xam, mas
preciso ser xam. E a minha profisso.  o meu hobby. Preciso ajudar as pessoas ou Deus
zanga comigo. Algumas vezes, preciso fazer parto de beb, fazer cerimnia para homem
que morreu ou fazer cerimnia para lixar dentes ou para casamento. Algumas vezes
acordo, trs da manh, fao quadro junto lmpada eltrica - nica hora que posso fazer
quadro para mim. Gosto sozinho nessa hora do dia, bom para fazer quadro.
"Fao mgica de verdade, sem brincadeira. Digo sempre verdadeiro, mesmo se notcia
ruim. Preciso fazer bom carter na minha vida sempre, ou vou estar no inferno. Falo
balins, indonsio, pouquinho de japons, pouquinho de ingls, pouquinho de holands.
Durante guerra, muitos japoneses aqui, No to ruim para mim - leio mo dos japoneses,
fao amizade. Antes da guerra, muitos holandeses aqui. Agora, muitos ocidentais aqui,
todos falando ingls. Meu holands est - como se diz? Qual palavra voc me ensinou
ontem? Enferrujado? Isso - enferrujado. Meu holands est enferrujado. Ah!
"Sou da quarta casta de Bali, de casta muito baixa, como agricultor. Mas recebo muita
gente da primeira casta nem to inteligente quanto eu. Meu nome  Ketut Liyer. Liyer 
nome meu av me deu quando eu era menino. Quer dizer luz brilhante. Esse sou eu."

79

Sou to livre aqui em Bali que quase chega a ser ridculo. A nica coisa que preciso fazer
todos os dias  visitar Ketut Liyer durante algumas horas  tarde, o que est muito longe
de ser um fardo. O resto do meu dia  dedicado a diversas atividades despreocupadas.
Medito durante uma hora todas as manhs usando as tcnicas iogues que minha Guru me
ensinou, e em seguida medito durante uma hora todas as tardes com as prticas que Ketut
me ensinou ("sente-se e sorria"). No meio-tempo, passeio e ando de bicicleta, e algumas
vezes converso com pessoas e almoo. Achei uma pequena biblioteca tranqila aqui onde
se pode pegar livros emprestados, fiz minha carteirinha, e agora uma grande e luxuosa
parte do meu tempo  dedicada  leitura no jardim. Depois da intensidade da vida no
ashram, e at mesmo depois de toda aquela decadncia de percorrer a Itlia inteira
comendo tudo que via pela frente, esse  um perodo muito novo e radicalmente pacfico
da minha vida. Tenho tanto tempo livre que seria possvel medi-lo em toneladas.
Sempre que saio do hotel, Mario e os outros funcionrios da recepo me perguntam
aonde estou indo e, sempre que volto, perguntam-me onde estive Quase posso imaginar
que eles guardam nas gavetinhas da mesa pequeninos mapas de todas as pessoas que
amam, com sinais indicando onde cada uma est em cada instante, apenas para garantir
que a colmeia inteira tenha seu paradeiro conhecido o tempo todo.
A noite, subo bem no alto da colina com minha bicicleta e atravesso os hectares de
arrozais cultivados em terraos em nvel ao norte de Ubud, onde as vistas so esplndidas
e verdejantes. Posso ver as nuvens cor-de-rosa refletidas nas guas paradas dos arrozais,
como se houvesse dois cus -- um l em cima para os deuses, e outro aqui embaixo, na
gua lamacenta, s para ns mortais. No outro dia, fui de bicicleta at o santurio da
gara, com sua relutante placa de boas-vindas ("Tudo bem, d pra ver garas daqui"), mas
nesse dia no havia gara nenhuma, apenas patos, ento passei um tempinho olhando os
patos e, em seguida, fui at o vilarejo seguinte. No caminho, passei por homens,
mulheres, crianas, frangos e cachorros, todos,  sua maneira, ocupados com seu
trabalho, mas nenhum deles to ocupado a ponto de no parar para me cumprimentar:
Algumas noites atrs, no alto de um lindo promontrio na floresta, vi uma placa: "Aluga-
se casa de artista, com cozinha". Como o universo  generoso, trs dias depois estou
morando l. Mario me ajudou com a mudana, e todos os seus amigos no hotel se
despediram de mim com lgrimas nos olhos.
Minha nova casa fica em uma rua silenciosa, cercada de arrozais por todos os lados.  um
lugarzinho parecido com um chal, rodeado por muros cobertos de hera. A proprietria 
uma inglesa, mas ela est passando o vero em Londres, de modo que entro em sua casa e
a substituo nesse espao milagroso. H uma cozinha vermelha e brilhante, um laguinho
cheio de peixes doura dos, uma varanda com piso de mrmore, um chuveiro externo com
piso feito de mosaicos brilhantes; enquanto passo xampu nos cabelos, posso ver as garas
aninhando-se nas palmeiras. Pequenas trilhas escondidas cortam um jardim realmente
encantador. A casa tem jardineiro, de modo que tudo que tenho a fazer  admirar as
flores. No sei como se chama nenhuma dessas extraordinrias flores equatoriais, ento
invento nomes para elas. E por que no?  o meu den, no ? Logo j inventei apelidos
para todas as plantas que h por aqui - rvore de narcisos, palmeira-repolho, grama
vestido-de-baile, exibida espiralada, boto peso-pluma, vinha-melancolia e uma orqudea
cor-de-rosa espetacular que batizei de "Primeiro Aperto de Mo do Beb". A quantidade
desnecessria c suprflua de pura beleza por aqui  inacreditvel. Posso colher mames e
bananas direto do p do lado de fora da janela do meu quarto. Aqui mora um gato que se
mostra extraordinariamente afetuoso comigo durante meia hora por dia, antes de eu lhe
dar comida, e depois passa o resto do tempo gemendo loucamente como se estivesse
tendo flashbacks da guerra do Vietn. Estranhamente, no ligo para isso. No ligo para
nada nesses dias. No consigo imaginar nem me lembrar do que seja o descontentamento.
O universo de sons por aqui tambm  espetacular. Ao entardecer, h uma orquestra de
grilos, para a qual os sapos fornecem a linha meldica mais grave. No meio da noite, os
ces uivam por serem incompreendidos. Antes de amanhecer, galos a um raio de muitos
quilmetros anunciam como  legal ser galo. ("Somos GALOS!", berram eles. "Somos os
nicos que podem ser GALOS!") Toda manh, mais ou menos na hora em que o sol
desponta, h uma competio de canto de pssaros tropicais, e o campeonato sempre
termina com um empate entre os dez concorrentes. Quando o sol sai, o lugar silencia, e as
borboletas comeam a trabalhar. A casa inteira  coberta de vinhas; sinto que qualquer
dia ela ir desaparecer por completo em meio  folhagem, e eu prpria me transformarei
em uma flor silvestre. O aluguel custa menos do que eu costumava pagar para andar de
txi em Nova York a cada ms.
A palavra paraso, alis, que vem do persa, significa literalmente "jardim fechado".

80

Dito isso, preciso ser honesta aqui e comunicar que me bastam trs tardes de pesquisa na
biblioteca local para perceber que todas as minhas idias originais sobre o paraso balins
estavam um pouco equivocadas. Desde que estive em Bali pela primeira vez, dois anos
atrs, eu vinha dizendo s pessoas que esta ilhazinha era a nica verdadeira utopia do
mundo, um lugar que s conheceu a paz, a harmonia e o equilbrio durante toda sua
histria. Um den perfeito, sem nenhum histrico de violncia ou banho de sangue. No
tenho certeza de onde tirei essa idia grandiosa, mas a defendi com total segurana.
- At os policiais usam flores no cabelo -, dizia eu, como se isso provasse alguma coisa.
Na realidade, porm, descobri que Bali tem uma histria to sangrenta, violenta e
opressiva quanto qualquer outro lugar da Terra que tenha sido habitado por seres
humanos. Quando os reis javaneses emigraram para c pela primeira vez, no sculo XVI,
o que fundaram foi basicamente uma colnia feudal, com um rgido sistema de castas que
-- como todo sistema de castas que se preze - tendia a no se preocupar com quem
estivesse na base. No comeo, a economia balinesa era abastecida por um lucrativo
trfico de escravos (que no apenas precedeu, em vrios sculos, a participao europia
no trfico internacional de escravos, mas tambm durou mais um bom tempo do que o
trfico europeu de vidas humanas). Internamente, a ilha estava constantemente em guerra,
com reis rivais organizando ataques (incluindo estupros e assassinatos em massa) contra
seus vizinhos. At o final do sculo XIX, os balineses tinham entre os comerciantes e
marinheiros a reputao de serem guerreiros terrveis. (A palavra amok, usada na
expresso em ingls "to run amok" ou enlouquecer,  balinesa, e refere-se a uma tcnica
de batalha que consistia em lanar-se subitamente sobre os inimigos em uma fria
ensandecida, travando um combate corpo-a-corpo suicida e sangrento; os europeus
ficavam totalmente aterrorizados com essa prtica.) Com um exrcito disciplinado
composto por 30 mil homens, os balineses derrotaram seus invasores holandeses em
1848, depois em 1849, e mais uma vez, para ter certeza, em 1850. Somente se renderam
ao controle holands quando os reis rivais de Bali se separaram e traram uns aos outros
para tentar conquistar o poder, aliando-se ao inimigo em troca da promessa de bons
negcios no futuro. Portanto, envolver a histria da ilha hoje em um sonho de paraso 
um pouco insultuoso em relao  realidade; essas pessoas esto longe de terem passado
o ltimo milnio sentadinhas sorrindo e cantando canes felizes.
Nos anos 1920 e 1930, porm, quando uma elite de viajantes ocidentais descobriu Bali,
todo esse passado sangrento foi ignorado, quando os recm-chegados concordaram que
isto aqui era realmente "A Ilha dos Deuses", onde "todos so artistas" e onde a
humanidade vive em um estado intocado de contentamento. Essa idia perdurou muito
tempo, esse sonho; a maioria dos que visitam Bali (incluindo eu prpria, na primeira
viagem) ainda a confirma. "Fiquei furioso com Deus por no ter nascido balins", disse o
fotgrafo alemo George Krauser, depois de visitar Bali na dcada de 1930. Atrados por
relatos de beleza e serenidade incomparveis, alguns turistas notveis comearam a
visitar a ilha - artistas como Walter Spies, escritores como Nel Coward, bailarinos como
Claire Holt, atores como Charlie Chaplin, estudiosos como Margaret Mead (que, apesar
de todos os seios nus, sabiamente definiu a civilizao balinesa como aquilo que
realmente era, uma sociedade to puritana quanto a Inglaterra vitoriana: "No h um
grama de libido livre na cultura inteira.")
A festa terminou nos anos 1940, quando o mundo entrou em guerra. Os japoneses
invadiram a Indonsia, e os extticos expatriados em seus jardins balineses com seus
bonitos pajens foram obrigados a ir embora. Na luta pela independncia da Indonsia que
sucedeu  guerra, Bali tornou-se exatamente to dividida e violenta quanto o restante do
arquiplago e, na dcada de 1950 (segundo um estudo chamado Bali: Um Paraso
Inventado), se um estrangeiro ousasse sequer pr os ps em Bali, poderia ser uma boa
idia dormir com uma arma debaixo do travesseiro. Durante os anos 1960, a luta pelo
poder transformou a Indonsia inteira em um campo de batalha entre nacionalistas e
comunistas. Depois de uma tentativa de golpe em Jacarta, em 1965, soldados
nacionalistas foram enviados a Bali com os nomes de todos aqueles suspeitos de
comunismo na ilha. Em mais ou menos uma semana, sempre contando com a ajuda da
polcia local e das autoridades dos vilarejos, as foras nacionalistas percorreram cada
cidade assassinando diligentemente. Quando a matana terminou, algo como 100 mil
cadveres abarrotavam os lindos rios de Bali.
O renascimento do sonho de um den fabuloso ocorreu no final dos anos 1960, quando o
governo da Indonsia decidiu reinventar Bali para o mercado internacional de turismo
como "A Ilha dos Deuses", lanando uma ultrabem-sucedida campanha de marketing. Os
turistas atrados novamente para Bali formavam um grupo bastante refinado (afinal, isto
aqui no era a Flrida), e sua ateno era atrada pela beleza artstica e religiosa inerente
 cultura balinesa. Elementos histricos mais sombrios foram ignorados. E continuaram
ignorados desde ento.
Ler sobre tudo isso durante minhas tardes na biblioteca local me deixa um pouco confusa.
Esperem - por que voltei a Bali? Para procurar o equilbrio entre prazer mundano e
devoo espiritual, certo? Ser este, de fato, o ambiente certo para essa busca? Ser que
os balineses so realmente imbudos desse poderoso equilbrio, mais do que qualquer
outra pessoa no mundo? Quero dizer, eles parecem equilibrados, com todas essas danas,
preces, comemoraes, belezas e sorrisos, mas no sei o que acontece de verdade por
baixo disso tudo. Os policiais de fato usam flores enfiadas atrs das orelhas, mas Bali,
assim como o restante da Indonsia,  um lugar onde h corrupo por toda parte (como
descobri em primeira mo no outro dia, ao pagar algumas centenas de dlares de suborno
a um homem uniformizado para ele estender ilegalmente o meu visto, de modo que eu
afinal pudesse passar quatro meses em Bali). Os balineses literalmente vivem de sua
imagem de serem o povo mais pacfico, religioso e artisticamente expressivo do mundo,
mas quanto disso  intrnseco e quanto  economicamente calculado? E at que ponto
uma forasteira como eu pode vir a conhecer as tenses escondidas que podem estar 
espreita por trs desses "rostos brilhantes"? Aqui acontece a mesma coisa que em
qualquer outro lugar - se voc olhar de perto demais para a imagem, todas as linhas
slidas comeam a se dissolver em uma massa indistinta de pinceladas embaadas e
pixels manipulados.
Por ora, tudo que posso dizer com certeza  que adoro a casa que aluguei e que as pessoas
em Bali foram uma simpatia comigo, sem exceo. Considero sua arte e suas cerimnias
lindas e restauradoras; eles tambm parecem pensar assim. Essa  a minha experincia
emprica de um lugar provavelmente muito mais complexo do que eu algum dia poderei
compreender. No entanto, o que quer que os balineses precisem fazer para manter seu
prprio equilbrio (e para ganhar a vida)  totalmente problema seu. O que estou tentando
fazer  trabalhar para encontrar meu prprio equilbrio, e aqui ainda parece, pelo menos
por enquanto, um ambiente propcio para se fazer isso.

81

No sei quantos anos tem o meu xam. J lhe perguntei, mas ele no tem certeza. Acho
que me lembro, quando estive aqui h dois anos, de o tradutor dizer que ele tinha 80 anos.
Mas Mario perguntou-lhe no outro dia quantos anos ele tinha, e Ketut respondeu:
- Sessenta e cinco, talvez, no tenho certeza.
Quando lhe perguntei em que ano ele nasceu, ele disse que no se lembrava de ter
nascido. Sei que ele j era adulto quando os japoneses ocuparam Bali durante a Segunda
Guerra Mundial, o que o faria ter mais ou menos 80 anos agora. Mas, quando ele me
contou a histria do brao queimado quando era jovem, e eu lhe perguntei em que ano
isso havia acontecido, ele respondeu:
- No sei. Talvez 1920?
Nesse caso, se ele tinha mais ou menos 20 anos em 1920, que idade tem agora? Talvez
105 anos? Ento podemos estimar que ele tem entre 65 e 105 anos de idade.
Tambm percebi que sua estimativa da prpria idade muda dependendo do dia, baseado
na forma como est se sentindo. Quando ele est realmente cansado, suspira e diz:
"Oitenta e cinco hoje, talvez", mas, quando est mais disposto, ele diz: "Acho que hoje
estou com 60 anos." Talvez essa seja uma maneira to boa de estimar a idade quanto
qualquer outra - que idade voc sente que tem? Pensando bem, o que mais importa?
Mesmo assim, estou sempre tentando descobrir. Certa tarde, resolvi simplificar as coisas
e perguntei:
-- Ketut... quando voc faz aniversrio?
-- Quinta-feira -- respondeu ele.
-- Quinta-feira agora?
-- No. No nesta quinta-feira. Em uma quinta-feira.
 um bom comeo... mas ser que no existe mais informao alm disso? Uma quinta-
feira de que ms? De que ano? No h jeito de descobrir. De toda forma, em Bali, o dia
da semana em que voc nasceu  mais importante do que o ano, e  por isso que, embora
Ketut no saiba a prpria idade, foi capaz de me contar que o patrono das crianas
nascidas nas quintas-feiras  Shiva, o Destruidor, e que o dia tem dois espritos-guias
animais: o leo e o tigre. A rvore oficial das crianas nascidas em quintas-feiras  a
figueira-de-bengala. Seu pssaro oficial  o pavo. Quem nasceu em uma quinta-feira 
sempre o primeiro a falar, sempre interrompe todos os outros, pode ser um pouco
agressivo, tende a ser bonito ("um homem-objeto ou uma mulher-objeto", segundo
Ketut), mas, de forma geral, tem um carter decente, com uma memria excelente e um
desejo de ajudar os outros.
Quando seus pacientes balineses vm procurar Ketut com problemas srios de sade, de
dinheiro ou de relacionamento, ele sempre pergunta em que dia da semana eles nasceram,
de modo a compilar as preces e os remdios certos para ajud-las. Pois, segundo Ketut,
algumas vezes "as pessoas esto doentes de aniversrio", e precisam de um pouco de
ajuste astrolgico para faz-las recuperar o equilbrio. No outro dia, uma famlia da
regio trouxe seu caula para uma consulta com Ketut. O menino devia ter uns 4 anos.
Perguntei qual era o problema, e Ketut traduziu que a famlia estava preocupada com
"problemas com menino muito agressivo. Este menino no aceita ordens. Comporta mal.
No presta ateno. Todo mundo em casa cansado do menino. De vez em quando
tambm, menino tonto demais".
Ketut perguntou aos pais se podia segurar a criana por alguns instantes. Eles puseram o
menino no colo de Ketut, e a criana se recostou no peito do velho xam, relaxada e sem
medo nenhum. Ketut o segurou com carinho, pousou a palma da mo sobre a testa do
menino, fechou os olhos. Ento pousou a palma da mo sobre a barriga do menino e
tornou a fechar os olhos. Durante esse tempo todo, sorria e conversava gentilmente com o
menino. O exame terminou rapidamente. Ketut devolveu o menino a seus pais, e eles
logo foram embora com uma receita e um pouco de gua benta. Ketut me disse que havia
perguntado aos pais as circunstncias do nascimento do menino e descobrira que ele
havia nascido sob uma m estrela e em um dia de sbado - dia de nascimento que contm
elementos de espritos potencialmente maus, como os do corvo, da coruja, do galo ( isso
que torna a criana briguenta) e da marionete (era o que estava causando sua tontura).
Mas nem tudo eram ms notcias. Tendo nascido em um sbado, o corpo do menino
tambm encerrava o esprito do arco-ris e da borboleta, e estes podiam ser fortalecidos.
Uma srie de oferendas deveria ser feita, e o menino iria novamente se reequilibrar.
- Por que voc ps a mo na testa e na barriga do menino? -- perguntei. - Queria ver se
ele estava com febre?
- Eu estava checar o crebro dele - disse Ketut. - Para ver se ele tinha espritos maus na
mente.
- Que tipo de espritos maus?
- Liss - disse ele. - Eu sou balins. Eu acredito na magia negra. Eu acredito que espritos
maus saem dos rios e machucam gente.
- O menino tinha espritos maus?
- No. Ele s est doente do aniversrio. A famlia dele vai fazer sacrifcio. Vai ficar tudo
bem. E voc, Liss? Voc praticando meditao balinesa todas as noites? Manter mente e
corao limpos?
- Todas as noites - garanti.
- Voc aprender a sorrir at no fgado?
- At no meu fgado, Ketut. Sorriso bem grande no meu fgado.
- Muito bem. Esse sorriso vai fazer voc mulher bonita. Vai te dar poder de ser muito
bonita. Voc pode usar esse poder... poder bonito!... para conseguir o que quer da vida.
- Poder bonito! - Repeti a expresso, adorando-a. Parecia uma Barbie meditando. - Eu
quero o poder bonito!
- Voc ainda pratica meditao indiana, tambm?
- Todas as manhs.
- Muito bem. No esquea seu ioga. Faz bem a voc. Bom para voc praticar duas formas
de meditao: indiana e balinesa. As duas diferentes, mas igualmente boas. Mesmo-
mesmo. Penso em religio, a maioria  mesmo-mesmo.
- Nem todo mundo pensa assim, Ketut. Algumas pessoas gostam de discutir sobre Deus.
- No  necessrio - disse ele. - Tenho boa idia, para se voc conhece algum de outra
religio e ele quer discutir sobre Deus. Minha idia , voc escuta tudo que esse homem
diz sobre Deus. Nunca discute sobre Deus com de. Melhor coisa a dizer : "Concordo
com voc." Depois vai pra casa, reza o que quiser. Essa  minha idia para as pessoas
terem paz sobre religio.
Percebi que Ketut mantm o queixo empinado o tempo todo, com a cabea um pouco
inclinada para trs, parecendo ao mesmo tempo intrigado e elegante. Como um velho rei
curioso, ele v o mundo todo por cima do prprio nariz. Sua pele  lustrosa, de um
marrom dourado. Ele  quase completamente calvo, mas compensa isso com longas e
macias sobrancelhas que parecem ansiosas para levantar vo. Com exceo dos dentes
que faltam e do brao esquerdo com a cicatriz da queimadura, ele parece em perfeita
sade. Disse-me que, quando jovem, era danarino nas cerimnias do templo, e que,
nessa poca, era lindo. Acredito nele. Ele faz apenas uma refeio por dia - um prato
tpico balins, simples, feito de arroz misturado com pato ou peixe. Gosta de beber uma
xcara de caf com acar por dia, principalmente s para celebrar o fato de ter dinheiro
para comprar caf e acar. Com uma dieta dessas, voc tambm poderia, com facilidade,
viver at os 105 anos. Segundo ele, mantm o corpo forte meditando toda noite antes de
dormir e puxando a energia saudvel do universo para seu prprio centro. Ele diz que o
corpo humano  feito de nada mais, nada menos do que os cinco elementos da criao -
gua (apa), fogo (tejo), vento (bayu), cu (akasa) e terra (pritiwi) -, e que tudo que voc
precisa fazer  se concentrar nessa realidade durante a meditao para receber energia de
todas essas fontes, e ficar forte. Demonstrando seu ouvido ocasionalmente muito bom
para as expresses da lngua inglesa, ele disse:
- O microcosmo vira o macrocosmo. Voc, microcosmo, vai virar o mesmo que universo,
macrocosmo.
Ele hoje esteve muito ocupado, cheio de pacientes balineses amontoados por seu quintal
como contineres de carga, todos com bebs ou oferendas no colo. Havia agricultores e
homens de negcios, pais e avs. Havia pais com bebs que no conseguiam segurar
comida no estmago e velhos assombrados por maldies de magia negra. Havia rapazes
atormentados pela agresso e pela luxria, e moas  procura de parceiros no amor,
enquanto crianas sofredoras reclamavam de seus problemas de pele. Tudo
desequilibrado; todo mundo precisando recuperar o equilbrio.
No entanto, a atmosfera do quintal da casa de Ketut  sempre de pacincia total. Algumas
vezes, as pessoas precisam esperar trs horas at Ketut ter uma oportunidade de atend-
las, mas elas nunca batem o p no cho nem reviram os olhos, irritadas. Tambm 
extraordinria a maneira como as crianas esperam, apoiadas em suas lindas mes,
brincando com os prprios dedos para fazer passar o tempo. Sempre acho graa depois,
quando se descobre que essas mesmas crianas tranqilas foram trazidas para uma
consulta com Ketut, porque a me e o pai decidiram que a criana  "levada demais" e
precisa de uma cura. Aquela menininha? Aquela menininha de 3 anos que ficou sentada
em silncio, debaixo do sol quente, durante quatro horas a fio, sem reclamar, sem fazer
nenhum lanche e sem nenhum brinquedo? Ela  levada? Eu gostaria de poder dizer:
"Gente, se vocs quiserem ver o que  uma criana levada, levo vocs para os Estados
Unidos e mostro umas crianas que vo fazer vocs acreditarem na alopatia pesada."
Mas, aqui, os padres para o bom comportamento infantil so simplesmente diferentes.
Ketut tratou todos os pacientes com boa vontade, um aps o outro, aparentemente sem se
preocupar com a passagem do tempo, dando a todos exatamente a ateno de que
precisavam, independente de quem estava esperando para ser atendido depois. Estava to
ocupado que sequer fez sua nica refeio, na hora do almoo, mantendo-se em vez disso
colado  sua varanda, obrigado, por seu respeito a Deus e a seus ancestrais, a passar horas
interminveis ali sentado, curando todo mundo. Quando a noite chegou, seus olhos
estavam cansados como os olhos de um cirurgio de campanha da Guerra Civil
americana. Seu ltimo paciente do dia fora um balins de meia-idade intensamente
perturbado, que reclamava de no conseguir dormir bem h semanas; ele dizia estar
sendo assombrado por um pesadelo de "afogar-se em dois rios ao mesmo tempo".
At esta noite, eu ainda no tinha certeza de qual era o meu papel na vida de Ketut Liyer.
Todos os dias, pergunto se ele tem certeza de que vai me querer aqui, e ele continua a
insistir para eu vir ficar com ele. Sinto-me culpada por ocupar uma parte to grande de
seu dia, mas ele sempre parece decepcionado quando vou embora no final da tarde. No
estou lhe ensinando nenhum ingls, no para valer. De toda forma, a esta altura, qualquer
ingls que ele tenha aprendido muitas dcadas atrs, como quer que tenha sido, j se
cristalizou em sua mente, e no h muito espao para correo ou vocabulrio novo.
Tudo que consigo  faz-lo dizer: "Prazer em ver voc" quando chego em vez de "Prazer
em conhecer voc".
Nessa noite, depois de seu ltimo paciente ter ido embora, quando Ketut estava exausto,
parecendo um ancio de to cansado de trabalhar, perguntei-lhe se eu deveria ir embora
agora e deix-lo um pouco sozinho, e ele respondeu:
-- Sempre tenho tempo para voc.
Em seguida, pediu-me para lhe contar histrias sobre a ndia, sobre os Estados Unidos,
sobre a Itlia, sobre a minha famlia. Foi ento que me dei conta de que no sou a
professora de ingls de Ketut Liyer, nem sou exatamente sua aluna de teologia, mas sou o
mais bsico e o mais simples dos prazeres desse velho xam -- sou sua companhia. Sou
algum com quem ele pode conversar, porque ele gosta de ouvir falar sobre o mundo, e
no teve muita oportunidade de v-lo.
Durante as horas que passamos juntos nessa varanda, Ketut me fez perguntas sobre tudo,
de quanto custam os carros no Mxico ao que provoca a AIDS. (Fiz o que pude com os
dois assuntos, embora acredite que haja especialistas que poderiam ter respondido com
mais embasamento.) Ketut nunca saiu da ilha de Bali na vida. Na verdade, ele passou
muito pouco tempo fora dessa varanda. Certa vez, fez uma peregrinao at o monte
Agung, o maior e espiritualmente mais importante vulco de Bali, mas disse que a
energia l era to poderosa que ele mal conseguia meditar, por medo de ser consumido
pelo fogo sagrado. Ele vai aos templos para as grandes cerimnias importantes e 
convidado  casa dos vizinhos para celebrar casamentos ou rituais de puberdade, mas,
durante a maior parte do tempo, pode ser encontrado ali mesmo, de pernas cruzadas sobre
sua esteira de bambu, cercado pelas enciclopdias mdicas de folha de palmeira do
bisav, cuidando das pessoas, enfraquecendo demnios e, ocasionalmente, oferecendo a
si mesmo o luxo de uma xcara de caf com acar.
- Tive um sonho de voc ontem  noite - disse-me ele hoje. - Tive um sonho que voc
anda de bicicleta em qualquer lugar.
Como ele fez uma pausa, sugeri uma correo gramatical.
- Voc quer dizer que sonhou que eu andava de bicicleta por toda parte?
- Isso! Sonhei ontem  noite que voc anda de bicicleta em qualquer lugar e por toda
parte. Voc est to feliz no meu sonho! Pelo mundo inteiro, voc anda na sua bicicleta.
E eu seguindo voc!
Talvez ele gostasse de poder fazer isso...
- Quem sabe voc vai me visitar nos Estados Unidos um dia, Ketut - falei.
- No posso, Liss. - Ele sacudiu a cabea, alegremente resignado a seu destino. - No
tenho dentes suficientes para andar no avio.

82

Quanto  mulher de Ketut, levo algum tempo para me alinhar com ela. Nyomo, como ele
a chama,  grande e gordota, manca por causa de uma rigidez no quadril, e tem os dentes
manchados de vermelho de tanto mascar fumo com noz de btel. Seus dedos dos ps so
dolorosamente retorcidos por causa da artrite. Ela tem olhos cruis. Senti medo dela
desde a primeira vez em que a vi. Ela irradia aquela energia de velha brava que, s vezes,
se v nas vivas italianas e nas matronas negras srias e beatas. Parece pronta a lhe dar
uma sova pela menor das contravenes. No incio, ficou visivelmente desconfiada de
mim -- Quem  esse flamingo passeando pela minha casa todo dia? Ficava me
encarando de dentro das sombras fuliginosas de sua cozinha, nada convencida de meu
direito de existir. Eu sorria para ela, e ela simplesmente continuava a me encarar, em
dvida se deveria me enxotar dali com uma vassoura ou no.
Um dia, porm, alguma coisa mudou. Foi depois do incidente da xerox.
Ketut Liyer tem pilhas e mais pilhas de cadernos pautados e velhos livros-registro,
repletos de antigos mistrios de cura escritos em snscrito balins em uma caligrafia
muito mida. Ele copiou essas anotaes para os cadernos l nos anos 1940 ou 1950, em
algum momento depois da morte do av, para poder ter toda a informao mdica
registrada.  algo de valor incalculvel. H volumes e mais volumes de dados sobre
rvores e plantas raras, e sobre suas propriedades medicinais. Ele tem mais ou menos
sessenta pginas de diagramas sobre quiromancia, e mais cadernos repletos de dados
astrolgicos, mantras, feitios e curas. O nico problema  que esses cadernos
atravessaram dcadas de mofo e camundongos, e esto quase inteiramente despedaados.
Amarelos esfarelados e midos, parecem pilhas de folhas outonais em desintegrao.
Sempre que ele vira uma pgina, arranca-a.
- Ketut - disse-lhe eu na semana passada, segurando um dos seus cadernos surrados -, no
sou mdica feito voc, mas acho que este livro est morrendo.
Ele riu.
- Voc acha que est morrendo?
- Meu senhor - disse eu, com voz grave -, minha opinio profissional  a seguinte: se este
livro no for tratado logo, ter no mximo seis meses de vida.
Em seguida, perguntei se poderia levar o caderno para a cidade comigo e xeroc-lo antes
de ele morrer. Precisei explicar o que era xerocar e prometer que s ficaria com o caderno
por 24 horas, e que no o estragaria. Por fim, ele concordou em me deixar tir-lo do
permetro da varanda com minhas mais enfticas garantias de que eu tomaria cuidado
com a sabedoria de seu av. Fui at a cidade, entrei na loja que tinha os computadores
com acesso  internet e as copiadoras, delicadamente dupliquei cada pgina e, em
seguida, mandei encadernar as cpias xerox novas e limpas com uma bela capa em
espiral. No dia seguinte, antes do meio-dia, levei de volta as verses velha e nova do
caderno. Ketut ficou surpreso e encantado, muito feliz porque, segundo ele, tinha aquele
caderno h cinqenta anos. O que poderia significar literalmente "cinqenta anos" ou
poderia simplesmente significar "um tempo".
Perguntei se poderia xerocar o restante de seus cadernos, para manter essa informao
segura tambm. Ele estendeu outro documento murcho, roto, esfrangalhado,
desmilingido, cheio de anotaes em snscrito balins e de desenhos complicados.
-- Outro paciente! -- disse ele.
- Deixe eu curar ele! -- retruquei.
Foi outro grande sucesso. Ao final da semana, eu j havia xerocado vrios dos antigos
manuscritos. Todos os dias, Ketut chamava sua mulher e lhe mostrava as novas cpias,
louco de alegria. A expresso facial dela no mudou um milmetro, mas ela estudou os
documentos com ateno.
E, na segunda-feira seguinte, quando cheguei para minha visita, Nyomo me trouxe caf
quente, servido em um vidro de gelia. Eu a vi trazendo a bebida pelo quintal sobre um
pires de porcelana, mancando devagarzinho durante o longo trajeto de sua cozinha at a
varanda de Ketut. Imaginei que o caf fosse para Ketut, mas no - de j bebera o seu caf.
Aquele era para mim. Ela o fizera para mim. Tentei agradecer-lhe, mas ela pareceu
irritada com meu agradecimento, e me enxotou do mesmo jeito que enxota o galo que
sempre tenta ficar em cima da mesa ao ar livre de sua cozinha, quando ela est
preparando o almoo. No dia seguinte, porm, ela me trouxe um copo de caf com uma
tigela de acar do lado. E, no dia seguinte, foi um copo de caf, uma tigela de acar e
uma batata cozida fria. A cada dia daquela semana, ela acrescentava um novo agrado.
Estava comeando a parecer aquela brincadeira que as crianas fazem com o alfabeto
quando viajam de carro: "Vou  casa da vov e estou levando um abacaxi... Vou  casa
da vov e estou levando um abacaxi e uma bola... Vou  casa da vov e estou levando um
abacaxi, uma bola, um copo de caf em um vidro de gelia, uma tigela de acar e uma
batata fria...
Ento, ontem, eu estava em p no quintal, despedindo-me de Ketut, quando Nyomo
passou por mim arrastando sua vassoura, varrendo e fingindo no estar prestando ateno
a tudo que acontece em seu imprio. Eu estava em p, com as mos unidas nas costas, e
ela veio por trs e segurou uma das minhas mos. Mexeu na minha mo como se
estivesse tentando desembaralhar o segredo de uma tranca e encontrou meu indicador.
Ento envolveu esse dedo com todo o seu punho grande, duro, e me deu um aperto forte
e demorado. Pude sentir seu amor pulsando no aperto de sua mo, subindo pelo meu
brao e descendo at minhas entranhas. Ela ento soltou minha mo e saiu mancando
com sua artrite, sem dizer uma nica palavra, continuando a varrer como se nada
houvesse acontecido. Enquanto eu ficava ali em p, afogando-me em silncio em dois
rios de felicidade ao mesmo tempo.

83

Tenho um novo amigo. O nome dele  Yudhi, que se pronuncia "You-day". Ele 
indonsio, nascido em Java. Eu o conheci porque foi ele quem me alugou minha casa; ele
trabalha para a proprietria inglesa da casa, cuidando de sua propriedade, enquanto ela
passa o vero em Londres. Yudhi tem 27 anos de idade, uma estrutura atarracada e fala
como se fosse um surfista californiano. Est sempre me chamando de "cara" e "brder".
Tem um sorriso que seria capaz de pr fim  criminalidade. E uma vida comprida e
complicada para algum to jovem.
Ele nasceu em Jacarta; sua me era dona de casa, seu pai um f indonsio de Elvis
Presley que tinha uma pequena empresa de ar-condicionado e refrigerao. A famlia era
crist - uma raridade nesta parte do mundo, e Yudhi conta histrias interessantes sobre as
gozaes dos meninos muulmanos do bairro por defeitos como "Voc come porco!" e
"Voc ama Jesus!". Yudhi no ligara para as gozaes; por natureza, Yudhi no liga para
muita coisa. Sua me, porm, no gostava que ele brincasse com as crianas
muulmanas, principal-mente devido ao fato de que elas andavam sempre descalas,
coisa que Yudhi tambm gostava de fazer, mas que ela considerava anti-higinico e,
portanto, deu uma escolha ao filho - ele poderia calar sapatos e brincar na rua, ou
continuar descalo e ficar dentro de casa. Yudhi no gosta de calar sapatos, ento passou
uma boa parte da infncia e adolescncia dentro de seu quarto, e foi l que aprendeu a
tocar violo. Descalo.
O cara talvez tenha o melhor ouvido musical de todas as pessoas que j conheci, Toca
violo lindamente; nunca teve aulas, mas entende melodia e harmonia como se elas
fossem as irms caulas com quem ele foi criado. Mistura msica oriental e ocidental,
combinando cantigas de ninar indonsias com grooves de reggae e funks da primeira fase
de Stevie Wonder -  difcil de explicar, mas ele deveria ser famoso. Nunca conheci
ningum que tivesse escutado a msica de Yudhi e no achasse que ele deveria ser
famoso.
O que ele sempre quis fazer, mais do que tudo,  o seguinte: morar nos Estados Unidos e
trabalhar na indstria do espetculo. O sonho do mundo inteiro. Assim, quando Yudhi era
um adolescente javans, conseguiu, no se sabe como (sem falar ainda quase nada de
ingls), um emprego em um navio da Carnival Cruise Lines e, graas a ele, pde sair de
seu limitado universo javans e mergulhar no grande mundo azul. O emprego que Yudhi
conseguiu no cruzeiro era um daqueles trabalhos malucos para imigrantes bem-dispostos
- morar debaixo do convs, trabalhar 12 horas por dia - com uma folga por ms - e fazer
faxina. Seus colegas de trabalho eram filipinos e indonsios. Os indonsios e filipinos
dormiam e comiam em reas diferentes do navio, sem nunca se misturar (muulmanos
contra cristos, sabem como ), mas Yudhi, em um comportamento tpico seu, ficou
amigo de todo mundo e tornou-se uma espcie de emissrio entre os dois grupos de
trabalhadores asiticos. Via mais semelhanas do que diferenas entre aquelas
camareiras, zeladores e lava-louas, todos os quais trabalhavam sem descanso para
mandar mais ou menos cem dlares para suas famlias em casa.
Na primeira vez em que o navio entrou no porto de Nova York, Yudhi passou a noite
inteira acordado, encarapitado no deque mais alto, vendo a linha de prdios da cidade
surgir por sobre o horizonte, com o corao martelando de emoo. Horas depois, desceu
do navio em Nova York e chamou um txi amarelo, igualzinho ao que acontece no
cinema. Quando o recm-chegado imigrante africano que dirigia o txi lhe perguntou
aonde ele gostaria de ir, Yudhi falou:
- A qualquer lugar, cara... s me leve para passear. Quero ver tudo. Alguns meses depois,
o navio voltou a Nova York, e, dessa vez, Yudhi desembarcou para valer. Seu contrato
com a empresa de cruzeiro havia terminado, e ele agora queria morar nos Estados
Unidos.
Entre todos os lugares possveis, acabou indo parar em um subrbio de Nova Jersey, onde
passou algum tempo morando com um indonsio que conhecera no navio. Arrumou um
emprego em uma lanchonete do shopping - onde tambm trabalhava 12 horas por dia, ao
estilo dos imigrantes, s que dessa vez com mexicanos, em vez de filipinos. Durante
esses primeiros meses, aprendeu mais espanhol do que ingls. Em seus raros momentos
de lazer, Yudhi subia no nibus e ia at Manhattan, onde ficava perambulando pelas ruas,
ainda to apaixonado pela cidade que mal conseguia falar -- uma cidade que ele hoje
descreve como "o lugar mais cheio de amor do mundo inteiro". De alguma forma
(novamente o mesmo sorriso), conheceu em Nova York um grupo de jovens msicos do
mundo inteiro e comeou a tocar violo com eles, improvisando a noite toda com garotos
talentosos da Jamaica, da frica, da Frana, do Japo... E, em uma dessas apresentaes,
conheceu Ann -- uma bonita loura do Connecticut que tocava baixo. Apaixonaram-se.
Casaram-se. Encontraram um apartamento no Brooklyn e viviam cercados por amigos
legais com quem faziam viagens de carro at as ilhas de Florida Keys. A vida era
inacreditvel de to feliz. Seu ingls logo ficou perfeito. Ele pensava em cursar a
universidade.
No dia 11 de setembro, Yudhi viu as torres carem de sua laje no Brooklyn. Como todo
mundo, ficou paralisado de tristeza com o que havia acontecido - como algum podia
infligir tamanha atrocidade  cidade mais cheia de amor do que qualquer outro lugar do
mundo? No sei se Yudhi estava prestando ateno quando o Congresso norte-americano,
em resposta  ameaa terrorista, aprovou, em seguida, o Ato Patriota - uma legislao que
inclua novas e draconianas leis de imigrao, muitas das quais diretamente previstas para
atingir naes islmicas como a Indonsia. Uma das novas leis exigia que todos os
cidados indonsios que morassem nos Estados Unidos se registrassem no Departamento
de Segurana Interna. Os telefones comearam a tocar, enquanto Yudhi e seus jovens
amigos imigrantes indonsios tentavam resolver o que fazer - muitos deles haviam
permanecido mais tempo no pas do que o permitido por seus vistos, e tinham medo de
serem deportados, caso se registrassem. Por outro lado, tinham medo de no se
registrarem, pois estariam agindo como criminosos.  de se supor que os terroristas
islmicos fundamentalistas soltos pelos Estados Unidos tenham ignorado essa lei do
registro, mas Yudhi decidiu que queria se registrar. Ele era casado com uma americana e
queria regularizar seu status de imigrante e tornar-se um cidado legal. No queria viver
escondido.
Ele e Ann consultaram todo tipo de advogados, mas ningum sabia como aconselh-los.
Antes de 11 de setembro, no teria havido problemas - Yudhi, agora casado, poderia
simplesmente ir ao escritrio de imigrao, regularizar a situao do seu visto e comear
o processo de aquisio da cidadania. Mas e agora? Quem poderia saber? "As leis ainda
no foram testadas", diziam os advogados especializados em imigrao. "As leis sero
testadas em vocs." Assim, Yudhi e a mulher se reuniram com um simptico funcionrio
da imigrao e contaram sua histria. Ele disse ao casal que Yudhi deveria voltar depois
na mesma tarde, para uma "segunda entrevista". Nessa hora, eles deveriam ter
desconfiado; Yudhi recebeu instrues claras para voltar sem a mulher, sem advogado e
sem trazer nada no bolso. Esperando que tudo desse certo, de voltou sozinho e de mos
vazias para a segunda entrevista - e foi ento que o prenderam.
Yudhi foi levado para um centro de deteno em Elizabeth, Nova Jersey, onde passou
semanas junto a um grupo grande de imigrantes, todos presos recentemente devido ao
Ato de Segurana Interna, e muitos dos quais viviam e trabalhavam nos Estados Unidos
havia anos, e a maioria dos quais no falava ingls. Alguns, ao serem presos, no haviam
conseguido entrar em contato cora suas famlias. No centro de deteno, eram invisveis;
ningum mais sabia que eles existiam. Uma Ann histrica levou vrios dias para
descobrir para onde tinham levado seu marido. Aquilo de que Yudhi mais se lembra em
relao ao centro de deteno  da dzia de nigerianos negros como carvo, magros e
aterrorizados, que haviam sido encontrados em um cargueiro, dentro de um continer de
ao; antes de serem descobertos, haviam passado quase um ms escondidos naquele
continer no fundo daquele navio, tentando chegar aos Estados Unidos - ou a qualquer
lugar. No faziam idia de onde estavam agora. "Tinham os olhos to arregalados", disse
Yudhi, "que parecia que ainda estavam sendo cegados pelos holofotes."
Depois de um perodo de deteno, o governo norte-americano mandou meu amigo
cristo Yudhi - agora aparentemente suspeito de ser um terrorista islmico - de volta para
a Indonsia. Isso foi no passado. No sei se algum dia ele vai ter permisso para sequer
chegar perto dos Estados Unidos. Ele e a mulher ainda esto tentando resolver o que fazer
com suas vidas agora; seus sonhos no incluam passar a vida morando na Indonsia.
Incapaz de suportar as favelas de Jacarta depois de ter morado no Primeiro Mundo,
Yudhi viera para Bali ver se conseguia ganhar a vida aqui, embora esteja sendo difcil
para ele ser aceito nesta sociedade, uma vez que no  balins - ele nasceu em Java. E os
balineses no gostam nadinha dos javaneses, a quem consideram ladres e mendigos.
Ento, Yudhi encontra mais preconceito aqui - em seu prprio pas, a Indonsia - do que
chegou a encontrar l em Nova York. Ele no sabe o que fazer agora. Talvez sua mulher,
Ann, venha morar com ele aqui. Mas... pode ser que no. O que ela faria aqui? Seu
casamento recente, que agora s existe via e-mail, est por um triz. Ele aqui se sente um
peixe fora d'gua, completamente desnorteado.  mais americano do que qualquer outra
coisa; Yudhi e eu usamos as mesmas grias, conversamos sobre nossos restaurantes nova-
iorquinos preferidos e gostamos dos mesmos filmes. Ele vem  minha casa  noite e toca
msicas incrveis em seu violo. Gostaria que ele fosse famoso. Se existisse alguma
justia, ele hoje seria famosssimo.
- Brder... por que a vida  louca assim? - pergunta ele.

84

Ketut, por que a vida  louca assim? -- perguntei a meu xam no dia seguinte.
- Bhuta ia, dewa ia -- respondeu ele.
- O que isso quer dizer?
- O homem  um demnio, o homem  um deus. Os dois verdade.
Essa era uma idia que eu conhecia bem.  muito indiana, muito iogue. A idia  que,
como explicou muitas vezes a minha Guru, os seres humanos nascem com o mesmo
potencial tanto para a contrao quanto para a expanso. Os ingrediente tanto da
escurido quanto da luz esto igualmente presentes em todos ns, e cabe ao indivduo (ou
 famlia, ou  sociedade) decidir o que ir prevalecer - as virtudes ou a malevolncia. A
loucura deste planeta  em grande parte resultado da dificuldade do ser humano de
encontrar um equilbrio virtuoso consigo mesmo. O resultado  a loucura (tanto coletiva
quanto individual).
- Ento o que a gente pode fazer quanto  loucura do mundo?
- Nada. - Ketut riu, mas com uma cena gentileza. - Essa  natureza do mundo. Isso 
destino. Se preocupe s com a sua loucura... deixa voc em
- Mas como a gente consegue encontrar paz dentro da gente mesmo? - perguntei a Ketut.
- Meditao - disse ele, - Propsito da meditao  s felicidade e paz... muito fcil. Hoje
vou ensinar uma meditao nova, fazer voc pessoa ainda melhor. Chama Meditao dos
Quatro Irmos.
Ketut prosseguiu explicando que os balineses acreditam que cada um de ns, quando
nasce, vem acompanhado de quatro irmos invisveis, que vm ao mundo conosco e que
nos protegem durante a vida. Quando a criana est no tero, seus quatro irmos esto li
com ela tambm - so representados pela placenta, pelo lquido amnitico, pelo cordo
umbilical e pela substncia amarela e sebenta que protege a pele do beb. Quando o beb
nasce, os pais recolhem o mximo possvel dessas substncias externas relacionadas ao
nascimento, depositam-nas dentro de um coco vazio e enterram-nas junto  porta da
frente da casa da famlia. Segundo os balineses, esse coco enterrado  o local sagrado de
descanso dos quatro irmos que no nasceram, e esse lugar  cuidado para sempre, como
um santurio.
Desde que comea a adquirir conscincia, a criana aprende que esses quatro irmos a
acompanham no mundo aonde quer que v, e que eles sempre cuidaro dela. Os irmos
encarnam as quatro virtudes de que uma pessoa necessita para ter segurana e felicidade
na vida: inteligncia, amizade, fora e (adoro esta) poesia. Os irmos podem ser
chamados em qualquer situao crtica para resgatar e ajudar. Quando voc morre, seus
quatro irmos espirituais recolhem sua alma e levam voc para o cu.
Hoje, Ketut me disse que ainda no ensinou a nenhum ocidental a Meditao dos Quatro
Irmos, mas acha que estou pronta para ela. Primeiro, ele me ensinou os nomes de meus
irmos invisveis - Ango Patih, Maragio Patih, Banus Patih e Banus Patih Ragio. Instruiu-
me a decorar esses nomes e a pedir a ajuda de meus irmos ao longo da minha vida,
sempre que precisar deles. Diz que no preciso ser formal ao falar com eles, da maneira
que somos formais quando rezamos a Deus. Tenho permisso para falar com meus
irmos com um afeto familiar, porque "Isso s sua famlia!". Ele me diz para pronun-ciar
seus nomes enquanto estiver tomando banho de manh, e eles viro se juntar a mim. para
pronunciar novamente seus nomes a cada vez antes de comer, e assim permitirei que
meus irmos tambm apreciem a comida. Para cham-los antes de ir dormir, dizendo:
"Estou dormindo agora, ento vocs precisam ficar acordados c me proteger", e meus
Irmos me protegero durante a noite, detendo demnios e pesadelos.
-- Isso  timo -- disse-lhe eu --, porque algumas vezes tenho problemas com
pesadelos.
-- Que pesadelos?
Expliquei ao xam que eu vinha tendo o mesmo terrvel pesadelo desde a infncia, aquele
no qual um homem com uma faca est em p ao lado da minha cama. Esse pesadelo  to
vvido, o homem  to real, que algumas vezes me faz gritar de tanto medo. Meu corao
fica batendo feito louco todas as vezes (e isso tampouco foi divertido para quem dorme
comigo). Venho tendo esse pesadelo repetida mente, a um intervalo de poucas semanas,
at onde minha memria alcana.
Contei isso a Ketut, e ele me disse que h anos eu vinha interpretando a viso de forma
equivocada. O homem com a faca no meu quarto no  um inimigo;  apenas um dos
meus quatro irmos. Ele  o irmo espiritual que representa a fora. No est ali para me
atacar, mas para me proteger enquanto durmo. Provavelmente estou acordando, porque
sinto a emoo do meu irmo espiritual, enquanto combate algum demnio que possa
estar tentando me machucar. O que meu irmo segura no  uma faca, mas um kris - uma
pequena e poderosa adaga. No preciso ficar com medo. Posso voltar a dormir, sabendo
que estou protegida.
-- Voc sortuda - disse Ketut. - Sortuda de poder ver ele. Eu de vez em quando vejo
meus irmos na meditao, mas muito raro pessoa normal ver assim. Acho que voc tem
grande poder espiritual. Espero talvez um dia voc vire xam.
-- Tudo bem - falei, rindo --, mas s se eu puder ter o meu prprio programa de TV.
Ele riu comigo, sem entender a piada, mas adorando a idia de as pessoas fazerem piadas.
Ketut ento me instruiu que, o que quer que eu diga para meus quatro irmos espirituais,
devo lhes dizer quem sou, para que eles possam me reconhecer. Devo usar o apelido
secreto que eles tm para mim. Devo dizer: "Sou Lagoh Prano."
Lagoh Prano significa "Corpo Feliz".
Voltei para casa de bicicleta, empurrando meu corpo feliz ladeira acima em direo 
minha casa sob o sol do final de tarde. Quando estava passando pelo mato, um macaco
macho bem grande saltou de uma rvore bem na minha frente e me mostrou os dentes
afiados. Eu nem titubeei.
- Pode ir saindo na frente, amigo - falei. - Tenho quatro irmos para me dar guarida. - E
simplesmente passei por ele sem olhar para trs.

85

No entanto, no dia seguinte (apesar dos irmos protetores) fui atropelada por um nibus.
Era um nibus meio pequeno, mas, momo assim, me fez cair da bicicleta, enquanto eu
descia a estrada sem acostamento. Fui jogada em uma vala de irrigao de cimenta Cerca
de trinta balineses de motocicleta pararam para me ajudar, depois de testemunhar o
acidente (o nibus j tinha ido embora h muito tempo), e todos me convidaram para
tomar ch em sua casa ou se ofereceram para me levar ao hospital, pois todos se sentiam
muito mal com o incidente. Mas no foi um acidente to grave assim, considerando o que
poderia ter acontecido. Minha bicicleta no ficou muito estragada, embora a cestinha
tenha sido amassada e meu capacete tenha rachado. (Nesses casos, melhor o capacete do
que a cabea.) O pior estrago foi um corte profundo no meu joelho, cheio de pedrinhas e
terra, que depois - ao longo dos dias seguintes, sob o mido ar tropical - ficou bem
infeccionado.
Eu no queria preocup-lo, mas, alguns dias depois, finalmente enrolei a perna da cala
na varanda de Ketut Liyer, retirei o Band-Aid amarelado e mostrei meu machucado ao
velho xam. Ele olhou com ateno, preocupado.
- Infeccionado - diagnosticou. - Dolorido.
-  - falei.
- Voc deveria ver mdico.
Isso foi um pouco surpreendente. No era ele o mdico? Porm, por algum motivo, ele
no se ofereceu para ajudar, e eu no insisti. Talvez ele no medique ocidentais. Ou
talvez Ketut simmplesmenre tivesse um plano secreto escondido, porque foi o meu joelho
machucado, no final das contas, que me fez conhecer Wayan. E, a partir desse encontro,
tudo que estava previsto para acontecer... aconteceu.

86

Wayan Nuriyasih, assim como Ketut Liyer,  uma xam balinesa. Mas h algumas
diferenas entre os dois. Ele  mais velho e homem; ela  uma mulher que ainda no fez
40 anos. Ele mais parece um sacerdote, de alguma forma mais mstico, enquanto Wayan
 uma mdica no sentido mais literal do termo, misturando ervas e remdios em sua
prpria loja e cuidando dos pacientes l mesmo.
Wayan tem uma lojinha que d para a rua, bem no centro de Ubud, chamada "Centro de
Cura Balins Tradicional". Eu j tinha passado por l de bicicleta muitas vezes, a
caminho da casa de Ketut, e havia reparado no lugar por causa de todos os vasos de
plantas do lado de fora e do quadro-negro com o curioso anncio manuscrito do "Almoo
Especial Multivitaminado". Mas nunca entrara naquele lugar, antes de machucar o joelho.
Porm, depois de Ketut me mandar arrumar um mdico, lembrei-me da loja e passei l de
bicicleta, esperando que algum ali conseguisse me ajudar a lidar com a infeco.
A loja de Wayan , ao mesmo tempo, pequenssima clnica mdica, casa e restaurante.
No andar de baixo h uma pequena cozinha e uma modesta rea de jantar aberta ao
pblico, com trs mesas e algumas cadeiras. No andar de cima fica uma rea privativa
onde Wayan faz massagens e tratamentos. H apenas um quarto de dormir escuro, nos
fundos.
Entrei na loja mancando com meu joelho dolorido e apresentei-me a Wayan, a curadora
-- uma balinesa muito atraente, com um sorriso largo e cabelos pretos brilhantes at a
cintura. Duas moas jovens e tmidas se escondiam atrs dela na cozinha e sorriram
quando acenei para elas, tornando a se encolher em seguida. Mostrei meu machucado
infeccionado a Wayan e perguntei se ela podia ajudar. Logo, Wayan havia colocado gua
e ervas para ferver em cima do fogo, e estava me fazendo beber jamu - uma mistura
medicinal indonsia tradicional, feita em casa. Colocou folhas verdes quentes em cima do
meu joelho, que comeou a melhorar no mesmo instante.
Comeamos a conversar. O ingls dela era excelente. Sendo balinesa, ela imediatamente
me fez as trs perguntas introdutrias obrigatrias - Aonde voc vai hoje? De onde voc
est vindo? Voc  casada?
Quando eu lhe disse que no era casada ("Ainda no!"), ela pareceu estupefata.
- Nunca foi casada? - perguntou ela.
-- No - menti. No gosto de mentir, mas constatei que  mais fcil no falar em divrcio
com os balineses, porque eles ficam muito perturbados.
--  mesmo, nunca foi casada? - ela tornou a perguntar, e agora me olhava com grande
curiosidade.
-- Srio -- menti. -- Nunca fui casada.
-- Tem certeza? - Isso estava ficando esquisito.
-- Tenho certeza absoluta!
-- Nem uma vezinha? -- perguntou ela.
Tudo bem, ento ela consegue ler meus pensamentos.
-- Bom - confessei --, teve uma vez...
E o rosto dela se iluminou como quem diz: , eu bem que achei.
-- Divorciada? -- perguntou ela.
--  -- respondi, agora envergonhada. -- Divorciada.
-- D para ver que voc  divorciada.
-- Isso no  muito comum aqui, no ?
-- Mas eu tambm sou - disse Wayan, pegando-me inteiramente de surpresa. -- Eu
tambm sou divorciada.
-- Voc?
-- Eu fiz tudo que pude -- disse ela. -- Tentei de tudo antes de me divorciar, rezei todos
os dias. Mas eu precisava me afastar dele.
Seus olhos ficaram marejados de lgrimas e, antes de me dar conta do que estava
acontecendo, eu estava segurando a mo de Wayan, pois havia acabado de conhecer
minha primeira divorciada balinesa, e dizendo:
-- Tenho certeza de que voc fez o melhor que pde, meu bem. Tenho certeza de que
tentou de tudo.
-- Divrcio  uma coisa triste demais -- disse ela.
Concordei.
Passei as cinco horas seguintes ali na loja de Wayan, conversando com minha nova
melhor amiga sobre seus problemas. Ela limpou meu joelho infeccionado e escutei sua
histria. Wayan contou-me que seu marido balins era um homem que "bebe o tempo
todo, est sempre jogando, perde todo o nosso dinheiro, depois bate em mim quando no
dou a ele mais dinheiro para jogar e para beber". Ela disse:
-- Ele me bateu a ponto de eu ir parar no hospital vrias vezes. - Repartiu os cabelos,
mostrou-me as cicatrizes no couro cabeludo e disse: - Isto aqui foi quando ele me bateu
com o capacete da moto. Ele sempre me batia com o capacete da moto quando bebia,
quando eu no ganhava dinheiro. Me batia tanto que eu desmaiava, ficava tonta, sem ver
nada. Acho que tenho sorte de ser curadora, minha famlia  de curadores, porque sei
como tratar de mim mesma depois que ele me bate. Acho que, se eu no fosse curadora,
perderia os ouvidos, sabe, no conseguiria mais escutar as coisas. Ou talvez perdesse o
olho, no conseguiria mais ver. -- Ela me contou que o deixou depois de ele bater tanto
nela "que eu perdi meu beb, meu segundo filho, dentro da minha barriga". Depois desse
incidente, sua primognita, uma menininha inteligente apelidada de Tutti, disse:
-- Mame, eu acho que voc deveria se separar. Sempre que voc vai para o hospital,
deixa muito trabalho em casa para Tutti.
Tutti tinha 4 anos de idade quando disse isso.
Em Bali, sair de um casamento deixa a pessoa sozinha e desprotegida de formas quase
impossveis para um ocidental conceber. A unidade familiar balinesa, delimitada pelos
muros da propriedade familiar, representa simplesmente tudo -- quatro geraes de
irmos, primos, pais, avs e filhos, todos vivendo juntos em uma srie de pequenos
bangals em volta do templo da famlia, cuidando uns dos outros do nascimento at a
morte. A propriedade familiar  fonte de fora, segurana financeira, cuidado com a
sade, cuidado com as crianas, educao e -- o mais importante de tudo para os
balineses -- conexo espiritual.
A propriedade familiar  to importante que os balineses a consideram uma nica
entidade, viva. A populao de um vilarejo balins  tradicionalmente contada no
segundo o nmero de indivduos, mas segundo o nmero de propriedades. A propriedade
familiar  um universo auto-sustentvel. Ento voc no sai dele. (A menos,  claro, que
voc seja mulher, e nesse caso voc s se muda uma vez -- da propriedade familiar do
seu pai para a do seu marido.) Quando esse sistema funciona -- algo que acontece quase
o tempo todo nesta sociedade saudvel --, produz os seres humanos mais sos,
protegidos, calmos, felizes e equilibrados do mundo. Mas, e quando no funciona? Como
no caso da minha nova amiga Wayan? Os excludos se perdem em uma rbita vazia. Sua
escolha era permanecer dentro da rede de proteo da propriedade, com um marido que a
estava sempre mandando para o hospital, ou salvar a prpria vida e ir embora, o que a
deixava sem nada.
Bom, na verdade no era bem nada. Ela levou consigo um conhecimento enciclopdico
sobre a arte de curar, sua bondade, sua tica profissional e sua filha Tutti - por cuja
guarda precisou brigar muito. Bali  um patriarcado at o ltimo fio de cabelo. Na rara
eventualidade de um divrcio, as crianas pertencem automaticamente ao pai. Para
recuperar Tutti, Wayan precisou contratar um advogado, a quem pagou com todas as
coisas que possua. Quero dizer, todas mesmo. Ela vendeu no apenas seus mveis e suas
jias, mas tambm seus garfos e colheres, suas meias e sapatos, seus velhos panos de
prato e velas queimadas pela metade - tudo foi usado para pagar o advogado. Mas, no
final das contas, depois de uma batalha que durou dois anos, ela conseguiu a filha de
volta. Wayan tem muita sorte de Tutti ser menina; se fosse um menino, Wayan nunca
teria visto a criana de novo. Meninos so muito mais valiosos.
H alguns anos, desde ento, Wayan e Tutti moram sozinhas - completamente sozinhas
na colmeia de Bali! -, mudando-se de um lugar para o outro a cada poucos meses, 
medida que o dinheiro vem e vai, sempre perdendo o sono de to preocupadas que esto
com o lugar para onde iro depois. Coisa que vem sendo complicada porque, sempre que
ela muda de casa, seus pacientes (em sua maioria balineses, todos tambm enfrentando
dificuldades nos ltimos tempos) tm problemas para tornar a encontr-la. A cada
mudana, tambm, a pequena Tutti precisa ser tirada da escola. Antigamente, Tutti era
sempre a primeira da turma, mas, desde a ltima mudana, caiu para a vigsima posio
em um grupo de cinqenta crianas.
No meio do relato que Wayan est me fazendo dessa histria, a prpria Tutti entra
correndo na loja, vinda da escola. Ela agora est com 8 anos e  um animadssimo
espetculo de carisma e vivacidade. Essa menina espoleta (de rabo-de-cavalo, magrinha e
animada) perguntou-me, em um ingls cheio de energia, se eu queria almoar, e Wayan
disse:
- Eu esqueci! Voc deveria almoar! -- E me e filha correram para a cozinha e, com a
ajuda das duas meninas tmidas escondidas l dentro, voltaram algum tempo depois com
a melhor comida que eu havia comido em Bali at ento.
A pequena Tutti trazia cada prato da refeio com uma explicao, em voz animada, do
que era o prato, sempre com um enorme sorriso, e to espevitada que parecia uma
animadora de torcida.
- Suco de aafro da terra, para manter os rins limpos! - anunciava ela.
- Algas do mar, para clcio!
- Salada de tomates, para vitamina D!
- Mistura de ervas, para no pegar malria!
Finalmente, falei:
- Tutti, onde voc aprendeu a falar ingls to bem assim?
- Em um livro! -- declarou ela.
-- Acho que voc  uma menina muito esperta - informei-a.
- Obrigada! - disse ela e fez uma dancinha da felicidade espontnea. - Voc tambm 
uma menina muito esperta!
Alis, as crianas balinesas. em geral, no so assim. Geralmente so caladas e educadas,
sempre escondidas atrs das saias das mes. Mas Tutti no. Ela era puro espetculo.
Parecia que estava se apresentando na frente da classe.
- Vou ver para voc meus livros! - cantarolou Tutti e subiu correndo as escadas para
peg-los.
- Ela quer ser mdica de animais - contou-me Wayan. - Como se diz isso em ingls?
- Veterinria?
- Isso. Veterinria. Mas ela tem muitas perguntas sobre animais, no sei como responder-
Ela diz: "Mame, se algum me trouxer um tigre doente, eu primeiro fao um curativo
nos dentes, para ele no me morder? Sc uma cobra ficar doente e precisar de remdio,
onde fica a abertura?" No sei onde ela arruma essas idias. Espero que ela possa ir para
a universidade.
Tutti despencou escada abaixo, com os braos repletos de livros, e saltou para o colo da
me. Wayan riu e beijou a filha, e toda a tristeza relacionada ao divrcio de repente
sumiu de seu rosto. Fiquei olhando para elas, pensando que menininhas que do alegria a
suas mes crescem e se tornam mulheres muito poderosas. No espao de uma tarde, eu j
estava totalmente apaixonada por aquela criana. Enviei para Deus uma prece
espontnea: Que Tutti Nuriyasih um dia faa curativos nos dentes de mil tigres brancos!
Tambm adorei a me de Tutti. Mas agora j fazia horas que eu estava na loja, e senti que
deveria ir embora. Alguns outros turistas haviam entrado e esperavam que lhes servissem
o almoo. Um dos turistas, uma vistosa australiana mais velha, perguntava com a voz
muito alta se Wayan, por favor, poderia ajud-la a curar sua "priso de ventre dos
infernos". Eu pensava c comigo: Fale um pouco mais alto, meu bem, acho que nem todo
mundo escutou...
- Volto amanh - prometi a Wayan --, e vou pedir o almoo especial muitivitaminado de
novo.
- Seu joelho est melhor agora - disse Wayan. - Logo melhora. No tem mais infeco.
Ela limpou o resto da gororoba verde de ervas da minha perna, depois deu umas
sacudidelas na minha rtula, tateando  procura de alguma coisa. Em seguida, apalpou o
outro joelho, fechando os olhos. Abriu os olhos, exibiu os dentes em um sorriso e falou:
- Posso ver pelos seus joelhos que voc no tem transado muito ultimamente.
- Por qu? - perguntei. - Porque eles esto muito juntos?
Ela riu.
- No...  a cartilagem. Muito seca. Hormnios do sexo lubrificam as articulaes.
Quanto tempo faz que voc no transa?
- Mais ou menos um ano e meio.
- Voc precisa de um bom homem. Vou encontrar um para voc. Vou rezar no templo por
um homem bom para voc, porque voc agora  minha irm. Se voc voltar amanh,
tambm vou limpar seus rins para voc.
- Alm de um homem bom, rins limpos? Parece um timo negcio.
- Nunca contei para ningum essas coisas sobre o meu divrcio - disse-me ela. - Mas a
minha vida tambm  pesada, muita tristeza, muito difcil. No entendo por que a vida 
to difcil.
Ento fiz uma coisa estranha. Segurei as duas mos da curadora com as minhas e disse,
com a mais fervorosa das convices:
- A parte mais difcil da sua vida j ficou para trs, Wayan.
Em seguida sa da loja, inexplicavelmente trmula, cheia de uma poderosa intuio ou
impulso que ainda no era capaz de identificar ou de libertar.

87

Agora meus dias se dividem naturalmente em trs. Passo as manhs com Wayan na loja,
rindo e comendo. Passo as tardes com o xam Ketut, conversando e tomando caf. Passo
as noites em meu lindo jardim, s vezes sozinha, lendo um livro, e outras vezes
conversando com Yudhi, que vem tocar seu violo. Todas as manhs, medito enquanto o
sol surge sobre os arrozais, e antes de ir dormir converso com meus quatro irmos
espirituais e peo-lhes para velar meu sono.
Faz apenas poucas semanas que estou aqui, mas j tenho praticamente a sensao de
misso cumprida. Minha tarefa na Indonsia era procurar o equilbrio, mas no tenho a
sensao de estar procurando mais nada, porque o equilbrio de alguma forma veio
naturalmente. No que eu esteja me tornando balinesa (no mais do que cheguei a me
tornar italiana ou indiana), mas o que acontece  que posso sentir minha prpria paz e
adoro o ritmo dos meus dias, divididos entre prticas devocionais tranqilas e os prazeres
de uma bela paisagem, amigos queridos e boa comida. Tenho rezado muito ultimamente,
com conforto e freqncia. Durante a maior parte do tempo, descubro que quero rezar
quando estou andando de bicicleta, voltando da casa de Ketut pela floresta dos macacos e
pelos terraos de arrozais, sob o crepsculo de final de tarde. Rezo,  claro, para no ser
atropelada por outro nibus, nem surpreendida por um macaco ou mordida por um
cachorro, mas isso  s o suprfluo; a maioria das minhas preces so expresses da minha
gratido pela intensidade do meu contentamento. Nunca me senti menos soterrada pelo
peso de mim mesma ou do mundo.
Estou sempre me lembrando de um dos ensinamentos da minha Guru sobre felicidade.
Ela diz que as pessoas tendem a pensar universalmente que a felicidade  um golpe de
sorte, algo que talvez lhe acontea se voc tiver sorte suficiente, como o tempo bom. Mas
no  assim que a felicidade funciona. A felicidade  conseqncia de um esforo
pessoal. Voc luta por ela, fez fora para obt-la, insiste nela, e algumas vezes viaja o
mundo  sua procura. Voc precisa participar o tempo todo das manifestaes de suas
prprias bnos. E, uma vez alcanado um estado de felicidade, nunca deve relaxar em
sua manuteno, deve fazer um esforo sobre-humano para continuar para sempre
nadando contra a corrente rumo a essa felicidade, para permanecer flutuando em cima
dela. Se no fizer isso, seu contentamento interno ir se esvair.  muito fcil rezar quando
se est passando por um momento difcil, mas continuar a rezar mesmo quando a sua
crise j passou  como um processo de selamento, que ajuda sua alma a se aferrar s
coisas boas que conquistou.
Lembrando esses ensinamentos enquanto passeio to livremente de bicicleta pelo
entardecer de Bali, fao preces que na verdade so promessas, nas quais apresento meu
estado de harmonia a Deus e digo: " isto que eu gostaria de manter. Por favor, ajude-me
a memorizar esta sensao de contentamento e ajude-me a sustent-la." Estou colocando
essa felicidade em um banco em algum lugar, no apenas garantida pelo governo contra
uma eventual bancarrota, mas protegida por meus quatro irmos espirituais, mantida ali
como um seguro contra as futuras dificuldades da vida. Essa  uma prtica que passei a
chamar de "Alegria Atenta". Enquanto me concentro na Alegria Atenta, continuo tambm
a me lembrar de uma idia simples que minha amiga Darcey me falou certa vez - que
toda a tristeza e dificuldade deste mundo  causada por pessoas infelizes. No apenas do
ponto de vista global como Stalin e Hitler, mas tambm no nvel menor, pessoal. At
mesmo na minha prpria vida, posso ver exatamente onde meus acessos de infelicidade
causaram sofrimento, preocupao ou (no melhor dos casos) incmodo para as pessoas 
minha volta. A busca pelo contentamento, portanto, no  apenas um ato de
autopreservao e de autobenefcio, mas tambm um generoso presente ao mundo.
Eliminar toda a sua infelicidade tira voc do caminho. Voc deixa de ser um obstculo
no apenas para si mesmo, mas para qualquer outra pessoa. S ento fica livre para
ajudar e desfrutar outras pessoas.
No momento, a pessoa que mais desfruto  Ketut. Esse velho - realmente uma das
pessoas mais felizes que j encontrei - est me dando acesso total liberdade para fazer
todas as perguntas que eu tiver para fazer sobre divindade sobre a natureza humana.
Gosto da meditao que ele me ensinou, da cmica simplicidade do "sorria no seu
fgado" e da presena reconfortante dos quatro irmos espirituais. No outro dia, o xam
me disse que conhece 16 tcnicas de meditao diferentes, c muitos mantras com todo
tipo de finalidade. Alguns deles servem para proporcionar paz ou felicidade, outros para
trazer sade, mas alguns deles so puramente msticos - servem para transport-lo at
outros estados de conscincia. Por exemplo, disse ele, conhece uma meditao que o leva
"para o cima".
- Para o cima? - perguntei. - O que  para o cima?
- Para sete nveis acima -- disse ele. -- Para o cu.
Ao ouvir a conhecida idia dos "sete nveis", perguntei-lhe se ele queria dizer que sua
meditao o fazia passar pelos sete chacras sagrados do corpo mencionados no ioga.
- No, chacras no -- disse ele. -- Lugares. Esta meditao me leva a sete lugares no
universo. Para o cima e para o cima. Ultimo lugar que vou  cu.
- Voc j foi ao cu, Ketut? - perguntei.
Ele sorriu.  claro que j havia estado l.  fcil ir ao cu.
- Como  l?
- Lindo. Tudo l  lindo. Todas as pessoas lindas esto l. Tudo lindo de comer est l.
Tudo l  amor. Cu  amor.
Ento Ketut disse que conhece outra meditao.
- Para o baixo. - Essa meditao para baixo o leva sete nveis abaixo do mundo.  uma
meditao mais perigosa. No serve para iniciantes, apenas para um mestre.
- Ento - perguntei -, se voc sobe ao cu na primeira meditao, ento, na segunda
meditao, voc deve descer at o...?
- Inferno - disse ele, terminando a frase.
Que interessante. Cu e inferno no so idias sobre as quais eu tenha ouvido falar muito
no hindusmo. Os hindustas vem o universo em relao ao carma. como um processo de
circulao constante, ou seja, voc na verdade no "vai parar" em nenhum lugar ao final
da vida - nem no cu, nem no inferno -, mas simplesmente se recicla de volta  Terra
novamente sob outra forma, de modo a solucionar quaisquer relacionamentos ou erros
que tenha deixado sem concluso da ltima vez. Quando finalmente atinge a perfeio,
voc sai completamente do crculo e se dissolve no Vazio. A idia de carma pressupe
que cu e inferno s so encontrados aqui na Terra, onde temos a capacidade de cri-los,
fabricando o bem ou o mal conforme nosso destino e nosso carter.
Sempre gostei da idia de carma. Nem tanto por seu significado literal. No
necessariamente porque acredito que j fui a barwoman de Clepatra - mas de maneira
mais metafrica. A filosofia crmica s me atrai em um nvel metafrico, porque, mesmo
no espao de uma vida,  bvia a freqncia com que precisamos repetir os mesmos
erros, batendo com a cabea nos mesmos velhos vcios e compulses, gerando as mesmas
conhecidas conseqncias tristes e muitas vezes catastrficas, at finalmente
conseguirmos parar e consertar isso. Essa  a maior lio do carma (assim como da
psicologia ocidental, por sinal) -- cuide dos problemas agora ou vai ter de sofrer de novo
mais tarde, quando estragar tudo da prxima vez. E a repetio do sofrimento -- isso  o
inferno. Sair dessa repetio sem fim para um novo nvel de compreenso -  a que voc
ir encontrar o cu.
Mas agora Ketut estava falando do cu e do inferno de uma forma diferente, como se
fossem lugares reais no universo que ele, de fato, visitou. Pelo menos, acho que foi isso
que ele quis dizer.
Para tentar entender melhor, perguntei:
- Voc j foi ao inferno, Ketut?
Ele sorriu.  claro que j tinha ido l.
- Como  a vida no inferno?
- Igual a no cu -- disse ele.
Ao ver minha expresso de confuso, ele tentou explicar.
- Universo  um crculo, Liss.
Eu ainda no tinha certeza de ter entendido.
- Para o cima, para o baixo... tudo a mesma coisa, no final - disse ele.
Lembrei-me de uma antiga idia mstica crist: Assim na terra como no cu.
- Ento como  possvel saber a diferena entre o cu e o inferno? - perguntei.
Por causa de como voc vai. Cu, voc vai para cima, passa por sete lugares felizes.
Inferno, voc vai para baixo, passa por sete lugares tristes.  por isso que  melhor voc
ir para cima, Liss. - Ele riu.
- Voc quer dizer - perguntei - que  melhor passar a vida indo para cima, passando pelos
lugares felizes, j que o cu e o inferno... os destinos... no final das contas so a mesma
coisa?
- Mesmo-mesmo - disse ele. -- O mesmo no final, ento melhor ser feliz na viagem.
- Ento, se o cu  amor - falei -, ento o inferno ...
- Amor, tambm - disse ele.
Fiquei sentada pensando nisso durante algum tempo, tentando fazer a conta fechar.
Ketut tornou a rir e deu um tapinha afetuoso no meu joelho. - Sempre to difcil para
pessoa jovem entender isso!

88

Eu estava na loja de Wayan outra vez hoje de manh, e ela tentava descobrir como fazer
meus cabelos crescerem mais depressa e mais grossos. Dona de fabulosos cabelos
grossos, brilhantes, que lhe descem at o bumbum, ela sente pena de mim com minha
mirrada mecha loura. Como curadora,  claro, da tem um remdio para ajudar a deixar
meus cabelos mais grossos, mas no vai ser fcil. Primeiro preciso encontrar uma
bananeira e abat-la eu mesma. Preciso "jogar fora a copa da rvore" e, em seguida,
raspar o tronco e as razes (que ainda esto dentro da terra), para formar um recipiente
grande, profundo, "como uma piscina". Depois preciso pr um pedao de madeira por
cima desse buraco, para a gua da chuva e o orvalho no entrarem. Depois volto dali a
alguns dias e vejo que a piscina est agora cheia de um lquido repleto de nutrientes,
sado da raiz da bananeira, que devo pr em garrafas e trazer para Wayan. Ela ir
abenoar o suco de raiz de banana para mim no templo e esfregar o suco no meu couro
cabeludo diariamente. Em poucos meses, assim como Wayan, terei cabelos grossos e
brilhantes que iro descer at o meu bumbum.
- Mesmo se voc for careca - disse ela -, isso vai fazer voc ter cabelo.
Enquanto conversamos, a pequena Tutti - que acaba de chegar do colgio - est sentada
no cho, fazendo um desenho de uma casa. Ultimamente, o que Tutti mais desenha so
casas. Est morrendo de vontade de ter uma casa s sua. No fundo de seus desenhos h
sempre um arco-ris e uma famlia sorridente - com pai e tudo.
 isso que fazemos o dia inteiro na loja de Wayan. Ficamos sentadas conversando, Tutti
desenha, e eu e Wayan fofocamos e fazemos gracinhas uma com a outra. Wayan tem um
senso de humor atrevido, sempre falando em sexo, gozando de mim por eu ser solteira,
especulando sobre os dotes genitais de todos os homens que vm  sua loja. Ela no pra
de me dizer que tem ido ao templo todos os dias e rezado para um homem bom aparecer
na minha vida, para ser meu namorado,
-- No, Wayan - disse-lhe eu mais uma vez hoje de manh -, no preciso disso. Meu
corao j foi partido muitas vezes.
-- Conheo uma cura para corao partido - disse ela. Com a autoridade e a desenvoltura
de um mdico, Wayan enumerou com os dedos os seis elementos de seu Tratamento
Infalvel para a Cura de um Corao Partido. - Vitamina E, dormir bastante, beber
bastante gua, viajar para um lugar bem longe da pessoa que voc amou, meditar e
ensinar a seu corao que isso  o destino.
-- Tenho feito isso tudo, menos tomar vitamina E.
-- Ento agora voc est curada. E agora precisa de um homem novo. Eu trago um para
voc, rezando.
-- Bom, no estou rezando por um homem novo, Wayan. A nica coisa pela qual estou
rezando ultimamente  para ter paz comigo mesma.
Wayan revirou os olhos como quem diz T bom, t certo, se voc diz que  assim, sua
branquela esquisita, e falou:
-- Isso  porque voc tem um problema de memria ruim. No se lembra mais de como
sexo  bom. Eu antes tinha problema de memria ruim, tambm, quando era casada.
Sempre que via um homem bonito andando na rua, esquecia que tinha um marido dentro
de casa.
Ela quase caiu da cadeira de tanto rir. Em seguida, se recomps e concluiu:
-- Todo mundo precisa de sexo, Liz.
Nesse instante, uma mulher lindssima entrou na loja sorrindo como um farol. Tutti se
levantou em um pulo e correu para abra-la, gritando: "Armnia! Armnia! Armnia!",
o que descobri ser o nome da mulher - no algum tipo de estranho grito de batalha
nacionalista. Apresentei-me a Armnia, e ela me disse que era brasileira. Essa mulher era
muito dinmica - muito brasileira. Era linda, estava vestida com elegncia, tinha carisma,
simpatia e uma idade indeterminada, e sua sensualidade era insistente.
Armnia tambm  uma amiga de Wayan que vem sempre  loja para almoar e  procura
de diversos tratamentos tradicionais de medicina e beleza. Ela se sentou e conversou
conosco durante mais ou menos uma hora, participando de nossa rodinha de fofoca quase
adolescente. Vai passar mais uma semana em Bali, antes de pegar um avio para a frica,
ou talvez seja de volta para a Tailndia, para cuidar de seus negcios. Acabo descobrindo
que esta tal Armnia teve uma vida um tiquinho glamorosa. Ela trabalhava para a Alta
Comisso para Refugiados das Naes Unidas. Durante os anos 1980, foi aviada para as
selvas de El Salvador e da Nicargua, no auge da guerra para negociar a paz, usando sua
beleza, charme e inteligncia para fazer todos os generais e rebeldes se acalmarem e
escutarem a razo. (Olhem o poder bonito a!) Ela agora tem uma empresa internacional
de marketing chamada Novica, que apia artistas locais do mundo inteiro vendendo seus
produtos pela internet. Fala sete ou oito lnguas diferentes. E tem os sapatos mais
incrveis que j vi desde que sa de Roma.
Olhando para ns duas, Wayan diz:
- Liz, voc nunca tenta se vestir de um jeito sexy, como a Armnia? Voc  uma moa
to bonita, tem um timo capital de rosto legal, corpo legal, sorriso legal. Mas sempre usa
essa mesma camiseta velha, esses mesmos jeans surrados. Voc no quer ser sexy como
ela?
- Wayan - falei -, a Armnia  brasileira.  uma situao completamente diferente.
- Diferente, como assim?
- Armnia - falei, virando-me para minha nova amiga. - Voc pode, por favor, tentar
explicar para Wayan o que significa ser uma mulher brasileira?
Armnia riu, mas em seguida pareceu considerar seriamente a pergunta e respondeu:
- Bom, sempre tentei ficar bonita e ser feminina mesmo em zonas de guerra c campos de
refugiados da Amrica Central. Mesmo no meio das piores tragdias c crises, no h por
que aumentar a tristeza de todo mundo mantendo, voc mesma, uma aparncia triste.
Essa  a minha filosofia. E por isso que sempre usei maquiagem e jias na seiva... nada
extravagante demais, talvez s uma pulseira de ouro, uns brincos e um batonzinho, um
bom perfume. O suficiente para mostrar que eu ainda tinha auto-estima.
De cena forma, Armnia me lembra aquelas incrveis viajantes britnicas da poca
vitoriana, que costumavam dizer que no havia por que usar na frica roupas que no
fossem adequadas a uma sala de estar inglesa. Essa Armnia  uma borboleta. E no
podia ficar muito tempo na loja de Wayan, porque precisava trabalhar, mas isso no a
impediu de me convidar para uma festa hoje  noite Ela conhece outro brasileiro que
mora em Ubud, contou, e ele est organizando um evento especial esta noite em um bom
restaurante. Vai preparar uma feijoada. Haver drinques brasileiros tambm. Vrias
pessoas interessantes de todas as partes do mundo que moram aqui em Bali. Ser que eu
gostaria de ir? Talvez todos saiam para danar depois, tambm. Ela no sabe se eu gosto
de festas, mas...
Drinques? Dana? Feijoada?
 claro que eu vou.

89

Nem consigo me lembrar de quando foi a ltima vez em que me arrumei para sair, mas
esta noite desencavei meu nico vestido chique de alcinhas do fundo da minha mochila e
vesti. Cheguei at a passar batom. No consigo me lembrar de quando foi a ltima vez
em que passei batom, mas sei que no foi na ndia de jeito nenhum. Parei na casa de
Armnia a caminho da festa, e ela me emprestou algumas de suas lindas jias, deixou-me
usar seu perfume elegante, deixou-me guardar a bicicleta em seu quintal para poder
chegar  festa em seu carro, como uma adulta de verdade.
O jantar com os estrangeiros foi muito divertido, e tive a sensao de estar revisitando
uma poro de aspectos h muito adormecidos da minha personalidade. Fiquei at um
pouco bbada, algo notvel depois de toda a pureza dos meus ltimos meses de preces no
ashram e das xcaras de ch no meu jardim balins florido. E tambm paquerei! Fazia
sculos que eu no paquerava. Todas as pessoas que eu havia freqentado nos ltimos
tempos eram monges ou xams, mas subitamente eu estava mais uma vez exercitando a
antiga sexualidade. Embora no soubesse ao certo quem estava paquerando. Eu estava
mais ou menos atirando para todos os lados. Ser que me senti atrada pelo espirituoso
ex-jornalista australiano sentado ao meu lado? ("Todo mundo aqui  bbado", brincava
ele. "A gente escreve cartas de recomendao para outros bbados.") Ou seria o
intelectual alemo calado do outro lado da mesa? (Ele prometeu me emprestar romances
de sua biblioteca particular.) Ou seria o atraente brasileiro mais velho que havia
preparado aquele lauto banquete para todos ns? (Eu gostava de seus olhos castanhos
bondosos e de seu sotaque. E de seus dotes culinrios,  claro. Disse-lhe algo muito
provocante, do nada. Ele estava fazendo uma graa consigo mesmo, dizendo: "Sou uma
negao de brasileiro: no sei danar, no sei jogar futebol e no tocar nenhum
instrumento. Por algum motivo, respondi: "Pode ser. Mas tenho a sensao de que voc
daria um timo Casanova." O tempo parou por um longo instante, enquanto nos
encarvamos bem nos olhos como quem diz Que idia mais interessante de se ter. A
ousadia do meu comentrio ficou pairando no ar  nossa volta como um aroma. Ele no
se esquivou. Desviei os olhos primeiro, sentindo as faces corarem.)
De toda forma, a feijoada dele estava fantstica. Farta, apimentada e opulenta - tudo que
normalmente no se encontra na comida Bales, Comi pratos e mais pratos das carnes, e
decidi que era oficial: jamais poderei ser vegetariana, no quando existe comida assim no
mundo. Depois samos para danar em uma boate prxima, se  que se pode chamar o
lugar de boate. Era mais uma cabana de praia incrementada, s que sem a praia. Havia
uma banda de jovens balineses tocando um reggae ao vivo bastante bom, e o lugar estava
lotado de gente de todas as idades e nacionalidades, residentes estrangeiros, turistas e
moas e rapazes balineses lindos de morrer, todos danando a valer e sem pudor.
Armnia no foi, dizendo que tinha de trabalhar no dia seguinte, mas o atraente brasileiro
mais velho me acompanhou. Ele no danava to mal quanto tinha dito. Provavelmente
sabe jogar futebol tambm. Sua companhia era agradvel: ele abria as portas para mim,
elogiava-me, chamava-me de "querida". Mas percebi que ele chamava todo mundo de
"querido" -- at o barman peludo. Mesmo assim, era bom ter aquela ateno...
Fazia um tempo enorme desde a ltima vez em que eu fora a um bar. Nem na Itlia eu
freqentava bares, e tambm no havia sado muito durante os anos em que estava com
David. Acho que a ltima vez em que havia sado para danar fora quando ainda era
casada... pensando bem, quando ainda era casada e feliz. Meu Deus, faz um tempo. Na
pista de dana, encontrei minha amiga Stefania, uma moa italiana animada que
conhecera recentemente em uma aula de meditao em Ubud, e danamos juntas, com os
cabelos voando para todo lado, a loura e a morena, rodopiando felizes de um lado para o
outro. Depois da meia-noite, a banda parou de tocar e as pessoas comearam a conversar.
Foi a que conheci um cara chamado Ian. Ah, goste, muito desse cara. Gostei dele logo de
cara. Ele era muito bonito, uma mistura de Sting com o irmo mais novo do Ralph
Fiennes. Era gals, ento tinha aquele sotaque lindo. Era desenvolto, inteligente, fazia
perguntas e conversou com minha amiga italiana Stefania no mesmo italiano tatibitate
que eu falo. Acabei descobrindo que ele era o baterista da tal banda de reggae e que
tocava bong. Ento fiz uma brincadeira dizendo que ele era "bongoleiro", como os
gondoleiros de Veneza, mas com percusso em vez de barcos, e, de alguma forma,
engatamos um papo e comeamos a rir e a conversar.
Ento Felipe chegou - Felipe era o nome do brasileiro. Ele nos convidem a todos para
irmos a um restaurante da moda ali perto cujos donos eram residentes europeus, um lugar
ultraliberado que no fecha nunca, prometeu de, e onde se serve cerveja e papo-furado 24
horas por dia. Sem pensar, olhei para Ian (ser que ele queria ir?) e, quando ele disse
sim, eu disse sim tambm. Ento fomos todos para o restaurante, e me sentei ao lado de
Ian, e passamos a noite inteira conversando e brincando, e, ah, como gostei desse cara.
Ele era o primeiro homem que eu conhecia em muito tempo que realmente me despertava
aquele algo mais, como se costuma dizer. Era alguns anos mais velho do que eu, havia
tido uma vida das mais interessantes, com todos os detalhes importantes (gostava dos
Simpsons, viajara pelo mundo todo, j tinha morado em um ashram, citava Tolstoi,
parecia ter um emprego etc). Comeara a carreira no exrcito britnico da Irlanda do
Norte como especialista em bombas, tornando-se, em seguida, especialista internacional
em campos minados. Construra campos de refugiados na Bsnia, e agora estava
passando um tempo em Bali para tocar msica... tudo muito interessante.
Eu no conseguia acreditar que ainda estava acordada s trs e meia da manh, e no era
para meditar! Eu estava acordada no meio da noite, de vestido, conversando com um
homem interessante. Que radical. No final da noite, Ian e eu admitimos um para o outro
como havia sido bom nos conhecermos. Ele perguntou se eu tinha telefone, respondi que
no, mas tinha e-mail, e ele disse:
- , mas e-mal  to... irc... - Ento, ao final da noite, no trocamos nada alm de um
abrao. Ele falou: - A gente se v de novo, quando eles quiserem - e apontou para os
deuses no cu.
Logo antes de o sol nascer, Felipe, o brasileiro mais velho bonito, ofereceu-me carona
para casa. Enquanto serpentevamos pelas estradinhas, ele falou:
- Querida, voc passem a noite inteira conversando com o maior cascateiro de Ubud.
Fiquei arrasada.
- O Ian  mesmo um cascateiro? - perguntei. -- Me diga a verdade agora para eu no ter
problemas depois.
- Ian? - disse Felipe. Ele riu. - No, querida! O Ian  um cara srio. Ele  um cara legal.
Eu estava falando de mim. Eu sou o maior cascateiro de Ubud.
Passamos algum tempo no carro em silncio.
- E eu estou s te provocando - acrescentou ele.
Depois de outro longo silncio, ele perguntou.
- Voc gostou do Ian, no foi?
- No sei - respondi. No sabia o que pensar. Tinha bebido uma quantidade exagerada de
drinques brasileiros. - Ele  atraente, inteligente. Faz muito tempo desde a ltima vez que
pensei em gostar de algum.
- Voc vai passar uns meses maravilhosos aqui em Bali. Espere s para ver.
- Mas no sei o quanto mais de vida social vou conseguir ter, Felipe. S tenho este
vestido. As pessoas vo comear a perceber que estou sempre vestindo a mesma roupa.
- Voc  jovem e bonita, querida. S precisa de um vestido.

90

Ser que eu sou jovem e bonita?
Pensei que fosse velha e divorciada.
Mal consigo dormir  noite, de to desacostumada que estou com esses horrios pouco
ortodoxos, com a msica ainda zumbindo dentro da minha cabea, os cabelos cheirando a
cigarro, a barriga reclamando por causa do lcool. Dou um cochilo e, em seguida, acordo
quando o sol est nascendo, como sempre fao. S que nesta manh no estou
descansada, no estou em paz e no tenho a menor condio de meditar. Por que estou
to agitada? Tive uma noite legal, no foi? Conheci umas pessoas interessantes, me
arrumei e sa para danar, paquerei uns homens...
HOMENS.
A agitao aumenta quando penso nessa palavra, transformando-se em um miniataque de
pnico. No sei mais fazer isso. Antigamente, na minha adolescncia e nos meus vinte e
pouco, anos, eu era a maior, mais ousada e mais desavergonhada das paqueradoras.
Pareo me lembrar que isso um dia foi divertido: conhecer um cara, atra-lo, fazer
convites e provocaes veladas, deixar toda a cautela de lado e encarar as conseqncias.
Agora porm, tudo que sinto  pnico e incerteza. Comeo a dramatizar a noite toda,
transformando-a em algo muito mais importante do que de fato foi, imaginando-me
envolvida com o tal gals que sequer me deu um endereo de e-mail. J posso ver nosso
futuro inteiro, incluindo as discusses sobre ele ser fumante. Pergunto-me se o fato de eu
tornar a me entregar a algum homem ir arruinar minha viagem/escrita/vida etc. Por outro
lado - um pouco de romance seria bom. A seca j vem durando muito tempo. (Lembro-
me de Richard do Texas me aconselhar que, em determinado momento, em relao 
minha vida amorosa, "Voc precisa de algum para acabar com a seca. Precisa encontrar
algum que faa chover".) Ento imagino Ian chegando montado em sua motocicleta,
com seu belo trax de militar, para fazer amor comigo no meu jardim, e como isso seria
bom. De alguma forma, no entanto, essa idia no de todo desagradvel me faz entrar em
uma horrvel parania sobre como eu simplesmente no quero mais sofrer por amor.
Ento comeo a sentir mais falta de David do que havia acontecido em muitos meses,
pensando: Talvez em devesse ligar para ele e ver se ele quer tentar ficar comigo de
novo... (Ento pareo ouvir muito claramente meu velho amigo Richard dizer: Ah, que
maravilha isso, Sacolo... voc fez uma lobotomia ontem  noite, alm de ficar de
pilequinho?) Quando comeo a pensar em David, nunca demora muito para eu comear a
pensar obsessivamente nas circunstncias do meu divrcio, ento logo comeo a pensar
(como nos velhos tempos) no meu ex-marido, no meu divrcio...
Pensei que a gente tinha liquidado esse assunto, Sacolo.
E ento, por algum motivo, comeo a pensar em Felipe -- aquele brasileiro bonito e mais
velho. Ele  legal. Felipe. Ele diz que eu sou jovem e bonita e que vou me divertir muito
aqui em Bali. Ele tem razo, no tem? Eu deveria relaxar e me divertir um pouco, certo?
Mas esta manh no est nada engraada.
Eu no sei mais fazer isso.

91

O que  esta vida? Voc entende? Eu, no.
Era Wayan quem falava.
Eu estava novamente no restaurante dela, comendo seu delicioso e nutritivo almoo
especial multivitaminado, esperando que ele fosse ajudar a melhorar minha ressaca e
minha ansiedade. Armnia, a brasileira, tambm estava l e, como de hbito, parecia ter
acabado de passar no salo de beleza a caminho de casa, depois de um fim de semana em
um spa. A pequena Tutti estava sentada no cho desenhando casas, como sempre.
Wayan acabara de saber que o contrato de locao da sua loja seria renovado no final de
agosto - dali a apenas trs meses -, e que o aluguel iria aumentar. Ela provavelmente teria
de se mudar outra vez, porque no tinha dinheiro para ficar ali. O problema  que ela s
tinha cinqenta dlares no banco, e no tinha a menor idia de para onde ir. Mudar-se
obrigaria Tutti a sair do colgio outra vez. Elas precisavam de uma casa - uma casa de
verdade. Isso no  vida para algum nascido em Bali.
-- Por que o sofrimento nunca termina? - perguntou Wayan. Ela no estava chorando,
apenas fazendo uma pergunta simples, impossvel de ser respondida e desanimada. - Por
que tudo tem de se repetir, e se repetir de novo, sem fim, sem descanso? Voc trabalha
tanto em um dia, mas no dia seguinte precisa trabalhar de novo. Voc come, mas no dia
seguinte j est com fome. Voc encontra o amor, e o amor vai embora. Voc nasce sem
nada... sem relgio de pulso, sem camiseta. Trabalha duro e depois morre sem nada... sem
relgio de pulso, sem camiseta. Voc  jovem, depois voc  velho. Por mais que voc
trabalhe, no consegue parar de envelhecer.
-- Menos a Armnia -- brinquei. - Ela, aparentemente, no envelhece.
-- Mas isso  porque a Armnia  brasileira -- disse Wayan, entendendo agora como o
mundo funciona.
Todas ns rimos, mas era um bom humor meio negro, porque no h nada de engraado
na situao de Wayan no mundo neste momento. Eis os fatos: me solteira, filha precoce,
negcio que d dinheiro s para comer, pobreza iminente, praticamente sem casa. Para
onde ela ir?  bvio que no pode ir morar com a famlia do ex-marido. A famlia da
prpria Wayan, por sua vez, cultiva arrozais em uma zona rural distante e  pobre. Caso
ela v morar com eles, ser o fim de sua carreira na cidade como curadora, porque seus
pacientes no podero ir onde ela estiver, e ser melhor esquecer aquela histria de Tutti
um dia ter instruo suficiente para chegar a cursar faculdade de veterinria.
Com o tempo, outros fatores surgiram. As duas meninas tmidas em quem reparei no
primeiro dia, escondidas nos fundos da cozinha? Descubro que so duas rfs que Wayan
adotou. Ambas se chamam Ketut (s para tornar este livro ainda mais confuso), e ns as
chamamos de Ketut Grande e Ketut Pequena. Wayan encontrou as Ketuts famintas e
pedindo esmolas na praa do mercado alguns meses atrs. Haviam sido abandonadas ali
por uma mulher que parecia uma personagem sada de um livro de Dickens -
possivelmente uma parenta -, que  uma espcie de cafetina para crianas que pedem
esmola, e leva rfos para pedir dinheiro em vrias feiras de Bali, e depois recolhe as
crianas  noite em uma van, tomando-lhes o dinheiro que ganharam e dando-lhes um
barraco para dormir em algum lugar. Quando Wayan conheceu Ketut Grande e Pequena,
elas no comiam havia dias, estavam cheias de piolhos e parasitas. Ela acha que a menor
tem uns 10 anos e a maior deve ter uns 13, mas elas desconhecem a prpria idade e
sobrenome. (Ketut Pequena sabe apenas que nasceu no mesmo ano do "porco grande" de
sua aldeia; isso no nos ajudou a estabelecer uma cronologia.) Wayan levou-as para sua
casa e cuida delas com tanto carinho quanto cuida de sua prpria filha, Tutti. Ela e as trs
crianas dormem no mesmo colcho no nico quarto atrs da loja.
Como uma me solteira balinesa  beira do despejo encontrou lugar em seu corao para
pegar duas outras crianas sem lar para cuidar  algo que vai alm de qualquer
compreenso que eu j tenha tido quanto ao significado da compaixo.
Eu quero ajud-las.
Era isso. Era essa a sensao de estremecimento que eu havia sentido com tanta
intensidade depois da primeira vez em que encontrei Wayan. Eu queria ajudar aquela me
solteira com sua filha e suas rfs. Queria lev-las para uma vida melhor como um
manobrista estaciona um carro em uma vaga. S que eu ainda no havia descoberto como
fazer isso. Mas hoje, enquanto Wayan, Armnia e eu estvamos ali almoando e
desfiando nossa conversa habitual de empatia e tagarelice, olhei para a pequena Tutti e
percebi que ela estava fazendo uma coisa um pouco estranha. Estava andando pela loja
com um quadradinho de azulejo azul-cobalto na palma das mos viradas para cima,
entoando alguma espcie de cntico. Passei algum tempo a observ-la, s para ver o que
ela estava fazendo. Tutti passou um tempo brincando com aquele azulejo, atirando-o
para cima, sussurrando para ele, cantando para ele, depois empurrando-o pelo cho como
se fosse um carrinho em miniatura. Por fim, foi se sentar em um canto tranqilo, de olhos
fechados, cantarolando para si mesma, imersa em algum mstico e invisvel
compartimento de espao s seu.
Perguntei a Wayan o que significava aquilo. Ela disse que Tutti havia encontrado o
azulejo do lado de fora do canteiro de obras de um hotel de luxo, na beira da estrada, e o
pusera no bolso. Desde que encontrara o azulejo, Tutti ficava dizendo  me:
-- Talvez, se eu um dia tiver uma casa, ela possa ter um cho azul bonito assim. -
Segundo Wayan, Tutti com freqncia passa horas a fio debruada sobre esse nico
quadradinho azul, de olhos fechados, fingindo que est dentro da prpria casa.
O que posso dizer? Quando ouvi essa histria e vi aquela criana totalmente
compenetrada com seu pequeno azulejo azul, pensei: Bom, chega.
E pedi licena da loja para ir dar um jeito nessa situao intolervel de uma vez por todas.

92

Wayan me disse certa vez que, quando est tratando seus pacientes, ela se torna um canal
aberto para o amor de Deus, e que pra at de pensar no que precisa ser feito em seguida
O intelecto pra de funcionar, a intuio se agua, e tudo que ela precisa fazer  deixar a
divindade fluir por seu corpo. "Parece que um vento chega e me segura pelas mos", diz
ela.
Talvez esse mesmo vento tenha sido o que me fez sair chispando da loja de Wayan
naquele dia, tirando-me da minha ansiedade ressacada sobre se eu estava pronta para
comear a namorar de novo, e me guiou at o cyber-caf de Ubud, onde sentei-me e
escrevi - de uma s vez e sem esforo - um e-mail para todos os meus amigos e parentes
mundo afora, tentando arrecadar fundos.
Contei a todo mundo que meu aniversrio estava chegando, em julho, e que eu logo faria
35 anos. Disse-lhes que no havia nada neste mundo de que eu precisasse ou que
desejasse, e que nunca havia sido mais feliz na vida. Disse-lhes que, se estivesse em casa,
em Nova York, estaria planejando uma grande e estpida festa, e faria todos eles irem a
essa festa, e eles teriam de me comprar presentes, garrafas de vinho, e a celebrao toda
se tornaria ridiculamente cara. Assim, expliquei, uma maneira mais barata e mais bonita
de ajudar a comemorar esse aniversrio seria se meus amigos e parentes quisessem fazer
uma doao para ajudar uma mulher chamada Wayan Nuriyasih a comprar uma casa na
Indonsia para ela e suas filhas.
Ento contei-lhes toda a histria de Wayan e Tutti, das rfs e de sua situao, prometi
que, para todo o dinheiro que fosse doado, eu contribuiria com a mesma quantia da minha
poupana pessoal.  claro, expliquei, que eu unha conscincia de que este nosso mundo 
cheio de sofrimento ignorado, de guerras, e sabia que todos, neste momento, esto
passando por necessidades, mas o que devemos fazer? Esse pequeno grupo de pessoas em
Bali havia se tornado a minha famlia, e precisamos cuidar de nossas famlias onde quer
que as encontremos. Ao terminar o e-mail coletivo, lembrei-me de uma coisa que minha
amiga Susan havia me dito logo antes de eu embarcar nesta viagem pelo mundo, nove
meses atrs. Ela estava com medo de que eu nunca mais voltasse para casa. Disse:
- Sei como voc , Liz. Voc vai conhecer algum, vai se apaixonar e vai acabar
comprando uma casa em Bali.
Essa Susan parece um Nostradamus.
Na manh seguinte, quando chequei minhas mensagens, setecentos dlares j haviam
sido prometidos. No dia seguinte, as doaes superaram o que eu era capaz de oferecer.
Vou poupar vocs do drama todo daquela semana, e tambm no vou tentar explicar a
sensao diria de abrir e-mails do mundo inteiro dizendo: "Pode contar comigo!" Todos
deram alguma coisa. Pessoas que sabia que estavam arruinadas ou tinham dvidas
doaram, sem hesitao. Uma das primeiras respostas que recebi foi de uma amiga da
namorada do meu cabeleireiro, a quem haviam encaminhado o e-mail e que queria doar
15 dlares. O mais sabe-tudo dos meus amigos, John, precisou,  claro, fazer um
comentrio tipicamente sarcstico sobre o comprimento, a emoo e a pieguice da minha
mensagem ("Escute, da prxima vez em que voc quiser chorar sobre o leite derramado,
que seja leite condensado, t?"), mas depois doou dinheiro mesmo assim. O namorado
novo da minha amiga Annie (um banqueiro de Wall Street que eu sequer conhecera)
ofereceu-se para dobrar a quantia final de tudo que fosse arrecadado. Ento o e-mail
comeou a rodar o mundo, a tal ponto que passei a receber doaes de desconhecidos.
Foi uma demonstrao global de generosidade. Vamos concluir este episdio dizendo que
-- meros sete dias depois de o apelo original ter partido para o cyberespao - meus
amigos, parentes e um bando de desconhecidos do mundo inteiro me ajudaram a levantar
quase 18 mil dlares para comprar uma casa prpria para Wayan Nuriyasih.
Eu sabia que fora Tutti quem havia tornado esse milagre manifesto, graas ao fervor de
suas preces, desejando que aquele seu azulejozinho azul se tornasse malevel, se
expandisse ao seu redor e crescesse - como um dos feijes mgicos do Joo P-de-Feijo
- at se transformar em uma casa de verdade para abrigar a ela, sua me e duas rfs para
sempre.
Uma ltima coisa. Fico envergonhada de admitir que foi meu amigo Bob, no eu, quem
percebeu o fato bvio de que a palavra "Tutti, em italiano, quer dizer "todo mundo".
Como  que eu no havia percebido isso antes? Depois de todos aqueles meses em Roma!
Eu simplesmente no vi a ligao. Ento foi Bob, l do Utah, quem precisou chamar
minha ateno para ela. Ele fez isso em um e-mail na semana passada no qual, junto com
sua promessa de doar dinheiro para a nova casa, dizia: "Ento  essa a lio final?
Quando voc sai pelo mundo pata ajudar a si mesma, acaba inevitavelmente ajudando...
Tutti."

93

No quero dizer nada a Wayan, no antes de todo o dinheiro ter sido arrecadado.  difcil
guardar um segredo grande como esse, sobretudo quando ela est to constantemente
preocupada com seu futuro, mas no quero que ela fique esperanosa antes que seja algo
definitivo. Assim, durante a semana inteira, fico de boca fechada em relao a meus
planos e mantenho-me ocupada jantando quase todas as noites com Felipe, o brasileiro,
que no parece se importar com o fato de eu ter apenas um vestido bonito.
Acho que estou meio caidinha por ele. Depois de alguns jantares, tenho praticamente
certeza de que estou caidinha por ele. Ele  mais do que aparenta ser, esse homem que
define a si mesmo como o "rei da cascata", que conhece todo mundo em Ubud e  sempre
o centro das atenes. Perguntei a Armnia sobre ele. Falei:
- Esse Felipe... ele tem mais estofo do que os outros, no ? Tem alguma coisa a mais
nele, no ?
- Ah, tem - respondeu ela. - Ele  um homem bom, gentil, mas passou por um divrcio
difcil. Acho que veio para Bali para se recuperar.
Ah - eu no sei nada sobre esse assunto.
Mas ele tem 52 anos. Que interessante. Ser que eu realmente cheguei  idade em que um
homem de 52 anos faz parte do universo dos meus namorados potenciais? Mas gosto
dele. Ele  grisalho e est perdendo os cabelos de um jeito atraente,  la Picasso. Seus
olhos so calorosos e castanhos. Ele tem um rosto gentil e um cheiro delicioso. E  um
homem maduro de verdade. O macho adulto da espcie - algo meio novo na minha
experincia.
J faz mais ou menos cinco anos que ele mora em Bali, e trabalha com ourives de prata
balineses, fazendo jias com pedras preciosas brasileiras para exportar para os Estados
Unidos. Gosto do fato de ele ter sido casado e fiel  mulher durante quase vinte anos,
antes de o casamento se deteriorar devido a sua prpria abundncia de motivos
multicomplicados. Gosto do fato de ele j ter criado filhos, e de t-los criado bem, e de
seus filhos amarem o pai. Gosto de ele ter sido o membro do casal a ficar em casa
cuidando das crianas quando elas eram pequenas, enquanto sua mulher australiana
cuidava da carreira. (Como bom marido feminista, segundo ele, "eu queria ficar do lado
certo da histria social".) Gosto de suas demonstraes exageradas de afeto  moda
brasileira. (Quando seu filho australiano tinha 14 anos, o menino finalmente precisou
dizer: "Pai, tenho 14 anos, talvez voc no devesse mais me beijar na boca quando me
deixar no colgio.") Gosto do feto de Felipe falar quatro lnguas fluentemente, talvez
mais. (Ele insiste que no fala indonsio, mas eu o ouo falar a lngua o dia inteiro.)
Gosto de ele ter viajado para mais de cinqenta pases na vida e de ver o mundo como um
lugar pequeno e facilmente administrvel. Gosto da maneira como ele me escuta,
aproximando-se, interrompendo-me apenas quando interrompo a mim mesma para
perguntar se o estou chateando, ao que ele sempre responde: "Tenho todo o tempo do
mundo para voc, minha querida linda." Gosto de ser chamada de "minha querida linda".
(Mesmo que isso acontea tambm com a garonete.)
Na outra noite, ele me disse:
-- Por que voc no arruma um namorado enquanto est em Bali, Liz?
Para dar-lhe crdito, ele no estava se referindo apenas a si mesmo, embora eu ache que
possa estar disposto a assumir o cargo. Ele me garantiu que Ian -- o bonito gals --
seria um timo par para mim, mas h outros candidatos, tambm. H um chef nova-
iorquino, "um cara grande, alto, musculoso, confiante", de quem ele acha que vou gostar.
Na verdade, aqui h todo tipo de homem, disse ele, todos de passagem por Ubud,
residentes estrangeiros de todas as partes do mundo, escondidos nesta malevel
comunidade dos "sem-casa e sem-posses" do planeta, muitos dos quais ficariam felizes
em garantir que minha querida linda, voc tenha um vero maravilhoso aqui".
- No acho que esteja pronta para isso - respondi. - No estou a fira de fazer aquele
esforo todo para ter um caso de amor, sabe? No estou a fim de ter de raspar as pernas
todos os dias, nem de ter de mostrar o corpo para um novo namorado. E no quero ter de
repetir mais uma vez toda a histria da minha vida, nem ter de me preocupar em tomar
anticoncepcional. No tenho nem certeza se ainda sei fazer isso. Acho que era mais
confiante em relao a sexo e namoro quando tinha 16 anos do que hoje em dia.
--  claro que era - disse Felipe. Naquela poca voc era jovem e idiota. S os jovens e
idiotas so confiantes em relao a sexo e namoro. Voc acha que algum de ns sabe o
que est fazendo? Acha que existe alguma forma de os seres humanos se amarem sem
complicao? Voc deveria ver o que acontece em Bali, querida. Todos esses homens
ocidentais vm para c depois de terem bagunado a vida no seu pas, e decidem que j se
encheram das mulheres ocidentais, e se casam com alguma adolescente balinesa
baixinha, doce e obediente. Eu sei o que eles esto pensando. Esto pensando que essa
garotinha linda vai fazer eles felizes, vai tornar sua vida fcil. Mas, sempre que vejo isso
acontecer, sempre tenho vontade de dizer a mesma coisa. Boa sorte. Porque voc
continua tendo uma mulher na sua frente, amigo. E voc continua sendo um homem.
Continuam sendo dois seres humanos tentando se entender, ento vai ficar complicada E
o amor  sempre complicado. Mas, mesmo assim, os seres humanos precisam tentar se
amar, querida. A gente precisa ter o corao partido algumas vezes. Isso  um bom sinal,
ter o corao partido. Quer dizer que a gente tentou alguma coisa.
- Meu corao se partiu com tanta fora da ltima vez - falei - que ainda est doendo.
No  uma loucura? Ainda estar com o corao partido quase dois anos depois do fim de
uma histria de amor?
- Querida, sou do sul do Brasil. Sou capaz de ficar com o corao partido durante dez
anos por causa de uma mulher que nem cheguei a beijar.
Conversamos sobre nossos casamentos, sobre nossos divrcios. No de maneira
mesquinha, mas para dividir nossa mgoa. Comparamos anotaes sobre as profundezas
insondveis da depresso ps-divrcio. Bebemos vinho e fazemos uma boa refeio
juntos, e contamos um ao outro as melhores histrias de que conseguimos nos lembrar
sobre nossos ex-cnjuges, s para tirar o travo de toda aquela conversa sobre perda.
- Quer fazer alguma coisa comigo neste fim de semana? - pergunta ele, e me descubro
dizendo sim, que isso seria agradvel. Porque seria mesmo agradvel.
J  a segunda vez que, ao me deixar na porta de casa e se despedir, Felipe estica o brao
at o outro lado do carro para me dar um beijo de boa-noite e j  a segunda vez que fao
a mesma coisa - deixo ele me puxar at junto de si, mas depois encolho a cabea no
ultimo minuto e aperto minha bochecha em seu peito. Nessa posio, deixo-o me abraar
por algum tempo. Mais tempo do que seria necessariamente apenas amigvel. Posso
senti-lo encostar o rosto em meus cabelos, enquanto aperto meu rosto em algum lugar
perto de seu esterno. Posso sentir o cheiro de sua camisa de linho macia. Gosto muito do
cheiro dele. Ele tem braos musculosos, um peito bonito, largo. J foi campeo de
ginstica olmpica no Brasil.  claro que isso foi em 1969, ano do meu nascimento, mas
mesmo assim. Seu corpo parece forte.
O fato de eu encolher a cabea dessa forma sempre que ele tenta me abraar  uma forma
de me esconder - estou evitando um simples beijo de boa-noite. Mas  tambm uma
forma de no me esconder. Ao deix-lo me abraar durante todos esses instantes
silenciosos no final da noite, estou me permitindo ser abraada. Coisa que no acontecia
h muito tempo.

94

Perguntei a Ketut, meu velho xam:
-O que voc sabe sobre namoro?
- O que  namoro? -- perguntou ele.
- Deixe para l.
- No, o que ? O que significa essa palavra?
- Namoro - defini. -- Mulheres e homens apaixonados. Ou, algumas vezes, homens e
homens apaixonados, ou mulheres e mulheres apaixonadas. Beijos, sexo, casamento...
essas coisas todas.
- Eu no fazer sexo com muita gente na vida, Liss. S com minha mulher.
- Tem razo... no  muita gente. Mas voc est falando da sua primeira mulher ou da sua
segunda mulher?
- Eu s tenho uma mulher, Liss. Ela agora morta.
- E Nyomo?
Nyomo no minha mulher de verdade, Liss, Ela mulher do meu irmo. - Ao ver minha
expresso confusa, ele acrescentou - Isso tpico de Bali - e explicou. O irmo mais velho
de Ketut, que cultiva arrozais,  vizinho de Ketut e casado com Nyomo. Eles tiveram trs
filhos. Ketut e a sua mulher, por sua vez, no conseguiram ter filhos, ento adotaram um
dos filhos do irmo de Ketut, de modo a ter um herdeiro. Quando a mulher de Ketut
morreu, Nyomo passou a viver nas duas propriedades familiares, dividindo seu tempo
entre as duas casas, cuidando tanto do marido quanto do irmo deste, e cuidando tambm
das duas famlias dos filhos. Ela  mulher de Ketut de todas as maneiras,  moda balinesa
(cozinha, lima, cuida das cerimnias e rituais religiosos da casa), exceto pelo fato de eles
no terem relaes.
- Por que no? - perguntei.
- Muito VELHO! - disse ele. Ento chamou Nyomo para fazer-lhe a pergunta, dizendo-
lhe que a americana queria saber por que eles no tm relaes. Essa simples idia quase
fez Nyomo morrer de tanto rir. Ela chegou perto e me deu um soquinho no brao, com
fora.
- Eu s tive uma mulher - continuou Ketut. - E agora ela morta.
- Voc sente falta dela?
Um sorriso triste.
- Era hora de ela morrer. Agora eu contar a voc como encontro minha mulher. Quando
estou com 27 anos, conheo uma moa e amo ela.
- Em que ano foi isso? - perguntei, como sempre desesperada para descobrir a idade dele.
- No sei - disse ele. - Talvez em 1920?
(O que o faria ter agora mais ou menos 112 anos. Acho que estamos mais perto de
solucionar este caso...)
- Eu amo essa moa. Muito linda. Mas no bom carter, essa moa. S quer dinheiro. Vai
atrs outro garoto. Nunca diz verdade. Acho que tinha uma mente secreta dentro da sua
outra mente, ningum pode ver l dentro. Ela deixa de me amar, ir embora com outro
garoto. Fico muito triste. Corao partido. Rezo muito para meus quatro irmos
espirituais, pergunto por que ela no mais me ama. Ento um dos meus irmos
espirituais, ele me diz a verdade. Ele diz: "Esse no  seu verdadeiro par. Tenha
pacincia." Ento eu ter pacincia e depois encontrar minha mulher. Linda mulher, boa
mulher. Sempre gentil comigo. Nenhuma vez a gente discutir, sempre ter harmonia na
casa, ela sempre sorrindo. Mesmo quando nenhum dinheiro em casa, ela sempre sorrindo
e dizendo como est feliz por me ver. Quando ela morrer, eu muito triste na mente.
- Voc chorou?
- S pouquinho, nos meus olhos. Mas fao meditao, para limpar corpo da dor. Medito
pela alma dela. Muito triste, mas feliz, tambm. Todo dia visito ela na meditao, at
beijando ela. Ela nica mulher com quem fiz sexo. Ento eu no conheo... qual  palavra
nova, de hoje?
- Namoro?
- Isso, namoro. No conheo namoro, Liss.
- Ento essa no  muito a sua rea de especialidade no .
- O que  especialidade? O que significa essa palavra.
95


Finalmente sentei-me com Wayan para lhe falar sobre o dinheiro que arrecadei para sua
casa. Expliquei-lhe o meu desejo de aniversrio, mostrei-lhe a lista com os nomes de
todos os meus amigos, e ento revelei-lhe a quantia total que havia sido arrecadada; 18
mil dlares norte-americanos. No incio, ela ficou a tal ponto chocada que seu rosto
parecia uma mscara de tristeza.  estranho e verdadeiro que, algumas vezes, a emoo
intensa pode nos fazer reagir a alguma notcia cataclsmica exatamente da maneira oposta
 que a lgica poderia fazer supor. Esse  o valor absoluto da emoo humana -
acontecimentos alegres s vezes so registrados na escala Richter como puro trauma;
sofrimentos horrveis, algumas vezes, nos fazem explodir de tanto rir. Essa notcia que eu
acabara de dar a Wayan era demais para ela conseguir absorver, e ela quase a recebeu
como um motivo de tristeza, ento passei algumas horas sentada ali com ela, contando-
lhe a histria repetidas vezes, e tornando a lhe mostrar os nmeros, at ela comear a
absorver a realidade.
Sua primeira resposta realmente articulada (quero dizer, antes mesmo de ela comear a
chorar ao perceber que poderia ter um jardim) foi dizer com urgncia:
-- Liz, por favor, voc precisa explicar para todo mundo que ajudou a arrecadar esse
dinheiro que essa no  a casa de Wayan. E a casa de todo mundo que ajudou Wayan. Se
alguma dessas pessoas vier a Bali, elas nunca devem ficar em um hotel, t? Diga para
elas virem ficar na minha casa, t? Promete dizer isso a elas? Vamos chamar de Casa
Grupal... a Casa de Todo Mundo...
Foi ento que ela se deu conta da questo do jardim e comeou a chorar.
Aos poucos, porm, ela foi percebendo coisas mais alegres. Era como se ela fosse um
caderninho que algum estivesse sacudindo de cabea para baixo, e as emoes iam
caindo para todos os lados. Se ela tivesse uma casa, poderia ter uma pequena biblioteca,
para todos os seus livros de medicina! E uma farmcia para seus remdios tradicionais! E
um restaurante de verdade, com cadeiras e mesas de verdade (porque ela tivera de vender
todas as suas boas cadeiras e mesas velhas para pagar o advogado do divrcio). Se ela
tivesse uma casa, poderia finalmente entrar no guia Lonely Planet, que estava sempre
querendo mencionar seus servios, mas nunca podia faz-lo, porque ela nunca tinha um
endereo permanente que eles pudessem incluir. Se ela tivesse uma casa, Tutti
poderia, um dia, ter uma festa de aniversrio!
Ento ela tornou a ficar muito sbria e sria.
- Como posso agradecer a voc, Liz? Eu daria qualquer coisa a voc. Se tivesse um
marido que amasse, e voc precisasse de um homem, eu daria o meu marido a voc.
- Fique com o seu marido, Wayan. S no deixe de mandar Tutti para a universidade.
- O que eu faria se voc nunca tivesse vindo aqui?
Mas eu sempre estava vindo aqui. Pensei em um dos meus poemas sufistas preferidos,
que diz que, h muito tempo, Deus desenhou na areia um crculo exatamente em volta do
lugar onde voc est pisando agora. Eu nunca no estava vindo para c. Isso nunca iria
acontecer.
- Onde voc vai construir sua casa nova, Wayan? - perguntei.
Como uma criana que joga beisebol e vem namorando h tempos uma certa luva na
vitrine de uma loja, ou uma menina romntica que vem desenhando seu vestido de noiva
desde os 13 anos, descobri que Wayan j sabia exatamente o terreno que queria comprar.
Ficava no centro de um vilarejo ali perto, tinha rede de esgoto e eletricidade, uma boa
escola perto onde Tutti poderia estudar e estava em um ponto bem central, onde pacientes
e clientes poderiam encontr-la a p. Seus irmos ajudariam a construir a casa, disse ela.
Ela j havia escolhido praticamente tudo, at as amostras de cor para o quarto principal.
Ento fomos juntas visitar um simptico francs que era consultor financeiro e
imobilirio, e que foi gentil o suficiente para sugerir a melhor maneira de transferir o
dinheiro. Sua sugesto foi usar a maneira mais fcil, e simplesmente transferir o dinheiro
diretamente da minha conta bancria para a conta bancria de Wayan, e deix-la comprar
a casa que quisesse, para eu no precisar me envolver com a questo de ter um imvel na
Indonsia. Contanto que eu no transferisse quantias superiores a 10 mil dlares de cada
vez, a receita federal dos Estados Unidos e a CIA no desconfiariam que eu estivesse
lavando dinheiro de trfico de drogas. Ento fomos ao pequeno banco de Wayan e
conversamos com o gerente sobre como realizar uma transferncia. Concluindo de forma
sucinta, o gerente do banco disse:
- Ento, Wayan. Quando essa transferncia for feita, daqui a poucos dias, voc dever ter
cerca de 180 mil rupias na sua conta.
Wayan e eu nos entreolhamos e tivemos um ridculo acesso de riso. Que soma imensa!
Tentvamos nos controlar, uma vez que estvamos na sala chique de um banqueiro, mas
no conseguamos parar de rir. Samos de l cambaleando feito duas bbadas, segurando-
nos uma na outra para no cair.
- Nunca vi um milagre acontecer to rpido! - disse ela. - Durante todo este tempo, fiquei
implorando a Deus para por favor ajudar Wayan. E Deus estava implorando a Liz para
por favor ajudar Wayan tambm.
- E Liz estava implorando a seus amigos para por favor ajudarem Wayan tambm! --
acrescentei.
Voltamos para a loja e encontramos Tutti, que acabara de chegar do colgio. Wayan se
ajoelhou, abraou a menina e disse:
- Uma casa! Uma casa! A gente tem uma casa! - Tutti executou um fantstico desmaio de
mentira, jogando-se no cho como um personagem de desenho animado.
Enquanto estvamos todas rindo, reparei nas duas rfs que assistiam  cena do fundo da
cozinha, e pude v-las olhando para mim com alguma expresso em seus rostos que
parecia... medo. Enquanto Wayan e Tutti corriam de um lado para o outro de tanta
alegria, perguntei-me o que as rfs estariam pensando. De que tinham tanto medo? De
serem deixadas para trs, talvez? Ou ser que eu agora era uma pessoa assustadora para
elas por ter tirado tanto dinheiro de lugar nenhum? (Uma quantia de dinheiro to
inconcebvel que talvez seja como magia negra?) Ou, talvez, quando se teve uma vida to
frgil quanto a dessas meninas, qualquer mudana seja aterrorizante.
Quando a intensidade da celebrao arrefeceu, perguntei a Wayan, s para ter certeza:
E Ketut Grande e Ketut Pequena? Essa notcia  boa para elas tambm?
Wayan espichou os olhos para as meninas na cozinha e deve ter visto a mesma aflio
que vi, porque foi at l, envolveu-as em um abrao, e sussurrou palavras de reconforto
sobre seus couros cabeludos. Elas pareceram relaxar no abrao. Ento o telefone tocou, e
Wayan tentou se desvencilhar das rfs para atender, mas os braos magros das duas
Ketuts no largavam sua me de criao, e elas enterravam a cabea em seu ventre e em
suas axilas, recusando-se a solt-la mesmo depois de um tempo muito longo - e com uma
ferocidade que eu j vira nelas antes.
Ento, quem atendeu o telefone fui eu.
- Curas Balinesas Tradicionais - falei. - Passem aqui hoje para nosso grande feiro antes
da mudana!

96

Sa com o brasileiro Felipe mais duas vezes ao longo do fim de semana. No sbado,
levei-o para conhecer Wayan e as meninas, e Tutti desenhou casas para ele, enquanto
Wayan dava piscadelas sugestivas sem que ele visse e articulava com os lbios:
"Namorado novo?" e eu no parava de balanar a cabea dizendo: "No, no, no." (Mas
vou lhes contar uma coisa - no estou mais pensando no bonito gals.) Tambm levei
Felipe para conhecer Ketut, meu xam, e Ketut leu sua mo e afirmou, no menos do que
sete vezes (enquanto me encarava com um olhar penetrante), que o meu amigo era um
homem bom, um homem muito bom, um homem muito, muito bom. No um homem
mau, Liss... um homem bom.
Ento, no domingo, Felipe perguntou se eu gostaria de passar o dia na praia. Ocorreu-me
que j fazia dois meses que eu estava morando aqui em Bali, e ainda no vira a praia, o
que agora parecia uma idiotice sem tamanho, ento respondi que sim. Ele me buscou em
casa com seu jipe e viajamos por cerca de uma hora at uma praiazinha escondida em
Pedangbai, onde quase nenhum turista vai. O lugar aonde ele me levou era uma imitao
do paraso melhor do que qualquer outra coisa que eu j vira, com gua azul, areia branca
e a sombra das palmeiras. Passamos o dia inteiro conversando, interrompendo a conversa
somente para nadar, cochilar e ler, lendo em voz alta um para o outro de vez em quando.
Algumas balinesas em uma barraca perto da praia nos prepararam um peixe fresco
grelhado, e compramos cerveja gelada e frutas frescas. Flutuando nas ondas, contamos
um ao outro os detalhes da histria de nossas vidas que ainda no havamos abordado nas
ltimas semanas de noites passadas juntos nos restaurantes mais tranqilos de Ubud, em
conversas regadas a garrafas c mais garrafas de vinho.
Depois de ver meu corpo pela primeira vez na praia, ele me disse que tinha gostado.
Contou-me que os brasileiros tm uma expresso que define exatamente meu tipo de
corpo ( claro que tm), que  falsa magra, e significa que a mulher parece magra de
longe mas, quando voc chega perto, ela na verdade  bem curvilnea e carnuda, o que os
brasileiros consideram uma coisa boa. Deus abenoe os brasileiros. Enquanto
conversvamos deitados em nossas toalhas, algumas vezes ele estendia a mo e limpava a
areia do meu nariz ou afastava um fio de cabelo rebelde do meu rosto. Passamos cerca de
dez horas inteiras conversando. Ento anoiteceu, o que nos fez arrumar nossas coisas e ir
dar uma volta na rua principal, no to bem iluminada assim, daquela antiga vila de
pescadores balinesa, caminhando de braos dados sob as estrelas, muito  vontade. Foi
ento que o brasileiro Felipe me perguntou, da maneira mais natural e relaxada possvel
(quase como se estivesse sugerindo que fssemos comer alguma coisa):
-- Ser que a gente deveria ter um caso, Liz? O que voc acha?
Eu estava gostando de todos os detalhes de como aquilo estava acontecendo. No com
nenhuma ao - nenhuma tentativa de beijo, nem com um movimento ousado -, mas com
uma pergunta. E, alm disso, com a pergunta certa. Lembrei-me de uma coisa que minha
terapeuta me dissera mais de um ano atrs, antes de eu comear esta viagem. Eu falara
que achava que gostaria de permanecer solteira durante todo esse ano de viagem, mas
estava preocupada:
- E se eu conhecer algum de quem goste de verdade? O que eu devo fazer? Ser que
devo ficar com ele ou no? Ser que devo manter minha autonomia? Ou ser que devo
me permitir um namoro?
Minha terapeuta respondeu com um sorriso indulgente:
- Sabe, Liz... tudo isso pode ser discutido na hora em que a questo realmente se
apresentar, com a pessoa especfica.
Ento estava tudo ali -- a hora, o lugar, a questo e a pessoa especfica. Passamos a
conversar sobre essa idia que surgiu espontaneamente, durante nossa caminhada
amigvel, de braos dados,  beira-mar.
-- Eu provavelmente diria sim, Felipe, em circunstncias normais. O que quer que sejam
circunstncias normais...
Ambos rimos. Mas ento eu lhe mostrei minha hesitao. Minha hesitao era a seguinte:
que, por mais que eu gostasse de ter meu corpo e meu corao mexidos e remexidos
durante algum tempo pelas mos de um bom amante estrangeiro, alguma outra coisa
dentro de mim havia feito um pedido srio para que eu dedicasse aquele ano inteirinho 
viagem e a mim mesma. Que alguma transformao vital estava ocorrendo na minha
vida, e que essa transformao precisa de tempo e de espao para terminar de ocorrer sem
perturbao. Que, basicamente, sou um bolo recm-sado do forno, que ainda precisa de
mais tempo para esfriar antes de poder ser confeitado. No quero me privar desse tempo
precioso. No quero perder o controle da minha vida novamente.
 claro que Felipe falou que entendia, e que eu deveria fazer o que fosse melhor para
mim, e que ele esperava que eu fosse perdo-lo s por ter feito a pergunta. ("Ela
precisava ser feita, minha querida linda, mais cedo ou mais tarde") Garantiu-me que, o
que quer que eu decidisse, ainda assim manteramos nossa amizade, j que todo aquele
tempo que passvamos juntos parecia fazer to bem a ns dois.
- Mas voc agora precisa me deixar defender o meu ponto de vista - disse ele.
- Tudo bem - falei.
- Para comear, se eu entendi bem, voc est dedicando este ano inteiro  busca do
equilbrio entre devoo e prazer. Posso ver que voc tem se dedicado muito a prticas
devocionais, mas no tenho certeza de onde est o prazer at agora.
- Comi muito macarro na Itlia, Felipe.
- Macarro, Liz? Macarro?
- Tem razo.
- Em segundo lugar, acho que sei com o que voc est preocupada. Algum homem vai
entrar na sua vida e tirar tudo de voc de novo. No vou fazer isso com voc, querida.
Tambm estou sozinho h muito tempo, e perdi muito no amor, igualzinho a voc. No
quero que a gente tire nada um do outro. Mas  que nunca gostei tanto da companhia de
ningum quanto gosto da sua e queria ficar com voc. No se preocupe... no vou
perseguir voc at Nova York quando voc for embora daqui em setembro. E, em relao
a todos aqueles motivos dos quais voc me falou na semana passada pelos quais no
queria ter um namorado... Bom, pense assim: eu no ligo se voc no raspar as pernas
todo dia, j adoro o seu corpo, voc j me contou a histria inteira da sua vida e no
precisa se preocupar em tomar anticoncepcional, porque fiz vasectomia.
- Felipe - falei -, essa  a proposta mais sedutora e romntica que um homem j me fez.
E era. Mas, mesmo assim, eu disse no.
Ele me levou para casa. Estacionou na frente da minha casa, onde trocamos alguns beijos
doces e salgados, com o sabor de nosso dia na praia. Foi delicioso  claro que foi
delicioso. Mas mesmo assim, e mais uma vez, eu disse no.
- Tudo bem, querida - disse ele. - Mas venha jantar na minha casa amanh  noite e fao
um bife para voc.
Ele ento foi embora, e fui para a cama sozinha.
Tenho um histrico de tomar decises muito rpidas em relao aos homens. Sempre me
apaixonei depressa e sem avaliar os riscos. Tenho tendncia no somente a ver apenas o
que h de melhor nas pessoas, mas a partir do princpio de que todo mundo 
emocionalmente capaz de alcanar o potencial mximo. J me apaixonei pelo potencial
mximo de um homem mais vezes do que consigo enumerar, em vez de me
apaixonar pelo homem em si, e em seguida agarrei-me ao relacionamento durante muito
tempo (algumas vezes, tempo demais), esperando que o homem chegasse  altura de sua
prpria grandeza. Muitas vezes, no amor, fui vtima do meu prprio otimismo.
Casei-me jovem e depressa, cheia de amor e esperana, mas sem conversar muito sobre o
que significariam as realidades do casamento. Ningum me deu conselhos sobre meu
casamento. Meus pais haviam me criado para ser independente, auto-suficiente, para
tomar as minhas prprias decises. Quando cheguei aos 24 anos, todos partiam do
princpio de que eu era capaz de fazer minhas prprias escolhas de forma autnoma. E
claro que o mundo nem sempre foi assim, Se eu houvesse nascido durante qualquer outro
sculo do patriarcado ocidental, teria sido considerada propriedade do meu pai, at que
ele me entregasse ao meu marido para que eu me tomasse propriedade sua pelo
casamento. Eu teria rido muito pouca coisa a dizer sobre as grandes questes da minha
vida. Em outro perodo da histria, caso um homem houvesse se interessado por mim,
meu pai poderia ter se sentado com esse homem e desfiado uma longa lista de perguntas
para verificar se aquela seria uma unio adequada. Ele teria perguntado: "Como voc vai
sustentar a minha filha? Qual a sua reputao nesta comunidade? Quais so as suas
dvidas e bens? Quais so os pontos fones do seu carter?" Meu pai no teria
simplesmente deixado eu me casar com qualquer um pelo simples fato de eu estar
apaixonada pelo sujeito. Na vida moderna, porm, quando tomei a deciso de me casar,
meu moderno pai no se intrometeu em nada. Ele no teria interferido nessa deciso, da
mesma forma como no teria me dito que penteado usar.
Acreditem em mim: no tenho nenhuma nostalgia do patriarcado. Mas o que passei a
perceber foi que, quando o sistema do patriarcado foi (felizmente) desmantelado, ele no
foi necessariamente substitudo por outra forma de proteo. O que quero dizer  o
seguinte: nunca me passou pela cabea fazer a um pretendente as mesmas perguntas
difceis que meu pai poderia ter-lhe feito, em uma poca diferente. Eu me entreguei ao
amor muitas vezes, unicamente em nome do amor. E algumas vezes, ao fazer isso,
entreguei tambm tudo que eu tinha. Se eu quiser realmente me tornar uma mulher
autnoma, ento preciso assumir esse papel de ser minha prpria protetora. Em uma frase
famosa, Gloria Steinem certa vez aconselhou s mulheres que elas deveriam se
transformar nos homens com quem gostariam de se casar. O que s percebi recentemente
foi que no apenas eu preciso me transformar no meu prprio marido, mas preciso me
transformar tambm no meu prprio pai. E  por isso que, nessa noite, fui para a cama
sozinha. Porque sentia que ainda no estava na hora de eu aceitar um pretendente.
Dito isso, acordei s duas da manh com um profundo suspiro e um desejo fsico to
grande que no fazia idia de como satisfaz-lo. O gato maluco que mora na minha casa
miava pesarosamente por algum motive, e eu disse a ele:
- Sei exatamente como voc est se sentindo.
Eu precisava fazer alguma coisa em relao quele meu desejo, ento me levantei, fui at
a cozinha de camisola, descasquei meio quilo de batatas, aferventei-as cortei-as, fritei-as
na manteiga, salguei-as generosamente e comi tudo at o ultimo pedao - sem nunca
deixar de perguntar ao meu corpo se ele faria a gentileza de aceitar a satisfao de meio
quilo de batatas fritas em vez do prazer proporcionado pelo sexo.
Somente depois de comer cada pedao da comida foi que meu corpo respondeu: "No vai
dar, gata."
Ento tornei a entrar na cama, suspirei de tdio e comecei a...
Bom. Uma palavrinha sobre masturbao, se me permitem. Algumas vezes, ela pode at
dar uma mozinha (perdoem-me o trocadilho), mas em outras ocasies pode ser to
insatisfatria que s faz voc se sentir pior no final. Depois de um ano e meio de celibato,
depois de um ano e meio gritando meu prprio nome em uma cama de solteiro, eu estava
ficando um pouco enjoada daquele esporte. Mesmo assim, nessa noite, meu estado era tal
que... o que mais eu podia fazer? As batatas no tinham funcionado. Ento, mais uma
vez, dei prazer a mim mesma. Como sempre, minha mente percorreu seu arquivo sexual 
procura da fantasia ou da lembrana exata que ajudaria o trabalho a ser mais rapidamente
concludo. Nessa noite, porm, nada estava funcionando muito - nem os bombeiros, nem
os piratas, nem aquela cena-coringa do safadinho do Bill Clinton que geralmente resolve
a parada, nem mesmo os cavalheiros vitorianos se acercando de mim na sala de estar com
sua fora-tarefa de jovens nubentes. No final das contas, a nica coisa que me satisfez foi
quando, relutante, deixei minha mente ser tomada pela idia do meu amigo brasileiro
subindo na cama comigo... em cima de mim...
Em seguida, dormi. Acordei com um dia de tranqilo cu azul, e com um quarto ainda
mais tranqilo. Ainda inquieta e desequilibrada, passei boa parte da minha manh
entoando todas as 182 estrofes em snscrito do Gurugira - o hino grandioso, purificador e
fundamental do meu ashram indiano. Em seguida, meditei durante uma hora, imvel a
ponto de os meus ossos ficarem dormentes, at finalmente recuperar aquela sensao - a
perfeio especfica, constante, lmpida, independente de tudo, inabalvel, inominvel e
imutvel da minha prpria felicidade. Aquela felicidade que  realmente melhor do que
qualquer coisa que eu jamais vivenciei em qualquer lugar desta Terra, incluindo beijos
salgados e amanteigados, e batatas ainda mais salgadas e mais amanteigadas.
Eu estava muito feliz de ter tomado a deciso de continuar sozinha.

97

Ento, fiquei um tanto surpresa na noite seguinte quando - depois de me preparar um
jantar na sua casa, e depois de passarmos vrias horas jogados em cima de seu sof
conversando sobre todos os assuntos, e depois de ele inesperadamente se aproximar de
mim em determinado momento, enterrar o rosto na direo da minha axila e afirmar o
quanto adorava o meu fedorzinho maravilhoso - Felipe finalmente encostou a palma da
mio na minha bochecha e disse:
-- J chega, querida. Venha pra minha cama agora. -- E eu fui.
Sim, fui para a cama com ele, naquele quarto de grandes janelas abertas, com vista para a
noite e os silenciosos arrozais balineses l fora. Ele afastou o mosquiteiro branco
translcido ao redor de sua cama e me guiou at l. Ento ajudou-me a tirar o vestido
com a suave competncia de um homem que obviamente passara muitos confortveis
anos preparando seus filhos para o banho, e explicou-me suas condies - que no queria
absolutamente nada de mim a no ser permisso para me adorar pelo tempo que eu
desejasse que assim fosse. Eu aceitava essas condies?
Depois de ter pendido a voz em algum lugar entre o sof e a cama, s fiz aquiescer. No
havia mais nada a dizer. A temporada de solido havia sido longa, austera. Eu havia
cuidado bem de mim. Mas Felipe tinha razo - j chegava.
-- T bom - respondeu ele, sorrindo, enquanto tirava alguns travesseiros do caminho e
puxava meu corpo para debaixo do seu. - Vamos organizar as coisas aqui.
O que era algo engraado de se dizer, porque aquele instante marcou o fim de todas as
minhas tentativas de organizao.
Mais tarde, Felipe me diria como me vira naquela noite. Disse que eu parecia muito
jovem, e que nem de longe lembrava a mulher segura que ele havia aprendido a conhecer
 luz do dia. Disse que eu parecia terrivelmente jovem, mas tambm disposta e animada,
e aliviada por estar sendo reconhecida, e muito cansada de ser corajosa. Disse que era
bvio que ningum me tocava havia muito tempo. Encontrou-me fumegando de desejo,
mas tambm grata por ter permisso para expressar aquele desejo. E, embora eu no
possa dizer que me lembro de tudo isso, acredito na palavra dele, porque ele parecia estar
prestando uma ateno danada em mim.
Aquilo de que mais me lembro daquela noite  do mosquiteiro balanando  nossa volta.
De como ele parecia um pra-quedas. E da sensao de estar agora abrindo aquele pra-
quedas para amparar minha sada pela porta de emergncia daquele avio slido,
disciplinado, no qual eu havia passado todos aqueles anos viajando para sair de Um
Momento Muito Difcil da Minha Vida. Agora, porm, minha resistente mquina de voar
tornara-se obsoleta bem no meio do vo, ento pulei para fora daquele monomotor
obstinado e deixei aquele pra-quedas oscilante me fazer flutuar atravs da atmosfera
estranha e vazia, entre meu passado e meu futuro, e aterrissar naquela ilhazinha em forma
de cama, habitada apenas por aquele belo marinheiro brasileiro naufragado, que (depois
de ter ele prprio passado muito tempo sozinho) ficou to feliz e to surpreso ao me ver
chegar que subitamente esqueceu todo o ingls que sabia, e s conseguia repetir estas
cinco palavras toda vez que olhava para o meu rosto: linda, linda, linda, linda e linda.

98

 claro que no pregamos o olho. E ento, foi ridculo - precisei ir embora. Precisei
voltar para casa estupidamente cedo na manh seguinte, porque tinha combinado de
encontrar meu amigo Yudhi. Ele e eu havamos planejado, muito tempo antes, que esta
seria exatamente a semana em que iramos comear nossa grande viagem de carro por
Bali. Fora uma idia que tivramos certa noite na minha casa, quando Yudhi disse que,
com exceo da prpria mulher e de Manhattan, aquilo de que ele mais sentia falta dos
Estados Unidos era dirigir - simplesmente sair de carro com alguns amigos, e partir para
uma aventura por aquele imenso territrio, em todas aquelas incrveis rodovias
interestaduais. Eu disse a ele:
- Tudo bem, ento, vamos fazer uma viagem de carro juntos aqui em Bali,  moda
americana.
Isso parecera a ns dois irresistivelmente cmico - no h como se fazer uma viagem de
carro  moda americana em Bali. Em primeiro lugar, no existem grandes distncias em
uma ilha do tamanho do estado de Delaware, com pouco mais de 5 mil quilmetros
quadrados. E as "rodovias" so uma lstima, tornadas surrealisticamente perigosas pela
difundida e louca predileo pela verso balinesa da van da tpica famlia americana -
uma pequena motocicleta com cinco pessoas encarapitadas em cima, o pai dirigindo com
uma das mos, enquanto segura o filho recm-nascido com a outra (como se fosse uma
bola de futebol), enquanto a me vai sentada atrs dele montada de lado, enfiada em seu
sarongue justo e com uma cesta equilibrada em cima da cabea, cuidando para que os
filhos gmeos pequenos no caiam da motocicleta veloz, que provavelmente est rodando
do lado errado da estrada e sem farol. Raramente usa-se capacete, mas estes so
freqentemente -- e nunca descobri por qu -- carregados na mo. Imaginem dzias
dessas motocicletas abarrotadas, nenhuma delas respeitando a velocidade permitida,
todas acenando e costurando uma na frente da outra como algum tipo de dana maluca, e
vocs tero uma idia da vida nas rodovias de Bali. No sei por que todos os balineses,
sem exceo, j no morreram em algum acidente na estrada.
Mas Yudhi e eu decidimos viajar mesmo assim, passar uma semana na estrada, alugar um
carro e percorrer toda esta pequena ilha, fingindo que estamos nos Estados Unidos e que
somos ambos livres. Quando a inventamos, no ms passado, a idia me encantou, mas
agora o momento parece pssimo - comigo ali deitada na cama junto a Felipe, enquanto
ele beija a ponta dos meus dedos, meus antebraos e ombros, pedindo para que eu ficasse.
Mas eu tinha de ir. E, de certa forma, eu queria ir. No apenas para passar uma semana
com meu amigo Yudhi, mas tambm para descansar depois da minha grande noite com
Felipe, para me acostumar com a nova realidade de que, como dizem nos romances: Eu
arrumei um amante.
Ento Felipe me deixa em casa com um ultimo abrao apaixonado, e tenho tempo apenas
para tomar uma chuveirada e me recompor, antes de Yudhi chegar com nosso carro
alugado. Basta uma olhada para mim para ele dizer:
- Cara... a que horas voc chegou em casa ontem  noite?
- Cara... eu no cheguei em casa ontem  noite - respondo.
- Caaaaara... - diz ele, e comea a rir, sem dvida se lembrando da conversa que
tivramos apenas duas semanas antes, quando eu havia sugerido seriamente que talvez,
na verdade, nunca mais fosse fazer sexo na vida. - Ento voc sucumbiu, hein? -- diz ele.
- Yudhi - retruquei -, deixe eu te contar uma histria. No vero passado logo antes de eu
sair dos Estados Unidos, fui visitar meus avs no norte do estado de Nova York. A
mulher do meu av, sua segunda mulher,  uma senhora muito simptica chamada Gale,
que tem hoje uns oitenta e poucos anos. Ela pegou um velho lbum de retratos e me
mostrou fotografias dos anos 1930, quando ela era uma moa de 18 anos e fez uma
viagem pela Europa durante um ano com as duas melhores amigas e uma senhora para
vigi-las. Ela est ali folheando as pginas, mostrando para mim umas incrveis fotos
antigas da Itlia, quando de repente a gente chega na foto de um italiano muito gatinho,
em Veneza. Eu pergunto: "Gale... quem  este gato?" E ela: " o filho do casal dono do
hotel onde a gente se hospedou em Veneza. Ele foi meu namorado." E eu: "Seu
namorado?" E a doce mulher do meu av olhou para mim, toda envergonhada, e os seus
olhos ficaram sexy iguais aos da Bette Davis, e ela falou: "Eu estava cansada de olhar
igrejas, Liz."
Yudhi levantou a mo para bater na minha.
-- V fundo, cara.
Partimos em nossa viagem de carro americana de mentira por Bali, eu e aquele descolado
gnio musical indonsio exilado, com a mala do carro repleta de violes, cerveja e do
equivalente balins de comida americana para viajar de carro - salgadinhos de arroz e
balas locais de sabor intragvel. Os detalhes da nossa viagem agora esto um pouco
embaados na minha mente, embaralhados por minha distrao pensando em Felipe e
pela estranha sensao difusa que sempre acompanha uma viagem de carro em qualquer
pas do mundo. Aquilo de que me lembro bem  que Yudhi e eu falamos ingls norte-
americano o tempo inteiro - uma lngua que eu no falava havia muito tempo.  claro que
eu havia falado muito ingls durante esse ano, mas no ingls norte-americano, e
certamente no o ingls norte-americano do tipo hip-hop que Yudhi aprecia. Ento,
simplesmente nos entregamos a essa linguagem, transformando-nos em adolescentes do
tipo que assiste  MTV, enquanto percorramos a estrada, provocando um ao outro como
jovens da periferia, chamando um ao outro de cara, mano e, algumas vezes - muito
carinhosamente -: bicha. Muitos de nosso dilogos giram em torno de insultos afetuosos
s mes um do outro.
- Cara, onde voc enfiou o mapa?
- Por que voc no pergunta  sua me onde enfiei o mapa?
-- Eu at perguntaria, cara, mas ela  gorda demais.
E assim por diante.
Sequer chegamos ao interior de Bali; simplesmente ficamos rodando pelo litoral, e so s
praias, praias e mais praias durante a semana inteira. Algumas vezes, pegamos um
barquinho de pescador para ir at alguma ilha e ver o que est acontecendo por l. H
vrios tipos de praias em Bali. Passamos um dia em Kuta, uma comprida praia de linda
areia branca, ao estilo do sul da Califrnia, depois passamos para a sinistra beleza das
pedras negras da costa oeste e, em seguida, cruzamos a invisvel linha divisria balinesa,
alm da qual os turistas normais nunca parecem ir, subindo at as praias selvagens da
costa norte, aonde s os surfistas se aventuram (e, alis, s os surfistas malucos). Ficamos
sentados na praia olhando as ondas perigosas, vendo os esguios surfistas morenos e
brancos, indonsios e ocidentais, cortarem as guas como zperes desnudando as costas
do vestido azul de festa do oceano. Vemos os surfistas se esborracharem sobre os corais e
pedras com uma ousadia que lhes custa caro, somente para entrar no mar novamente para
pegar mais uma onda, e soltamos uma exclamao e dizemos:
-- Cara, que parada mais IRADA!
Exatamente conforme a inteno original, ns nos esquecemos durante horas a fio
(unicamente para o prazer de Yudhi) de que estamos na Indonsia, enquanto dirigimos
nosso carro alugado, comendo junk food e cantando canes americanas, pedindo pizza
em todos os lugares em que conseguimos encontrar. Quando somos soterrados pelas
evidncias fsicas da "balinesidade" da paisagem que nos cerca, tentamos ignorar esse
fato e fingir que estamos de volta aos Estados Unidos. Eu pergunto: "Qual o melhor
caminho para passar por este vulco?", e Yudhi responde: "Acho que a gente deveria
pegar a Interestadual 95", e eu retruco, "Mas isso vai obrigar a gente a passar por Boston
no meio do trfego da hora do rush...".
Algumas vezes, descobrimos extenses plcidas de mar azul e nadamos o dia inteiro,
permitindo um ao outro comear a beber cerveja s dez da manh (Cara...  medicinal").
Fazemos amizade com todas as pessoas que encontramos. Yudhi  o tipo de cara que --
se estiver andando pela praia e vir um homem construindo um barco - vai parar e
perguntar: "Uau! Voc est construindo um barco?" E sua curiosidade  to
completamente desarmante que, quando nos damos conta, j fomos convidados para ir
morar com a famlia do construtor do barco por um ano.
Coisas estranhas acontecem  noite, Ns nos deparamos com misteriosos rituais em
templos no meio do nada, deixamo-nos hipnotizar pelos coros de vozes, pelas percusses
e pelo gamelo. Descobrimos uma cidadezinha  beira-mar onde todos os habitantes se
reuniram em uma rua escura para uma cerimnia de aniversrio; Yudhi e eu somos
ambos arrancados da multido (forasteiros merecem honrarias) e convidados a danar
com a moa mais bonita da aldeia. (Coberta de ouro, jias, incenso e maquiada ao estilo
dos egpcios; da provavelmente tem uns 13 anos de idade, mas movimenta os quadris
com a segurana suave e sensual de uma criatura que sabe que poderia seduzir qualquer
deus que quisesse.) No dia seguinte, encontramos um estranho restaurante familiar na
mesma aldeia, cujo dono balins alega ser um grande chef de culinria tailandesa, coisa
que ele definitivamente no , mas mesmo assim passamos o dia inteiro l, bebendo
Coca-Colas geladas, comendo um pad thai gorduroso e jogando jogos de salo com o
filho adolescente elegantemente afeminado de nosso anfitrio. (Somente mais tarde
ocorre-nos que esse belo adolescente poderia muito bem ter sido a linda danarina da
noite anterior; os balineses so mestres em travestismo ritual.)
Ligo para Felipe todos os dias, de qualquer telefone que consigo encontrar, e ele
pergunta: "Quantas noites faltam para voc voltar para mim?" "Estou gostando de me
apaixonar por voc, querida", ele me diz. "A sensao  to natural, como se fosse uma
coisa que eu tivesse sentido a cada 15 dias, mas, na verdade, no sinto isso por ningum
h quase trinta anos."
No estou nesse ponto ainda, no estou ainda no ponto onde posso me apaixonar
livremente, e fao barulhos hesitantes, pequenos lembretes de que estou indo embora
daqui a poucos meses. Felipe no liga a mnima.
- Talvez isso seja s uma idia idiota e romntica sul-americana, mas preciso que voc
entenda... querida, por voc eu estou disposto at a sofrer - diz ele. - Qualquer que seja a
dor que nos acontea no futuro, j aceito, simplesmente pelo prazer de estar com voc
agora. Vamos aproveitar este tempo. Isto  maravilhoso.
- Sabe,  engraado, mas antes de conhecer voc eu estava seriamente pensando que
poderia ficar sozinha para sempre - digo a ele. - Eu pensava que talvez pudesse levar a
vida de uma contempladora espiritual.
- Contemple o seguinte, querida... - E ele comea a enumerar em minuciosos detalhes a
primeira, segunda, terceira, quarta e quinta coisa que pretende fazer com meu corpo
quando estiver sozinho comigo em sua cama outra vez. Cambaleio para longe do telefone
com os joelhos ainda meio bambos, achando essa nova paixo engraada e emocionante.
No ltimo dia de nossa viagem de carro, Yudhi e eu passamos horas tagarelando em uma
praia em algum lugar e - como acontece freqentemente conosco - comeamos a falar
novamente sobre Nova York, sobre como l  incrvel, sobre como ns amamos aquela
cidade. Yudhi sente saudades de l segundo ele, quase tanto quanto sente da mulher -
como se Nova York fosse uma pessoa, um parente que ele tivesse perdido desde que foi
deportado. Enquanto conversamos, Yudhi aplaina uma boa superfcie de areia branca
entre nossas toalhas e desenha um mapa de Manhattan.
-- Vamos tentar preencher tudo de que conseguimos nos lembrar em relao  cidade --
diz ele. Usamos os dedos para desenhar todas as avenidas as principais ruas transversais,
a confuso que a Broadway provoca com sua curva pelo meio da cidade, os rios, o
Village, o Central Park. Escolhemos uma concha fina e bonita para representar o Empire
State, e outra concha para ficar no lugar do prdio da Chrysler. Por respeito, pegamos
dois gravetos e recolocamos as Torres Gmeas na base da ilha, onde  o seu lugar.
Usamos esse mapa de areia para mostrar um ao outro nossos lugares preferidos em Nova
York. Foi aqui que Yudhi comprou os culos escuros que est usando agora; foi aqui que
comprei as sandlias que estou calando. Foi aqui que jantei pela primeira vez com meu
ex-marido; foi aqui que Yudhi conheceu sua mulher. Aqui come-se a melhor comida
vietnamita da cidade, aqui fazem o melhor bagel, este aqui  o melhor bar de noodles
("T maluca, bicha -- o melhor bar de noodles  este aqui!"). Fao um esboo do meu
antigo bairro de Hell's Kitchen, e Yudhi diz:
-- Conheo um bom restaurante l, daqueles bem simples.
-- O Tick-Tock, o Cheyenne ou o Starlight? - pergunto.
-- O Tick-Tock, cara.
-- Voc j tomou a soda com leite do Tick-Tock?
-- Ai, meu Deus, nem fale... - diz ele, gemendo.
Sinto sua saudade de Nova York to no fundo de mim mesma que, por um instante,
confundo-a com a minha prpria. A falta que ele sente da sua cidade me contagia to
completamente que me esqueo por um segundo que, na verdade, sou livre para voltar
para Manhattan um dia, embora ele no seja. Ele remexe um pouco os gravetos das
Torres Gmeas, enterra-os mais fundo na areia, e, em seguida, fita o mar silencioso e azul
e diz:
- Sei que aqui  lindo... mas voc acha que eu um dia vou voltar a ver os Estados Unidos?
O que posso dizer a ele?
O silncio nos envolve. Ento ele tira da boca a intragvel e dura bala indonsia que
passou a ltima hora chupando e diz:
- Cara, esta bala tem gosto de peido. Onde voc comprou isto?
- Da sua me, cara - respondo. - Da sua me.

99

Quando voltamos para Ubud, vou direto para a casa de Felipe e passo praticamente um
ms inteiro sem sair do quarto dele. Isso  apenas um leve exagero. Nunca fui amada e
adorada assim antes por ningum, nunca com tamanho prazer e com tamanha
concentrao e obstinao. Nunca fui to descascada, revelada, desdobrada e revirada
durante o ato do amor.
Uma coisa que sei sobre intimidade  que existem determinadas leis naturais que regem a
experincia sexual de duas pessoas, e que essas leis no podem ser mudadas, da mesma
forma que a gravidade no admite negociaes. Sentir-se fisicamente  vontade com o
corpo de outra pessoa no  uma deciso que se possa tomar. Tem muito pouco a ver com
a maneira como duas pessoas pensam, agem ou conversam, ou mesmo com sua
aparncia. Ou o misterioso m est presente, ou no est. Quando no est (como
aprendi no passado, com devastadora clareza), no  possvel for-lo a existir, assim
como  impossvel um cirurgio forar o corpo de um paciente a aceitar um rim do
doador errado. Minha amiga Annie diz que tudo se resume a uma simples pergunta:
"Voc quer a sua barriga encostada na barriga dessa pessoa para sempre ou no?
Felipe e eu, conforme descobrimos para nosso deleite, somos uma histria de barriga-
com-barriga de combinao perfeita, fruto da engenharia gentica, um sucesso. No
existe nenhuma parte do nosso corpo que seja, de alguma forma, alrgica a qualquer parte
do corpo do outro. Nada  perigoso, nada  difcil, nada  recusado. Tudo no nosso
universo sensual  - de maneira simples e completa - facilitado. E tambm... felicitado.
- Olhe s voc - diz Felipe, levando-me at a frente do espelho depois de fazermos amor
mais uma vez, mostrando-me meu corpo nu e meus cabelos, que me fazem parecer ter
acabado de sair de uma experincia de centrifugao em um centro de treinamento
espacial da NASA. - Olhe como voc  linda... - diz de. - Cada linha sua  uma curva...
voc parece dunas de areia...
(De fato, no acho que o meu corpo tenha tido a aparncia ou a sensao de tamanho
relaxamento na vida, no talvez desde que eu tinha 6 meses de idade e minha me tirava
fotos de mim toda contente, deitada em cima de uma toalha na bancada, depois de um
bom banho na pia da cozinha.)
E ele ento me conduz novamente at a cama, dizendo, em portugus:
-- Venha, gostosa.
Felipe tambm  um mestre dos apelidos carinhosos. Na cama, ele me adora em
portugus, ento eu fui promovida de sua "lovely little darling" para sua "queridinha".
Tenho tido muita preguia de aprender indonsio ou balins aqui em Bali, mas de repente
estou absorvendo facilmente o portugus.  claro que s estou aprendendo a lngua dos
amantes, mas esse  um bom uso para o portugus. Ele diz:
-- Querida, voc vai enjoar disto. Vai ficar cansada do quanto eu toco voc, e de quantas
vezes por dia digo o quanto voc  bonita.
No tenha tanta certeza disso assim.
Estou perdendo dias aqui, sumindo debaixo dos seus lenis, sob as suas mos. Gosto da
sensao de no saber em que dia estamos. Minha agenda toda organizada foi levada
embora pela brisa. Certa tarde, finalmente, fao uma visita ao meu xam depois de um
longo perodo sem aparecer. Ketut v a verdade no meu rosto antes que eu diga uma s
palavra.
-- Voc arrumou namorado em Bali -- diz ele.
-- Foi, Ketut.
-- Bom. Cuidado no ficar grvida.
-- Vou tomar.
-- Ele homem bom?
-- Me diga voc, Ketut -- respondo. -- Voc leu a mo dele. Prometeu que ele era um
homem bom. Disse isso umas sete vezes.
-- Foi? Quando?
-- Em junho. Eu trouxe ele aqui. Ele era o brasileiro mais velho do que eu. Voc me
disse que tinha gostado dele.
-- Nunca disse - insistiu ele e no houve nada que eu pudesse fazer para convenc-lo do
contrrio. Algumas vezes, Ketut esquece as coisas, como voc tambm esqueceria se
tivesse algo entre 65 e 112 anos de idade. Durante a maior parte do tempo, ele est bem-
disposto e alerta, mas, em outros momentos, tenho a sensao de t-lo feito sair de algum
outro plano de conscincia, em algum outro universo. (Algumas semanas atrs, ele me
disse, completamente do nada: "Voc minha boa amiga, Liss. Amiga leal. Amiga
carinhosa." Em seguida, suspirou, olhou para algum ponto distante e acrescentou,
pesaroso: "No como Sharon." Quem diabos  Sharon? O que ela fez a ele? Quando
tentei lhe perguntar sobre isso, ele no quis me responder. De repente, passou a agir como
se no soubesse a quem eu estava me referindo. Como se tivesse sido eu a primeira a
mencionar a traidora dessa Sharon.)
-- Por que voc nunca traz namorado aqui para me conhecer? - perguntou ele ento.
-- Eu trouxe, Ketut. Trouxe mesmo. E voc me disse que tinha gostado dele.
-- No lembro. Ele homem rico, seu namorado?
-- No, Ketut. No  um homem rico. Mas tem dinheiro suficiente.
-- Mdio rico? - O xam quer detalhes, planilhas.
-- Tem dinheiro suficiente.
Minha resposta parece irritar Ketut.
- Voc pedir dinheiro a esse homem, ele poder dar a voc ou no?
- Ketut, eu no quero dinheiro dele. Nunca pedi dinheiro a homem nenhum.
-- Voc passa todas as noites com ele?
-- Sim.
-- Bom. Ele mima voc?
-- Muito.
-- Bom. Voc ainda medita?
Sim, eu ainda medito, todos os dias da semana, esgueirando-me para fora da cama de
Felipe e para cima do sof, onde posso ficar sentada em silncio e oferecer alguma
gratido por tudo isto. Do lado de fora da varanda de sua casa, os patos grasnam,
enquanto perambulam pelos arrozais, fazendo barulho e borrifando gua por toda parte.
(Felipe diz que esses bandos de agitados patos balineses sempre lhe lembraram as
brasileiras a pavonear-se pelas praias do Rio; tagarelando alto e interrompendo
constantemente uma  outra, rebolando orgulhosamente os bumbuns.) Sinto-me to
relaxada agora que quase entro em meditao como se ela fosse um banho quente
preparado pelo meu namorado. Nua sob o sol da manh, apenas com uma leve manta em
volta dos ombros, eu me dissolvo em graa, pairando sobre o vazio como uma pequena
concha do mar equilibrada em uma colher de ch.
Por que a vida um dia pareceu difcil?
Certo dia, ligo para minha amiga Susan. em Nova York, e ouo as confidncias e os
detalhes mais recentes de sua ltima decepo amorosa entremeados ao fundo, pelas
tpicas sirenes dos carros de polcia. Minha voz sai de mim na cadncia tranqila, macia
de um DJ de alguma rdio de jazz  meia-noite, dizendo-lhe como ela deve esquecer
aquilo, como deve aprender que tudo  simplesmente perfeito do jeito que j est, que o
universo  generoso, baby, que  tudo paz e harmonia l fora...
Quase posso ouvi-la revirar os olhos, enquanto diz, mais alto do que as sirenes:
- Palavra de uma mulher que j teve quatro orgasmos hoje.

100

Mas toda essa diverso e brincadeira acaba tendo seu preo aps algumas semanas.
Depois de todas essas noites sem dormir de todos esses dias transando demais, meu corpo
reagiu e peguei uma horrvel infeco urinria. Doena tpica de quem transa muito,
especialmente provvel de surgir quando no se est mais acostumado a transar muito.
Ela apareceu to depressa quanto qualquer tragdia pode surgir. Certa manh, eu estava
andando pela cidade, resolvendo algumas coisas, quando subitamente fui acometida por
uma intensa dor e febre. Eu j tivera essas infeces antes, durante minha juventude
desregrada, ento sabia de que se tratava. Por um momento, entrei em pnico -- essas
coisas podem ser graves -, mas em seguida pensei: "Graas a Deus que a minha melhor
amiga em Bali  curadora", e corri para a loja de Wayan.
-- Estou doente! - falei.
Bastou uma olhada em mim para ela dizer:
-- Voc est doente de tanto transar, Liz.
Gemi, enterrando o rosto nas mos, envergonhada.
Ela deu uma risadinha e disse:
-- No se pode esconder nada de Wayan...
A dor era tremenda. Qualquer um que j teve essa infeco conhece a terrvel sensao;
para quem nunca teve esse sofrimento especfico - bem, podem inventar sua prpria
metfora tortuosa, de preferncia usando a expresso "em brasa" em algum lugar da frase.
Como um bombeiro veterano ou uma cirurgia da emergncia, Wayan nunca faz nada
depressa. Comeou metodicamente a picar umas ervas, a ferver umas razes, indo e vindo
entre a cozinha e o lugar onde eu estava, trazendo-me sucessivas beberagens mornas,
marrons e de gosto horrvel, dizendo:
-- Beba, meu bem...
Quando a poo seguinte ficava pronta, ela se sentava na minha frente, lanando olhares
de soslaio, marotos, e aproveitando a oportunidade para ser enxerida.
- Est tomando cuidado para no ficar grvida Liz?
- No tem como, Wayan. O Felipe fez vasectomia.
- O Felipe fez vasectomia? - perguntou ela, to espantada quanto se estivesse
perguntando: "O Felipe tem uma villa na Toscana? (O que por sinal,  tambm o que
sinto a respeito disso.) -  muito difcil em Bali encontrar um homem que faa isso. 
sempre problema da mulher, evitar a gravidez.
(Embora as taxas de natalidade da Indonsia tenham efetivamente cado nos ltimos
tempos, devido a um brilhante programa de incentivo  contracepo: o governo
prometeu uma motocicleta nova a todos os homens que fizessem voluntariamente uma
vasectomia... mas odeio pensar que esses sujeitos precisaram andar nas suas novas motos
no mesmo dia.)
- Sexo  engraado - ponderou Wayan, quando me via fazer caretas de dor bebendo mais
um de seus remdios caseiros.
-- , Wayan, obrigada.  hilrio.
-- No, sexo  engraado -- continuou ela. -- Ele faz as pessoas fazerem coisas
engraadas. Todo mundo fica assim, no comeo de uma histria de amor. Quer felicidade
demais, prazer demais, at adoecer. At com Wayan acontece isso no comeo de uma
histria de amor. Voc perde o equilbrio.
-- Estou com vergonha -- digo.
- No precisa ficar - disse ela. Ento acrescentou, em um ingls perfeito (e segundo uma
perfeita lgica balinesa): - Perder o equilbrio s vezes por amor faz parte de uma vida
equilibrada.
Resolvi ligar para Felipe. Eu tinha alguns antibiticos em casa, alguns remdios de
emergncia que sempre levo em viagem, s para garantir. Como j havia tido esse tipo de
infeco, eu sabia o quanto podiam ficar srias, s vezes subindo at os rins. No queria
passar por isso, no na Indonsia. Ento liguei para ele e contei-lhe o que havia
acontecido (ele ficou arrasado) e pedi-lhe para me trazer os remdios. No que eu no
acreditasse nas habilidades de cura de Wayan, mas a dor estava mesmo muito forte...
- Voc no precisa de remdios ocidentais - disse ela.
- Mas talvez seja melhor, s por segurana...
- Espere duas horas - disse ela. - Se eu no curar voc, pode tomar seus remdios.
Relutante, concordei. Minha experincia com esse ripo de infeco  que da pode levar
dias para sarar, mesmo com antibiticos fortes. Mas eu no queria faz-la se sentir mal.
Tutti brincava na loja e no parava de trazer desenhozinhos de casas para me alegrar,
dando tapinhas na minha mo com a compaixo de uma menina de 8 anos.
- Mame Elizabeth doente? - Pelo menos ela no sabia o que eu tinha feito para ficar
doente.
-- Voc j comprou sua casa, Wayan? - perguntei.
-- Ainda no, meu bem. Sem pressa.
- E aquela de que voc tinha gostado? Achei que voc fosse comprar aquela.
-- Descobri que no estava  venda. Cara demais.
-- Tem alguma outra casa em vista?
-- No se preocupe com isso agora, Liz. Por enquanto, vamos fazer voc melhorar
depressa.
Felipe chegou com meus remdios e uma expresso dominada pelo remorso,
desculpando-se tanto comigo quanto com Wayan por ter me causado aquela dor, ou pelo
menos era assim que ele via a situao.
-- No  nada srio - disse Wayan. -- No se preocupe. Eu logo curo ela. Ela vai ficar
boa logo, logo.
Ela ento foi at a cozinha e trouxe de l uma gigantesca tigela cheia de folhas, razes,
frutinhas, alguma coisa que reconheci como aafro-da-terra, uma massa com uma
textura parecida com cabelos de bruxa, junto com o que parecia ser um olho de
salamandra... tudo boiando em um suco marrom. Havia uns 4 litros desse lquido dentro
da tigela, o que quer que ele fosse. Fedia como um cadver.
-- Beba, meu bem - disse Wayan. - Beba tudo.
Fechei os olhos e bebi. E, em menos de duas horas.., bom, todos sabemos como termina
essa histria. Em menos de duas horas eu estava boa, totalmente curada. Uma infeco
que teria levado dias para tratar com antibiticos ocidentais havia desaparecido. Tentei
pagar Wayan por ela ter me curado, mas ela s fez rir:
Minha irm no precisa pagar. - Em seguida, virou-se para Felipe, fingindo severidade. -
Voc tome cuidado com ela agora. Hoje  noite s dormir, nada de tocar.
- Voc no tem vergonha de cuidar das pessoas com problemas como esse, por causa de
sexo? - perguntei a Wayan.
- Liz... eu sou curadora. Resolvo todos os problemas, com as vaginas das mulheres, com
as bananas dos homens. Algumas vezes, para as mulheres, fao at pnis de mentira. Para
transar sozinhas.
- Consolos? - perguntei, chocada.
Nem todo mundo tem namorado brasileiro, Liz - ralhou ela. Ento olhou para Felipe e
disse, alegre: - Se voc um dia precisar de ajuda para endurecer sua banana, posso te dar
um remdio. Eu estava ocupada garantindo a Wayan que Felipe no precisava de nenhum
tipo de ajuda com sua banana, mas ele me interrompeu - sempre o homem de negcios -
para perguntar a Wayan se essa sua terapia para endurecer bananas poderia ser
engarrafada e vendida.
- A gente poderia ganhar uma fortuna - disse ele. Mas ela explicou que no, no era
assim. Todos os seus remdios precisavam ser fabricados no mesmo dia, fresquinhos,
para poderem funcionar. E precisavam ser acompanhados por suas preces. Mas, de toda
forma, Wayan nos garantiu que a medicina interna no era a nica maneira para ela
endurecer a banana de um homem; ela tambm consegue fazer isso com massagem.
Ento, para nosso fascnio horrorizado, descreveu as diferentes massagens que faz para as
bananas impotentes dos homens, como agarra a base da coisa e a sacode de um lado para
o outro durante cerca de uma hora, para aumentar o fluxo de sangue, enquanto recita
preces especiais.
- Mas, Wayan - perguntei -, o que acontece se o homem voltar todo dia e disser. "Ainda
no estou curado, doutora! Preciso de outra massagem na banana!" - Essa idia atrevida a
fez rir e admitir que sim, precisava tomar cuidado para no passar tempo demais
consertando as bananas dos homens, porque isso causa uma certa quantidade de...
sentimentos fortes... dentro dela, que ela no tem certeza de serem bons para a energia da
cura. E algumas vezes, sim, os homens fogem ao seu controle. (Como voc tambm
fugiria, caso estivesse impotente h anos e de repente uma linda mulher de pele cor de
jambo, com cabelos pretos compridos e sedosos, comeasse a fazer a mquina funcionar
outra vez.) Ela nos falou do homem que se levantou em um, pulo e comeou a persegui-la
pela sala durante uma cura para a impotncia, dizendo. Preciso de Wayan! Preciso de
Wayan!"
Mas no  s isso que Wayan sabe fazer. Ela nos contou que tambm  chamada, s
vezes, para ensinar sexo a algum casal que esteja enfrentando problemas de impotncia
ou frigidez, ou que esteja com dificuldades para ter um filho. Ela precisa fazer desenhos
mgicos nos lenis de sua cama e explicar-lhes que posies sexuais so adequadas para
que pocas do ms. Ela disse que, se um homem quiser engravidar uma mulher, precisa
ter relaes com a mulher com "bastante bastante fora" e lanar "a gua da sua banana
dentro da vacina dela muito, muito rpido". Algumas vezes, Wayan chega a precisar ficar
no quarto com o casal que est transando, para explicar com quanta fora e rapidez isso
precisa ser feito.
- E o homem consegue lanar gua da sua banana com bastante fora e bem rpido com a
dra. Wayan ali ao lado, olhando para ele? - perguntei.
Felipe imita Wayan observando o casal:
- Mais depressa! Com mais fora! Vocs querem esse filho ou no?
Wayan responde que sim, ela sabe que  uma loucura, mas  esse o trabalho de uma
curadora. Embora ela reconhea que  necessrio realizar vrias cerimnias de
purificao antes e depois desse acontecimento, de modo a manter intacto o esprito
sagrado, e ela no gosta de faz-lo com muita freqncia, porque isso a faz se sentir
"esquisita". Porm, se um beb precisa ser concebido, ela cuidar do assunto.
-- E todos esses casais hoje tm filhos? -- perguntei.
-- Eles tm filhos! - confirmou ela, orgulhosa.  claro que sim.
Mas ento Wayan nos confidenciou algo extremamente interessante. Disse que, se um
casal no estiver tendo sorte para conceber um filho, ela examinar tanto o homem
quanto a mulher para determinar, como se diz, de quem  a culpa. Caso seja da mulher,
nenhum problema -- Wayan consegue resolver isso com antigas tcnicas de cura. Mas,
caso o problema seja o homem -- bem, isso constitui uma situao delicada aqui no
patriarcado de Bali. As alternativas mdicas de Wayan so limitadas, porque informar a
um balins que ele  estril ultrapassa os limites do concebvel; isso no pode de jeito
nenhum ser verdade. Homens so homens, afinal de contas. Caso nenhuma gravidez
ocorra,  obrigatrio que a culpa seja da mulher. E, caso a mulher no d logo um filho
ao marido, ela pode estar correndo srios riscos -- risco de apanhar, de cair em desgraa
ou de ter de se divorciar.
-- Ento o que voc faz nessa situao? - perguntei, impressionada com o fato de uma
mulher que ainda chama smen de "gua de banana" ser capaz de diagnosticar a
infertilidade masculina.
Wayan nos contou tudo. O que ela faz, no caso da infertilidade masculina,  informar ao
homem que sua mulher  estril e precisa fazer consultas todas as tardes, sozinha, para
"sesses de cura". Quando a mulher vai  loja sozinha, Wayan chama algum rapaz viril
da cidade para vir transar com a mulher e, com sorte, produzir um beb.
Felipe ficou chocado.
- Wayan! No!
Mas ela s fez aquiescer calmamente. Sim.
-  o nico jeito. Se a mulher for saudvel, vai ter um filho. Da todo mundo fica feliz.
Como mora na cidade, Felipe imediatamente quis saber:
- Quem? Quem voc chama pata fazer esse trabalho?
- Os motoristas - disse Wayan.
Isso fez todos ns rirmos, porque Ubud est cheia desses rapazes, esses que passam com
o interminvel bordo: "Transporte? Transporte?", tentando ganhar alguns trocados
levando os turistas at os vulces, praias ou templos. De forma geral, so homens
razoavelmente bonitos, com sua pele morena  la Gauguin, seus corpos musculosos e
seus belos cabelos compridos Nos Estados Unidos, seria possvel ganhar bastante
dinheiro administrando uma "clnica de fertilidade" para mulheres em que a equipe fosse
formada por rapazes bonitos como esses. Wayan diz que a melhor coisa em seu
tratamento contra infertilidade  que os motoristas, em geral, sequer pedem pagamento
por seus servios de transporte sexual, sobretudo se a mulher for bem bonita. Felipe e eu
concordamos que o comportamento desses rapazes  generoso e visa ao bem da
comunidade. Nove meses mais tarde, nasce um lindo beb. E todo mundo fica feliz. E o
melhor de tudo: "Nem  preciso anular o casamento." E ns todos sabemos como 
horrvel anular um casamento, especialmente em Bali.
- Meu Deus - disse Felipe -, como ns, homens, somos otrios.
Mas Wayan no d o brao a torcer. Esse tratamento s  necessrio porque no 
possvel dizer a um balins que ele  estril sem correr o risco de ele ir para casa e fazer
alguma coisa horrvel com a mulher. Se os homens de Bali no fossem assim, ela poderia
curar sua infertilidade de outras formas. Mas essa  a realidade da cultura, ento fim de
papo. Ela no sente a menor culpa, mas encara isso simplesmente como uma outra
maneira de exercitar sua criatividade como curandeira. De toda forma, acrescenta,
algumas vezes  bom para a mulher ter relaes com um desses bonitos motoristas,
porque a maioria dos maridos em Bali, na verdade, no sabe fazer amor com uma mulher.
- A maioria dos maridos parece galos, parece bodes.
- Talvez voc devesse dar aulas de educao sexual, Wayan - sugeri. - Voc poderia
ensinar os homens a tocarem as mulheres com suavidade, da talvez suas mulheres
fossem gostar mais de sexo. Porque, se um homem realmente toca voc com suavidade,
acaricia sua pele, beija seu corpo todo, sem pressa... o sexo pode ser bom.
De repente, ela corou. Wayan Nuriyasih, a massageadora de bananas, curadora de
infeces urinrias, vendedora de consolos, cafetina nas horas vasas, de fato corou.
- Voc me faz me sentir esquisita quando fala isso - disse ela, abanando-se. - Esta
conversa, isto me faz me sentir... diferente. At na minha roupa de baixo eu me sinto
diferente! Vo para casa agora, vocs dois. Chega desta conversa sobre sexo. Vo para
casa agora, vo para cama, mas s para dormir, hein? S DORMIR!

101

No caminho de casa, Felipe perguntou:
-- Ela j comprou uma casa?
- Ainda no. Mas diz que est procurando.
-- J faz mais de um ms que voc deu o dinheiro a ela, no faz?
-- Faz, mas a casa que ela queria no estava  venda...
-- Cuidado, querida -- disse Felipe. -- No deixe isso se arrastar demais. No deixe essa
situao ficar balinesa para voc.
-- O que isso quer dizer?
-- No estou tentando interferir em seus assuntos, mas moro neste pas h cinco anos e
sei como as coisas so. As histrias aqui podem ficar complicadas. Algumas vezes 
difcil saber o que est acontecendo de verdade.
-- Felipe, o que voc est tentando dizer? -- perguntei e, quando ele no respondeu
imediatamente, citei-lhe uma de suas prprias frases tpicas: - Se voc me disser devagar,
eu entendo rpido.
- O que estou tentando dizer, Liz,  que os seus amigos arrecadaram uma quantidade
enorme de dinheiro para essa mulher, e agora o dinheiro est todo l na conta bancria
dela. Voc precisa se certificar de que ela vai realmente comprar uma casa com ele.

102

O final de julho chegou, e com ele meu aniversrio de 35 anos. Wayan organizou uma
festa de aniversrio para mim em sua loja, diferente de qualquer outra festa que eu j
tivesse visto antes. Wayan me vestiu com uma roupa de aniversrio balinesa tradicional -
um sarongue roxo berrante, um busti tomara-que-caia e um comprido tecido dourado
que ela enrolou bem apertado em volta do meu trax, formando um vestido to justo que
eu mal conseguia respirar ou comer meu prprio bolo de aniversrio. Enquanto me
transformava em uma mmia com aquela linda roupa, em seu quarto pequeno e escuro
(abarrotado com os pertences dos trs outros pequenos seres que moravam com ela), ela
perguntou, sem olhar direito para mim, ajeitando e prendendo o pano em volta das
minhas costelas:
- Voc tem planos de casar com o Felipe?
- No - respondi - A gente no tem planos de casar. No quero mais nenhum marido,
Wayan. E no acho que o Felipe queira mais nenhuma mulher. Mas gosto de estar com
ele.
- Bonito por fora  fcil de achar, mas bonito por fora e bonito por dentro... isso no 
fcil. O Felipe tem isso.
Concordei.
Ela sorriu.
- E quem trouxe esse homem bom para voc, Liz? Quem rezou todos os dias por esse
homem?
Dei-lhe um beijo.
- Obrigada, Wayan. Voc fez um bom trabalho.
A festa de aniversrio comeou. Wayan e as meninas decoraram a casa inteira com bolas
de encher, folhas de palmeira e cartazes escritos  mo com mensagens complicadas, sem
pontuao correta, do tipo: "Feliz aniversrio para um corao bom e gentil, para voc,
nossa querida irm, para nossa amada Dama Elizabeth, Feliz Aniversrio para voc,
sempre paz para voc e Feliz Aniversrio. Wayan tem um irmo cujos filhos pequenos
so talentosos danarinos em cerimnias no templo, ento as sobrinhas e sobrinhos
vieram danar para mim bem ali no meio do restaurante exibindo um espetculo
arrebatador, fabuloso ao qual em geral s os sacerdotes tm direito. Todas as crianas
estavam enfeitadas com ouro e imensos arranjos de cabea, maquiadas como se fossem
espalhafatosas drag-queens, com ps que sapateavam com fora e dedos graciosos,
femininos.
As festas balinesas, de modo geral, organizam-se em torno do princpio de as pessoas
vestirem suas melhores roupas, depois ficarem sentadas olhando umas para as outras. Na
verdade, so muito parecidas com as festas dadas pelas revistas nova-iorquinas. ("Meu
Deus, querida", gemeu Felipe quando eu lhe disse que Wayan estava organizando uma
festa de aniversrio para mim, "vai ser to chato...") Mas no foi chato - foi apenas
silencioso. E diferente. Houve toda a parte da roupa, e depois os danarinos, e depois
houve a parte em que todos ficaram sentados olhando uns para os outros, que no foi to
m assim. Todos estavam lindos. A famlia inteira de Wayan compareceu, e no parava
de rir e acenar para mim a um metro de distncia, e eu no parava de sorrir e acenar de
volta para eles.
Soprei as velas do bolo de aniversrio junto com Ketut Pequena, a mais nova das rfs,
cujo aniversrio, conforme eu decidira algumas semanas antes, tambm seria dali para a
frente no dia 18 de julho, igualzinho ao meu, j que ela nunca tinha tido um aniversrio
nem uma festa de aniversrio. Depois de soprarmos as velas, Felipe deu de presente a
Ketut Pequena uma boneca Barbie, que ela desembrulhou com estarrecido assombro e,
em seguida, olhou para a boneca como se esta fosse uma passagem para uma nave
espacial para Jpiter -- algo que ela nunca poderia ter imaginado um dia ganhar, nem em
7 bilhes de anos-luz.
Tudo na festa foi bem divertido. Foi uma mistura improvvel, internacional e
intergeracional de um punhado de amigos meus, dos parentes de Wayan e de alguns de
seus clientes e paciente ocidentais que eu ainda no conhecia. Meu amigo Yudhi trouxe-
me uma embalagem com meia dzia de latinhas de cerveja para me desejar feliz
aniversrio, e um rapaz moderninho que era roteirista em Los Angeles e se chamava
Adam. Felipe e eu havamos conhecido Adam em um bar certa noite, e o havamos
convidado. Adam e Yudhi passaram o tempo inteiro na festa conversando com um
menininho chamado John, cuja me, uma estilista alem casada com um americano que
mora em Bali,  paciente de Wayan. O pequeno John - que tem 7 anos de idade e  meio-
americano, segundo ele, por causa de seu pai americano (embora ele prprio nunca tenha
estado l), mas que fala alemo com a me e indonsio com as filhas de Wayan - ficou
encantado com Adam ao descobrir que ele era californiano e sabia surfar.
- Qual seu animal preferido, moo? - perguntou John, e Adam respondeu:
- Pelicano.
O que  pelicano? - perguntou o menino, e Yudhi se levantou e disse:
- Cara, voc no sabe o que  pelicano? Cara, voc precisa ir pra casa e perguntar isso ao
seu pai. Pelicanos so o mximo, cara.
Ento John, o menino meio-americano , virou-se para dizer alguma coisa em indonsio
para a pequena Tutti (provavelmente para lhe perguntar o que era um pelicano), enquanto
Tutti estava sentada no colo de Felipe tentando ler meus cartes de aniversrio, e Felipe
conversava em um lindo francs com um senhor parisiense aposentado que vinha se
consultar com Wayan para tratar dos rins. Enquanto isso, Wayan havia ligado o rdio e
Kenny Rogers cantava Coward of the Country na hora em que trs moas japonesas
entraram de repente na loja para saber se poderiam fazer massagens medicinais.
Enquanto eu tentava convencer as moas japonesas a comerem um pedao do meu bolo
de aniversrio, as duas rfs - Ketut Grande e Ketut Pequena - enfeitavam meus cabelos
com enormes fivelas cintilantes, que haviam comprado de presente para mim depois de
economizar todo seu dinheiro. As sobrinhas e sobrinhos de Wayan, os danarinos dos
templos filho, filhos de agricultores de arrozais, estavam sentados bem quietinhos,
olhando timidamente para o cho, vestidos de dourado como divindades em miniatura;
eles davam ao aposento uma qualidade divina estranha que parecia de outro mundo. Do
lado de fora, os galos comearam a cantar, embora ainda no houvesse escurecido, e o
crepsculo no houvesse sequer chegado. Minha roupa balinesa tradicional me apertava
como um abrao ardente, e eu tinha a sensao de que aquela era, sem dvida, a mais
estranha - mas talvez a mais feliz  festa de aniversrio que eu j havia tido.

103

Contudo, Wayan precisa comprar uma casa e estou ficando preocupada por isso no estar
acontecendo. No entendo por que no est acontecendo, mas simplesmente precisa
acontecer. Felipe e eu agora entramos na dana. Encontramos um corretor de imveis que
poderia nos mostrar algumas propriedades, mas Wayan no gostou de nada que
mostramos a ela. No paro de lhe dizer:
-- Wayan,  importante a gente comprar alguma coisa. Vou embora daqui em setembro e
preciso avisar aos meus amigos antes de ir que o dinheiro deles realmente foi usado para
comprar uma casa para voc. E voc precisa de um teto sobre sua cabea antes de ser
despejada.
- No  nada simples comprar um imvel em Bali - repete ela para mim. - No  como
entrar em um bar e comprar uma cerveja. Pode levar muito tempo.
- A gente no tem muito tempo, Wayan.
Ela simplesmente d de ombros e novamente me lembro do conceito balins de "tempo
elstico", que significa que o tempo  um conceito muito relativo e malevel. "Quatro
semanas", para Wayan, no significa exatamente o que significa para mim. Um dia, para
Wayan, tampouco  necessariamente composto de 24 horas; algumas vezes  mais
comprido, outras vezes mais curto, dependendo da qualidade espiritual e emocional
daquele dia. Como no caso do meu xam e de sua idade misteriosa, algumas vezes os dias
so contados, outras vezes pesados.
Enquanto isso, tambm descubro que subestimei inteiramente o quanto  caro comprar
um imvel em Bali. Como tudo aqui  muito barato, seria de se pensar que os terrenos
tambm estivessem desvalorizados, mas isso  uma suposio equivocada. Comprar um
terreno em Bali -- especialmente em Ubud -- pode se tornar quase to caro quanto
comprar um terreno em Westchester County, em Tquio ou na Rodeo Drive. O que 
totalmente ilgico, porque, depois que voc compra o terreno, no pode ganhar seu
dinheiro de volta com ele de nenhuma maneira tradicionalmente lgica. Voc pode pagar
aproximadamente 25 mil dlares norte-americanos por um aro de terra (um aro  uma
medida de rea que pode ser traduzida mais ou menos como: "Ligeiramente maior do que
a vaga para estacionar uma van"), e depois pode construir nele uma lojinha onde vai
vender um sarongue de batique por dia para um turista por dia durante o resto da sua
vida, para ganhar mais ou menos 75 centavos de dlares por pea. No faz sentido.
Mas os balineses valorizam sua terra com uma paixo que ultrapassa os limites do bom
senso econmico. Como um imvel  tradicionalmente o nico bem que os balineses
reconhecem como legtimo, ele  valorizado da mesma forma que a tribo massai da
frica valoriza o gado ou que minha sobrinha de 5 anos valoriza o brilho labial: ou seja,
no  possvel ter demais, uma vez que se tem, nunca se deve abrir mo, e toda a
quantidade existente disso no mundo deveria lhe pertencer.
Alm do mais - conforme descobri no decorrer do ms de agosto, durante meu priplo
digno da Nrnia de CS. Lewis pelas complexidades das negociaes imobilirias
balinesas -,  quase impossvel descobrir quando h algum terreno  venda por aqui. Os
balineses que esto vendendo terrenos geralmente no gostam que outras pessoas saibam
que seu terreno est  venda. Ora, seria de se pensar que anunciar esse fato fosse uma
vantagem. mas os balineses no pensam assim. Caso voc seja um agricultor balins que
esteja vendendo sua terra, isso significa que voc precisa desesperadamente de dinheiro
em espcie, e esse faro  humilhante. Alm disso, se os seus vizinhos e parentes
descobrirem que voc de fato vendeu algum terreno, ento iro supor que voc conseguiu
algum dinheiro, e todo mundo ir perguntar se pode pegar esse dinheiro emprestado.
Assim, os terrenos s ficam disponveis para a venda por meio de... boatos. E todas essas
negociaes imobilirias so executadas por trs de estranhos vus de segredo e engodo.
Os ocidentais radicados aqui - ao ouvirem dizer que estou tentando comprar um terreno
para Wayan - comeam a se reunir  minha volta, contando-me histrias de alerta
baseadas em suas prprias experincias dignas de um pesadelo. Eles me chamam ateno
para o fato de que, por aqui, nunca se pode ter certeza do que est acontecendo quando se
trata de negociaes imobilirias. O terreno que voc est "comprando" pode, na verdade,
no "pertencer"  pessoa que o est "vendendo". O sujeito que lhe mostrou o imvel pode
nem sequer ser o proprietrio, mas apenas o infeliz sobrinho do dono, tentando passar a
perna no tio por causa de alguma velha briga de famlia. No espere que as fronteiras do
seu imvel cheguem a ser definidas. O terreno que voc comprar para a casa dos seus
sonhos pode mais tarde ser declarado "perto demais de um templo" para obter o alvar de
construo (e, neste pas pequeno, com um nmero de templos estimado em 20 mil, 
difcil encontrar qualquer terreno que no esteja localizado perto demais de um templo).
Tambm  preciso levar em considerao que voc, muito provavelmente, est morando
nas encostas de um vulco e que pode estar bem em cima de uma falha tambm. E no
apenas uma falha geolgica. Por mais idlica que Bali parea ser, os mais sensatos sempre
tm em mente que isto aqui, na verdade,  a Indonsia - a maior nao islmica do
mundo, instvel por definio, corrupta dos mais poderosos ministros de justia at o cara
que coloca gasolina no seu carro (e que s finge encher o tanque). Aqui, sempre ser
possvel algum tipo de revoluo a qualquer momento, e todos os seus bens podem ser
confiscados pelos vitoriosos. Provavelmente sob a ameaa de uma arma.
Administrar todas essas armadilhas no  uma atividade para a qual eu tenha qualquer
talento. Quero dizer - passei por um divrcio no estado de Nova York e tal, mas isso 
outra pgina de Kafka inteiramente diferente. Enquanto isso, 18 mil dlares de um
dinheiro que eu mesma, minha famlia e meus amigos mais queridos doaram esto
parados na conta bancria de Wavan, convertidos em rupias indonsias - uma moeda que
tem um histrico de se desvalorizar sem aviso prvio e virar fumaa. E Wayan ser
despejada de sua loja em setembro, que  mais ou menos a poca em que vou sair do pas.
Daqui a mais ou menos trs semanas.
Mas est se revelando quase impossvel para Wayan encontrar um terreno que ela julgue
apropriado para uma casa. Deixando de lado todas as consideraes prticas, ela precisa
estudar o taksu - o esprito - de cada lugar. Como curadora, a importncia que Wayan
atribui ao taksu, mesmo segundo os padres balineses,  extrema. Encontra um lugar que
achei perfeito, mas Wayan disse que era perto demais de um rio que, como todos sabem,
 onde vivem os fantasmas. (Na noite seguinte  nossa visita a esse lugar, diz Wayan, ela
sonhou com uma linda mulher com as roupas rasgadas, chorando, e isso bastou -- no
podamos comprar aquele terreno.) Depois encontramos uma lojinha linda perto da
cidade, com um quintal nos fundos e tudo, mas ela ficava em uma esquina, e s algum
que quer ir  falncia e morrer jovem moraria em uma casa de esquina. Como todos
sabem.
-- Nem tente convenc-la a mudar de idia -- aconselhou Felipe. -- Acredite em mim,
querida. No se meta entre os balineses e o seu taksu.
Ento, na semana passada, Felipe achou um lugar que parecia se encaixar exatamente nos
critrios -- um terreno pequeno, bonito, perto do centro de Ubud, em uma estrada pouco
movimentada, junto a um arrozal, com espao de sobra para um jardim e bem dentro do
nosso oramento. Quando perguntei a Wayan: "Ser que a gente deve comprar?", ela
retrucou:
-- No sei ainda, Liz. No vamos tomar decises como essa com pressa. Preciso
primeiro falar com um sacerdote.
Ela explicou que precisaria consultar um sacerdote para descobrir um dia auspicioso para
comprar o terreno, se  que vai decidir compr-lo. Porque nada de importante em Bali
pode ser feito antes de se escolher um dia auspicioso. Mas ela sequer pode perguntar aos
sacerdotes sobre o dia auspicioso para comprar o terreno antes de decidir se de fato quer
morar l. Compromisso esse que ela se recusa a assumir antes de ter tido um sonho
auspicioso. Sabendo que me restam poucos dias aqui, perguntei a Wayan, como boa
nova-iorquina:
- Qual  o seu prazo mnimo para ter um sonho auspicioso?
Wayan, como boa balinesa, respondeu:
- No se pode apressar isso. - Porm, ponderou ela, poderia ajudar se ela conseguisse ir a
um dos principais templos de Bali com uma oferenda e rezar aos deuses para que lhe
dessem um sonho auspicioso...
- Tudo bem - falei. - Amanh o Felipe pode levar voc de carro ao templo principal, e
voc pode fazer uma oferenda e pedir aos deuses para, por favor, te mandarem um sonho
auspicioso.
Wayan adoraria, disse ela.  uma tima idia. S tem um problema. Ela no pode entrar
em templo nenhum durante esta semana inteira.
Porque ela est... menstruada.

104

Talvez eu no esteja conseguindo transmitir o quanto isso tudo  engraado.  verdade,
tentar entender tudo isso  uma diverso estranha e saborosa. Ou talvez eu esteja apenas
gostando muito desta fase surreal da minha vida, porque estou me apaixonando, e isso
sempre faz o mundo parecer delicioso, por mais insana que seja a sua realidade.
Sempre gostei de Felipe. Mas alguma coisa na maneira como ele se envolve na Saga da
Casa de Wayan nos une ao longo do ms de agosto como um casal de verdade. E claro
que o que quer que acontea com essa curadora balinesa maluquete no tem nada a ver
com ele. Ele  um homem de negcios. Conseguiu morar em Bali durante cinco anos sem
se envolver muito nas vidas pessoais e nos complexos rituais dos balineses, mas
subitamente est chapinhando comigo por arrozais lamacentos e tentando encontrar um
sacerdote que d a Wayan uma data auspiciosa...
- Eu estava perfeitamente feliz na minha vidinha tacanha antes de voc aparecer -- ele
sempre diz.
Ele estava entediado em Bali antes. Estava lnguido, matando tempo, como um
personagem de um romance de Graham Greene. Essa indolncia terminou no instante em
que fomos apresentados. Agora que estamos juntos, tenho direito  verso de Felipe para
quando nos conhecemos, uma histria deliciosa que nunca me canso de escutar - sobre
como ele me viu na festa naquela noite, em p, de costas para ele, e como eu nem precisei
virar a cabea ou mostrar o rosto para ele perceber com uma pontada na barriga: Essa  a
minha mulher. Eu fao qualquer coisa para ter essa mulher.
- E foi fcil ter voc - diz ele. - S precisei implorar e pedir durante semanas.
- Voc no implorou e pediu.
-- Voc no me viu implorando e pedindo?
Ele fala sobre como fomos danar naquela primeira noite em que nos conhecemos, e
como de me viu ficar atrada por aquele gals bonito, e como seu corao murchou
quando ele viu a cena se desenrolar, pensando: "Estou fazendo todo este esforo para
seduzir esta mulher, e agora esse cara bonito vai simplesmente tirar ela de mim e causar
tanta complicao na vida dela... se ao menos ela soubesse quanto amor eu posso oferecer
a ela."
Ele pode mesmo. Ele  atencioso por natureza, e posso senti-lo entrar em uma espcie de
rbita ao meu redor, tornando-me a principal coordenada para a direo da sua bssola,
passando a assumir o papel de meu cavaleiro protetor. Felipe  o tipo de homem que
precisa desesperadamente de uma mulher na sua vida -- mas no para ser cuidado;
unicamente para poder ter algum de quem cuidar, algum a quem se dedicar. Tendo
vivido sem um relacionamento assim desde o fim de seu casamento, ele tem passado a
vida  deriva, mas agora est se organizando ao meu redor.  maravilhoso ser tratada
assim. Mas isso tambm me assusta. Algumas vezes, eu o ouo fazer barulho no andar de
baixo, preparando o jantar para mim, enquanto relaxo lendo no andar de cima, e de
assobia algum alegre samba brasileiro, e grita: "Querida, quer mais um copo de vinho?",
e eu me pergunto se sou capaz de ser o sol de algum, o tudo de algum. Ser que estou
centrada o suficiente agora para ser o centro da vida de outra pessoa? Mas, quando
finalmente abordei o assunto com ele na outra noite, ele disse:
-- Querida, eu pedi para voc ser essa pessoa? Pedi para voc ser o centro da minha
vida?
Imediatamente senti vergonha de mim mesma por minha pretenso, por pensar que ele
gostaria que eu ficasse com ele para sempre para poder realizar os meus caprichos at o
final dos tempos.
-- Desculpe - falei. -- Isso foi meio arrogante, no foi?
-- Um pouco -- admitiu ele, beijando minha orelha. -- Mas no tanto assim, na verdade,
Querida,  claro que isso  uma coisa sobre a qual a gente precisa conversar, porque a
verdade  o seguinte: estou loucamente apaixonado por voc. -- Empalideci
involuntariamente, e ele fez uma brincadeira rpida, tentando me tranqilizar, - Estou
dizendo isso de forma totalmente hipottica,  claro. - Mas depois falou, todo srio: -
Olhe, tenho 52 anos. Pode acreditar em mim, j sei como o mundo funciona. Reconheo
que voc ainda no me ama do jeito que eu amo voc, mas a verdade  que no ligo
muito para isso. Por algum motivo, sinto a mesma coisa por voc que sentia pelos meus
filhos quando eles eram pequenos: que a obrigao deles no era me amar, mas era
obrigao minha am-los. Voc pode decidir sentir o que quiser, mas eu te amo e vou te
amar sempre. Mesmo que a gente nunca mais se veja voc j me trouxe de volta  vida, e
isso  muita coisa. E  claro que eu gostaria de compartilhar minha vida com voc. O
nico problema  que no sei que tipo de vida posso te oferecer em Bali.
Essa  uma preocupao que eu tambm sinto. Tenho observado a sociedade formada
pelos estrangeiros residentes em Ubud, e tenho total certeza de que esta no  uma vida
para mim. Em todo lugar desta cidade, voc v o mesmo tipo de temperamento -
ocidentais que foram to maltratados e desgastados pela vida que desistiram de vez de
lutar e decidiram acampar aqui em Bali indefinidamente, onde podem morar em uma
linda casa por duzentos dlares por ms, talvez encontrar um jovem balins ou uma
jovem balinesa para lhe fazer companhia, onde podem beber antes do meio-dia sem que
ningum venha incomod-los, onde podem fazer um dinheirinho exportando uns mveis
para algum. Porm, de modo geral, tudo que essas pessoas esto fazendo aqui  garantir
que ningum nunca mais lhes pea nada srio. Trata-se de pessoas de muito bom nvel,
internacionais, talentosas e inteligentes. Mas parece que todo mundo que encontro por
aqui costumava ser outra coisa antes (em geral, "casado" ou "empregado"); agora esto
todos unidos pela ausncia da nica coisa da qual parecem ter aberto mo de forma
completa e definitiva: ambio. E desnecessrio dizer que se bebe muito.
 claro que a linda cidadezinha balinesa de Ubud no  um lugar to ruim assim para se
passar o resto da vida sem fazer nada, ignorando o passar dos dias. Imagino que, nesse
sentido, seja parecida com lugares como Key West, Flrida, ou Oaxaca, no Mxico.
Quando voc pergunta h quanto tempo eles moram aqui, a maioria dos estrangeiros que
mora em Ubud no tem muita certeza. Para comear, eles no tm muita certeza de
quanto tempo passou desde que se mudaram para Bali. Alm disso, porm, eles sequer
tm certeza de que moram de fato aqui. No pertencem a lugar nenhum, no tm ncora.
Alguns deles gostam de imaginar que esto apenas dando um tempo por aqui, deixando o
motor rodar no sinal vermelho, esperando passar para o verde. Porm, depois de 17 anos
vivendo assim,  legtimo comear a se perguntar... ser que algum algum dia vai
embora?
H muito a se aproveitar em sua companhia indolente, nas compridas tardes de domingo
passadas petiscando, bebendo champanhe e conversando sobre nada. Mesmo assim,
quando vejo uma cena dessas, sinto-me um pouco como Dorothy nos campos de papoula
de Oz. Cuidado! No adormea nesta campina narctica ou voc pode passar o resto da
vida cochilando aqui!
Mas o que vai acontecer comigo e Felipe? Agora que, ao que parece, existe um "eu e
Felipe"? No muito tempo atrs, ele me disse:
- Algumas vezes eu queria que voc fosse uma menininha perdida que eu pudesse pegar
no colo e dizer: "Venha morar comigo agora, deixe eu cuidar de voc para sempre." Mas
voc no  uma menininha perdida.  uma mulher com uma carreira, com ambio. Voc
 o perfeito caracol: carrega sua casa nas costas. Deveria se agarrar a essa liberdade pelo
mximo de tempo possvel. Mas tudo que estou dizendo : se voc quiser este brasileiro,
pode ficar com ele. Eu j sou seu.
No tenho certeza do que quero. Sei que existe uma parte de mim que sempre quis ouvir
um homem dizer: "Deixe eu cuidar de voc para sempre", e nunca ouvi isso antes de
ningum. Ao longo dos ltimos anos, desisti de procurar essa pessoa e aprendi a dizer
essa frase reconfortante para mim mesma, especialmente em momentos de medo. Mas
ouvir isso de outra pessoa agora, de algum que est falando com sinceridade...
Pensei nisso tudo na noite passada, depois que Felipe adormeceu e eu estava aninhada ao
seu lado, e me perguntei o que iria acontecer conosco. Quais so os futuros possveis? E
quanto ao problema geogrfico entre ns -- onde iramos morar? Em seguida,  preciso
considerar a diferena de idade. No entanto, quando liguei para minha me no outro dia
para lhe dizer que havia conhecido um homem muito simptico, mas -- prepare-se,
mame! -- "ele tem 52 anos", ela no deu a mnima. Tudo que disse foi:
-- Bom, tenho uma notcia para voc, Liz. Voc tem 35. - (Muito boa observao, me.
Que sorte a minha encontrar algum em uma idade to avanada.) A verdade, porm, 
que no me importo muito com a diferena de idade. Na verdade, at gosto de Felipe ser
bem mais velho. Acho isso sexy. Faz com que eu me sinta assim meio... francesa.
O que vai acontecer conosco?
Por que estou preocupada com isso, alis?
O que ainda me resta a aprender sobre a futilidade da preocupao?
Assim, depois de algum tempo, parei de pensar sobre tudo isso e simplesmente o abracei
enquanto ele dormia. Estou me apaixonando por este homem. Em seguida, adormeci ao
seu lado e tive dois sonhos memorveis.
Ambos foram com minha Guru. No primeiro sonho, minha Guru me informava que iria
fechar seus ashrams e que no daria mais palestras nem aulas, nem publicaria livros. Deu
uma ltima palestra a seus alunos, na qual disse: Vocs j receberam ensinamentos mais
do que suficientes. Receberam tudo que precisam saber para serem livres.  hora de
sarem pelo mundo e viverem uma vida feliz.
O segundo sonho foi ainda mais enftico. Eu estava jantando com Felipe em um
restaurante nova-iorquino maravilhoso. Estvamos comendo deliciosas costeletas de
cordeiro e alcachofras com um bom vinho e conversvamos e ramos, felizes. Olhei para
o outro lado da sala e vi Swamiji, mestre da minha Guru, morto em 1982. Mas naquela
noite ele estava vivo, bem ali em um restaurante nova-iorquino da moda. Jantava com um
grupo de amigos, e eles tambm pareciam estar se divertindo. Nossos olhares se cruzaram
pela sala e Swamiji sorriu para mim e ergueu seu copo de vinho em um brinde.
E ento - de forma bem distinta - esse Guru indiano baixinho, que em vida falara
pouqussimo ingls, articulou esta nica palavra para mim atravs da sala:
Aproveite.

105

Faz muito tempo que no visito Ketut Liyer. Entre minha histria com Felipe e minha
luta para encontrar uma casa para Wayan, minhas longas tardes de conversa fiada sobre
espiritualidade na varanda do xam acabaram h muito tempo. Estive na casa dele
algumas vezes, s para dizer oi e deixar algumas frutas de presente para sua mulher, mas
desde junho que no passamos nenhum tempo juntos, s os dois. Sempre que tento pedir
desculpas a Ketut por minha ausncia, porm, ele ri como um homem que j conhece as
respostas para todos os testes do universo, e diz: "Tudo funcionando perfeito, Liss."
Mesmo assim, sinto saudades do velho, ento fui passar a manh de hoje com ele. Como
sempre, ele me recebeu com um sorriso radiante, dizendo:
- Muito prazer em conhecer voc! - (Nunca consegui eliminar esse hbito dele.)
- Tambm estou feliz em ver voc, Ketut.
- J vai embora, Liss?
- Vou, Ketut. Daqui a menos de duas semanas. Foi por isso que eu quis vir aqui hoje.
Queria te agradecer por tudo que voc me deu. Se no fosse voc, eu nunca teria voltado
aqui para Bali.
-- Voc sempre estava voltando para Bali - disse ele, sem dvida nem drama. -- Ainda
medita com seus quatro irmos como eu ensinei?
-- Medito.
-- Ainda medita como sua Guru da ndia ensinou?
-- Medito.
-- No tem mais pesadelos?
-- No.
-- Est feliz agora com Deus?
-- Muito.
-- Voc ama namorado novo?
-- Acho que sim. Amo.
-- Ento precisa mimar ele. E ele precisa mimar voc.
-- T bom - prometi.
-- Voc boa amiga para mim. Melhor do que amiga. Voc como filha minha -- disse ele.
(No como Sharon...) -- Quando eu morrer, voc voltar para Bali, para minha cremao.
Cerimnia balinesa de cremao muito divertida... voc vai gostar.
-- T bom -- prometi de novo, agora com a voz embargada.
-- Deixar sua conscincia ser sua guia. Se voc ter algum amigo ocidental vir a Bali,
mandar eles aqui para eu ler a mo deles. Estou muito vazio no meu banco desde a
bomba. Quer vir comigo  cerimnia de beb hoje?
E foi assim que acabei participando da bno a um beb que havia completado 6 meses,
e agora estava pronto para tocar a terra pela primeira vez. Os balineses no deixam seus
filhos tocarem o cho durante os primeiros seis meses de vida, porque os recm-nascidos
so considerados deuses enviados diretamente do cu, e voc no deixaria um deus
engatinhar pelo cho coberto de pedaos de unhas cortadas e guimbas de cigarro. Por
isso, os bebs balineses so carregados no colo durante esses seis primeiros meses e
reverenciados como divindades menores. Caso um beb morra antes de completar 6
meses, faz-se uma cerimnia de cremao especial, e as cinzas no so depositadas em
um cemitrio humano, porque aquele ser nunca foi humano: ele foi apenas um deus. Mas,
se o beb completar 6 meses, ento organiza-se uma grande cerimnia e permite-se que
os ps da criana toquem, por fim, a terra, e o pequeno recebe as boas-vindas  raa
humana.
A cerimnia de hoje foi na casa de um dos vizinhos de Ketut. O beb em questo era uma
menina, j apelidada de Putu. Seus pais eram uma linda adolescente e um rapaz tambm
adolescente igualmente bonito, neto de um homem que  primo de Ketut, ou algo assim.
Ketut vestiu suas melhores roupas para cerimnia - um sarongue de cetim branco
(debruado de ouro) e um longo casaco branco, de mangas compridas e abotoado na
frente, com uma gola levantada, que lhe dava a aparncia de carregador de malas em uma
estao ferroviria ou em um hotel de luxo. Ele usava um turbante branco enrolado na
cabea. Suas mos, como ele me mostrou com orgulho, estavam enfeitadas como as de
um gigol, com gigantescos anis de ouro e pedras mgicas. Havia cerca de sete anis ao
todo. Todos eles com poderes sagrados. Ele segurava a reluzente sineta de bronze de seu
av, usada para conjurar espritos, e quis que eu orasse vrias fotografias suas.
Fomos juntos at a propriedade de seu vizinho, a p. Era uma distncia considervel, e
precisamos caminhar durante algum tempo pela movimentada estrada principal- J fazia
quase quatro meses que eu estava em Bali, e ainda no tinha visto Ketut sair de sua
propriedade. Era desconcertante v-lo caminhar pela estrada no meio de todos aqueles
carros em alta velocidade e motocicletas enlouquecidas. He parecia to pequeno e
vulnervel. Parecia to fora de lugar naquele contexto moderno de trfego e buzinas
barulhentas. Por algum motivo, senti vontade de chorar, mas estava mesmo me sentindo
um pouco emotiva demais hoje.
Cerca de quarenta convidados j estavam na casa do vizinho quando chegamos, e o altar
da famlia estava abarrotado de oferendas - pilhas de cestas tranadas com folhas de
palmeira e cheias de arroz, flores, incenso, porcos assados, alguns gansos e frangos
mortos, cocos e notas de dinheiro que flutuavam na brisa. Todos estavam vestidos em
suas sedas e rendas mais elegantes. Eu no estava suficientemente bem vestida, estava
suando por causa do trajeto de bicicleta e me sentia pouco  vontade com minha camiseta
em meio a toda aquela beleza. Mas fui recebida exatamente da mesma maneira que voc
gostaria de ser recebida se fosse a moa branca que houvesse aparecido com a roupa
errada e sem ter sido convidada. Todos sorriram calorosamente para mim e, em seguida,
me ignoraram e passaram  parte da festa em que todos ficam sentados admirando as
roupas uns dos outros.
A cerimnia levou horas e Ketut foi o sacerdote. Somente um antroplogo com uma
equipe de intrpretes poderia dizer exatamente tudo que ocorreu, mas alguns dos rituais
eu consegui entender, graas s explicaes de Ketut e aos livros que tinha lido. O pai
segurou o beb durante a primeira rodada de bnos, enquanto a me segurava um
objeto representando o bebe - um coco enrolado em panos para parecer uma criana
pequena. Esse coco foi abenoado e aspergido de gua benta, igualzinho ao beb de
verdade e em seguida colocado no cho, logo antes de os ps do beb tocarem-no pela
primeira vez, isso serve para enganar os demnios, que atacaro o beb de mentira e
deixaro o beb de verdade em paz.
Houve horas de cnticos, porm, antes de os ps do beb de verdade poderem tocar o
cho. Ketut no parava de tocar sua sineta e cantar seus mantras, e os jovens pais estavam
radiantes de prazer e orgulho. Convidados chegavam e saam, reunindo-se em grupos,
fofocando, assistindo  cerimnia durante algum tempo, em seguida indo embora para
outro compromisso. Tudo parecia estranhamente casual em meio  formalidade do ritual
antigo, como em uma mistura de piquenique de fundo de quintal com uma cerimnia na
igreja. Os mantras que Ketut entoava para o beb eram muito carinhosos, parecendo uma
combinao de sagrado e afetuoso. Enquanto a me segurava a criana, Ketut exibia
diante desta alimentos, frutas, flores, gua, sinos, a asa de um frango assado, um pedao
de carne de porco, um coco partido... A cada novo objeto, entoava-lhe outro cntico. O
beb ria e batia palmas, e Ketut ria e continuava cantando.
Imaginei minha prpria traduo de suas palavras:
"Ohhhh... bebezinho, aqui est um frango assado para voc comer! Algum dia voc vai
adorar frango assado e ns esperamos que voc coma bastante! Ohhhhhhh... Bebezinho,
isto  um pouco de arroz cozido, que voc tenha sempre todo o arroz cozido que desejar,
que voc tenha sempre arroz em abundncia. Ohhhhh... Bebezinho, isto aqui  um coco,
no  engraado como o coco , algum dia voc vai comer muitos cocos! Ohhhhhh...
Bebezinho, esta  a sua famlia, voc no v como a sua famlia adora voc? Ohhhhh...
Bebezinho, voc  precioso para o universo inteiro! Voc  um aluno nota dez! Voc 
nossa coisinha maravilhosa! Voc  nosso docinho de coco mais delicioso! Ooohhhhh
bebezinho, voc  o maioral, voc  o nosso tudo..."
Todos tornaram a ser abenoados vezes sem conta com ptalas de flores molhadas em
gua benta. A famlia inteira se revezou passando o beb de colo em colo, falando-lhe em
tatibitate, enquanto Ketut entoava os antigos mantras. Eles at me deixaram segurar o
beb um pouquinho, mesmo eu estando de cala jeans, e sussurrei minhas prprias
bnos para a menininha, enquanto todos cantavam:
- Boa sorte - disse-lhe eu. -- Coragem. -- Fazia um calor escaldante, mesmo na sombra.
A jovem me, usando um busti sexy por debaixo da camisa de renda cintilante,
transpirava. O jovem pai, que no parecia conhecer nenhuma outra expresso facial que
no um sorriso de imenso orgulho, tambm transpirava. As vrias avs se abanavam com
leques, cansavam-se, sentavam-se, levantavam-se, mexiam nos porcos assados das
oferendas, espantavam cachorros. Todos alternavam interesse, falta de interesse, cansao,
risos, ansiedade. Mas Ketut e o beb pareciam entretidos em sua prpria experincia
juntos, com a ateno grudada um no outro. A nenm no tirou os olhos do velho xam
durante o dia inteiro. Quem j ouviu falar em um beb de 6 meses que no chora, no faz
manha nem dorme durante quatro horas seguidas, sob um sol de rachar, mas
simplesmente olha para algum com curiosidade?
Ketut fez bem o seu trabalho, e o beb fez bem o seu trabalho. Esteve inteiramente
presente para sua cerimnia de transformao, onde passou do status de deus ao status
humano. A menina lidou maravilhosamente bem com suas responsabilidades, j como
uma boa menina balinesa - imersa em rituais, segura em suas crenas, obediente s
exigncias de sua cultura.
Ao final de todos os cnticos, a nenm foi enrolada em um comprido lenol branco limpo
que descia at bem abaixo de suas pernas, fazendo-a parecer alta e rgia -- uma
verdadeira debutante. Ketut desenhou no fundo de uma tigela de cermica os quatro
pontos cardeais do universo, encheu a tigela de gua benta, e colocou-a no cho. Essa
bssola feita a mo assinalava o ponto sagrado da terra que os ps da nenm tocariam
primeiro.
Ento a famlia inteira se reuniu em volta da nenm, todos parecendo segur-la ao mesmo
tempo, e - upa! vamos l! - mergulharam a pontinha de seus ps nessa tigela cheia de
gua benta, bem acima do desenho mgico que englobava o universo inteiro, e em
seguida encostaram as solas de seus ps na terra pela primeira vez. Quando tornaram a
suspend-la no ar, pequenas pegadas midas ficaram marcadas no cho abaixo dela,
orientando finalmente aquela criana na grande grade balinesa, estabelecendo quem ela
era ao estabelecer onde ela estava. Todos bateram palmas, encantados. A menina agora
era um de ns. Um ser humano - com todos os riscos e emoes contidas nessa intrigante
encarnao.
A nenm olhou para cima, olhou em volta sorriu. Ela no era mais um deus. No parecia
se importar com isso. No tinha medo nenhum. Parecia totalmente satisfeita com todas as
decises que havia tomado.

106

Nada feito com Wayan. A compra do terreno que Felipe havia encontrado para ela, por
algum motivo, no se concretizou, Quando pergunto a Wayan o que deu errado, recebo
uma resposta vaga sobre uma promissria perdida; acho que ela nunca me contou a
verdadeira histria. Tudo que importa  que a compra no se realizou. Estou comeando a
ficar meio em pnico em relao a toda essa situao da casa de Wayan. Tento lhe
explicar minha pressa, dizendo:
-- Wayan... preciso ir embora de Bali daqui a menos de duas semanas e voltar para os
Estados Unidos. No posso olhar na cara dos meus amigos que me deram todo este
dinheiro e dizer para eles que voc ainda no tem uma casa.
-- Mas, Liz, se um lugar no tem um bom taksu...
Todo mundo tem uma noo diferente de urgncia nesta vida.
Alguns dias depois, porm, Wayan aparece na casa de Felipe, animada. Ela encontrou
outro terreno e gostou desse de verdade. Uma enorme extenso de arrozal  beira de uma
estrada tranqila, perto da cidade. No h a menor dvida de que o taksu  bom. Wayan
nos conta que o terreno pertence a um agricultor, amigo de seu pai, que precisa
desesperadamente de dinheiro. Ele tem sete aro para vender ao todo, mas (como precisa
de dinheiro rpido) estaria disposto a lhe vender apenas os dois aro que ela tem
condies de comprar. Ela adorou o terreno. Felipe adorou o terreno. Tutti -- que
rodopia pela grama em crculos, com os braos estendidos, como uma Julie Andrews
balinesa -- tambm adorou o terreno.
-- Compre -- digo a Wayan.
Mas alguns dias passam, e ela continua remanchando.
-- Voc quer morar l ou no? - no paro de perguntar.
Ela remancha um pouco mais, depois torna a mudar a histria. Esta manh, diz ela, o
agricultor lhe telefonou para dizer que no tem mais certeza se pode lhe vender apenas o
pedao de dois aro; em vez disso, pode querer vender todos os sete aro do terreno,
intactos... o problema  a mulher dele... O agricultor precisa falar com a mulher, para lhe
perguntar se no tem problema dividir o terreno...
-- Quem sabe se eu tivesse mais dinheiro... - diz Wayan.
Meu Deus, ela quer que eu arrume dinheiro para comprar o terreno todo. Enquanto tento
inventar um jeito de arrecadar a assustadora quantia de 22 mil dlares norte-americanos
alm do que j temos, digo a ela:
Wayan, no vai dar, no tenho esse dinheiro. Voc no pode entrar em um acordo com o
agricultor?
Ento Wayan, cujos olhos no esto mais exatamente encarando os meus, inventa uma
histria complicada. Ela me diz que foi visitar um mstico outro dia, e que o mstico
entrou em transe e disse que Wayan precisa definitivamente comprar todos os sete aro do
terreno para fazer um bom centro de cura... que isso  o destino... e, de toda forma, o
mstico disse tambm que, se Wayan conseguisse o terreno todo, ento talvez um dia ela
pudesse construir um belo hotel de luxo l...
Um belo hotel de luxo?
Ah.
 ento que, de repente, fico surda, os pssaros param de cantar, e consigo ver a boca de
Wayan se mexendo, mas no a escuto mais, porque um pensamento acaba de surgir,
rabiscado com deciso na minha mente: ELA EST TE PASSANDO A PERNA,
SACOLO.
Levanto-me, despeo-me de Wayan, volto para casa a p devagar e pergunto a opinio de
Felipe, sem rodeios:
- Ela est me passando a perna?
Ele no fez nenhum comentrio sobre minha negociao com Wayan, nenhuma vez
sequer.
- Querida - diz ele com gentileza. -  claro que ela est te passando a perna.
Meu corao desaba at meus ps.
- Mas no de propsito -- acrescenta ele depressa. - Voc precisa entender o jeito de
pensar em Bali. Aqui, as pessoas esto sempre naturalmente tentando conseguir o
mximo de dinheiro possvel dos visitantes.  assim que todo mundo sobrevive. Ento,
agora ela est inventando umas histrias sobre o fazendeiro. Querida, desde quando um
balins precisa conversar com a mulher antes de fechar um negcio? Escute... o cara est
desesperado para vender um pedao do terreno para ela; ele j disse que ia vender. Mas
ela agora quer o terreno inteiro. E quer que voc compre para ela.
O que ele diz me incomoda por dois motivos. Em primeiro lugar, detesto pensar que isso
possa ser verdade em relao a Wayan. Em segundo lugar, detesto as implicaes
culturais de seu discurso, aquele rano de preconceito colonial do homem branco, o
argumento superior de que " assim que essa gente ".
Mas Felipe no  um colonialista; ele  brasileiro.
- Escute - explica ele -, eu cresci pobre na Amrica do Sul. Voc acha que no entendo a
cultura deste tipo de pobreza? Voc deu para a Wayan mais dinheiro do que ela jamais
viu na vida, e agora ela est pensando loucuras. Para ela, voc  a benfeitora milagrosa, e
esta pode ser a ltima chance de ela conseguir alguma coisa. Ento ela quer conseguir
tudo que puder antes de voc ir embora. Pelo amor de Deus... quatro meses atrs, essa
pobre mulher no tinha dinheiro suficiente para comprar o almoo da filha, e agora ela
quer um hotel?
-- O que devo fazer?
-- Acontea o que acontecer, no fique com raiva. Se ficar com raiva, vai perd-la, e isso
seria uma pena, porque ela  uma pessoa maravilhosa e ama voc. Essa  a ttica de
sobrevivncia dela, voc s precisa aceitar isso. No deve pensar que ela no  uma boa
pessoa ou que ela e as crianas no precisam de verdade da sua ajuda. Mas no pode
deix-la tirar vantagem de voc. Querida, j vi fazerem isso tantas vezes. O que acontece
com os ocidentais que passam muito tempo morando aqui  que eles geralmente acabam
caindo em uma de duas categorias. Metade deles continua bancando o turista, dizendo:
"Ah, esses balineses so um amor, to gentis, to graciosos...", e so roubados
loucamente. A outra metade fica to frustrada com o fato de ser roubada o tempo inteiro
que comea a odiar os balineses. E  uma pena, porque da voc perde todos esses amigos
maravilhosos.
-- Mas o que eu fao ento?
-- Voc precisa recuperar um pouco o controle da situao. Faa alguma espcie de jogo
com ela, como ela est fazendo com voc. Ameace-a com alguma coisa para fazer com
que ela reaja. Voc vai estar fazendo um favor a ela; ela precisa de uma casa.
-- No quero fazer joguinhos, Felipe.
Ele beijou minha cabea.
-- Ento voc no pode morar em Bali, querida.
Na manh seguinte, bolei meu plano. No consigo acreditar - aqui estou eu, depois de um
ano estudando virtudes e lutando para encontrar uma vida verdadeira para mim mesma,
prestes a contar uma baita mentira. Estou prestes a mentir para a pessoa de quem mais
gosto em Bali, para algum que  como uma irm para mim, para algum que limpou
meus rins. Pelo amor de Deus, vou mentir para a me de Tutti!
Chego  cidade, entro na loja de Wayan. Ela vem me dar um abrao. Afasto-me, fingindo
estar chateada.
-- Wayan -- comeo. -- A gente precisa conversar. Estou com um problema srio.
-- Com o Felipe?
-- No. Com voc.
Ela parece que vai desmaiar.
- Wayan -- digo. -- Meus amigos americanos esto muito chateados com voc.
- Comigo? Por qu, meu bem?
- Porque, quatro meses atrs, eles te deram um dinheiro para voc comprar uma casa, e
voc ainda no comprou uma casa. Todos os dias eles me mandam e-mails perguntando:
"Cad a casa da Wayan? Cad o meu dinheiro? Agora eles acham que voc est
roubando o dinheiro deles e usando para outra coisa.
- Eu no estou roubando!
- Wayan - digo. - Os meus amigos americanos acham que voc ... uma cascateira.
Ela solta um arquejo como se tivesse acabado de levar um soco na garganta. Parece to
magoada que, por um instante, hesito, e quase a envolvo em um abrao reconfortante
dizendo: "No, no, no  verdade! Estou inventando isso!" Mas no, preciso terminar o
que comecei. Mas meu Deus, ela agora est mesmo abalada. O termo em ingls bullshit,
que significa algo como cascateira,  a palavra que se incorporou emocionalmente ao
balins mais do que qualquer outra da lngua inglesa.  um dos piores insultos que voc
pode fazer a algum em Bali - "cascateiro". Nesta cultura, em que as pessoas contam
mentiras uma para as outras cerca de uma dzia de vezes antes do caf-da-manh, onde
mentir  um esporte, uma arte, um hbito e uma ttica desesperada de sobrevivncia, de
fato chamar algum de cascateiro  uma afirmao terrvel. E algo que, na Europa antiga,
teria garantido um duelo.
- Meu bem -- diz ela, com os olhos lacrimejando -, eu no sou cascateira!
- Eu sei disso, Wayan.  por isso que estou to chateada. Estou tentando dizer aos meus
amigos americanos que Wayan no  cascateira, mas eles no acreditam em mim.
Ela coloca a mo em cima da minha.
- Desculpe pr voc nessa situao, meu bem.
- Wayan,  uma situao muito sria. Meus amigos esto com raiva. Eles dizem que voc
precisa comprar um terreno antes de eu voltar para os Estados Unidos. Me disseram que,
se voc no comprar algum terreno na semana que vem, eu tenho de... pegar o dinheiro
de volta.
Agora ela no parece que vai desmaiar; parece que vai morrer. Sinto-me quase a pior
pessoa da histria, contando essa lorota a essa pobre mulher que - entre outras coisas -
obviamente no percebe que no tenho mais o poder de tirar o dinheiro de sua conta
bancria, da mesma forma que no tenho poder para revogar sua cidadania indonsia.
Mas como ela poderia saber isso. Fiz o dinheiro aparecer na sua conta como um passe de
mgica, no fiz? Ser que no poderia, com a mesma facilidade, peg-lo de volta?
- Meu bem - diz ela -, acredite em mim, vou encontrar o terreno agora, no se preocupe,
vou encontrar o terreno bem rpido. Por favor, no se preocupe... talvez dentro dos
prximos trs dias isso v estar terminado, eu prometo.
- Voc precisa fazer isso, Wayan -- digo, com uma gravidade que no  de todo fingida.
O fato  que ela realmente precisa. Suas filhas precisam de um lar. Ela est prestes a ser
despejada. No  hora de contar mentiras.
- Vou voltar para a casa do Felipe agora - digo. - Me ligue quando tiver comprado alguma
coisa.
Ento deixo minha amiga, consciente de que ela est me olhando, mas recusando-me a
me virar para olhar para ela. Durante todo o trajeto at em casa, ofereo a Deus a mais
estranha das preces: "Por favor, faa com que ela estivesse mesmo mentindo para mim."
Porque, se ela no estava mentindo, se no est conseguindo mesmo encontrar um lugar
para morar apesar de uma injeo de dinheiro de 18 mil dlares, ento estamos realmente
encrencadas, e no sei como essa mulher um dia vai conseguir escapar da pobreza. Mas,
se ela estava mentindo para mim, ento, de certa forma, isso  um raio de esperana.
Mostra que ela  astuta e que, no final das contas, talvez consiga se safar neste mundo
traioeiro.
Chego em casa sentindo-me pssima e encontro Felipe.
-- Se ao menos Wayan soubesse o que tramei pelas suas costas... -- digo.
-- ... para a felicidade e o sucesso dela -- diz ele, terminando a frase para mim.
Quatro horas depois -- quatro mseras horas! -- toca o telefone na casa de Felipe. E
Wayan. Ela est sem flego. Quer que eu saiba que o trabalho est feito. Ela acaba de
comprar os dois aro do agricultor (cuja "mulher" subitamente pareceu no se importar em
dividir a propriedade). No final das contas, no foi preciso nenhum sonho mgico, nem a
interveno de nenhum sacerdote, nem testes de nvel de radiao de taksu. Wayan j est
at com a escritura em mos. E certificada pelo cartrio! Ela tambm me garante que j
encomendou material de construo para sua casa e que os operrios vo comear a
construir no incio da semana que vem - antes de eu ir embora. Assim, poderei ver o
projeto comeado. Ela espera que eu no esteja brava com ela. Quer que eu saiba que me
ama mais do que ama o prprio corpo, mais do que ama a prpria vida, mais do que ama
este mundo inteiro.
Digo a ela que a amo tambm. E que mal posso esperar para algum dia ser sua hspede
em sua linda casa nova. E que gostaria que ela me desse uma xerox da escritura.
Quando desligo o telefone, Felipe diz:
-- Boa menina.
No sei se ele est se referindo a ela ou a mim. Mas ele abre uma garrafa de vinho e
fazemos um brinde a nossa querida amiga Wayan, a proprietria de terras balinesa.
Ento Felipe diz:
- Agora, ser que a gente pode sair de frias?

107

Acabamos saindo de frias para uma ilhazinha chamada Gili Meno, que fica prxima ao
litoral de Lombok, a parada seguinte, depois de Bali, no grande e extenso arquiplago
indonsio. Eu j conhecia Gili Meno e queria mostr-la a Felipe, que nunca estivera l.
A ilha de Gili Meno  um dos lugares mais importantes do mundo para mim. Estive aqui
sozinha, dois anos atrs, quando visitei Bali pela primeira vez. Estava trabalhando para
aquela revista, escrevendo sobre frias para praticar ioga, e acabara de passar por duas
semanas de aulas de ioga tremendamente reparadoras. Mas havia decidido prolongar
minha estadia na Indonsia depois de concludo o trabalho, uma vez que j tinha viajado
at a sia. Na verdade, o que eu queria fazer era encontrar algum lugar bem isolado para
fazer um retiro de dez dias de solido e silncio absolutos.
Quando olho para os quatro anos que passaram desde o incio do fim do meu casamento
at o dia em que finalmente tornei-me divorciada e livre, vejo uma crnica detalhada de
dor total. E o momento em que visitei essa pequena ilha completamente sozinha foi o pior
ponto dessa viagem. Foi o ponto mais fundo da dor e o seu centro exato. Minha mente
infeliz era um campo de batalha de demnios conflitantes. Ao tomar minha deciso de
passar dez dias sozinha e em silncio no meio de lugar nenhum, eu disse a mesma coisa a
todas as minhas partes beligerantes e confusas: "Estamos todos juntos agora, pessoal. E
vamos ter de chegar a algum acordo sobre como conviver, seno todo mundo vai morrer
junto, mais cedo ou mais tarde."
Isso pode parecer uma afirmao firme e confiante, mas preciso admitir tambm que
nunca senti mais medo na vida do que quando peguei um barco para aquela ilha tranqila,
completamente sozinha. Eu sequer havia comprado livros para ler, no tinha nada para
me distrair. ramos s eu e minha mente, prestes a nos enfrentarmos em um campo de
batalha vazio. Lembro-me que minhas pernas tremiam visivelmente de medo. Ento citei
para mim mesma uma das frases de que mais gosto da minha Guru: "Medo... e da?", e
desembarquei sozinha.
Aluguei um pequeno bangal na praia por alguns dlares por dia, fechei a boca e jurei
no tornar a abri-la at que alguma coisa dentro de mim houvesse mudado. A ilha de Gili
Meno era minha ltima chance para a verdade e a reconciliao. Eu havia escolhido o
lugar certo -- pelo menos isso estava claro. A ilha em si  minscula, intocada, cheia de
areia, gua azul, palmeiras.  um crculo perfeito, com um nico caminho que d a volta
na ilha, e  possvel percorrer toda a circunferncia em mais ou menos uma hora. A ilha
fica quase exatamente em cima do equador, ento os ciclos dos dias no mudam. O sol
surge em um dos lados da ilha mais ou menos s seis e meia da manh e se pe do outro
lado mais ou menos s seis e meia da tarde, todos os dias do ano. O lugar  habitado por
alguns pescadores muulmanos e suas famlias. No h um s lugar nesta ilha de onde
no se possa ver o mar. A eletricidade vem de um gerador e s durante algumas horas por
noite.  o lugar mais silencioso em que j estive.
Todas as manhs, eu percorria a circunferncia da ilha na hora do nascer do sol e fazia
isso de novo quando o sol se punha. Durante o resto do tempo, simplesmente ficava
sentada e observava. Observava meus prprios pensamentos, observava minhas emoes,
observava os pescadores. Os sbios iogues dizem que a dor da vida humana  causada
pelas palavras, assim como toda a alegria. Ns criamos palavras para definir nossa
experincia, e essas palavras trazem consigo emoes que nos sacodem como ces em
uma coleira. Ns somos seduzidos por nossos prprios mantras (Eu sou um fracasso...
Estou s... Sou um fracasso.,. Estou s...), e nos transformamos em monumentos a esses
mantras. Passar algum tempo sem falar, portanto,  uma tentativa de se desvencilhar do
poder das palavras, de parar de nos asfixiar com as palavras, de nos libertar de nossos
mantras sufocantes.
Precisei de algum tempo para alcanar verdadeiro silncio. Mesmo depois de parar de
falar, descobri que a linguagem ainda ecoava dentro de mim. Meus rgos e msculos da
fala - crebro, garganta, peito, nuca - vibravam com os efeitos residuais de falar muito
depois de eu ter parado de emitir sons. Minha cabea era sacudida pelo eco das palavras
como uma piscina fechada parece estar sempre reverberando com sons e gritos, mesmo
depois de as crianas pequenas terem ido embora. Foi preciso um tempo
surpreendentemente longo para toda essa pulsao de fala desaparecer, para os rudos
agitados se assentarem. Trs dias, talvez.
Ento tudo comeou a aparecer. Naquele estado de silncio, havia lugar para tudo que
existia de odioso, de temeroso, percorrer minha mente vazia. Eu me sentia uma viciada
em processo de desintoxicao, convulsionada pelo veneno do que ia brotando. Chorava
muito. Rezava muito. Foi difcil e aterrorizante, mas uma coisa eu sabia: nunca desejei
no estar ali, e nunca desejei que algum estivesse ali comigo. Sabia que precisava fazer
aquilo, e que precisava fazer aquilo sozinha.
Os nicos outros turistas na ilha eram uns poucos casais passando frias romnticas. (Gili
Meno  um lugar bonito demais e distante demais para qualquer pessoa visitar sozinha, a
no ser que seja maluca.) Eu olhava para aqueles casais e sentia um pouco de inveja
daquele clima de romance, mas sabia: "Essa no  a sua hora para estar com algum, Liz.
A sua tarefa aqui  outra." Mantive distncia de todos. As pessoas na ilha me deixaram
em paz. Acho que eu irradiava um astral ruim. No estivera bem o ano inteiro. No 
possvel passar tantas noites sem dormir, perder tanto peso assim e chorar tanto durante
tanto tempo sem comear a parecer louca. Ento, ningum falava comigo.
Na verdade, no foi bem assim. Uma pessoa falava comigo, todos os dias. Era um
menininho, que fazia parte de um grupo de moleques que corria pelas praias tentando
vender frutas frescas aos turistas. Esse menino devia ter uns 9 anos de idade e parecia ser
o chefe do grupo. Era duro, briguento, e eu o teria chamado de rato de asfalto, se aquela
ilha tivesse algum asfalto. De certa forma, era um rato de praia. Conseguira aprender
ingls de algum jeito, provavelmente importunando ocidentais, enquanto estes tomavam
sol. E esse menino se interessou por mim. Ningum mais me perguntou quem eu era,
ningum mais me incomodou, mas esse menino insistente vinha se sentar ao meu lado na
praia em algum momento todos os dias e perguntava: "Por que voc nunca fala? Por que
 estranha assim? Por que est sempre sozinha? Por que nunca entra no mar? Cad o seu
namorado? Por que voc no tem marido? Qual o problema com voc?"
E eu estava tipo assim: Sai pra l, menino! O que voc , uma encarnao dos meus
piores pensamentos?
Todos os dias eu tentava sorrir para ele com gentileza e mand-lo embora com um gesto
educado, mas ele no desistia antes de me fazer reagir. E, inevitavelmente, sempre me
fazia reagir. Lembro-me de perder a pacincia com ele uma vez:
- Eu no estou falando porque estou numa porcaria de viagem espiritual, seu moleque
chato... agora v EMBORA!
Ele saa correndo, rindo. Todos os dias, depois de me fazer reagir, ele sempre saa
correndo rindo. Em geral, eu acabava rindo tambm, depois que ele j estava longe. Eu,
ao mesmo tempo, tinha medo e ansiava pela chegada daquele menino chato. Ele era meu
nico intervalo cmico durante uma viagem muito difcil. Santo Antnio, certa vez,
escreveu sobre quando foi para o deserto fazer um retiro de silncio e foi acometido por
todo tipo de viso - tanto demnios quanto anjos. Disse que, em sua solido, algumas
vezes encontrou demnios que pareciam anjos, e outras vezes encontrou anjos que
pareciam demnios. Quando lhe perguntaram como ele sabia a diferena, o santo
respondeu que s se pode dizer quem  quem com base na sensao que se tem depois
que a criatura for embora. Se voc ficar arrasado, disse ele, ento foi um demnio que
veio visit-lo. Se voc se sentir mais leve, foi um anjo.
Acho que sei qual das duas coisas era aquele moleque que sempre me fazia rir.
No meu nono dia de silncio, fui meditar certa tarde na praia na hora em que o sol estava
se pondo e s tornei a me levantar depois da meia-noite. Lembro-me de pensar: " isso
a, Liz." Disse  minha mente: "Esta  a sua oportunidade. Mostre-me tudo que a est
deixando triste. Mostre-me tudinho. No esquea nada." Um por um, os pensamentos e
recordaes de tristeza ergueram a mo e se levantaram, identificando-se. Eu olhava para
cada pensamento, para cada unidade de tristeza, reconhecia sua existncia e sentia (sem
tentar me proteger daquilo) sua terrvel dor. Ento dizia quela tristeza: "Tudo bem, eu te
amo. Eu te aceito. Agora entre no meu corao. Acabou." Eu realmente sentia a tristeza
(como se ela fosse uma coisa viva) entrar no meu corao (como se este fosse um
aposento de verdade). Ento dizia: "Quem  o prximo?", e o pedacinho seguinte de dor
surgia. Eu o reconhecia, vivenciava-o, abenoava-o e convidava-o a entrar tambm no
meu corao. Fiz isso com cada pensamento triste que j havia tido - recorrendo a anos
de memria - at no sobrar mais nada.
Ento eu disse  minha mente: "Agora mostre sua raiva para mim. Um por um, todos os
incidentes de raiva da minha vida foram surgindo e se apresentando. Todas as injustias,
todas as traies, todas as perdas, todas as zangas. Eu olhava para todas elas, uma por
uma, e reconhecia sua existncia. Sentia cada pedacinho de dor de forma completa, como
se estivesse acontecendo pela primeira vez, e ento dizia: "Agora entre no meu corao.
L voc vai poder descansar. Agora est tudo bem. Acabou. Eu te amo." Isso durou
horas, e eu oscilava entre dois poderosos plos de sentimentos contrrios -- durante um
instante de tremenda intensidade, vivenciava a raiva e, em seguida, era acometida por
uma calma total,  medida que a raiva entrava no meu corao como se passasse por uma
porta, deitava-se, enroscava-se junto a suas irms e desistia de lutar.
Ento veio a parte mais difcil. "Mostre para mim a sua vergonha", pedi  minha mente.
Meu Deus, que horrores eu vi ento. Um desfile lamentvel de todas as minhas falhas,
minhas mentiras, meu egosmo, meu cime, minha arrogncia. Mas no desviei os olhos
de nada disso. "Mostre para mim o seu pior", falei. Quando tentei convidar essas
unidades de vergonha para entrar no meu corao, todas elas hesitaram diante da porta,
dizendo: "No, voc no quer que eu entre a... ento no sabe o que eu fiz?", e eu dizia:
"Eu quero voc, sim. At voc. Quero mesmo. At voc  bem-vinda aqui. Est tudo
bem. Voc est perdoada. Voc faz parte de mim. Pode descansar agora. Acabou."
Quando tudo isso terminou, eu estava vazia. Nada mais lutava em minha mente. Olhei
para dentro do meu corao, para minha prpria bondade, e vi sua capacidade. Vi que
meu corao no estava cheio nem at a metade, nem mesmo depois de ter acolhido e
cuidado de todas aquelas espinhosas calamidades de tristeza, raiva e vergonha; meu
corao poderia facilmente ter acolhido e perdoado ainda mais. Seu amor era infinito.
Percebi ento como Deus ama todos ns e recebe todos ns, e que no existe no universo
nem cu nem inferno, a no ser, talvez, em nossas mentes aterrorizadas. Porque se um
nico ser humano que fosse, ferido e limitado, podia vivenciar apenas um episdio assim
de perdo e aceitao absolutos de seu prprio ser, ento imaginem -- apenas imaginem!
-- o que Deus, em Sua eterna compaixo,  capaz de perdoar e aceitar.
Tambm percebi, de alguma forma, que aquela trgua de paz seria temporria. Sabia que
ainda no havia terminado para valer, que minha raiva, minha tristeza e minha vergonha
voltariam rastejando em algum momento, escapariam do meu corao e tornariam a
ocupar minha cabea. Sabia que precisaria continuar lidando com esses pensamentos
muitas outras vezes, at que, de forma lenta e determinada, eu modificasse a minha
prpria vida. E que fazer isso seria difcil e exaustivo. Porm, no silncio escuro daquela
praia, meu corao disse para minha mente: "Eu te amo, eu nunca vou te deixar, eu vou
sempre cuidar de voc." Essa promessa saiu flutuando do meu corao, e eu a agarrei
com a boca e a retive ali, sentindo seu gosto, enquanto saa da praia e caminhava de volta
para o pequeno bangal onde estava hospedada. Encontrei um caderno em branco, abri-o
na primeira pgina - e s ento abri a boca e pronunciei aquelas palavras no ar,
libertando-as. Deixei que aquelas palavras rompessem o meu silncio, e ento permiti que
meu lpis documentasse sua colossal afirmao sobre o papel:
"Eu te amo, eu nunca vou te deixar, eu vou sempre cuidar de voc."
Essas foram as primeiras palavras que escrevi naquele meu caderno particular, que
carregaria comigo a partir de ento, voltando a ele muitas vezes no decorrer dos dois anos
seguintes, sempre para pedir ajuda - e sempre encontrando-a, mesmo nas horas em que
estava mais profundamente triste ou assustada. E aquele caderno, impregnado com aquela
promessa de amor, foi pura e simplesmente a nica razo que me fez sobreviver aos anos
seguintes da minha vida.

108
E agora estou voltando a Gili Meno em circunstncias totalmente diferentes. Desde a
ltima vez em que estive aqui, dei a volta no mundo, resolvi meu divrcio, sobrevivi 
minha separao definitiva de David, retirei do meu sistema todos os remdios que
alteram o humor, aprendi a falar outra lngua, sentei na palma da mo de Deus durante
alguns instantes inesquecveis na ndia, estudei com um xam indonsio e comprei uma
casa para uma famlia que precisava demais de um lugar para morar. Estou feliz, saudvel
e equilibrada. E, sim, no posso deixar de notar que estou a caminho dessa linda ilhazinha
tropical na companhia do meu namorado brasileiro. Isso - eu reconheo! --  um final de
conto de fadas quase ridculo para esta histria, que parece ter sido tirado do sonho de
alguma dona de casa. (Talvez at do meu prprio sonho, de anos atrs.) Porm, o que me
impede de agora me deixar levar por um clima completo de conto de fadas  a seguinte e
slida verdade, uma verdade que realmente se entranhou nos meus ossos ao longo dos
ltimos anos: eu no fui resgatada por um prncipe; eu administrei o meu prprio resgate.
Lembro-me de algo que li certa vez, algo em que os zen-budistas acreditam. Eles dizem
que um carvalho  criado por duas foras ao mesmo tempo. Evidentemente, h a pinha
onde tudo comea, a semente que contm toda a promessa e o potencial e que se
transforma na rvore. Todo mundo pode ver isso. Mas so poucos os que conseguem
reconhecer que existe outra fora em ao a tambm - a futura rvore em si, que quer
tanto existir que faz a pinha nascer, usando seu desejo para fazer a semente brotar do
nada, guiando a evoluo da inexistncia  maturidade. Pensando assim, dizem os zen-
budistas,  o carvalho que cria a pinha da qual ele prprio nasceu.
Penso na mulher em que me transformei recentemente, na vida que estou vivendo agora,
e em quanto eu sempre quis ser esta pessoa e viver esta vida, liberta de toda a farsa de
fingir ser qualquer outra pessoa que no eu mesma. Penso em tudo que suportei antes de
chegar aqui, e pergunto-me se fui eu - quero dizer, esse eu feliz e equilibrado, que agora
cochila no convs de um barco pesqueiro indonsio - quem empurrou para a frente o meu
outro eu, mais jovem, mais confuso e com mais dificuldade, durante todos estes anos
difceis. O eu mais jovem era a semente, cheia de potencial, mas foi o eu mais velho, o
carvalho que j existia, que passou o tempo inteiro dizendo: "Isso... cresa! Mude!
Evolua! Venha me encontrar aqui, onde eu j existo inteiro e maduro! Preciso que voc
cresa dentro de mim!" E talvez tenha sido esse eu atual e totalmente atualizado que
passou quatro anos pairando sobre aquela moa casada soluante no cho do banheiro, e
talvez tenha sido esse eu que sussurrou amorosamente no ouvido daquela moa
desesperada: "Volte para a cama, Liz..." J sabendo que tudo ficaria bem, que tudo, no
final, nos faria nos encontrar aqui. Bem aqui, bem neste momento. Onde eu sempre estive
esperando, em paz e contente, sempre esperando ela chegar e se juntar a mim.
Ento Felipe acorda. Ambos passamos a tarde inteira cochilando e tornando a despertar,
encolhidos no colo um do outro no convs desse veleiro de pesca indonsio. O oceano
nos embalava, o sol brilhava. Enquanto estou deitada ali, com a cabea apoiada em seu
peito, Felipe me diz que teve uma idia enquanto dormia.
- Sabe - diz ele -,  bvio que preciso continuar morando em Bali, porque meu trabalho
est aqui, e porque  perto da Austrlia, onde meus filhos moram. Tambm preciso ir
sempre ao Brasil, porque  l que esto as pedras preciosas e porque tenho famlia l. E
voc, obviamente, precisa estar nos Estados Unidos, porque  l que est o seu trabalho, a
sua famlia e os seus amigos. Ento eu estava pensando... talvez a gente pudesse tentar
construir uma vida juntos que fosse de alguma forma dividida entre os Estados Unidos, a
Austrlia, o Brasil e Bali.
Tudo que consigo fazer  rir, porque, ora - por que no? Talvez isso seja maluco o
bastante para funcionar. Uma vida assim pode parecer totalmente impossvel para
algumas pessoas, uma loucura total, mas ela combina muito comigo.  claro que  isso
que devemos fazer. Sinto que j  muito familiar E devo dizer que tambm gosto bastante
da poesia dessa idia. Estou dizendo isso de maneira literal. Depois deste ano inteiro
explorando meus eus individuais e intrpidos, Felipe acaba de me sugerir uma teoria da
viagem inteiramente nova:
Austrlia, Amrica, Bali, Brasil = A, A, B, B.
Como um poema clssico, como duas pequenas estrofes em rima.
O barquinho pesqueiro ancora bem prximo  costa de Gili Meno. No h per nesta ilha.
Voc precisa arregaar as calas, saltar do barco e atravessar voc mesmo a arrebentao.
No h nenhum outro jeito de fazer isso sem ficar completamente encharcado ou at se
machucar nos corais, mas todo esse trabalho vale a pena, porque a praia aqui  linda,
especial. Ento eu e meu namorado tiramos os sapatos, empilhamos as pequenas bolsas
com nossas coisas em cima de nossas cabeas e nos preparamos para pular pela lateral do
barco juntos, para dentro do mar.
Sabe, tem uma coisa engraada. A nica lngua romnica que Felipe no fala  italiano.
Mas, mesmo assim, digo uma coisa a ele, quando estamos prestes a saltar.
-- Attraversiamo -- digo.
Vamos atravessar.

Reconhecimento e tranqilizao final

Alguns meses depois de eu ir embora da Indonsia, voltei para visitar meus amigos e para
comemorar o feriado do Natal e ano-novo. Meu vo aterrissou em Bali apenas duas horas
depois de o sudeste da sia ser atingido por um tsunami de propores avassaladoras
Conhecidos de todas as partes do mundo entraram imediatamente em contato comigo,
preocupados com a segurana de meus amigos indonsios. As pessoas pareciam
particularmente preocupadas com o seguinte: "Wayan e Tutti esto bem?" A resposta 
que o tsunami no atingiu Bali em nenhum nvel (a no ser,  claro, emocionalmente), e
encontrei todos sos e salvos. Felipe estava me esperando no aeroporto (na primeira das
muitas vezes em que iramos nos encontrar em aeroportos). Ketut Liyer estava sentado na
sua varanda, igualzinho, preparando remdios e meditaes. Yudhi comeara
recentemente a tocar violo em um resort de luxo da regio, e estava bem. E a famlia de
Wayan estava morando feliz em sua linda casa nova, bem longe do perigoso litoral,
abrigada bem no alto dos terraos de arrozais de Ubud.
Com toda a gratido de que sou capaz (e em nome de Wayan), eu gostaria agora de
agradecer a todos que contriburam com dinheiro para comprar essa casa:
Sakshi Andreozzi, Savitri Axelrod, Linda e Renee Barrera, Lisa Boone, Susan Bowen,
Gary Brenner, Monica Burke e Karen Kudej, Sandie Carpenter, David Cashion, Anne
Connell (que, junto com Jana Eisenberg, tambm  mestre em resgates de ltima hora),
Mike e Mimi de Gruy, Armenia de Oliveira, Rayya Elias e Gigi Madl, Susan Freddie,
Devin Friedman, Dwight Garner e Cree LeFavour, John e Carole Gilbert, Mamie Healey,
Annie Hubbard e o quase inacreditvel Harvey Schwartz, Bob Hughes, Susan Kittenplan,
Michael e Jill Knight, Brian e Linda Knopp, Deborah Lopez, Deborah Luepnitz, Craig
Marks e Rene Steinke, Adam McKay e Shira Piven, Jonny e Cat Miles, Sheryl Moller,
John Morse e Ross Petersen, James e Catherine Murdock (com as bnos de Nick e
Mimi), Jos Nunes, Anne Pagliarulo, Charley Patton, Laura Platter, Peter Richmond,
Toby e Beverly Robinson, Nina Bernstein Simmons, Stefania Somare, Natalie
Standiford, Stacey Steers, Darcey Steinke, as meninas Thoreson (Nancy, Laura e miss
Rebecca), Daphne Uviller, Richard Vogt, Peter e Jean Warrington, Kristen Weiner, Scott
Westerfeld e Justine Larbalestier, Bill Yee e Karen Zimet.
Finalmente, e mudando de assunto, gostaria de poder encontrar uma maneira de
agradecer a meus queridos tio Terry e tia Deborah, por toda a ajuda que eles me deram
durante este ano de viagens. Chamar isso apenas de "apoio tcnico"  minimizar a
importncia de sua contribuio. Juntos eles formaram uma rede debaixo da minha corda
bamba sem a qual -- pura e simplesmente -- eu no teria conseguido escrever este livro.
No sei como lhes retribuir.
No final das contas, porm, talvez todos devamos parar de tentar retribuir s pessoas
deste mundo que apiam nossas vidas. No final das contas, talvez seja mais sbio se
render  milagrosa abrangncia da generosidade humana e simplesmente continuar
dizendo obrigada, para sempre e com sinceridade, enquanto tivermos voz.


                                         FIM


   Crditos: http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=34725232
